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Um novo conceito de Galeria de Arte

 

"Sobre ser colecionadora de RES:

Colecionar sua obra é uma forma de recordação, de colocar em reunião novas coerências que estabelecem para mim um espaço de infinitas possibilidades nesse corpo intermediário que cria-se nessa relação ostensiva entra o interno e o externo. Nessa relação, Rubens entrega-se a ser somente um suporte, um suporte de algo que necessita existir, não a partir dele, mas junto dele, nessa conjuntura, nova conjuntura. Colecionar se torna para mim uma forma de recordação de um esquecimento muitíssimo remoto, um esquecimento que não adquire sua foram de outra maneira, não se transforma em recordação, mas a coleção possibilita que o próprio sujeito "esquecimento" se apareça na sua mesmíssima forma, em seu vazio, sua nulidade, em sua ausência de resposta, o esquecimento se apresenta como uma pergunta fundamental."

Anna Israel, Passagens de Anna Israel sobre

a obra de Rubens Espírito Santo, 2017

Pensamentos sobre a produção —

Após estudo Genealogia da Moral de Nietzsche

 

Anna Israel

20 fevereiro 2021

  1. Vaidade

  2. Carência

  3. Reconhecimento

  4. Ansiedade

  5. Expectativa

  6. Projeção

  7. O outro

  8. Minha dor

  9. Energia

  10. Volição

  11. Potência

  12. Vontade

  13. A vontade de ser alguma coisinha

  14. A vontade de criar alguma coisinha que me parece relevante

  15. Mas também a vontade de abrir mão disso tudo

  16. Vontade de furar esse sistema

  17. Vontade de descobrir o que tem do outro lado desse sistema, desse comportamento, dessa cadeia de regras tão rígidas que algo em mim inventou para existir .

  18. Vontade de descobrir mesmo o que mais eu sou para além do que eu sei de mim

  19. O que mais eu posso ser para além do que me contaram

  20. Quais os limites do meu corpo ? Para onde posso ir com próprio corpo ?

  21. Energia - energia de uma pessoa, energia de um lugar, energia pesada, energia leve, de onde mesmo percebemos isso ? Qual o órgão que detecta esse tipo de linguagem ? Qual meu instrumento de leitura para essa linguagem da energia ?

  22. Psicossomática

  23. Paixão - amor profundo - amor , o mesmo é isso ? Como dizer isso ? Como articular isso no mundo ?

  24. Cisão do que eu penso e do que sou mesmo capaz de fazer — aporia entre dois mundos, um mundo ideológico e um mundo psíquico / ser o que eu penso ? Como suturar a minhas ações no mundo de modo que elas estejam alinhadas com o que eu digo acreditar ? Construção de um novo espaço

  25. Manobras

  26. Ver o jogo, ver as peças todas do jogo, e não somente um lance , não somente o meu lance. Ver o outro, ver movimentos futuros

  27. Na verdade, estou compreendendo que não se produz arte. Não se faz arte em algumas horas, não tem como você impor um querer seu à um material, a um fazer, para se fazer arte . Fazer arte me parece, na verdade é uma negociação com várias leis , de modo que um dia arte possa de fato nascer de um fazer. Nem sei mesmo se faz sentido a construção da frase “fazer arte”, talvez arte se faça mesmo, depois de trabalhar muito, depois de um investimento espiritual doloroso, como um tropeço no meio de uma saga, e enfim você levanta do tropeço e se dá conta do novo espaço que você agora está.

  28. Sinto que é como se por muito tempo, vou me desaprendendo a agir de uma forma, terei de ir insistindo a abrir mão da minha carência, da minha vontade de acertar, da minha expectativa, da minha megalomania, e só fazer. E a cada vez, ir aprendendo com esse fazer — a demanda do fazer é o próprio fazer, não pode ser outra. Talvez ai é que a coisa fica difícil, reconstruir uma demanda para que ela não seja só uma vontade de tampar um buraco, de obter respostas , de obter reconhecimento, de chegar em algum lugar, de me projetar para fora de mim; mas a demanda ser a própria vontade de cavar esse novo espaço de existência, a demanda enquanto cavar um lugar desconhecido, sem garantia, sem resposta, sem reconhecimento, escavar um sítio ainda desterritorializado de mim mesma.

  29. Com o tempo, ao insistir nesse modo muito violento de me relacionar comigo mesma através desse artifício externo, seja ele qualquer coisa, ou melhor, ao de fato me permitir relacionar com alguma coisa outra, que não seja eu, talvez eu comece a criar um espaço , um território interno e externo que possa começar a se configurar como um território da arte — mas a palavra arte aqui na verdade, pouco importa ! Que mané arte, que mané “território da arte”, isso já mostra como há uma vontade de de construir algo que já tenha um nome, uma projeção, uma forma definida. O que estou tentando dizer aqui justamente tem nada a ver com isso, com uma projeção, com nomes próprios, vou reformular a frase acima: ao de fato permitir-me uma relação com alguma coisa outra, que não seja eu, talvez eu comece a criar um espaço , um território interno e externo que possa começar a se configurar como um território enfim autêntico de mim mesma, uma morada, talvez eu consiga enfim dilatar esse espaço que quer a todo custo se fechar em mim, dilatar minha ferida, e viver a partir dela, não querer escondê-la, não querer mascara-la, não querer maquia-la, dissimular-me, mas faz com que o próprio ardor da ferida seja o meu ponto de partida. O ponto de onde tenho que partir para atravessar um lugar já sabido de mim, para atravessar esse terreno enfadonho de mim.

30. Por isso, fica muito óbvio que arte , que o caminho da arte está diretamente relacionado com um caminho espiritual. O caminho da arte é mesmo uma forma de ficcionar um novo território, uma nova linguagem para poder existir. Faz muito sentido Nietzsche relacionar arte com a embriaguez, já que ela seria um estado de suspensão da verdade, um estado sem expectativa, um estado à deriva, um estado onde o sujeito não mais é sujeito à um tipo de romance familiar, não mais está submetido à leis psíquicas que o conduzem pelo mundo, não mais está submetido a um modus operandi onde sua dor é o centro do mundo, onde sua locomoção por essa vida está pautada por respostas de sua dor; então está suspenso dessas leis, o caminho da arte tem a ver com um enfim respiro de uma imposição de um modo de existir.

31. O desenho é um campo ativado de bombas . Não se pode sair vivo de um desenho . Cada desenho é uma morte . Morte que impulsiona a próxima vida . Sem desenho para mim não há vida !” RES, 2021

32. Nesse sentido, a ideia de “fazer arte” é uma furada ! Não se faz arte, mas alguma outra coisa uma hora parece começar a se fazer dentro do sujeito, e sinto que a essa coisa, damos o nome de arte, e esse sujeito deixa índices desse território de ação no mundo - e ao mesmo tempo, a própria relação com esses índices (com o objeto) é também o que alimenta o motor dessa mecânica.

33. “Construção de uma rede para pescar o desenho . Onde também sou pescado . Sou Caça e caçador ao mesmo tempo . Há um objeto é um homem que marca um objeto , meu desenho põe em cheque estas leis , onde o homem é marcado pelo que está fazendo , isto é , ele mesmo é desenhado ao desenhar , na verdade ele é mais desenhado do que desenha .” — RES , 2021

34. Aquele que deseja tornar-se artista, está mesmo desejando o que ? Penso que está desejando renunciar um mundo, está renunciando um modo de ser, renunciando garantias desse mundo , aquele que quer ser artista, sinto que deseja mesmo fazer um pacto com esse sem garantia, deseja fazer um pacto com sua ferida, um pacto com sua intimidade, com aquela coisa só ele sabe que tem, e que convive diariamente, mas no final do dia, nunca sabemos ao certo o que fazer com essa coisa - coisa sem nome, coisa essa que faz a gente querer levantar da cama , para viver mais um dia, ainda que nossa desculpa por levantar da cama sejam tantas outras coisas nomeáveis, penso que na verdade não fazemos mesmo a menor ideia do que nos tira da cama para existir . Sinto que o artista que entrar nesse lugar dele mesmo, no lugar que o é diariamente mas que ele tem tão pouco conhecimento, como uma enfim sutura de partes cindidas de si.

35. Ao invés de se lamentar pelo vazio, ou de querer entupi-lo de coisas a qualquer custo, o artista quer conseguir dilatar o vazio, e descobrir o que mesmo tem nesse lugar, nesse lugar que tememos tanto encarar. O artista é sim um niilista, mas um niilista afirmado , um niilista absolutamente consciente, um niilista apaixonado pela sua condição de não ser nada, já que ser nada é a única coisa que permite ele estar disponível para ser qualquer outra coisa coisa - e ao ser conscientemente nada, o artista ficcionar um lugar para existir nesse mundão .

LIVRO MUNDO REAL

ANNA ISRAEL 2020

À VENDA

BINGO! O objetivo de arte teria que ser um objeto, um movimento, um acontecimento, uma fala, uma articulação que justamente resgata o sujeito da cama para querer começar o dia, que faz o sujeito desligar o Netflix para querer fazer algo que preste de sua vida [...]

Nesse cenário, Christophe apresenta a relação do mundo da matéria e do mundo do espírito. Através dessa não relacionabilidade, já que um é sólido e presente, ele reúne nossos estados físicos para serem visto e tocado; enquanto o outro é invisível, emocional e se prova difícil de ser definido, até com a intangibilidade das palavras.

Ambos possuem seus próprios sistemas completos que obedecem às leis de forças opostas. Ao colocar a matéria e o espírito lado à lado, em sintaxe, de maneira totalmente contraditória, Christophe sugeriu que esses mundos são inseparáveis. Em que situação é possível a coexistência de espírito e matéria? Eu presenciei um ser humano hackeando o mundo do espírito, a serviço da arte, para converter a matéria em coisas de investigação superior. Observando deste modo, a arte se expandiu para fora de sua própria forma, apresentando-se para mim então como uma existência em que seu próprio fundamente de ser arte (ou em que o próprio fazer arte) é a tentativa de alcançar algo para além das muralhas do mundo físico. Este espaço onde a arte existe me parece um espaço de um mundo “alegórico”, um mundo do qual já se tem falado muito, mas raramente é ou foi encontrado. Dizem ser a aporia entre os mundos da matéria e do espírito, onde as leis de ambos são como serpentes sem pernas dançando, aguardando pelo soar do sino da arte para poder revelar a matéria e espírito como uma existência de dupla natureza. 

Quando a mente vive no mundo da sobrevivência, da não-arte, leva-se muito tempo para compreender o espírito na matéria. Já que o funcionamento da lei que profere que “aqueles que têm, terão mais; e aqueles que não têm, terão menos”, é compreendido por todos como uma grande antítese de liberdade e mobilidade.

