CIA

Sobre ascender uma lareira.

3. Vendo Res fazer isso, percebi a carência que existe em mim em me relacionar com o mundo prático, e que o pouquinho que já avanço nesse espaço, já é gigantesco — mas a questão é que ainda há muito espaço para ser explorado, há não só o relacionar-se com o mundo prático, mas também há poder de fato ter uma experiência, de fato se transformar mesmo na própria coisa acontecendo, há ainda o espaço proibido não por uma classe social ou um gênero, mas o espaço da relação proibido pelo próprio corpo, pelo próprio sintoma, pela carência, pela expiação, pela sanidade, pela energia colocada no lugar errado. Ao ver RÉS jogando todo saco de lenha no fogo, eu o vi manobrando uma ira que poderia facilmente estar sendo colocada em inúmeros lugares e por isso estaria fazendo um estrago muito grande. De fato, diante de mim estava acontecendo a uma experiência estética, estava vendo um homem em acontecimento, em acontecimento de si mesmo. Ele era aquele fogo queimando!

4. Há uma carência muito grande ainda da minha parte em querer me relacionar com o mundo, e por isso, ao consumá-la nessas tarefas práticas como fazer um pão ou acender uma lareira, acabo por me seduzir em pensar que pode parar aí - quando na verdade esse é só o começo. Veja, aqui não estou desmerecendo as tarefas práticas, muito pelo contrário ! Estou pontuando a importância de se relacionar com o mundo para poder caminhar em direção a enfim se relacionar de fato com a vida que está dentro de nós. Se relacionar com o mundo é grandioso ! Mas percebi que podemos ir ainda muito mais longe nessa vida - e que há muito chão para ser trilhado ! Percebi que há muito ainda para ser feito ! Percebi o quão atrofiados nos transformou a nossa educação !

5. A questão de se envolver com coisas práticas não é o que de fato converte totalmente uma coisa em outra, mas é um recurso, é uma ferramenta em direção ao que não é permitido para nós, é uma chave de fenda para poder desrosquear um parafuso enferrujado ontológico da nossa espécie, de sermos espectadores dessa vida, o parafuso que está nos travando de poder um dia não viver a vida, mas ser a vida que nos atravessa.

Viagem Campos do Jordão -

Anna Israel

20 de junho de 2020

 

1. Cena que me marcou muito, muito mesmo, foi na noite de sexta em que RES me pediu para que acendesse a lareira. Enquanto ele cozinhava uma de suas sopas-ascese, eu fui tentando fazer aquele fogo engatar, entendendo como estruturar a lenha, onde e o porquê de utilizar os galhos secos, e também perceber como usar um papel, como jornal pode ser útil já que o fogo o consome com muita rapidez e facilidade. Entendi uma espécie de lógica de acender uma lareira, e em muito pouco tempo, o fogo engatou com força, e então, ela estava acesa - agora só restava a alimentar de tempos em tempos com mais lenha para mantê-la pegando. Me senti muito feliz por ter conseguido realizar essa tarefa prática. Me senti fazendo parte do mundo, de certa forma. E é um sentimento parecido com quando eu cozinho, na maioria das vezes. Quando decido fazer uma carne diferente e ela fica muito gostosa e suculenta, ou quando eu faço um pão e ele cresce e fica macio e eu fico feliz em dar para os outros comerem. É interessante o sentimento de fazer algo, de se envolver com o mundo, com a matéria, e ela responder positivamente. É interessante isso de entender tecnicamente como algo funciona e poder operar esse algo. É fascinante mesmo se sentir dialogando com a matéria, se sentir de alguma forma parte da natureza, integrante ou mais uma operária do funcionamento das coisas vivas. É muito triste como esse tipo de coisa, de fazer, foi retirado das coisas fundamentais que nos mantêm vivos, é muito triste como não faz parte do ensinamento básico de uma criança fazer coisas que as vinculam imediatamente ao mundo real — pelo menos não na minha classe social. Hoje com trinta anos, me sinto muito alienada do mundo prático, e por mundo prático eu quero dizer do mundo vivo, do mundo real, da natureza, me sinto muito espectadora do mundo e com muitos dedos ao encostar nele, ou pelo contrário, arrogante ao abordá-lo, o subestimando; me sinto geralmente distante de poder dialogar e contribuir para o funcionamento das coisas. E a sensação de, por exemplo, fazer o fogo pegar em uma lareira, é realmente um modo onde me percebo saindo desse lugar terrível de espectadora, da que contempla, para o lugar da que dialoga, da que faz parte daquilo. Sem dúvida, uma das coisas mais importantes que precisamos resgatar é essa de conseguir sair da posição de espectador da vida, isto é, se envolver praticamente com o mundo, se envolver fisicamente com as tarefas, com coisinhas pequenas que sustentam o dia a dia, com coisinhas pequenas que sustentam o cotidiano. Acho mesmo que pode ser um divisor de águas na vida de um sujeito. Pelo menos, tenho certeza que sempre é um divisor de águas no meu dia.

