CIA

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 “(...) E o imediato é aquilo que se furta não só aos homens como também aos deuses: ‘O imediato, a rigor, é impossível para os mortais, bem como para os imortais’. As palavras de Hölderlin dizem respeito ao fragmento de Píndaro no qual se fala do nómus basileús, ‘da lei que reina sobre todos, mortais e imortais’. Por mais que seja diverso, o divino é, com certeza, aquilo que, da forma mais intensa possível, nos dá a sensação de estar vivos. Isso é o imediato. Mas a pura intensidade, como evento contínuo, é ‘impossível’; seria esmagadora. Para manter a sua soberania, o imediato deve transmitir-se por meio da lei.”

ROBERTO CALASSO, em A Literatura e os Deuses

Alguns Pensamentos em Alto Mar

Córsega - Porto-Pollo

Anna Israel

28 setembro 2021

  1. Abolir a questão de “algo que você faz fará ou não parte da sua produção plástica” — mas transformar o que fazemos, o que amamos fazer, justamente na produção. Eliminar a dicotomia entre “o que fazemos por que gostamos” de “o que fazemos enquanto produção”. E também não estou colocando aqui a produção como algo disperso, mas talvez ao invés de pensar na produção, pensar na vida, na paixão, no tesao, nas compensações de energia, na entrega, na construção de uma vida espiritual. Eu não quero que agora “estudar” esteja no lugar da minha produção, não quero dizer que estudar e dar aula “será encarado como a minha produção”, quero que estudar e dar aula seja mesmo a minha vida, de modo que essa pergunta se torne irrelevante. Fico pensando em caras como o Donald Judd, não acho que suas esculturas eram “sua produção”, não penso que sua enorme fábrica na Suíça era seu “Ateleir de arte”, acho na verdade que ele era um cara muito excêntrico, culto pra cacete, brilhante, e que pirava em projetar e produzir em sua fábrica esses objetos “inúteis” absurdos que hoje chamamos de “sua escultura”. Isso realmente fazia parte de sua vida, de sua pira, de sua paixão, de quem ele era. Estou começando a perceber isso sobre a escrita. Nunca me relacionei com a escrita “como minha produção”, nunca me relacionei com pensar a obra do rés “como minha produção”, no entanto é uma das coisas que mais produzi nesses últimos anos ! Inclusive estou publicando um livro de 150 páginas de textos que eu escrevi e que realmente gostaria que fossem lidos por pessoas que eu admiro.
     

  2. Penso que essa abolição, ou melhor, a união dessas duas instâncias tem muito a ver com o que se trata a ideia de um artista do futuro - onde a própria vida se transforma na sua produção, sua paixão, sua relação com a vida, sua integridade com as inúmeras facetas e nuances e variantes do estar vivo, podem ser índices dessa produção. A produção de um artista não é mais uma tela ou uma escultura, tampouco uma performance, mas penso que hoje a produção de um artista , ou a produção de um sujeito do qual possamos nomear em um momento enquanto um artista, é aquele que é capaz de de fato unir o aspecto útil com o lúdico da vida. Unir o fato de que ele tem consciência de sua insignificância, com a possibilidade de sonhar, apesar disso - a capacidade de lidar com sua falta de maneira lúdica, de maneira poética, e não de maneira determinística e predatória .
     

  3. Algo que tenho percebido sobre a leitura, sobre o texto, sobre estudar: no fundo, não adianta ler as palavras escritas em um texto e esperar que as palavras nos transmitam o que o autor está querendo dizer - ler as palavras é muito diferente de ler o texto. Para se ler mesmo um texto, me parece ser preciso querer entrar dentro da intenção do autor, me parece ter que querer entrar dentro do intervalo daquelas palavras para capturar , não o que está escrito, mas o que o autor não consegue dizer - talvez estudar seja estudar um texto para capturar o não dito do texto. Tenho enfrentado essa dificuldade ao estudar. Por isso que um cara como o blanchot ou nietzsche (duas pessoas que pensei de imediato) são tão brilhantes e tão complexas, pois elas não estão querendo dizer o que é possível se dizer em palavras, não estão mais escrevendo na chave da comunicação, mas justamente estão querendo converter as palavras para dizer o que não pode ser dito, diZer o que reside entre um espaço e outro entre as palavras de um texto, construir uma “terceira via” do dizer , uma terceira via do existir, uma língua que dialoga com um espaço ainda não explorado pela nossa cognição, aciona um espaço de conhecimento ainda muito pouco desenvolvido por nós.
     