E somente no mais profundo pessimismo sobre a humanidade que isso poderia se concretizar. Mas, ao meditar sobre nosso tempo, eu então me dou conta de sua profunda plausibilidade, e esse tempo seria uma pista para a minha compreensão. Assim, podemos imaginar um grande pote dourado no céu, contendo uma provisão de calor. A quantidade de calor sucumbe à primeira lei da física, ela é fixa, natural, ela não vai se reproduzir a si mesma. Rodopiando para baixo em nosso solo terrestre, o calor se espalha, como raios solares, penetrando nestes corpos mais limpos e afastando-se daqueles que possuem um bloqueio. O calor aqui é a matéria viva sobre a qual a “espiritualidade” e a “riqueza material” são medidas. 

 

É comum no Ocidente se referir ao fluxo de calor como canais que conectam entidades através do tempo e do espaço. Se você se encontrar em uma maré de má sorte, vale a pena consultar os santos ou uma boa benzedeira. 

Agora, imagine essas marés de má sorte em níveis de classe social, imagine-as maiores ainda em “níveis culturais”. Há costumes “xamânicos” coreanos que realizam cerimonias para libertar os caminhos de passagem espiritual em indivíduos e famílias para dar passagem; para liberar estas energias, homenageando seus ancestrais – espíritos evocados de outra dimensão à favorecerem os processos mecânicos deste mundo.

 

Pensamentos após “Talento – Sobre a Antipedagogia de Rubens Espírito Santo”

Mensagem para Christophe

 

Isul Kim 12.01.2021

 

Texto refeito em português por RES, através da tradução de Anna Israel

16.01.2021

Revisão por CCS

Poderia começar com uma passagem do texto de Christophe Kotanyi que configura o cenário em que RES existe?

 

“Já que o mundo material deve ser regido pela ‘lei de conservação de matéria e energia’, a primeira lei da física moderna: se você adquire algo em algum lugar, você deve retirá-lo de algum outro lugar. Mas o mundo espiritual é regido por uma lei oposta: aqueles que têm, terão mais; aqueles que não têm, terão menos.”

Aqui encontra-se um ritual meticuloso, com uma cerimônia extravagante em um altar das mais vibrantes frutas e bolos e porções generosas do licor de mais alto nível sendo servido no cálice vazio do convidado ausente. A opulência e profanidade ardem em mim como um suborno aos espíritos para “por favor, darem um jeito nisto”. Sem isso, alguns pensam que o destino é um caso perdido. Mas com isto, nós descobrimos um ritual, uma invenção, uma ação artística, um hacker humano para saquear o mundo do espírito em prol do nosso mundo terrestre.  

Então quais seriam outras invenções disruptivas dos sistemas de energia? Invenções que introduzem um canal entre o mundo da matéria e o mundo do espírito? Talvez valha consultar RES ou assisti-lo durante sua sessão de sexta, onde sua violência brutal e profanidade o conduz para o centro de uma força magnética própria. 

Como um trabalho de arte se apresenta para expor o seu próprio processo de criação? Poderiam ser os detalhes, as horas de desenho técnico, que foram atropeladas em seguida pelo branco, e depois lavado em álcool e incinerado com fogo, erros e mais erros e erros intencionais deram ao trabalho em particular uma “fatura” onde as pegadas do artista poderiam ser rastreadas. O processo tinha muito a ver com uma brincadeira sem pensamento, é um assombro como o produto final não é somente um monte de lixo no chão. Mas mesmo assim, um monte de matéria sem sentido reunida em um fardo humano e emocional. Assim como as esculturas de água de “Masaru Emoto”, será possível que algo da intencionalidade do artista tenha vazado para o trabalho?

Então, o que é o artista?

 

O artista deve ser um narcisista – Christophe falou sobre a urgência de meios para a sobrevivência do artista no tempo presente. Acredito que eu tenha medo de ver o mundo como uma narcisista, até mesmo por um instante, pois temo que as exigências disto me prendam ao mundo físico. Quiçá isto ainda não me concerna já que sou jovem, como jovem artista procurando recursos para viabilizar meus projetos. Mas acredito que se encontra aqui, pelos passeios solitários labirínticos do pensamento onde o talento é encontrado. O tipo de talento que Christophe fala; a capacidade de se ver feridas no mundo e não enlouquecer. A questão seria identificar estas feridas e negar a nós mesmos fechá-las. Mas ampará-las em seus lados, abrir a ferida, fazer a ferida visível, deixar a ferida para os outros se ferirem. Já que quinze corpos cercando um espaço contêm maior capacidade de um corpo somente dentro dele. O Atelier do Rubens é uma organização onde o espaço físico reúne corpos com feridas abertas, e a partir das leis do mundo espiritual: ferida atrai ferida, e RES orquestra o hackeamento colecionando as feridas físicas de jovens volições artísticas, para suprir a ferida de um sistema maior. A mecânica da força é abastecida. 

Antes que eu seja ilegitimada por mera especulação, é importante voltar para a ferida. É melhor que ela seja compreendida na própria pele. É essencial que se tenha ela para se começar qualquer coisa. Vou me reportar à passagem de seu texto onde cita o niilismo de Nietzsche:

 

“O niilismo é quando você “não” vê o mundo como ele é, mas como deveria ser. Deveria ser maravilhoso, mas não é. Então, não deveria ser. Esta é a fórmula de todo niilismo.”

 

Devo admitir, eu não li Nietzsche. Pego atalhos na literatura. Estou em dívida. Mas como já estou endividada, vou aventurar-me em uma falsa premissa. Em sua noção de expectativa-real, o reconhecimento das contradições, Nietzsche intuía que ele estava esbarrando em algo grande. 

O niilismo então se tornou a perspectiva moderna, não? Uma linguagem comum, vazando das galerias de arte e cafés modernistas do século 20. Penso especificamente no “Cafe de Flore” e os pensadores existencialistas que despiam nossa ilusão para expor a vida como nada. Mas esse nada é uma liberdade absoluta, e com essa liberdade nós continuamos a moldar uma visão verdadeiramente crítica em uma sociedade que vemos manifestações artísticas nas ruas, na internet, feitas e encontradas em qualquer lugar, acessíveis. Mas para onde isso tudo está indo?

Talvez a ferida seja como fogo. Nós usamos diferentes ferramentas para inflamá-lo. O calor te embriaga. O artista reconhece o fogo como uma coisa crucial, e constrói uma arena em volta dele, o eleva, o cerca com dançarinos cerimoniais que atiram seus corpos em volta de mais corpos no chão, comendo terra. Arte é brincar com fogo. Ela induz o fogo a queimar. A arte tem um grande potencial em sobreviver através da história em imagens e em livros, já que ela foi o fogo que ardeu. Mas quando o fogo é destrutivo, quem faz o papel de apagá-lo?

RES não apaga o fogo. Ele joga combustível no fogo. Ele planta faces em suas próprias contradições imundas. Sem reconhecer a ferida, não há espaço para locomoção. E através de feridas, é melhor sair correndo. 

Mais uma vez, penso em Nietzsche, que fala comigo através de inferências. Se o niilismo é ver o mundo em suas insuficiências, e um artista deve criar espaços para observá-lo, então seu oposto deve buscar criar espaços negativos para que novos parâmetros existam – como uma criança, criando à vontade. Um arquétipo tão profundo que financiou as fantasias do Terceiro Reich, a criança do Nietzsche ou o “Übermensch” representa a figura de poder superior, o criador, o mestre, aquele que supre as feridas. E quem constrói uma persona da criança, e do “Übermensch” melhor que Rubens Espírito Santo, que por nenhuma coincidência, como o “espírito santo”, ele nasceu. 

 

Já que a própria religião é uma construção humana, uma tecnologia artificial para compensar as feridas da humanidade. E se eu puder insistir, uma profunda manobra artística. O maior “hack” humano para dentro do mundo do espírito. Esta manobra, diante da carência espiritual da humanidade, percorreu pelo tempo e espaço e coletivamente criou artefatos: igrejas, templos, terreiros, profissões, símbolos, rituais, sistemas de ordem, histórias de cem anos atrás, histórias que extrapolam nossa realidade física. Através disso tudo, nada é respondido. Esta própria vulnerabilidade de palavras do espírito pode supor a indefinibilidade da arte, e volta a RES, cujas pinturas e poesia podem ser vistas como artefatos da invisibilidade maior do Atelier, um espaço que gira em torno de uma força magnética própria.

 

E para concluir em coro

O Artista é um hacker

O Artista é um colecionador

O Artista é um niilista

O Artista é uma criança

O que eu mais invejo, a criança, por seu ser livre; estado corrente suspenso de julgamento. A epoché, RES gentilmente afirmou, talvez esteja tão profundamente enraizada dentro do ser que, até em ausência absoluta de pensamento, nossas intenções primordiais são conservadas. Na “epoché”, o artista deve ser um narcisista. Pois é o trabalho mais honesto do artista.

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In this scene, you pose the relationship of the material world and spirit world. Through its very non-relatability, for one is solid and present, it gathers our physical states to see and touch it; while the other is invisible, emotional and proves to be difficult to define even with the intangibility of words. Both are their own complete systems that abide to rules of opposing forces. By placing material and spirit side-by side, in syntax, in its absolute contradiction, you suggested the very inseparability of these two worlds. 

Within which context is the co-existence of matter and spirit apparent? I have witnessed a human hacking into the spirit world, in the name of art, to transverse matter into things of higher investigation. Observing this, art expanded out of its form to reveal itself to me as an existence for the very action is an attempt to reach beyond our physical borders. This space where art exists sounds of an allegorical world, spoken of but rarely found. It is said to be the space between the worlds of matter and spirit, where the laws of each - like legless serpents in dance, await the chime of artistry to expose matter and spirit as an existence of dual-nature. 

When the mind lives in the world of necessity, of non-art, it takes great lengths to comprehend the spirit in matter. For the workings of the law that states; those who have will get more, and those who don’t will get less, is the great antithesis of freedom and mobility for all. And only in the depths of a curse upon humanity that this be true. But as I ponder this very implausible law, do I realise its very plausibility, and that time is the clue to my understanding. For instance, it helps to imagine a big golden pot up in the clouds, containing reserve energy. The amount of energy abides by the first law of physics, it is fixed, it is natural, it will not clone itself. Swirling down onto our earthly terrain the energy spreads, very much like the rays of the sun, absorbing into those bodies with clearance and repelling off those that hold a blockage. The energy here is the living matter upon which spirituality and material wealth are measured. 