2. Há porém, uma questão que ainda vai além disso. Realmente essa questão é o que eu acredito ser um dos divisores de água entre um ser humano comum e um artista. Estou aqui considerando que o artista não é o cara que faz “obras de arte”, mas o artista enquanto uma outra espécie de homem - o artista enquanto o modo como um ser humano conseguiu construir psiquicamente a fúria em se relacionar com a vida, a fúria em existir, a fúria em ser. Há no poema “poema para Shiva: arrebentação” de Rés, uma frase que diz: “nada do que me é permitido me interessa mais”. Fazer um fogo pegar numa lareira para esquentar a casa, ou assar um pão e ele subir e ficar macio, por mais que não seja necessariamente “permitido” para uma classe e situação social e de gênero, são coisas que enquanto espécie nos foram permitidas nessa existência - sair da posição de espectador e de fato dialogar com a matéria. Mas ontem, depois que o fogo já estava queimando a lenha, e a casa já estava bem quentinha, contemplávamos em silêncio, RES e eu, o fogo, sentados à sua frente em um sofá - e de súbito RES se levantou, e começou a alimentar o fogo, colocou uma, duas, três, quatro, cinco, e não parava mais de colocar lenha naquele pequeno espaço da lareira, até que ele quase entupiu o vão com todas as lenhas que sobraram. O fogo de repente tomou outra proporção, a chama ficou imensa, intensa, e agora fazia barulhos que antes não éramos capazes de ouvir. Aquilo deixou de ser uma lareira que aquecia a casa, aquilo deixou de ser uma lareira que servia a uma utilidade doméstica, aquilo não mais era um ato prático no mundo, não mais era alguém dialogando com a matéria, aquilo era alguém que estava se convertendo mesmo na própria matéria, aquilo não mais era uma atitude prática: aquilo era uma experiência! Aquele fogo não estava mais a serviço de uma questão útil, mas passou a alimentar uma questão estética, existencial e espiritual da minha alma. Aquilo era puramente o que John Dewey se refere enquanto uma experiência. Não havia mais uma distinção entre um homem e a lenha, mas era como se Res estivesse jogando seu próprio corpo naquela lareira, não queria mais “a casa quente”, queria qualquer outra coisa, queria desafiar algo, queria dar um passo além, não estava mais dialogando com o fogo, estava enfim falando o fogo. Era como se sua ação fosse o próprio fogo queimando dentro daquele espaço. Ele se converteu na coisa que antes contemplávamos, sua ação foi tão espetacular quanto a chama e o barulho dos estalos da lenha ardendo a chama.

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RES’ nocturnal thoughts - 

May 27th, 2020 – Tuesday

 

Translated by Anna Israel

June 9th, 2020

 

 

 

Stinginess: who doesn’t? It’s absolutely human being stingy and vile. Obviously we don’t have to be that way forever. There are many roads to take, as there are many pathways, many holes – I think nothing is insurmountable. Nothing is a wall so hard that I can’t punch and break through. Scandal of being something, I have to accept taking the risk of being a scandal: that’s precisely what’s being myself (or even better, knocking myself down and being better than myself) – or still, even better, outwitting me and myself, and being; or still, much better, not being the planned version of myself. What they’ve planned for me. Planning, plane, backplane, backdrop, memorable whining, underneath the door, alone, lights off, silence. Distant screams, no paragraph, no lists, no numbering; how am I going to get by now in this dead end, in this tiny space, in this minuscule maneuver field, nano maneuver, so tiny: invisible. On the other hand of myself such a genuine feeling, that I try to rescue, turn audible, fragmented images pass by, crumbs of images, squirms in the space, spasmodic squirms, labyrinth – I’ll find my way, I’ll hit the target, the bob. I don’t give up – a light at the end of the tunnel. Me and my lantern in hand, old, red, I wander around the loopholes of my soul, I wander around the bumpy loopholes of a saying that wants to say soul, but doesn’t “lay” soul. Soul was a given name. A creature. Inside of me there was this other nook that I always wished to enter, but entering would cost me everything, I always knew that, I’d either enter, or I’d give my back to myself, and would follow some other path, no longer mine. So far from taking the decision I am, that I turn against myself. I turn against the impact of the decision, skirting and skirting, I gently remove the fish’s spine , I take off the meaning of the word’s skin, I see her moving about, tasteless desire of being where there I know I lost something essencial, the atmosphere is gone, she’s gone, the fact slipped away, the desire has “cummed” on all of the side of a mirror, against the sun, setback, rural area of one’s body, a wheelchair, a crew member of a vessel with no destination, no right name –a grunt, a whisper, an outline of a smile. The thing, the tin heating up in the fire under a bridge, the improvised shack, … a sanitary station, a black van with illegible letters, a woman wearing a blue apron. 