  4. Sinto que na medida que um autor se torna mais profundo ou mais complexo, o que está acontecendo na verdade é que ele está abandonando um lugar da escrita, está deixando de escrever sobre o que ele acha que pode escrever, e passa a escrever justamente o que é impossível ser escrito - passa a circunscrever de fato a palavra invisível, a palavra plural.
     

  5. Gostaria de repensar a história da arte. Gostaria de repensar mesmo inclusive o nome arte, ao que atribuímos esse nome - o que está em jogo mesmo para além das mídias convencionais que atribuímos esse nome ? O que está em jogo mesmo no fenômeno estético ? O que é isso para além de uma cerca delimitada pelos historiadores nos últimos séculos ? Qual a relação da obra de Freud com a obra da pintura rupestre ? Qual a relação da escrita de Blanchot com o sistema dinâmico irregular ? Qual a relação da gravura de Durer com alguma coisa que eu ainda não sou capaz de ler de fato ?
     

  6. Sinto que nossa capacidade de leitura ainda é muito condicionada às ideias que nós foram ensinadas sobre leitura - tanto leitura textual mesmo como uma própria leitura da vida, dos códigos secretos da vida, leitura de uma imagem , leitura de uma resposta, uma relação, um fazer, um posicionamento, uma obra. Lemos muito mal e por isso, reduzimos o escopo do que é arte a uma coisa muito restrita. Gostaria de ampliar esse escopo - gostaria de dilatá-lo, de fraturá-lo. Gostaria muito de unir numa narrativa a Hilma af klint e o matemático Alexandre Grothendiek .
     

  7. Preciso começar a me instrumentalizar para poder ler o mundo a partir de um novo escopo. Me instrumentalizar para poder estar aberta a uma arte que não seja somente destinada a instituição ! Hoje realmente a produção que conhecemos é institucionalizada - ou seja, sua finalidade é a instituição, seu fim é o museu, é uma galeria, uma bienal. O fim de uma pintura da Agnes Martin, por exemplo, era abrir um portal de acesso para um outro mundo para o sujeito. Mas mesmo assim, ainda acho que posso ir mais longe nessa análise. Penso que o próprio modo de apresentar arte hoje é muito chato. Pessoas caminhando entediadas e com feições de interessadas por instituições - esperando que aquilo as agregue algum valor. Fico pensando numa produção que não depende deste dispositivo para existir, numa produção que não dependa da galeria para a expor. Não consigo pensar em coisa mais ridícula e careta que uma performance em um saguão de uma bienal ou coisa que valha. Gostaria muito de angariar recursos para pensar o fenômeno estético de forma muito mais ampliada do que me foi apresentado até hoje. É um desejo muito profundo meu. Juntar coisas estranhas e ter corpo para justificar tal união. O que mesmo que faz o desenho do Ávila na minha coleção ? Como posso juntar mais coisas estranhas desse tipo em um lugar só ? Juntar o desenho do Ávila com a melancolia do RÉS ? Ou o desenho do szabó com a lito do Beuys . Quero muito pensar uma história da arte, nesse sentido , realmente muito diferente. Quero me debruçar sobre o fenômeno estético. Quero me debruçar sobre o estudo do Belo - como disse o Beuys, “o Belo enquanto o brilho do que é verdadeiro”. Quero pensar o verdadeiro enquanto uma ficção , o verdadeiro enquanto a magia , o verdadeiro enquanto a mentira para o Nietzsche. Nesse sentido realmente tenho interesse em apresentar algo ainda não visto vindo de uma mulher , e ainda mais no Brasil.
     

  8. Conversar com rés sobre aulas de história da arte fazerem uma pausa agora e realmente começar em 2022 - preciso muito montar um cronograma para essas aulas de maneira bem seria. E pra isso preciso muito estudar. Esse curso é algo muito precioso para mim. Não quero ser leviana com ele. Muito menos diletante. Separar citações e textos como material para o curso - separar imagens / estudar mais os períodos históricos que quero abordar. Fazer uma apostila mesmo para esse curso - nem que seja para o primeiro momento dele. Focar esse final de ano nisso.
     

  9. Começar em outubro, curso quinzenal aos sábados para Catarina (namorada Nico) e suas amigas - meninas de 25 anos com dinheiro em São Paulo, e sobretudo pessoas especiais e abertas ! Urgente montar apostila curso e enviar para Catarina . Ela quer muito isso. Começar dia 16/10

Relatório de um dia espetacular - de um dia em que vivi um pouquinho do extraordinário
 

Por Anna Israel

Viagem Cerrado - CAC - ALDEIA MULTIÉTNICA 2021


Grupo 1

24 e 25 de junho

  1. Missão: ir para Colinas a procura de um tal de Zé Nilo. Não sabemos nada sobre ele, a única coisa que sabemos é que sua casa fica ao lado oposto na rotatória do supermercado.