It is common in the East to address energy flow as channels that connect entities beyond time and space. That, if you find yourself in a cycle of bad luck, it is worth consulting your ancestors. Now, imagine these cycles of bad luck on a class level, and then imagine it bigger on a cultural

level. Korean shamanic customs hold forth ceremonies to clear spiritual passage rights in individuals and families to give clearance to these energies by raising tribute to their ancestors - spirits deemed to exist in the dimension of these other-worldly workings. A meticulous ritual is involved here with an extravagant spread on an altar presenting the most vibrant fruits and cakes and generous portions of top shelf liquor poured into the empty cup of the deceased guest. Its opulence and profanity allures to me as bribery to the spirits to ’please go put matters straight’. Without it, some believe destiny is a hopeless case. But with it do we discover a ritual, an invention, an artistic action and much like a human hack, to reach the spirit world from our earthly terrain. 

So what other inventions are there to disrupt energy systems? To puncture a channel between the material world and spirit world? Perhaps it’s worth consulting RES or to watch him during a Sexta drawing session where his brute violence and profanity draws him in the center of a magnetic force of its own kind. 

How does an artwork stand to show the process of its creation? It could be the details, the hours of fine sketch, painted over in white, then again, washed in alcohol and set alit, errors and more errors and intentional errors gave one particular work a volume where the artist’s movements could be decoded.

Thoughts following ‘’Talent – On Rubens Espírito Santo‘s Anti-Pedagogy’’ Message to Christophe

Isul Kim - 12.01.2021 

Then what is the artist? 

The artist must be a narcissist - You spoke of the artist’s key to survival in the modern day. I believe I am intimidated to see the world as a narcissist, not even for a glance, for I fear the necessity that enforces it will nail me to the physical world. Perhaps this is not yet of my concern as my interest is young, much like a young artist finding privacy for the support of their individual facilitations. But I do believe it is here, in the lonely meanderings of thought that talent is found. The kind of talent you speak of; the ability to see gaps in the world and not turn crazy in the sensitivity to it. It is to identify gaps and to deny ourselves the possession of it. But to grab it on its sides, to open the gap, to make the gap visible, to leave a gap for others to participate. For fifteen bodies forming a shape in space contains greater capacity than one body standing inside it. RES’ atelier is one such organisation where the physical space collects bodies which themselves contain gaps, where by the laws of the spirit world; gaps attract gaps, and RES orchestrates the hack by hoarding the physical gaps of young artistic intentions, to fill the gaps of a greater system. The mechanics of the force is fuelled. 

Before I am ruled out for speculation, it is important to return to said gap. One should better understand it for one’s self. It is essential that one has it to start anything. I would refer to the passage from your text on Nietzsche’s nihilism:

‘’Nihilism is when you don’t see the world as it is, but as it ought to be. It ought to be beautiful, but it isn’t. So it should not be. This is the formula of all nihilism.’’ 

I must admit, I have not read Nietzche. I am a literature short-cut. I am in debt. But as I am already in debt I will risk a false assumption. In its very notion of expectation-reality, the recognition of contradictions, Nietzche knew he was tapping into something big. Nihilism has become the modern-day perspective, isn’t it not? A language turned common, growing out of art galleries and modernist cafes of the 20th century. Mainly I’m thinking Cafe de Flore and their existentialist thinkers who stripped back the illusion to expose life as nothing. But that nothing is absolute freedom and with this freedom we continue to shape an inherently critical view on society that we see artistic manifestations on the streets, on the internet, made and found, everywhere, and accessible. But where is this all going? 

Perhaps the gap is like the fire. We use different tools to ignite it. The energy allures our attention. The artist recognises the fire to be a crucial thing and builds a podium around it, elevates it, encircles it with performative dancers throwing their limbs around more bodies on the floor, eating soil. Art is playing with fire. It persuades the fire to burn. It has a great potential to resonate throughout history in pictures and books, for it was the fire that burnt. But when the fire is destructive, whose role is to then extinguish it? RES does not extinguish the fire, he ignites it. He plants faces into their own dirty contradictions. Without recognising the gap, there is no room to move. And through gaps one is made to run. 

 

May I begin with a passage from your text that sets the scene where RES exists? 

‘’Because the material world may be ruled by the ‘’law of conservation of matter and energy’’, the first law of modern physics: if you gain something at some place, you must take it from somewhere else. But the world of spirit is ruled by the opposite law: those who have will get more, those who don’t will get less.’’ 

The process was much like thoughtless play; it is a wonder the final product isn’t a heap of trash on the floor. But nonetheless, a heap of purposeless matter pulled together in a composition that gestures something human and emotional. Like Masaru Emoto’s water sculptures, could it be that something of the artist’s intentionality has been shed into the work? 

Then what is the artist? 

The artist must be a narcissist - You spoke of the artist’s key to survival in the modern day. I believe I am intimidated to see the world as a narcissist, not even for a glance, for I fear the necessity that enforces it will nail me to the physical world. Perhaps this is not yet of my concern as my interest is young, much like a young artist finding privacy for the support of their individual facilitations. But I do believe it is here, in the lonely meanderings of thought that talent is found. The kind of talent you speak of; the ability to see gaps in the world and not turn crazy in the sensitivity to it. It is to identify gaps and to deny ourselves the possession of it. But to grab it on its sides, to open the gap, to make the gap visible, to leave a gap for others to participate. For fifteen bodies forming a shape in space contains greater capacity than one body standing inside it. RES’ atelier is one such organisation where the physical space collects bodies which themselves contain gaps, where by the laws of the spirit world; gaps attract gaps, and RES orchestrates the hack by hoarding the physical gaps of young artistic intentions, to fill the gaps of a greater system. The mechanics of the force is fuelled. 

Before I am ruled out for speculation, it is important to return to said gap. One should better understand it for one’s self. It is essential that one has it to start anything. I would refer to the passage from your text on Nietzsche’s nihilism:

‘’Nihilism is when you don’t see the world as it is, but as it ought to be. It ought to be beautiful, but it isn’t. So it should not be. This is the formula of all nihilism.’’ 

I must admit, I have not read Nietzche. I am a literature short-cut. I am in debt. But as I am already in debt I will risk a false assumption. In its very notion of expectation-reality, the recognition of contradictions, Nietzche knew he was tapping into something big. Nihilism has become the modern-day perspective, isn’t it not? A language turned common, growing out of art galleries and modernist cafes of the 20th century. Mainly I’m thinking Cafe de Flore and their existentialist thinkers who stripped back the illusion to expose life as nothing. But that nothing is absolute freedom and with this freedom we continue to shape an inherently critical view on society that we see artistic manifestations on the streets, on the internet, made and found, everywhere, and accessible. But where is this all going? 

Perhaps the gap is like the fire. We use different tools to ignite it. The energy allures our attention. The artist recognises the fire to be a crucial thing and builds a podium around it, elevates it, encircles it with performative dancers throwing their limbs around more bodies on the floor, eating soil. Art is playing with fire. It persuades the fire to burn. It has a great potential to resonate throughout history in pictures and books, for it was the fire that burnt. But when the fire is destructive, whose role is to then extinguish it? RES does not extinguish the fire, he ignites it. He plants faces into their own dirty contradictions. Without recognising the gap, there is no room to move. And through gaps one is made to run. 

So what other inventions are there to disrupt energy systems? To puncture a channel between the material world and spirit world? Perhaps it’s worth consulting RES or to watch him during a Sexta drawing session where his brute violence and profanity draws him in the center of a magnetic force of its own kind. 

How does an artwork stand to show the process of its creation? It could be the details, the hours of fine sketch, painted over in white, then again, washed in alcohol and set alit, errors and more errors and intentional errors gave one particular work a volume where the artist’s movements could be decoded. The process was much like thoughtless play; it is a wonder the final product isn’t a heap of trash on the floor. But nonetheless, a heap of purposeless matter pulled together in a composition that gestures something human and emotional. Like Masaru Emoto’s water sculptures, could it be that something of the artist’s intentionality has been shed into the work? 

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Tentando falar uma coisinha sobre os últimos textos-acontecimentos de RES

4 DE JANEIRO DE 2021

Tem um tipo de poema do Rubens, como também um desenho, que eu fico muito impressionada o quanto eles parecem estar em movimento / eu digo que são cinematográficos por falta de palavra melhor, mas são cinematográficos não por RES descrever imagens, mas por ele ser capaz de ir lá longe dentro das imagens que são ocultas para nós, as imagens do nosso imaginário.

Me toca muito profundamente.

Sinto uma vontade de ficar voltando ao texto, voltando ao espaço que ele aciona, a essa espaço ascendido dentro de mim - acendido e ascendido, já que ao algo ser acendido, ao mesmo tempo, também sou ascendida para outro patamar da carreira de mim, subo em retrocesso e volto a sentir o vestígio de uma vida constantemente me foge, uma vida que o tempo todo me desliza por entre os dedos . Talvez o que queira dizer com o cinematográfico em sua obra é que ela aciona em mim um fenômeno de perceber minha própria vida se movimentando, ela aciona imagens que estão em minha memória mas que não tenho acesso, me faz sentir saudades de um tempo que nunca soube que vivi, e ao mesmo tempo me apresenta a uma pessoa que sou eu , que estará sempre um paço a frente de mim, e por um minúsculo segundo, enquanto estou imersa no texto e nessa memória não vivida, eu e essa coisa que está sempre um lance para frente, experienciaremos o acontecimento de ser uma só, por um milésimo de segundo, encontro-me com esse outro, e imediatamente ele se vai.

Talvez essa necessidade de escrever sobre seu texto seja um modo de resgatar esse instante, é um modo de , não alcançar essa coisa, mas não ficar tão atrás na corrida, quem sabe para poder , aos poucos, ir dilatando o tempo que estarei em sua sua presença, dilatando o tempo de comunhão entre eu e esse meu outro adiante.

 

Há também também o próprio movimento de vida dentro de mim sendo acionado, sendo implicado: ao mesmo tempo que o texto me impede de reconhecê-lo como algo cognoscível por mim, ele também abre um novo cognoscível, abre esse outro espaço de compreensão que hiberna dentro de mim - e diria até que esse espaço de compreensão que hiberna e que enfim é acionado, é o meu corpo em estado de sutura, meu corpo se reorganizando de uma desordem ancestral, meu corpo acordando de um sono milenar .

Lendo esse texto percebo que Rubens não precisa mais de nenhum assunto ou motivo pra escrever : realmente , ele está no próprio assunto, a própria possibilidade de haver a palavra já é o assunto, e a palavra aqui é ambígua, ela possibilita , assim como ela encerra, ela fecha, ela interdita - e quando digo a palavra na verdade a palavra em questão é ele mesmo , é o seu próprio corpo .