Dawn sets in with a fog, the windows are shut , the eyes are unsettled , my legs wobble in apprehension , the larger my confinement the more expanded is my chest , the organism washes down from time to time , detoxifies itself for a new fase, happenings happen repeatedly and we don’t even notice, until it stops, that is when we are also stopped and only then realize the recurring motion. End. A new beginning. Unclaimed. Prostitutes still work there, even nameless it still generates work, a strange kind of work, odorless, it has lost its smell, wrinkled, … what am I doing here? What am I trying to do here, I’ve been forbidden, I can’t want this at all, I can’t want to say, I can’t want to write, I can’t breathe –all this is forbidden of actually being done, I only pretend I do this : because if I really were to breathe, I’d speak –- my eyes are invaded by the yellow – the fuck I would say that, I’d say for fuck’s sake, I’ll fight, until I’m out of resources. I’ll fight until all of the teeth in my mouth are gone, I’m not giving up on this fight, until I’m toothless and totally unable to live, until I’m knocked down from all the beating “

SALA DOS CADERNOS RES

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A Sala dos Cadernos RES é uma parte da Coleção Anna Israel feita através de um pacto vitalício iniciado em 2011, entre Anna Israel e o artista, pensador e pedagogo, Rubens Espírito Santo.

Hoje, a Sala dos Cadernos comporta aproximadamente 1000 cadernos de RES feitos ao longo de sua vida, assim como a documentação de sua obra feita por ele mesmo. 

Sala dos Cadernos RES é hoje aberta fisicamente somente para próximos da CAI.

                                          " BINGO! O objeto de arte teria que ser um objeto, um movimento, um acontecimento, uma fala, uma articulação que justamente resgata o sujeito de uma crise, que insufla oxigênio em uma chama quase apagada, que levanta o sujeito da cama para querer começar o dia, que faz o maluco desligar o Netflix para querer fazer algo que preste de sua vida - nem que seja lavar a louça da casa, mas lavar com paixão, lavar com ânimo, lavar com amor, ter paixão pela vida, pelas coisas simples, ter paixão por pensar um problema, simplesmente ter paixão. [...] "

Tentativa de esboçar o novo lugar inaugurado pela obra de Rubens Espírito Santo - a partir de alguns dados que são: a narrativa da arte ocidental, teoria da arte antropológica de Alfred Gell e a crise apresentada pela pandemia do COVID-19

Tentar ser bem pouco abstrata e teórica - como esse texto pode de fato ser útil ?

Texto #2  

COVID-19

08 de abril de 2020

Anna Israel

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A vida é uma entidade própria - o tempo é uma entidade viva, e assim, ele precisa de uma tecnologia específica, uma engenharia precisa para que algo possa ser articulado.

Anna Israel, A economia psíquica da vida em Maelstrom, pg 13

Escritos depois de e-mail da CCS

Ou

Concerning the simple things we take for granted 

 

Anna Israel

30 de novembro

Beijing 

北京

[...]

A angústia dessa viagem está relacionada, não com a China, mas com eu me dar conta tão profundamente da arrogância com que me relaciono com o mundo prático, com as coisas básicas da vida, com as coisas simples, pequenas, banais, óbvias. Nada é óbvio ! Nada nessa vida é óbvio ! Começo a entender um pouquinho o porquê de ter vindo para a China - e não para NY, por exemplo. Sou arrogante com ir para NY, acho que já conheço aquela cidade, acho que me comunico bem lá, que me locomovo bem lá, mas é tudo mentira, é tudo uma fantasia que eu criei só porque eu acho que falo inglês. Não falo inglês coisa nenhuma. Nem português eu falo. Saber falar português está sim relacionado com saber lidar com questões práticas do dia a dia do lugar que eu moro, falar português tem a ver com saber o caminho de chegar na unibes!, saber português tem a ver com saber falar com a minha gerente do banco, saber me comunicar com o marceneiro, com a pessoa que vai concertar o encanamento da minha cozinha

[...]