  2. A missão é trazer de volta madeiras de Rio. Ir para colinas para de alguma forma, conseguir chegar até a serra da mesa.

  3. A serra da mesa tem a maior lagoa artificial da América Latina. Região , a princípio, muito conhecida, muito falada, uma lenda, mas que não sabemos o que é. Ao sair da aldeia, cruzamos com Juliano, falamos que estávamos a caminho da Serra da Mesa e sua resposta foi, “é mentira”.

  4. Colinas fica a 1:30 de distância

  5. Pessoas que conhecemos no dia:

  6. Edna - saiu de sua loja para viver seu proibido por 4 horas com três jovens de São Paulo.

  7. Nildo (marido da Edna que cheira muito rape)

  8. Isleine (apelido Naná) - dona do restaurante de Colinas que Edna e família comem todos os dias - Nana fala muito, exibicionista, faz graça o tempo todo. Da muito pouco espaço para o outro. É sobrinha do marido da Edna.

  9. Restaurante Sabor do Cerrado em Colinas. Comida caseira.

  10. Filho da Edna - não me lembro o nome - 14 anos - não é bem seu filho de sangue, sua cunhada teve ele, e ela não bancou ele, então a Edna e o Nildo viraram seus pais

  11. Filha da Edna que não bancou morar em Brasília e voltou para Colinas — nome estranho, começava com C

  12. Zé Nilo: figura importante da viagem - fomos até Colinas atrás dele, ele seria nosso guia. Mas sua ausência foi o que engatilhou o jogo, foi o que engatilhou a “dança” que foi essa missão .

  13. Casa do Zé Nilo fica em frente ao supermercado, do outro lado da rotatória. Não tínhamos endereço, número, nada. Fomos até Colinas com somente essa informação.

  14. Esposa do Zé Nilo — por acaso foi a primeira pessoa que abordamos não rua, perguntando pelo Zé Nilo. Essa pessoa, “calhou” de ser sua esposa.

  15. Primeiro moço que fomos na casa. Fazia móveis de madeira. Um homem muito simples - nome estranho (Fabão tem registro). Sua esposa estava lá - ficou comovida e um tanto constrangida com nossa visita tão cedo. Nos ofereceu um café. Pediu desculpas pela bagunça da casa, afinal de contas, lá era “casa e também trabalho, fica tudo meio bagunçado.” Edna nos levou até lá.

  16. Neguinho - Edna nos levou até sua casa, batemos lá, mas ninguém respondeu — apesar de sua moto estar lá, e seu Jeep também , observado pela Edna . O Neguinho a princípio seria nossa referência para ir até a Serra da Mesa, para buscar madeiras.

  17. Gago (era esse seu nome?) Primo da Edna — outra possibilidade para nos levar até a serra da mesa. Não chegamos a conhecê-lo. Mas a Edna o mencionou.

  18. Matheus - vendeu rapé pra mim. Rapaz simpático. Fez um mapa muito muito simples de como encontrar um ferro velho em Colinas. Trabalha na loja Agropecuária Agrolina

  19. Diego - rapaz alto, magro, e sarado. Trabalhava com o Matheus. Fiquei com a sensação de que ele é filho do dono da loja. Sorriso bonito. Energia boa. Também fiquei com a sensação de que ele era gay. Usava uma camiseta justa amarela.

  20. Cleoni - nosso barqueiro. Pescador. “Uai, eu não nada dessas coisa não moça, eu sô devagar” era sua frase pra muitas coisas. Usava uma camisa listrada, rasgada. Tinha uma tatuagem de uma serpente na panturrilha. Sotaque Goiano espetacular. Quero muito conseguir sacar esse sotaque, esse jeito de falar. Não gravava seu nome por nada. O chamei de Cleoncio por um tempo, e depois Cleonio. Creonte - Antígona. Caronte - barqueiro do inferno

  21. Dois pescadores parceiros de Cleoni - não chegamos a perguntar seus nomes, mas graças ao atraso deles, o Cleoni nos levou para procurar madeira na Lagoa da Serra Mesa. Duas figuras muito importantes, que foram importantes pela sua falta, pelo atraso, importância ao avesso.