O que eu acho surpreendente é isso, é não haver mais distância nenhuma entre aquele que quer escrever, aquele que escreve , e a palavra escrita - e o texto em ação, e sua agência no mundo igualmente , já que ele agenciou o estado de excitação e urgência em mim para poder me manifestar de alguma forma através deste texto, articular o dizer que explode dentro do meu corpo de algum modo através dessas palavras. É justamente sobre esse “através” que quero comentar: não há mais “através de algo” no texto de rés , não há mais essas três instâncias , não há mais aquele que escreve e o escrito, o escrito em si é o próprio que escreve pois não há escrita nenhuma, há inscrição de si mesmo no mundo, inscrição, inscritível, inscritura. Dessa forma a escrita não é nem mais um display para algo, mas a escrita se torna a própria coisa , encontrando uma maneira de se inscrever dentro do asfalto duro duro muito duro do dizer.

E você Rubens articula a palavra de tal forma que coloca a palavra (ou você, você se articula de tal forma no mundo) que já eliminou todo tipo de dispersão, de suposto assunto, de vontade de comunicação, de carência, fez uma faxina violenta nos arredores todos do dizer para poder sempre estar na jugular do seu próprio assunto.

Ou então , o assunto é uma faca tensionando sua jugular, prestes a rompê-la, e o que segura a faca de dar o golpe fatal, são esses espaços que você consegue abrir com sua escrita, com seu texto, com seu acontecimento no mundo.

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Ela levou 16 facadas no rosto na frente das filhas:

Inquérito sobre a primeira facada

Poema em 3 atos

Anna Israel

30 de dezembro 2020

O que é poesia ?

O que é fazer poesia ?

O que será fazer poesia para além da poesia ? Mas que para além é esse ? Como assim “poesia para além da poesia”?

Se há uma “para além de” algo então não me parece haver o algo. O algo tem que ser capaz de se sustentar por ele mesmo. A poesia não precisa de um “para além dela” para ser poesia ! Por pode precisar !

Não parece haver poesia coisa nenhuma !

Não se faz poesia , se faz vida, se faz calor, se faz erotismo, sedução, gozo, entrelaçamento, transa, volição, entrega, conversão , se faz vontade de estar vivo, de inventar saídas de ar ... o nome poesia é só o nome que damos a essa qualquer outra coisa que se faz quando não está se fazendo alguma coisa que já tenha um nome. Existir no não-nomeação, viver fora do nome, eis aqui o que me parece ser poesia , eis a ficção : viver fora do nome é enfim poder ficcionar um nome , um código nominal que não é nominável , é inominável, e por isso damos a ele o nome de poesia , mas poesia é um nome que sem a coisa que a antecede , não diz nada. É uma palavra sem nome - portanto só a carcassa de um corpo sem alma. Corpo sem alma também me parece querer dizer: um corpo sem calor , um corpo frio , um corpo desapaixonado de si mesmo . E esquentar um corpo não é fácil , da mesma maneira que não é fácil esquentar a relação com o que gostaria de dizer aqui - mas o que gostaria de dizer aqui, na verdade não tem a ver com o aqui , com o texto , com as palavras , mas tem a ver com escrever-me de volta para dentro de mim, tem a ver com acionar as chamas do meu próprio corpo : eis o que gostaria de dizer aqui. Portanto esse dizer não se trata de um dizer comunicativo , não se trata de um dizer no texto, mas o texto é que irá dizer em mim. Este texto na verdade é um pedido, um suplício para que eu volte a dizer-me em mim. E para isso, preciso dar algo em troca para o porteiro do texto, e essa coisa é o próprio texto.

Portanto o aqui por ora, esse texto , essa escrita , é uma tentativa não de gerar calor na escrita ! Que erro o meu querer pensar deste modo, esse modo é totalmente predatório ! O que eu quero aqui mesmo, o texto em questão , é um dispositivo da chave do disjuntor do meu próprio calor ! Acionar o texto significa na verdade acionar o motor de mim mesma . Aquecer minha engrenagem . Não deixar a máquina parar de rodar. E quando digo não deixar a máquina parar de rodar, não estou me referindo a uma morte literal , mas estou me referindo a não me deixar tornar-me uma carcassa da minha própria palavra sem vida, sem alma, sem ânimo, sem paixão , sem tesao , sem amor , morna , amordaçada ; deixar a máquina parar de rodar significa me deixar cair no estado de ser uma palavra sem nome, um estado de ser uma palavra que não diz nada, uma palavra sem contexto , e o meu contexto é justamente o meu calor ! É no meu calor, na minha efervescência que encontro meu contexto, meu texto que me antecede , e que precisa desse texto aqui para poder existir para fora de mim , e desta maneira construir minha morada do meu próprio contexto no mundo: fazer do meu calor, a minha morada.

PRÊMIO FUNARTE RESPIRARTE 2020 

EDIFÍCIO VALÔNIA

Anna Israel

2013-2020

OBJETOS - COLEÇÃO AI

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JOHN

ZORN

COLEÇÃO AI

PENSAMENTOS A PARTIR DOS ESTUDOS DE SPIVAK

17 DE FEVEREIRO DE 2020

Ideologia: vivemos sob uma ideia, uma visão de mundo que não tem nada a ver com o que realmente acreditamos. Existe uma visão de mundo introjetada nos países sub-desenvolvidos, assim como na mulher, assim como no assalariado, assim como inclusive na própria classe dominante - a classe dominante precisa viver sobre uma ideologia para sobreviver inclusive seu próprio nível de exploração — como por exemplo ir à praia em um condomínio fechado e enquanto você está tomando sol e tomando uma caipirinha há homens de camisa e chapéu de palha varrendo as folhas secas que caíram das árvores. A ideologia que está encrustada em nós é o que permite que aceitamos sem questionar uma cena como essa. No caso dos países sub-desenvolvidos, ou no caso da mulher, há um modo de pensar que foi introjetado em nós para pensarmos que temos que viver uma vida somente a serviço de uma sobrevivência básica, ter uma casinha, um carro, fazer uma universidade, ter um diploma, ter um mínimo de reconhecimento, enfim, cada classe social tem as suas próprias regras do que se espera - mas a questão mesmo que está por trás disso é terrível: temos que pensar desse modo para que uma máquina muito mais poderosa que nós continue girando, para que essa máquina funcione. Não conseguimos unir prática e teoria não por uma incapacidade nossa, não conseguimos viver no risco a serviço de um desejo profundo não porque só somos mesquinhos, mas porque há um sistema inteiro que gasta milhões para que seja assim, não questionar o sistema faz parte do plano do sistema. Não questionar a condição que vivemos faz parte de uma ideologia imposta à nós. Isso serve para qualquer caso, seja para o pobre ou para o rico: ser pobre e viver uma vida somente na chave da sobrevivência assim como ser rico e não se responsabilizar por ser rico, ser rico e achar que isso basta para viver, para ser alguma coisa.

Ponto importante: uma ideologia não é uma coisa ruim, mas vivemos a partir de uma ideologia capitalista que pode ser muito perigosa. RES também cria uma ideologia, mas pautada por regras completamente diferentes. Por isso, inclusive que o Atelier do Centro é um lugar tão perigoso, pois ele desafia um sistema na prática, inventou um sistema paralelo de troca, de trabalho, hierárquico, ou seja, vertical, em que ele não tem mais poder às custas da miséria de seus alunos ou funcionários, pelo contrário, ele incentiva a anti-alienação daqueles em volta dele justamente para que a máquina possa girar.Uma visão de mundo (ou uma ideologia?) de verdade, que se aplique na prática, que esteja vinculada a realidade, que não seja somente uma fala sem ação, é algo quase impossível de se criar! Requer uma força que vai contra todo o funcionamento político, econômico e social e psíquico de um tempo. Uma visão de mundo é algo muito mais sério e muito mais complexo que eu já pude imaginar. Ninguém no Atelier hoje, a não ser RES, tem uma visão de mundo - podemos seguir um cara brilhante, trabalhar muito para mudar, trabalhar muito para mover um ossinho de lugar, mas enquanto existir trabalho é porque essa visão de mundo está ainda em processo de construção. No caso de RES, não há mais trabalho para por exemplo, estudar, escrever um texto, optar por algo a seu favor do que algo a favor do sintoma. No caso de RES, hoje, ele se move a partir das leis do mundo paralelo que ele inventou. Note: anti-hippie, não alienado, não de esquerda, uma ideologia que está fora do constructo binário ideológico da direita-esquerda. Uma ideologia enquanto resposta à essa problemática. Uma resposta à Marx (extremamente precipitado e leviano da minha parte escrever isso, mas veio), uma resposta ao plano de consistência de Deleuze.“A mulher não existe” (Lacan) “O Brasil não existe” (AI) - são frases muito parecias, gostaria de explicar a relação que percebo nessas duas frases, inclusive para que ninguém pense que eu não acredito no Brasil e que o Lacan desprezava a mulher. Da mesma forma que a mulher não pode existir enquanto uma resposta à falta de falo, ou ainda, a mulher querer existir buscando preencher seu vazio com um milhão de coisas, um milhão de respostas para sua pergunta impossível, um bando de adereços, verdades, afirmações, a mulher tem que descobrir o que é ser mulher para existir! A mulher não pode mais existir enquanto uma resposta à colonização fálica em sua psiquê, a mulher não pode mais existir enquanto uma resposta ao complexo de castração. A mulher tem que escavar a caverna de sua própria buceta.

A mulher não tem como de fato existir se for através da tentativa de suprir a falta do falo! Assim como o Brasil, é igualzinho (!!!), não podemos mais existir enquanto resposta ou projeção do falo americano ou europeu, do sucesso europeu, das soluções dadas por um país de primeiro mundo. Teremos que descobrir as soluções de um país de terceiro mundo, por isso que o narcotráfico é tão poderoso - ele não “paga pau” para ninguém.

O Brasil ainda não existe pois ainda não vivemos o risco de tentar descobrir o que é ser brasileiro mesmo. O que é inventar um caminho ainda não inventado? O que é desenhar na areia inexplorada brasileira? O que é o plano de carreira para um país subdesenvolvido? A questão é que como não temos tradição teremos que partir do risco total para inventar enfim alguma coisinha! E o que é interessante é que uma decisão de risco obriga que toda uma nova estrutura, que toda uma nova engenharia seja inventado para sustentar tal decisão de risco. O risco leva ao risco - o risco te pede soluções novas. Não adianta querer estar no risco pensando em soluções antigas. O risco inventa um novo corpo em cada um. A questão é que eu acho que a vontade de estar no risco não pode ser o fim, o fim tem que ser outra coisa, o “riozão” do desejo não é o risco, o “riozão” do desejo aqui talvez seja mesmo descobrir o que eu vim fazer nesse mundo, descobrir o que eu sou mesmo capaz, investigar até onde eu posso ir, investigar até onde meu corpo aguenta, investigar rotas de fuga de mim mesmo. RES e o narcotráfico são mesmo dois exemplos geniais do que é a invenção do Brasil, e de forma análoga, do que é a invenção da mulher.