AO VIVO NO

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PEDAGOGIA

Rubens Espírito Santo

2017

2018

2019

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VIAGEM A

CÓRSEGA

E MADRID

2016

TEXTOS

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Rubens Espírito Santo
Cesta básica
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  1. Sobretudo entendo a coleção como uma nova forma de colecionar arte e uma nova forma de enxergar e se relacionar com arte e estética - pensar arte e estética na prática no século XXI

  2. Equipe CAI

  3. RES: instrutor de inteligência emocional + interlocutor da CAI

  4. Gabi Celan: Museologia

  5. Rafa Chvaicer: fotografia e projetos técnicos

  6. Ana Viotti: operadora técnica geral + site

  7. CCS: site + revisora documentos

  8. Giulia Naccarato: operadora técnica e conceitual de questões eminentemente relacionadas a CAI + site

  9. Itens que o Complexo Interativo Anna Israel abraça:

  10. Reunião de homens que entendo por artistas - artista em um sentido muito mais amplo / enquanto figuras condenadas pela história para fazer esse gerenciamento e locomoção profunda da vida prática - sem preconceito ou restrição a um ofício específico

  11. Reunião de objetos feito por pessoas que são indicies ou evidências de uma experiência estética - objetos enquanto índices da experiência estética

  12. Coleção de objetos encontrados ou comprados pela Anna Israel - igualmente índices de experiências estéticas

  13. Coleção de cadernos de rés

  14. Coleção da obra plástica de rés - aqui entendo que o índice (ou o objeto em si) não é só um apontamento de um acontecimento mas também contém o próprio acontecimento nele mesmo - o objeto aqui é como um amuleto, é como um objeto-agente, imbuído de um poder de agenciar o próprio acontecimento estético no outro

  15. Textos como um objeto plástico, artístico e estético - patentear textos como objeto exclusivo da coleção! Além dessa patente oficial, também ter um selo de um texto que é uma apropriação da coleção Anna Israel

  16. Também ter um selo para imagens no geral que farão parte da coleção Anna Israel

  17. Um selo para filmes que fazem parte da coleção Anna Israel

  18. Selo para álbuns de músicos que fazem parte da coleção Anna Israel

  19. Confeitaria: ocupação e apropriação da cozinha do G5 temporariamente como cozinha dos cookies da CAI - produção de cookies e investigação sobre vendas / display / fetiche / organização / contabilidade / apropriação do espaço / cenário / instalação / calor / dilatação de uma ideia de produção

  20. Fazer um selo / marca d’água para todas imagens que forem fotografadas dos objetos da coleção - com número de registro + data aproximada + local — as fotos dos objetos não servirem somente para a organização da coleção , mas serem uma data em si feita pela coleção - essas fotos poderem existir para o mundo

  21. Partituras de compositores

  22. Site - site em si ser um objeto da coleção

  23. Produção plástica Anna Israel também fazer parte da coleção

  24. Coleção Anna Israel é um espaço do CAC - G8

  25. Membros do CAC são parceiros da coleção

  26. Aulas teóricas e do Méthodo são objetos da coleção - pensar um modo de datar isso melhor 

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Coleção Anna Israel:

Complexo Interativo Anna Israel

Arte + confeitaria + coleção de arte expandida + experiência estética

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A CIAI é uma extenção do Conglomerado Atelier do Centro – G8

Atelier do Centro - G1

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Galpão do Centro - G2

Rua Teodoro Baima, 39, República, São Paulo

Residência Atelier Luca Parise - G3

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CECAC - Centro de Estudos Conglomerado

Atelier do Centro - G4

Rua Teodoro Baima, 51, SL 1, República, São Paulo​

Atelier do Centro - G5

Rua Teodoro Baima, 88, República, São Paulo

Coleção Àlex Muñoz - G6

Carrer del Segle, 5, Premià de Mar

08330 - Barcelona, España

​OBGaleria Claudina - G7

Edifício Claudina

R. Barão de Itapetininga, 273 - República, São Paulo 

OPCAC - Oficina Prática Conglomerado Atelier do Centro

Rua Teodoro Baima, 39, República, São Paulo

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Vernacular - Editora Atelier do Centro

Rua Epitácio Pessoa, 91, República, São Paulo

ObGaleria Claudina - G7 Rua Barão de Itapetininga, República

Sala dos Cadernos e Coleção Anna Israel - G8

Prudência - G9 

Coleção Lisa Gordon - G10

Biblioteca Eiffel - G11

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