  22. Anurague - segunda parte da missão - na volta, na estrada para Alto Paraíso avisamos uma casa no mato com umas madeiras de Rio na frente. Anurague faz todas as peças de madeira da Glaucia. Negão rastafari muito simpático.​

 Alguns pensamentos sobre essa missão:

  1. Chegamos em Colinas, por algum motivo abordamos uma mulher na rua perguntando do Zé Nilo. O Zé Nilo Ela era sua esposa. Zé Nilo tinha ido para o mato , só ia voltar as 10:30. Eram 8:30 da manhã. Ela estava saindo de casa. Resolvemos então ir atrás de materiais na minúscula cidade. Entramos em uma loja de agropecuária, à procura de um canivete. Não tem canivete. Encontramos um adaptador e um facão da marca Corneta para o RÉS. Conversamos com a moça do caixa. Explicamos que queríamos comprar madeira - sem muito detalhe. Muito rapidamente, de modo que eu confesso que eu não me lembro bem como a conversa se deu, a moça do caixa falou que iria sair conosco. Gostaria de parar aqui - focar nesse momento. O que mesmo aconteceu nesse exato momento? Não me lembro como ele se deu, mas em uma questão de segundos, estávamos andando na rua da cidade com a Edna; em um lapso de tempo, parece que todas as peças de algo se arranjaram, e lá estávamos com a Edna, à deriva, mas ao mesmo tempo, curiosamente, no caminho exato. Isso ficou muito claro para mim nesse expedição: a deriva tem relação profunda com o “caminho exato”. A “deriva” tem relação profunda com um tipo de cálculo muito preciso, a deriva não tem a ver com uma ideia que eu tenho de descontrole, mas hoje percebo que a deriva tem a ver com um tipo muito precioso de organização. Deriva realmente não tem a ver com descontrole , mas com abrir mão de um controle, abrir mão de um tipo de inteligência do passado, abrir mão de uma ideia de conhecimento, abrir mão de um modo muito específico de pensar. Parece que algo começa a ser processado sozinho, a máquina começa a fazer cálculos sozinha e vai nos dando as coordenadas. É um tipo de inteligência muito impressionante .

  2. Por algum motivo, ainda que não tivéssemos projeto nenhum, mapa nenhum, nenhuma certeza de nada, havia uma forte sensação de que aquele era o caminho. Por 5 horas no dia, estávamos sendo guiadas por algo que eu realmente confesso não saber o que era. A princípio, poderíamos dizer que se chamava Edna, mas ela tampouco sabia o que mesmo queríamos e onde iríamos chegar. A Edna também estava em busca de algo, como nós, que as “madeiras de Rio” estavam nos levando para encontrar.

  3. Edna quis sair do caixa de sua loja para nos acompanhar. Mas para onde exatamente ela estava nos acompanhando? O que Edna queria naquele momento? Para onde ela estava indo? Edna: 45 anos, 2 filhas, 1 menino que ela adotou, com 6 anos perdeu o pai. Com 9 anos saiu de casa. Não nos contou muito mais depois, mas fez questão de enfatizar que já tinha acontecido muita coisa em sua vida. Edna vestia uma calça preta justa, um tênis bamba, uma camiseta com escritos evangélicos, cabelo preso, coque baixo e óculos que a lente escurecia no sol . Em sua casa, mora uma jiboia na árvore do quintal. “A jiboia que mora na árvore da minha casa não tem veneno não, ela não te ofende nem nada”.

  4. Claro que não tem como descrever mesmo cada detalhe do que aconteceu, não faz nem sentido fazer isso porque eu não sei mesmo o que aconteceu, eu não sei na verdade sobre cada detalhe do que aconteceu, só realmente sei que conseguimos entrar na fenda disso que chamamos de extraordinário; por um tempo a madeira de Rio é que estava nos levando a encontrar essa fenda; por algumas horas algo foi suspendido, por algumas horas eu senti que estava realmente a serviço de qualquer outra coisa que não tinha mais nada a ver comigo, por algumas horas, realmente eu senti que estávamos a serviço para qualquer inteligência que eu desconheço.

  5. Conseguimos parar alguma coisa em nós, e nos permitir não estar no controle, nos permitir entrar no mundo, entrar no jogo, ser levado por forças que não tem mais nada a ver com nossa arrogância em achar que sabemos. Mas como paramos? O que parou? Qual foi o pacto? Como fizemos isso? Como isso foi feito inclusive de forma tão pouco autoritária e dogmática, como isso foi feito de forma tão inconsciente ? (Não sei nem se inconsciente é a palavra, só sei que não foi uma tomada de posição mental, mas física, algo que vinha do corpo, uma decisão física).