Pergunta que me sobra ao ler as primeiras 50 páginas da Spivak: um país como o Brasil por exemplo, subdesenvolvido, claramente é explorado pois possui uma riqueza absurda - em termos de commodities, temos muito poder, mas um poder que nos é explorado, não temos tecnologia ainda, não criamos recursos ainda (tanto psíquicos, quanto ideológicos) para tomar posse da riqueza do nosso país. Me parece que o brasileiro teria que se apropriar do que é seu, como justamente faz o narcotráfico, o brasileiro tem que entender que ele tem poder, mas que os grandes impérios não permite que tenhamos acesso - pois supostamente, segundo a lógica da Spivak ou do marxismo, poderia comprometer um sistema capitalista (da mais valia, por exemplo). Há um projeto para que o brasileiro não se aproprie de seu potencial para não comprometer um sistema (aqui estou ciente de que estou sendo muito simplista). Até aí, consigo entender a lógica... Mas o que eu não consigo entender é porque exatamente e no que exatamente é a mulher explorada? Porque há um projeto para que a mulher não se faça a pergunta do que é mesmo ser mulher? Porque há um projeto para que não haja um investimento na investigação do nosso vazio? Porque o próprio feminismo tende a ser machista? Por que a mulher vive às custas de um homem? Por que a mulher ainda sabe tão pouco de si mesma e de seu potencial? Por que a mulher investe tanto em sua loucura? O que nos foi colonizado? Qual é a terra da mulher que estão ocupando? Ou que estão ocultando de nós? O que estão explorando de nós mulheres e que não sabemos? Qual é a riqueza oculta da mulher para ela mesma que não querem que vejamos? Há algo muito misterioso para mim aí. Porque a exploração de gênero? A exploração de gênero está a serviço do quê? Seria da capacidade reprodutiva da mulher? Seria uma exploração da figura materna, que cuida da casa, que cuida da família, para que o homem possa estar no poder, para que o homem possa ter a certeza de que sua espécie irá se reproduzir, a partir de sua mulher? Seria a mulher, em uma posição de poder, uma ameaça da reprodução da espécie do homem? Não pode ser só isso! Me parece que há coisas muito mais profundas sobre a mulher que estão sendo mantidas em sigilo de nós. Urgente pensar mais sobre isso - ler Madame Blavatsky ? Onde posso encontrar pistas para isso?

Esse tipo de texto requer outro tipo de relação minha com a escrita, é muito interessante. É como se eu tivesse que ancorar toda minha capacidade de abstração no chão, esse tipo de texto é bem pesado para mim, me pesa, me ancora, me tira de um estado de suspensão. É muito seco.

PARTE II

Qual é esse espaço no meio do tempo, no meio do tempo constante que vivemos, espaço disponível, sedento para ser ocupado por nós? Vivemos em tamanho automatismo que não conseguimos entrar dentro do tempo da nossa própria vida para existir: o momento oportuno não existe! Não existe uma hora certa, a hora certa está em nossa frente, mas não conseguimos entrar na nossa própria hora certa de agora para existir. Há uma desapropriação absurda do nosso espaço de existência, desse espacinho na ponta no nosso nariz que espera para ser ocupado. A máquina do mundo (como quis Drummond) se abre para nós, mas nós sem ao menos avaliarmos o que estamos perdendo, seguimos vagarosos, de mãos pensas. Somos incapazes de enxerga-lá. Somos incapazes de ver qualquer coisa que não sejam nossos probleminhas, nossos machucadinhos. Desviamos diariamente da luz que vaza dela iluminando um possível outro caminho. Meu Deus, qual é o trabalho necessário que estamos deixando de fazer para poder ver essa luz? Para estar disponível à essa luz que está batendo em nosso rosto? Parece que estamos sempre indisponíveis a essa sensação, estamos indisponíveis à epifania. E quando a epifania vem, também estamos pouco instrumentalizados a lidar com ela. É mesmo um trabalho de uma vida, eu sei, eu sei que há ansiedade, e não é fácil mesmo! É mesmo um trabalho diário, árduo, suado, dolorido, massacrante de tentar entrar em retrocesso de nós mesmos, de voltar para um lugar que nunca nos permitiram estar, de voltar para um lugar proibido, originário de nós mesmos. Sinto vergonha da nossa espécie. Tem horas que fico constrangida pela com nossa loucura, timidez, carência, nossa tagarelice, nossa vontade de reconhecimento, nossa expectativa de sucesso. Fico constrangida com o quão dodói somos, o que mesmo aconteceu com a gente? O que mesmo aconteceu com nossa espécie para sermos tão dodóis? Onde mesmo que fomos tão feridos? Porque tanta carência, meu Deus? Se vim para essa vida, se estou no Méthodo, se tive a graça de ter cruzado com um mestre e de ter em algum momento nessa relação descoberto que sou discípula, então realmente a minha obra nessa vida terá que ser me redimir de tamanho constrangimento. Há uma diferença muito grande em ter um mestre e de descobrir que você é discípulo. Por muitos anos, uma pessoa pode ter um mestre, muitos e muitos anos ter a luz quente que irradia do mestre batendo em sua face. Mas não necessariamente se é discípulo. Ser discípulo é construir não uma saída, mas construir por anos o seu próprio beco sem saída, por muitos anos se deixar tornar-se ciente, ciente de si mesmo, ciente de sua situação miserável, de sua sujeira, de suas dores, carências, e do desejo, do abismo do que se quer e do que está sendo feito mesmo para conquistar o que se quer. Será mesmo que queremos o que dizemos querer? O que é mesmo desejar algo senão ser capaz de possuir esse algo? Não seria o desejo intrínseco à obtenção do desejo? Não seria o desejo exatamente o oposto da falta? Não seria o desejo intrínseco à posse do que se quer?

Um dia, o sujeito que possui um mestre, pode se descobrir discípulo. E se descobrir discípulo é se descobrir sem mais nenhuma saída. E não ter saída é a única saída para poder negociar uma entrada com o porteiro da máquina do mundo

Lista após aula de sábado

Tentando botar a cachola para rodar

07 de novembro de 2020

Tatu

 

Anna, obrigada por insistir tanto que eu escrevesse após a aula - obrigada por insistir tanto na sua vida. Na verdade mesmo, esse agradecimento se deve ao Rubens por insistir tanto que a gente insista tanto na nossa própria vida. 

 

1. Por que é tão difícil se permitir fazer? Só fazer. Jogar uma isca no rio sem ser só para querer pescar o peixe grande de primeira. Fazer não precisa ser pescar o peixe - fazer também é jogar a isca todos os dias e permanecer mesmo sem pescar o peixe por dias. Estamos muito equivocados com o que é mesmo fazer algo, o que é um trabalho, o que é ser alguém, o que é bom ou não - acho que estamos muito errados sobre nós mesmos. Estamos muito pouco disponíveis para descobrir sobre nós mesmos - tenho uma idéia muito específica e fechada sobre o que eu acho que sou, o que acho que quero, o que acho que penso ser bom ou ruim, certo ou errado. Por que não entender que há tantas coisas que eu não sei e que a graça está exatamente nisso. Jogar a isca e não saber exatamente o que pode fisgar, estar aberto para ver o que vai surgir das profundezas do rio. Pescar é muito legal. Você joga a isca para um lugar que você não pode ver - seu corpo precisa estar atento, é ele que recebe os sinais. 

2. Existe um vazio em só fazer, por mais contraditório que isso pareça. Realmente, nós não fazemos de fato - nós ocupamos, preenchemos espaços vazios, desviamos energias e atenções, abarrotamos todos os quartos com tranqueiras para não sentir o vazio - fazer não tem a ver com entulho. Fazer é a atividade contrária de acrescentar - fazer é descascar a cebola, e não colocar mais camadas nela. Descascar a cebola pode ser uma atividade brutal. Fazer tem a ver com estar profundamente, intimamente conectado com a coisa. Essa coisa que me parece estar na obra de grandes homens e mulheres, essa coisa que se apresenta ao comer uma comida feita com amor e ambição, ao me relacionar com o outro por mais impossível que isso pareça, ao tomar sol na Teodoro Baima em frente ao estacionamento às 14h da tarde - fazer na verdade não tem nada a ver com grande obras - as grande obras surgem por causa do fazer. Estamos muito equivocados, meu deus do céu. A gente inverteu tudo - rebobinaram minha cabeça e o filme bagunçou legal.

3. Alma, espírito, áurea, trieb, pulsão, devir, deriva, calor, erotismo, chakras, natureza... e assim vai. Chamo de coisa talvez por ser inominável - talvez por estar ainda muito distante disso - mas nos momentos que consigo tatear isso, nos momentos em que sinto seu cheiro, seu gosto, o calor na minha pele, o toque suave, o perfume sutil - nesses momentos me sinto viva: esses momentos são fruto de um fazer - são frutos do que está a serviço do que é maior que eu, daquilo que eu não conheço e portanto não posso controlar. Bonito será o dia em que o cheiro, o gosto, o calor estejam cada vez mais nas coisas pequenas - que o acontecimento não seja escrever o texto ou dar uma aula - mas simplesmente fazer. A vida poder ser o acontecimento.

1ª Linha do tempo de RES

​Lógica, estética e religiosa

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2ª Linha do tempo ergológica de RES

​Século XXI - restos e sobras

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Reflexões após a primeira sessão da Anna Israel de sexta - com a Isa Sena

 

31 de outubro 2020

 

 

1. Algumas reflexões sobre a sessão com a Isa ontem. O que aconteceu? Entender produção de outra forma. A sessão de ontem não tinha a ver com produzir um objeto, mas parece que o objeto em questão que estava sendo produzido era mesmo a Anna e a Isa. As fotos que sobraram são mesmo datas. E é bonito pois realmente temos que investir para que a data seja impecável, não para ser vendida, mas para que, ao investir na impecabilidade da data, estamos investindo na apropriação de nós do acontecimento produção, estamos na verdade investindo e apostando na invenção de um novo modo de existir. Por isso, pensando um pouco sobre a conversa com a Manu no final do dia, a Manu investir em ter um excelente registro das sessões em que ela posa,

Polaroides de Anna Israel, 2020

Modelo: Isa Sena

não serve para vender essas fotos, mas na verdade enquanto um investimento na ficção da Manu no mundo, um investimento na invenção de uma descoberta do que é ser Manu. Talvez essa seja mesmo o tipo de produção para o futuro, e cabe a nós inventarmos constantemente DISPLAYS para isso. A escrita, no caso, é um display para a escritora. Mas a sessão com a Isa pode ser outro display completamente diferente para a escrita. Ou, dar as minha aulas para mulheres pode ser um modo, um display novo que posso investigar para a escrita. Talvez posar possa ser o modo em que a Manu desenhe, e dar aulas de francês pode ser o modo como a Manu escreva !