  6. Quando que ir buscar umas madeiras em Colinas pode ser só buscar madeiras? - e quando que buscar madeiras pode ser somente um pretexto para qualquer outra coisa acontecer? Não voltamos com as madeiras - as madeiras é que trouxeram aquelas três mulheres de volta ! As madeiras é que nos trouxeram de volta !

  7. Realmente eu diria que vivemos um momento de comunhão muito profundo com a Edna, que, por 3 horas , deixou de ser Edna, para ser qualquer outra coisa que algo muito secreto nela também é. Ela viu em nós a possibilidade de ser além-Edna. E ela foi exatamente a mesma coisa para nós. Ela viu em nós uma chance que ela tinha de poder ser um pouquinho de quem um segredo seu muito secreto é. Algo que ela não deixa aparecer para ninguém, algo escondido dentro dela: fomos um dispositivo disso para ela.

  8. No caminho de volta para Colinas, ela pediu para passar em casa antes do almoço para tomar um banho. Edna quando voltou, junto com seu marido e filha, para o restaurante que come todos os dias de sua sobrinha, se sentou na mesa conosco, mas naquele momento percebi que ela tinha voltado a ser Edna. Ela não era mais aquela mesma pessoa da nossa manhã. Sua feição havia mudado. Havia uma preocupação em seu olhar. Um desconforto, um constrangimento de alguma forma - não de nós, mas talvez de sua própria situação como um todo. Nenhum de seus conhecidos acreditava que Edna tinha saído da loja e ido ao lago conosco. Ninguém estava entendendo nada. Ninguém do restaurante acreditava que pessoa que eles conhecem como Edna era aquela pessoa que contávamos que passou a manhã conosco.

  9. Edna apareceu como um dispositivo para a nossa deriva, foi o gatilho para acionar algo, ou desengatilhar um movimento muito espetacular. Como uma válvula, uma chave, que operou em chave dupla, em dupla instância, nós para ela e ela para nós.

  10. Hoje eu tive uma pequena , ainda que muito poderosa, experiência do que é ser artista do futuro, do que é mesmo, estar em deriva, do que é um pouquinho existir mesmo para o mundo de forma poderosa. Tivemos a chance de experimentar na própria pele, o que é o mestre vivendo dentro de nós. O artista do futuro é mesmo uma revolução, uma revolução que retorna o sujeito a um estado de contato muito profundo com regras da natureza, com regras que não são mais as nossas, com regras de um tempo muito pouco comum, mas que altera drasticamente nosso semblante. Talvez o que quero dizer com isso é que eu me dei conta de que o artista do futuro não faz um objeto, o artista do futuro permite que o próprio objeto o faça - o artista do futuro está em constante estado de feitura de si mesmo pela a coisa que está fazendo. E o objeto se torna então uma extensão muito poderosa dele mesmo.

  11. Meu Deus , o que estamos fazendo das nossas vidas? Hoje tive um tropeço no que é estar viva e estar despossuída da minha vida, dessa contradição essencial. De não estar no controle e por isso mesmo, sentir a vida em posse de mim.

  12. Que inteligência é essa ? Que fez a gente tomar as melhores decisões ? Que inteligência é essa , que me fez fazer cálculos numa rapidez surreal, de optar por não abordar os homens do auto peças e abordar a moça sozinha na rua - que calhou de ser a esposa do Zé Nilo? Que inteligência é essa da Edna , que a fez sair do caixa da sua própria loja para nos acompanhar ? Que inteligência é essa, que autorizou a Lila a sugerir de irmos sozinhas até a Serra da Mesa catar as madeiras? Que inteligência é essa, que me permitiu pedir para o Cleoni nos levar para catar umas madeiras em seu barco? Realmente agora começo a compreender muito mais profundamente o Rubens, começo a entender um pouquinho mais sobre o lugar que ele vive, sobre o acesso, sobre a rapidez de suas decisões — não são suas decisões, são decisões que ele ouve, que seu corpo ouve, uma série de pequenos dados que sua máquina processa numa velocidade muito alta. Não são decisões exatamente racionais, tampouco intuitivas, é um outro tipo de acontecimento muito físico e muito certeiro. Mas me pergunto agora: o que mesmo nos fez entrar nesse estado? O que nos forçou a torcer esse estado para fora de nós?

  13. Dado muito interessante que aconteceu no final: uma caixinha de agradecimento que pensamos em dar para a Edna. Lila e eu sentadas na mesa do almoço, olhamos uma para a outra e sabíamos - a partir da mesma inteligência que nos guiou o dia todo - que aquilo não fazia sentido. Mas a vontade de agradecer materialmente era muito profunda. E ainda não tínhamos nos dado conta de que o próprio dia também já tinha sido um presente para a Edna . Me retirei para pagar a conta do almoço, e a Fabiana também não estava mais na mesa, Liloca falou para a Edna que gostaria muito de lhe dar um “agrado” de agradecimento profundo. A Edna se recusou a receber o dinheiro de todo jeito. Foi muito veemente em dizer que nós não tínhamos ideia do quão grata ELA era. Fico me perguntando algo muito sutil porém penso ser muito profundo, com essa situação: algo em nos (que já identificamos ser uma inteligência) sabíamos de alguma forma que não fazia sentido dar um dinheiro para ela de agradecimento. Mas por que tentamos fazê-lo de todo modo ? O que não bancamos nesse momento? Que tipo de subjetividade não temos, ou corpo, não sei, que suportaria entender que o que a Edna viveu já valeu muito mais que cem reais? Aqui um fôlego acabou para nós, um corpo para suportar esse tipo de inteligência não dava mais pé — achei esse dado muito sofisticado, muito profundo. Investigar isto.

EXPEDIÇÃO CERRADO É UM PROJETO DE RUBENS ESPÍRITO SANTO EM PARCERIA COM LILA LOULA

Assistentes

Anna Israel, Gabi Celan, Luca Parise, Rafael Chvaicer, Ana Mohallem, Ana Viotti, Rodrigo Cassia, Giulia Naccarato, CCS, Victor Aliperti, Isabella Sena, Fabiana Reis, Laura Aliperti e Fernanda Carvalho

QUANDO A BUSCA POR UM OBJETO MATERIAL ABRE O CAMINHO PARA A CONQUISTA DE UM OBJETO IMATERIAL:

EXPEDIÇÃO CERRADO
ALDEIA MULTIÉTNICA CAC – 2021 


Anna Israel - Julho, 2021

A vida é uma mata fechada, assim como o Cerrado, que, apesar de sua vasta amplitude, de sua floresta subterrânea, do horizonte escancarado diante dos nossos olhos, apesar de parecer tão aberto, tão disponível que até nos intimida, na verdade não passa de uma ilusão, de um truque de olhar, um trompe l’oeil da vida, para que quem queira mesmo acessá-la, tenha que dar algo muito profundo em troca. Sinto que geralmente vivemos nessa superfície, somos fisgados por essa sedução retiniana, vivemos numa camada muito muito pequena do que é estar vivo; em alguns momentos, temos a sorte de tropeçar em uma brecha da vida, mas temos pouquíssimos recursos para articular esses acontecimentos, ou até mesmo nos confundimos, achando que esses momentos são raros, são surpresas que a vida nos dá - enquanto na verdade, penso que esses momentos são as minúsculas chances que temos de sentir mesmo a vida em chamas diante de nós; esses momentos, esses tropeços, são a chance de percebermos que o que estamos vivendo é na verdade um constante autoritarismo, e a vida nos urge para ser conquistada.

A Expedição Cerrado do CAC, convocada pelo Centro de Estudos Universais - AUM, deixou isso muito evidente: no fundo, esses minúsculos sustos de vida que podemos ter podem ser transformados, cercados, investidos, cuidados, cultivados, para podermos a cada dia ir expandindo a própria vida dentro de nós. Não basta estar vivo para poder ter a vida, a vida é uma conquista, é um jogo ao qual temos que estar muito atentos para poder ouvir e perceber seus pedidos, seus sinais, seus chamados, seus truques, suas chaves de acesso para o portal mesmo do que é viver. Não possuímos as chaves para esse acesso, mas ironicamente elas se encontram também dentro de nós, enterradas nas nossas entranhas, nas raízes do nosso ser, e a questão é que para ter acesso a essa chave, teremos que abrir mão, sacrificar coisas que só será possível saber quais são no caminho sem mapa do próprio trajeto — é um pacto às escuras, talvez seja como um voto de fé, um voto de fé pela vida.

Mas o que mesmo está em jogo para poder de fato entrar na vida? Queremos a todo custo viver, temos nossas condutas, nossas verdades, nossos caminhos, nossos mapas, e pensamentos, e ideias, e força, e coragem, mas nada disso realmente importa diante do que foi essa expedição. O mapa que levamos diariamente no bolso há de ser rasgado. E então, não seremos mais nós que estaremos “vivendo a vida”, mas a vida passa a viver, a se fazer manifesta diante de nós: outro mapa começará a ser desenhado no próprio enlaço com a realidade, e esse mapa se apaga imediatamente depois de ser desenhado – ele só serve para aquele contexto, não é definitivo, tampouco dogmático, mas um sopro do caminho. 