 

2. Autoria - estar no comando e não estar mais no comando. Diferença entre estar no comando e só fazer o que tem que ser feito. A ideia de comando é muito traiçoeira. Na sessão com a Isa eu não estava na posição de “comando”, de “controle”, mas eu simplesmente fazendo o que tinha que ser feito. Me envolvendo com as etapas desse fazer - e a cada etapa tentando ser exigente comigo mesma, tentando não esperar pouco de mim.

 

3. Tomar decisões

 

4. Cálculo

 

5. O que importa insistir e quando insistir é um perfeccionismo da ordem da carência?

6. Entender prioridades

 

7. Entender, não o que é uma prioridade PARA MIM, mas o que é uma prioridade para o próprio trabalho.

8. Suportar o silêncio de só fazer. Sem expectativa, sem querer chegar em algum lugar, mas fazer. Olhar e fazer. Olhar e tentar ver o que está me sendo dito. Há claro um sentimento muito contraditório ao ser “assistente de produção” de RES e ser a “diretora”. Ser assistente me permite me envolver inteiramente com a coisa, mas sem o vazio de tomar as decisões, de pensar no próximo passo, de suportar o fôlego de não impor expectativas da minha carência àquilo. Ser assistente é ótimo pois eu tenho um “cachorrão” correndo atrás de mim me fazendo ter muito claro as noções de prioridade. Agora, não ter esse cachorrão me obriga a inventar um discernimento muito pouco mental, quase que intuitivo, das prioridades. Na posição de “assistente de produção” eu posso “só fazer”. Mas meu Deus! É claro que isso me incomoda, pois é um truque, um truque que eu dou em mim mesma, uma grande sabotagem! O que eu quero mesmo, não é produzir a Isa, não é maquiá-la e penteá-la como se fosse uma boneca, mas o que eu quero é estar no próprio movimento do que aquilo está me fazendo, de suportar o silêncio daquilo, de investigar referências, de saber o que eu lhe posso pedir, o que não posso pedir, de tirar a minha saia e entender que ela é um material para o figurino, de sacar a hora do batom vermelho e a hora do batom nude, o que cada situação pede, porque um figurino mais vernacular é um figurino mais moderno?, quando que é a hora de parar? Quando é a hora de usar um novo filme e quando é a hora de não mais usar um novo filme ? Essas decisões são o que eu quero estar instrumentalizada para tomar, instrumentalizada intelectualmente, plasticamente, psiquicamente mas sobretudo, instrumentalizada da própria relação ou inteligência com o fazer.

9. Suportar ainda não saber o que é aquilo e mesmo assim continuar fazendo, e fazendo com os recursos necessários para eu poder me apropriar do fazer, para que o fazer faça com que eu me agarre em mim todinha, me autorize a dizer o que é tão íntimo pra mim que de tão íntimo sinto ser irrelevante de ser dito, sinto ser secreto e íntimo demais para existir para fora com uma forma. O que precisa ser dito tem que ser grande, grandioso,

tem que ser algo já conhecido, assimilado, forte. Isso tudo é tanta besteira que nos contaram, ou que eu mesma me contei e me convenci. Se eu ficar nessa chave vou perder a oportunidade única nessa vida de dar para a vida algo que só existe em um único lugar: e esse lugar sou eu. Mas não! Isso não é o suficiente para existir para o mundo! Meu estado de concentração e prazer e gozo e silêncio e seriedade e cálculo e investimento e pacto e relação não é relevante para o mundo! O trabalho tem que ser algo que já tenha um nome próprio! Pintura! Instalação! Escultura! Desenho! Vídeo! Meu Deus! Como é difícil realmente fazer com que a teoria penetre na prática! O que eu declamo teoricamente resiste bravamente em contaminar meu lugar de carência, de querer ser aceita, de querer ser amada - e desse modo, nunca estarei mesmo me inventando, me ficcionando no mundo! De todos os desenhos que fiz até hoje, penso que nas duas horas e meia da sessão com a Isa, ontem foi um grande display para eu desenhar! Desenhei sem medo, sem vontade de fazer um grande desenho, sem ideia do que faria com aquilo, sem me lamentar por não ter recursos o suficiente, só aconteceu. E não aconteceu grande coisa. Não foi um grandíssimo acontecimento, não foi nenhum espetáculo, e ao mesmo tempo, foi um grandíssimo passo que consegui dar, só ao fazer, foi um grandíssimo acontecimento para mim mesma, de descobrir uma nova forma de me relacionar comigo, de construir uma espécie de amor por mim, e pelo meu mundinho, por essa coisa que eu estou aqui chamando de “mim” mas que não faço a menor ideia do que seja. Dar espaço e valor para uma paixão secreta, dar forma a Anna no mundo - para fora da Anna ! Não dá mais para me impor um mundo que não é meu, não dá mais para eu querer fazer algo que não tenha a ver comigo. Tenho que partir de coisas que eu já tenho, e a maior coisa que eu tenho hoje sou eu ! São minhas paixões mesmo, são as coisas que me geram prazer! São meus segredos ! Minhas obsessões ! Transformá-las em algo que possa existir para além de mim mesma. E mais! Ficcioná-las a ponto de poderem ser muito maior que eu mesma. Para que elas possam me contar algo que desconheço sobre mim, sobre estar viva !

 

10. Preciso descobrir o meu modo de fazer ! O meu modo de operar, o que é a “minha sessão de desenho?” Como ela se articula ao longo da minha semana? Quais são minhas restrições fundamentais? Qual é mesmo meu papel de 1,50 x 1,50? O que é o meu momento de “virar o desenho”? O que é a Anna em estado de fúria ? Qual mesmo é esse estado que eu entro? Pelo amor de Deus tenho que deixar de ser literal com o que é produzir ! Ontem a Viotti falou algo que fiquei espantada com a precisão de sua fala (ainda que não fosse um movimento sabido meu para mim): que ela nunca tinha me visto tão calma. Será que esse estado não poderia ser hoje o meu estado de fúria? Será que entrar em um estado calmo e de concentração não é eu me relacionar de algum modo com uma fúria? Entender que a fúria não é o calor do espetáculo do fogo queimando um papel e atos violentíssimos repetitivos de um grampeador pneumático pregando materiais resistentes sobre uma folha de papel, mas a fúria talvez seja estar muito imerso e envolvido em uma ficção que não seja somente a ficção do sintoma, do romance familiar ! A fúria talvez seja justamente poder estar concentrada na invenção de um novo mundo !

 

11. O que é mesmo a produção? O que é mesmo o objeto? Sinto que na verdade o objeto dessa sessão com a Isa possa ser algo que na verdade não tenha nenhuma relação aparentemente direta com a sessão com a Isa! É uma contabilidade muito louca ! O que é mesmo o objeto que estamos produzindo ? Também para eu não perder essa coisa de vista ! Para eu não perder de vista esse objeto em questão - para que eu possa cada vez mais me apropriar dele. Talvez o que eu esteja tentando dizer aqui é: será que o objeto não é esse “estado tão calmo” que a Viotti observou? E se for, como então me apropriar cada vez mais dele?

Pensamentos de sábado - após sessão de sexta AI

07 de novembro 2020

 

1. Como investigar o universo da mulher no homem ? Que porra que é essa que estamos mesmo falando sobre universo da mulher?

2. Brinco

3. Colar

4. Unhas pintadas

5. Penteado

6. Maquiagem

7 .Bolsa

8. Meia calça

9. Laço no cabelo

10. Penduricalhos

11. Gesticulação

12. Sedução

13. Sapato de bico fino

14. Peito do pé exposto

15. Nuca

16. Perfume

17. O que são essas coisas todas para além dessas coisas todas ? Não quero ser literal e pensar que o universo da mulher tem a ver com usar brinco e prender o cabelo em um meio rabo ou uma trança. Mas ao que esses elementos todos indicam? São símbolos, sugerem algo que os transcendem, mas que algo é esse? Que linguagem é essa? Qual o tema por trás do uso desses códigos linguísticos ?

18. Como rés se relaciona visualmente com o universo feminino: essa foi uma puta sacada que ainda quero entender muito mais ! No caso o uso do Boné, da bota trippen, da calça de trabalhador, ou o suspensório, rés não utiliza esses elementos como meros acessórios ! Rés converte os elementos que usa, que veste, em elementos muito simbólicos, em códigos muito preciosos de linguagem, e então, o modo como insere esses elementos em sua visualidade não tem a ver com uma coisa funcional, mas com algo da ordem do símbolo. E também, não é um símbolo de uma ordem superficial, não é um símbolo mundano (talvez como seria no caso do uso do homem de um relógio), mas transforma esses elementos em símbolos muito poderosos que têm uma implicação muito profunda em sua psique. Ele mesmo joga com sua própria psique - diferente ainda de nós que somos jogados por ela, e por isso tão desapropriados dos próprios símbolos que carregamos diariamente. O símbolo , eu acho, faz muito parte do universo da mulher, isto é, é um instrumento muito agressivo de linguagem utilizado pela mulher - um instrumento de linguagem que a própria mulher ainda usa muito mal, usa na busca de se identificar no mundo, usa ainda para encontrar um lugarzinho no mundo, usamos ainda o símbolo de modo totalmente fálico, como um objeto que irá preencher um vazio e nos afirmar enquanto algo para o mundo. Como é transportar o símbolo para um lugar simbólico mais interessante ? Caramba, que difícil isso que estou tentando dizer - confesso que estou tentando tatear em algo, mas nem sei direito o que é.

19. Talvez possa esboçar de dois modos: qual a diferença no uso que RES faz dos elementos visuais boné de aba reta, suspensório, camisa lenhador e óculos Cartier para o uso que uma mulher qualquer faz de uma calça justa apertando a coxa e a bunda, peitos grandes, luzes no cabelo, unhas grandes, bolsa Louis Vuitton e batom vermelho ? Qual a diferença do uso desses símbolos ? Não a diferença entre eles - mas a diferença de como eles estão sendo usados ?????

20. Penso que o MODO como rés se veste é realmente extremamente feminino, é uma pista para sondarmos a mulher mais a fundo, e a construção de uma mulher para fora dela mesma, a construção de uma mulher apropriada de seu aparelho psíquico , biológico e desconhecido. Esse aparelho ainda nos dá um baile, nossa resposta ainda ao que é ser mulher ainda é muito primária.

 

21. Algo muito sério para pensar em relação em que rés articula seu discurso no mundo: há o tema que ele traz em uma mensagem / há também o código utilizado para transmitir esse tema / há o emissor e há o receptor. Sinto que rés faz uma revolução no modo como tem sido organizados esses elementos fundamentais da comunicação ! E portanto, rubens transforma a comunicação em obra ! Rubens atravessa uma ideia de comunicação - onde o emissor , o receptor, o tema é o código utilizado, são tratados de forma linear, autoritária, impositiva -, e ao atravessar essa ideia linear de comunicação, ele faz com que a transmissão de um tema, de um dizer, seja em si investigado ! A forma de transmissibilidade é um objeto de pesquisa ! Como cercar esse tema ? Como transmitir algo para o outro que não seja , por exemplo, passando de uma mão para a outra? Como que Rubens vai passar uma bola para o outro de uma maneira outra que de sua mão para a mão do outro? Como que ele vai passar essa bola e o próprio exercício de passar a bola de revelar que a bola pouco importa ? Que a bola em si está no modo que ele a está passando? É como se rubens subvertesse esses dados: receptor - emissor - código - tema ! É como se o Rubens (que é um ser que está inventando o futuro) embaralhasse todos esses dados e partisse de um novo ponto ! Quem é o receptor ? É aquele que está dizendo ou recebendo? O que é o tema? É a mensagem ou é a forma ? O que é o código? É o modo como está sendo feito ou é o receptor ? CARALHO - é revolucionário o que rés está fazendo com o próprio fazer linguístico

22. Nesse sentido, inclusive, penso muito levianamente, ou melhor, intuitivamente penso que é uma puta resposta ao que o Mallarmé fez com sua poesia !

A linha do horizonte

A luz difusa do fim da tarde

Um pescador lança sua rede

Vídeo: "Uma jovem atravessa a rua", Anna Israel, 2020

Captação de imagem: Fabiana Reis Santos

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Aula teórica de Anna Israel sobre moda no Parque do Carmo, 13082020

Alunos: Manu Gaden, Isa Sena, Rodrigo Cassia, Victor Aliperti, Laura Aliperti, Lila Loula, Fabiana Reis Santos e Leouac

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Polaroides de "Adelaide", coautoria entre Anna Israel e Rafael Chvaicer

A young girl crosses the street 

Poem by Rés - February 27th, 2020 

translation by Anna Israel

 

In the course of the night death

In the course of death day

In the course of life, death

In the course of death the gap.

 

In the course of death my life

The pain without any death

The pain filled with pleasure

The pain numbed from a single strike

 

In the course of my worthless self

JACKPOT

Hammerfisted by the left hand

I stumble against the lack of choice of myself

 

Another punch now in the gut

Misty clouds render above me

I’m blind from what I almost

Forget, I don’t recognize anymore

 

What keeps me alive, the untouchable

Memories, the right word,

Relentless, precise, precious,

I’ll turn this poem into the quest

 

For what will save me from my

own extinction. I know that

I can lose sight of myself. And to 

Make things worse, just see what meets the eye. 

The eye that locks me up. Detains me. 

Kills me alive. I dream. 

Righteousness! The path to the thing will 

make me remember, it’s tough, it doesn’t follow

 

Any known trail, 

melted amalgam, unpronounceable, 

Path with no path, urge 

with no focus, focus fading away 

 

With no punctuation, it doesn’t welcome stops 

Unqualified, fatidical – there’s no way 

I cannot find what I search for within 

Me, if my search is a re 

Solution, drive slaughtered in a 

single word: I lose myself in the course 

of my own self – wrapped 

in my worn out decisions

Fatidical Fatidical Fatidical Fatidical 

The urge to die haunts me 

Not the natural death, but the 

Passionless death, the lifeless death, of 

 

Those who stood back, of those who chose not to be 

A tasteless death of a shitty 

Life, a life in vain, a life that didn’t happen 

The coward death reluctant of stepping forward 

 

Gravestone of a cynic, engraved in 

pumice stone in a floating cemetery 

The deceased’s name is oozing 

The letters are being gone by the 

 

Wind, the fortune gust of wind is 

stripping his name, conducting its 

chariot through the fuzzy clouds of a 

dreary yearning, pathetic! 

 

In a cramped space of myself I can still 

feel the gravedigger chewing over the wet and warm 

soil, with his crooked cap, 

and baggy pants 

 

Shoes covered in oneiric mud, there 

he goes with his strained hands 

conducting the dry leaves’ cart through the 

corridors packed with souls 

 

The spectator of this silently brutal 

Extravaganza, peeks 

death hiding in between the already dead 

plants of pins 

 

On the discreet collars of the one who 

strolls, through the oyster cemetery 

of an ordinary ash 

wednesday of some other life.

Toda terça-feira

19h - 20h30

Via Zoom

Valor:  R$ 480,00 / mês

Aula 1

A experiência estética a partir do filósofo americano John Dewey (1859 - 1952)

Aula 2

Leitura de "O mineirinho" de Clarice Lispector (1920 - 1977)

 

Aula 3

"A mulher não existe", Jacques Lacan (1901 - 1981)

Aula 4

A relação de arte com espiritualidade a partir do filósofo francês Gilles Deleuze (1925 - 1995)

Aula 5

Arte como uma atividade revolucionária a partir do antropólogo inglês Alfred Gell (1945 - 1997)

Leitura de Anna Israel do poema

"A young girl crosses the street"

de RES

Translated by Anna Israel

Sobre ascender uma lareira.

3. Vendo Res fazer isso, percebi a carência que existe em mim em me relacionar com o mundo prático, e que o pouquinho que já avanço nesse espaço, já é gigantesco — mas a questão é que ainda há muito espaço para ser explorado, há não só o relacionar-se com o mundo prático, mas também há poder de fato ter uma experiência, de fato se transformar mesmo na própria coisa acontecendo, há ainda o espaço proibido não por uma classe social ou um gênero, mas o espaço da relação proibido pelo próprio corpo, pelo próprio sintoma, pela carência, pela expiação, pela sanidade, pela energia colocada no lugar errado. Ao ver RÉS jogando todo saco de lenha no fogo, eu o vi manobrando uma ira que poderia facilmente estar sendo colocada em inúmeros lugares e por isso estaria fazendo um estrago muito grande. De fato, diante de mim estava acontecendo a uma experiência estética, estava vendo um homem em acontecimento, em acontecimento de si mesmo. Ele era aquele fogo queimando!

4. Há uma carência muito grande ainda da minha parte em querer me relacionar com o mundo, e por isso, ao consumá-la nessas tarefas práticas como fazer um pão ou acender uma lareira, acabo por me seduzir em pensar que pode parar aí - quando na verdade esse é só o começo. Veja, aqui não estou desmerecendo as tarefas práticas, muito pelo contrário ! Estou pontuando a importância de se relacionar com o mundo para poder caminhar em direção a enfim se relacionar de fato com a vida que está dentro de nós. Se relacionar com o mundo é grandioso ! Mas percebi que podemos ir ainda muito mais longe nessa vida - e que há muito chão para ser trilhado ! Percebi que há muito ainda para ser feito ! Percebi o quão atrofiados nos transformou a nossa educação !

5. A questão de se envolver com coisas práticas não é o que de fato converte totalmente uma coisa em outra, mas é um recurso, é uma ferramenta em direção ao que não é permitido para nós, é uma chave de fenda para poder desrosquear um parafuso enferrujado ontológico da nossa espécie, de sermos espectadores dessa vida, o parafuso que está nos travando de poder um dia não viver a vida, mas ser a vida que nos atravessa.

Viagem Campos do Jordão -

Anna Israel

20 de junho de 2020

 

1. Cena que me marcou muito, muito mesmo, foi na noite de sexta em que RES me pediu para que acendesse a lareira. Enquanto ele cozinhava uma de suas sopas-ascese, eu fui tentando fazer aquele fogo engatar, entendendo como estruturar a lenha, onde e o porquê de utilizar os galhos secos, e também perceber como usar um papel, como jornal pode ser útil já que o fogo o consome com muita rapidez e facilidade. Entendi uma espécie de lógica de acender uma lareira, e em muito pouco tempo, o fogo engatou com força, e então, ela estava acesa - agora só restava a alimentar de tempos em tempos com mais lenha para mantê-la pegando. Me senti muito feliz por ter conseguido realizar essa tarefa prática. Me senti fazendo parte do mundo, de certa forma. E é um sentimento parecido com quando eu cozinho, na maioria das vezes. Quando decido fazer uma carne diferente e ela fica muito gostosa e suculenta, ou quando eu faço um pão e ele cresce e fica macio e eu fico feliz em dar para os outros comerem. É interessante o sentimento de fazer algo, de se envolver com o mundo, com a matéria, e ela responder positivamente. É interessante isso de entender tecnicamente como algo funciona e poder operar esse algo. É fascinante mesmo se sentir dialogando com a matéria, se sentir de alguma forma parte da natureza, integrante ou mais uma operária do funcionamento das coisas vivas. É muito triste como esse tipo de coisa, de fazer, foi retirado das coisas fundamentais que nos mantêm vivos, é muito triste como não faz parte do ensinamento básico de uma criança fazer coisas que as vinculam imediatamente ao mundo real — pelo menos não na minha classe social. Hoje com trinta anos, me sinto muito alienada do mundo prático, e por mundo prático eu quero dizer do mundo vivo, do mundo real, da natureza, me sinto muito espectadora do mundo e com muitos dedos ao encostar nele, ou pelo contrário, arrogante ao abordá-lo, o subestimando; me sinto geralmente distante de poder dialogar e contribuir para o funcionamento das coisas. E a sensação de, por exemplo, fazer o fogo pegar em uma lareira, é realmente um modo onde me percebo saindo desse lugar terrível de espectadora, da que contempla, para o lugar da que dialoga, da que faz parte daquilo. Sem dúvida, uma das coisas mais importantes que precisamos resgatar é essa de conseguir sair da posição de espectador da vida, isto é, se envolver praticamente com o mundo, se envolver fisicamente com as tarefas, com coisinhas pequenas que sustentam o dia a dia, com coisinhas pequenas que sustentam o cotidiano. Acho mesmo que pode ser um divisor de águas na vida de um sujeito. Pelo menos, tenho certeza que sempre é um divisor de águas no meu dia.