Os objetos feitos por RES e seus discípulos e expostos na Aldeia Multiétnica, nada mais são do que bússolas para essa jornada atrás do acesso à vida – o trabalho mesmo que se revelou para nós foi essa saga, essa odisseia, que cada um desses objetos nos guiou atrás dessa entidade que aqui estou chamando de vida, desse organismo que permanece em latência, que hiberna até que alguém ou alguma coisa o desperte. Os sinais, que são portas desse acesso, estão o tempo todo aí, sutis, em forma de linguagem, e a questão é estar atento a eles, a questão é se permitir abrir mão daquele mapa, do preconceito, de um senso de empoderamento, a questão mesmo é aceitar que somos frágeis, inseguros, e muito pequenos diante disso tudo - e nos autorizar a ouvirmos, como disse sabiamente a Dona Romana em Natividade (TO), “o que o trabalho quer que seja feito nele”. Por isso aqui, não temos esculturas em madeira, não temos totens de pedra, vitrines enteógenas ou objetos de diferentes etnias da América do Sul, mas aqui temos um conjunto de dispositivos para esse lugar fronteiriço, de escavação desse espaço proibido entre o céu e a terra.

Pensamentos de sábado

Depois de uma semana muito muito cheia organizacional em NY - acompanhando diariamente a mudança da minha prima Gabi para Columbia

28 de agosto de 2021

Anna Israel

1. Olhando um pouco para o ser humano, para fora da janela do meu apartamento nessa dia nublado, percebo como no fundo o ser humano é comum, ordinário, como no fundo nós somos simples. Como no fundo as pessoas, em sua grande maioria, seja de São Paulo ou de Nova York, seja do Japão ou China, as pessoas só estão vivendo suas vidinha, só estão sobrevivendo à essa vida, andando com seus cachorros, batendo papo furado, ganhando um dinheirinho para poder consumar a carência com qualquer outra coisa; no fundo o ser humano é mesmo muito simples. Atravessamos essa vida sem muita ambição, sem ambição de nos perguntarmos meramente: que raios que é isso mesmo que é existir? Não no sentido de ser alguma coisa, não ambição no sentido de construir uma grande obra, ou uma grande fortuna, mas ambição simplesmente de se ter coragem de duvidar minimamente do que é mesmo isso que chamamos de vida. Não se trata mais de uma questão de opiniões políticas, de estar certo em discussões, de saber fazer perguntas bem feitas, mas meu Deus: o que mesmo que é essa chance que eu tive de poder experienciar essa contradição absoluta que é a vida? Talvez até a própria formulação dessa frase já não faça sentido diante do que estou tentando dizer. Mas se estou viva, o que é estar viva? O que é construir algo? O que é uma obra? O que é produção? O que é trabalho? O que é sanidade? O que é dinheiro? O que é riqueza? O que é uma coleção? O que é um texto? O que é política? O que é pensar? Meu Deus, o que é mesmo existir? Ou ainda, eu mesma pergunto para mim: o que eu quero com existir? O que eu quero com todas essas coisas?

2. Hoje foi um dia de descanso, fiquei a manhã toda sozinha, fui ao Moma, e vi uma pintura do Hopper. Talvez tenha muito a ver com essa pintura o que eu sinta de dor ao me deparar o ser humano hoje - a pintura se chama Gás. Hopper conseguiu fazer uma coisa muito espetacular, conseguiu transformar essa simplicidade, esse estado “entre”, passageiro, de suspensão, esse estado “sem sentido”, onde o ser humano não está apontando necessariamente para uma direção, em algo poético, em algo silencioso , em algo sublime. O sem sentido de uma cena comum parece se transformar em todo sentido de uma vida. Foi como se ver essa pintura tivesse podido transformar toda ausência de sentido mesmo da minha vida no meu grande sentido. Quando digo ausência de sentido, não quero dizer que minha vida não tenha sentido, muito pelo contrário, essa pintura me fez sentir muito profundamente como a própria vida é o meu grande sentido, é a minha direção, é o meu caminho. Estar viva é o meu caminho ! Não há sentido para ser encontrado na vida, já que a própria vida é o sentido.

3. Além dessa pintura do Hopper, há uma pintura do Matisse que eu diria ser uma das minhas pinturas favoritas desde sempre - possivelmente desde a primeira vez que me lembro ter ido ao Moma, me lembro ficar fascinada com essa pintura. A aula de piano. É como se Matisse realmente tivesse conseguido captar aquele momento muito particular de fim da tarde, ou meio da tarde, onde a luz entra pela sala em um ângulo muito particular e gera sombras rígidas em móveis específicos e também no rosto do menino sentado ao piano. Mas a forma como ele pintou essa sombra em seu rosto é como se fosse o próprio tempo se movimentando - a sombra no rosto do menino é o tempo passando, ele conseguiu fazer com que o próprio tempo em movimento estivesse acontecendo na face do jovem.

4. Há uma figura sentada atrás do jovem menino, sua professora, assim como sempre pensei. Ela sempre me pareceu como um sonho. Inclusive há uma dúvida se ela existe mesmo na pintura - é como se ela fosse um sonho do menino na aula de piano, como se ela tivesse lá e ao mesmo tempo não tivesse, seu inconsciente, seu desejo, sua imaginação… Matisse pintou somente seu contorno e o preenchimento de seu corpo deixou vazio, de modo que o próprio linho da tela ocupasse esse espaço vazio; sua presença é feita justamente da ausência de tinta aplicada na tela. Ou seja: ao mesmo tempo que a figura está lá, ela também não está, está em sua ausência, está por negatividade - há uma mancha de tinta azul em sua saia, uma figura incompleta, insuficiente, ambígua, que está e não está ao mesmo tempo (afinal de contas, também não é figura nenhuma, mas uma pintura, uma mancha e linhas com tinta, uma alusão também ao poder da arte moderna , que pode, mesmo sugerindo formas e linhas, permitir que o olho construa não somente uma cena, mas a própria atmosfera de um acontecimento).

 

5. O que acho fascinante nessa pintura é como ela sempre conseguiu instaurar uma atmosfera em mim, porque ela em si é só atmosfera, ela é justamente uma pintura, uma cena, um acontecimento que é apreendido como atmosfera, quem sabe mesmo como o acontecimento onírico, o espaço e tempo tão próprio do sonho, onde o tempo já não conhecemos mais, e o espaço vai se alterando constantemente - uma hora é de manhã e um segundo depois já é de noite. O Matisse conseguiu fazer exatamente isso com a sombra que corta o rosto do jovem menino aluno de piano, com a falta de planos em sua pintura, a falta de perspectiva, ou seja, os espaços de entrecruzam, se entrelaçam, os andares da casa se mesclam em um só, o que é fora está dentro e o que é vazio está preenchendo.

 

6. Outro detalhe muito interessante é o tema da pintura - uma aula de piano. Considerando que o período moderno foi justamente um momento em que os artistas reivindicavam pela abolição da ideia de tema, ou de narrativa em suas pinturas, acho curioso pensar o que mesmo está em jogo nesse título, para além da ilustração de uma aula de piano. Do que se trata mesmo essa “aula de piano”? Penso muito sobre o tempo da música, como uma suspensão de um tempo cronológico, e uma abertura para um tempo outro, tempo kairos, tempo oportuno, fatídico, um momento em que o dia a dia se suspende, uma ordem de consciência se atravessa por alguma outra coisa, essa coisa que inclusive sinto ser o que estava em jogo no início do século XX , o momento presente, as coisas como elas são mesmo, quem sabe possamos chamar isso de “o real”, e não mais uma ilustração ou uma alusão às coisas visíveis, não mais retratar ou falar sobre o mundo a partir de regras ou artifícios para poder fazer tal coisa, mas olhar para o que é vivo, o que existe, enquanto um fenômeno, enquanto uma coisa que também existe para si mesma para além do que vemos ou apreendemos dela. Sinto que essa pintura do Matisse captura exatamente isso: o instante muito fugidio do que é vivo — e chama isso de uma simples “aula de piano”, afinal de contas, como diz Fernando Pessoa em seu poema Tabacaria, “não há mais metafísica no mundo senão chocolates”. Assim como esse poema - que para mim é a manifestação, em forma de poema, de todo pensamento e angústia e dor do sentimento de estar vivo, que acontece em frações de segundos no personagem, enquanto fuma um cigarro em sua cadeira e se levanta para olhar para fora da janela -, a Aula de Piano de Matisse, é essa fração de segundo que dura uma eternidade dentro de nós em momentos qualqueres, onde de repente a vida parece sussurrar em nosso corpo e toda falta de sentido se revela enquanto o nosso bem mais precioso: o vivo.

Sem título
(Estudo de personagem Camila - RES + Ai + CP)
2021

Expedição Cerrado

Aldeia Multiétnica
CAC -
Julho 2021