2. Há porém, uma questão que ainda vai além disso. Realmente essa questão é o que eu acredito ser um dos divisores de água entre um ser humano comum e um artista. Estou aqui considerando que o artista não é o cara que faz “obras de arte”, mas o artista enquanto uma outra espécie de homem - o artista enquanto o modo como um ser humano conseguiu construir psiquicamente a fúria em se relacionar com a vida, a fúria em existir, a fúria em ser. Há no poema “poema para Shiva: arrebentação” de Rés, uma frase que diz: “nada do que me é permitido me interessa mais”. Fazer um fogo pegar numa lareira para esquentar a casa, ou assar um pão e ele subir e ficar macio, por mais que não seja necessariamente “permitido” para uma classe e situação social e de gênero, são coisas que enquanto espécie nos foram permitidas nessa existência - sair da posição de espectador e de fato dialogar com a matéria. Mas ontem, depois que o fogo já estava queimando a lenha, e a casa já estava bem quentinha, contemplávamos em silêncio, RES e eu, o fogo, sentados à sua frente em um sofá - e de súbito RES se levantou, e começou a alimentar o fogo, colocou uma, duas, três, quatro, cinco, e não parava mais de colocar lenha naquele pequeno espaço da lareira, até que ele quase entupiu o vão com todas as lenhas que sobraram. O fogo de repente tomou outra proporção, a chama ficou imensa, intensa, e agora fazia barulhos que antes não éramos capazes de ouvir. Aquilo deixou de ser uma lareira que aquecia a casa, aquilo deixou de ser uma lareira que servia a uma utilidade doméstica, aquilo não mais era um ato prático no mundo, não mais era alguém dialogando com a matéria, aquilo era alguém que estava se convertendo mesmo na própria matéria, aquilo não mais era uma atitude prática: aquilo era uma experiência! Aquele fogo não estava mais a serviço de uma questão útil, mas passou a alimentar uma questão estética, existencial e espiritual da minha alma. Aquilo era puramente o que John Dewey se refere enquanto uma experiência. Não havia mais uma distinção entre um homem e a lenha, mas era como se Res estivesse jogando seu próprio corpo naquela lareira, não queria mais “a casa quente”, queria qualquer outra coisa, queria desafiar algo, queria dar um passo além, não estava mais dialogando com o fogo, estava enfim falando o fogo. Era como se sua ação fosse o próprio fogo queimando dentro daquele espaço. Ele se converteu na coisa que antes contemplávamos, sua ação foi tão espetacular quanto a chama e o barulho dos estalos da lenha ardendo a chama.

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RES’ nocturnal thoughts - 

May 27th, 2020 – Tuesday

 

Translated by Anna Israel

June 9th, 2020

 

 

 

Stinginess: who doesn’t? It’s absolutely human being stingy and vile. Obviously we don’t have to be that way forever. There are many roads to take, as there are many pathways, many holes – I think nothing is insurmountable. Nothing is a wall so hard that I can’t punch and break through. Scandal of being something, I have to accept taking the risk of being a scandal: that’s precisely what’s being myself (or even better, knocking myself down and being better than myself) – or still, even better, outwitting me and myself, and being; or still, much better, not being the planned version of myself. What they’ve planned for me. Planning, plane, backplane, backdrop, memorable whining, underneath the door, alone, lights off, silence. Distant screams, no paragraph, no lists, no numbering; how am I going to get by now in this dead end, in this tiny space, in this minuscule maneuver field, nano maneuver, so tiny: invisible. On the other hand of myself such a genuine feeling, that I try to rescue, turn audible, fragmented images pass by, crumbs of images, squirms in the space, spasmodic squirms, labyrinth – I’ll find my way, I’ll hit the target, the bob. I don’t give up – a light at the end of the tunnel. Me and my lantern in hand, old, red, I wander around the loopholes of my soul, I wander around the bumpy loopholes of a saying that wants to say soul, but doesn’t “lay” soul. Soul was a given name. A creature. Inside of me there was this other nook that I always wished to enter, but entering would cost me everything, I always knew that, I’d either enter, or I’d give my back to myself, and would follow some other path, no longer mine. So far from taking the decision I am, that I turn against myself. I turn against the impact of the decision, skirting and skirting, I gently remove the fish’s spine , I take off the meaning of the word’s skin, I see her moving about, tasteless desire of being where there I know I lost something essencial, the atmosphere is gone, she’s gone, the fact slipped away, the desire has “cummed” on all of the side of a mirror, against the sun, setback, rural area of one’s body, a wheelchair, a crew member of a vessel with no destination, no right name –a grunt, a whisper, an outline of a smile. The thing, the tin heating up in the fire under a bridge, the improvised shack, … a sanitary station, a black van with illegible letters, a woman wearing a blue apron. 

Dawn sets in with a fog, the windows are shut , the eyes are unsettled , my legs wobble in apprehension , the larger my confinement the more expanded is my chest , the organism washes down from time to time , detoxifies itself for a new fase, happenings happen repeatedly and we don’t even notice, until it stops, that is when we are also stopped and only then realize the recurring motion. End. A new beginning. Unclaimed. Prostitutes still work there, even nameless it still generates work, a strange kind of work, odorless, it has lost its smell, wrinkled, … what am I doing here? What am I trying to do here, I’ve been forbidden, I can’t want this at all, I can’t want to say, I can’t want to write, I can’t breathe –all this is forbidden of actually being done, I only pretend I do this : because if I really were to breathe, I’d speak –- my eyes are invaded by the yellow – the fuck I would say that, I’d say for fuck’s sake, I’ll fight, until I’m out of resources. I’ll fight until all of the teeth in my mouth are gone, I’m not giving up on this fight, until I’m toothless and totally unable to live, until I’m knocked down from all the beating “

                                          " BINGO! O objeto de arte teria que ser um objeto, um movimento, um acontecimento, uma fala, uma articulação que justamente resgata o sujeito de uma crise, que insufla oxigênio em uma chama quase apagada, que levanta o sujeito da cama para querer começar o dia, que faz o maluco desligar o Netflix para querer fazer algo que preste de sua vida - nem que seja lavar a louça da casa, mas lavar com paixão, lavar com ânimo, lavar com amor, ter paixão pela vida, pelas coisas simples, ter paixão por pensar um problema, simplesmente ter paixão. [...] "

Tentativa de esboçar o novo lugar inaugurado pela obra de Rubens Espírito Santo - a partir de alguns dados que são: a narrativa da arte ocidental, teoria da arte antropológica de Alfred Gell e a crise apresentada pela pandemia do COVID-19

Tentar ser bem pouco abstrata e teórica - como esse texto pode de fato ser útil ?

Texto #2  

COVID-19

08 de abril de 2020

Anna Israel

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SALA DOS CADERNOS RES

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A Sala dos Cadernos RES é uma parte da Coleção Anna Israel feita através de um pacto vitalício iniciado em 2011, entre Anna Israel e o artista, pensador e pedagogo, Rubens Espírito Santo.

Hoje, a Sala dos Cadernos comporta aproximadamente 1000 cadernos de RES feitos ao longo de sua vida, assim como a documentação de sua obra feita por ele mesmo. 

Sala dos Cadernos RES é hoje aberta fisicamente somente para próximos da CAI.

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A vida é uma entidade própria - o tempo é uma entidade viva, e assim, ele precisa de uma tecnologia específica, uma engenharia precisa para que algo possa ser articulado.

Anna Israel, A economia psíquica da vida em Maelstrom, pg 13

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Escritos depois de e-mail da CCS

Ou

Concerning the simple things we take for granted 

 

Anna Israel

30 de novembro

Beijing 

北京

[...]

A angústia dessa viagem está relacionada, não com a China, mas com eu me dar conta tão profundamente da arrogância com que me relaciono com o mundo prático, com as coisas básicas da vida, com as coisas simples, pequenas, banais, óbvias. Nada é óbvio ! Nada nessa vida é óbvio ! Começo a entender um pouquinho o porquê de ter vindo para a China - e não para NY, por exemplo. Sou arrogante com ir para NY, acho que já conheço aquela cidade, acho que me comunico bem lá, que me locomovo bem lá, mas é tudo mentira, é tudo uma fantasia que eu criei só porque eu acho que falo inglês. Não falo inglês coisa nenhuma. Nem português eu falo. Saber falar português está sim relacionado com saber lidar com questões práticas do dia a dia do lugar que eu moro, falar português tem a ver com saber o caminho de chegar na unibes!, saber português tem a ver com saber falar com a minha gerente do banco, saber me comunicar com o marceneiro, com a pessoa que vai concertar o encanamento da minha cozinha

[...]

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AULAS TÉORICAS
de quinta-feira
EXPLANAÇÕES DO MÉTHODO

QUARTA FEIRA DAS 17H00 ÀS 19H00

AO VIVO NO

PEDAGOGIA

2018

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2020

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TEXTOS

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2019

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Rubens Espírito Santo

2017

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VIAGEM A

CÓRSEGA

E MADRID

2016

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Rubens Espírito Santo
Cesta básica
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  1. Sobretudo entendo a coleção como uma nova forma de colecionar arte e uma nova forma de enxergar e se relacionar com arte e estética - pensar arte e estética na prática no século XXI

  2. Equipe CAI

  3. RES: instrutor de inteligência emocional + interlocutor da CAI

  4. Gabi Celan: Museologia

  5. Rafa Chvaicer: fotografia e projetos técnicos

  6. Ana Viotti: operadora técnica geral + site

  7. CCS: site + revisora documentos

  8. Giulia Naccarato: operadora técnica e conceitual de questões eminentemente relacionadas a CAI + site

  9. Itens que o Complexo Interativo Anna Israel abraça:

  10. Reunião de homens que entendo por artistas - artista em um sentido muito mais amplo / enquanto figuras condenadas pela história para fazer esse gerenciamento e locomoção profunda da vida prática - sem preconceito ou restrição a um ofício específico

  11. Reunião de objetos feito por pessoas que são indicies ou evidências de uma experiência estética - objetos enquanto índices da experiência estética

  12. Coleção de objetos encontrados ou comprados pela Anna Israel - igualmente índices de experiências estéticas

  13. Coleção de cadernos de rés

  14. Coleção da obra plástica de rés - aqui entendo que o índice (ou o objeto em si) não é só um apontamento de um acontecimento mas também contém o próprio acontecimento nele mesmo - o objeto aqui é como um amuleto, é como um objeto-agente, imbuído de um poder de agenciar o próprio acontecimento estético no outro

  15. Textos como um objeto plástico, artístico e estético - patentear textos como objeto exclusivo da coleção! Além dessa patente oficial, também ter um selo de um texto que é uma apropriação da coleção Anna Israel

  16. Também ter um selo para imagens no geral que farão parte da coleção Anna Israel

  17. Um selo para filmes que fazem parte da coleção Anna Israel

  18. Selo para álbuns de músicos que fazem parte da coleção Anna Israel

  19. Confeitaria: ocupação e apropriação da cozinha do G5 temporariamente como cozinha dos cookies da CAI - produção de cookies e investigação sobre vendas / display / fetiche / organização / contabilidade / apropriação do espaço / cenário / instalação / calor / dilatação de uma ideia de produção

  20. Fazer um selo / marca d’água para todas imagens que forem fotografadas dos objetos da coleção - com número de registro + data aproximada + local — as fotos dos objetos não servirem somente para a organização da coleção , mas serem uma data em si feita pela coleção - essas fotos poderem existir para o mundo

  21. Partituras de compositores

  22. Site - site em si ser um objeto da coleção