CIA

 

 

 

  1. Olhando um pouco para o ser humano, para fora da janela do meu apartamento nessa dia nublado, percebo como no fundo o ser humano é comum, ordinário, como no fundo nós somos simples. Como no fundo as pessoas, em sua grande maioria, seja de São Paulo ou de Nova York, seja do Japão ou China, as pessoas só estão vivendo suas vidinha, só estão sobrevivendo à essa vida, andando com seus cachorros, batendo papo furado, ganhando um dinheirinho para poder consumar a carência com qualquer outra coisa; no fundo o ser humano é mesmo muito simples. Atravessamos essa vida sem muita ambição, sem ambição de nos perguntarmos meramente: que raios que é isso mesmo que é existir? Não no sentido de ser alguma coisa, não ambição no sentido de construir uma grande obra, ou uma grande fortuna, mas ambição simplesmente de se ter coragem de duvidar minimamente do que é mesmo isso que chamamos de vida. Não se trata mais de uma questão de opiniões políticas, de estar certo em discussões, de saber fazer perguntas bem feitas, mas meu Deus: o que mesmo que é essa chance que eu tive de poder experienciar essa contradição absoluta que é a vida? Talvez até a própria formulação dessa frase já não faça sentido diante do que estou tentando dizer. Mas se estou viva, o que é estar viva? O que é construir algo? O que é uma obra? O que é produção? O que é trabalho? O que é sanidade? O que é dinheiro? O que é riqueza? O que é uma coleção? O que é um texto? O que é política? O que é pensar? Meu Deus, o que é mesmo existir? Ou ainda, eu mesma pergunto para mim: o que eu quero com existir? O que eu quero com todas essas coisas?

  2. Hoje foi um dia de descanso, fiquei a manhã toda sozinha, fui ao Moma, e vi uma pintura do Hopper. Talvez tenha muito a ver com essa pintura o que eu sinta de dor ao me deparar o ser humano hoje - a pintura se chama Gás. Hopper conseguiu fazer uma coisa muito espetacular, conseguiu transformar essa simplicidade, esse estado “entre”, passageiro, de suspensão, esse estado “sem sentido”, onde o ser humano não está apontando necessariamente para uma direção, em algo poético, em algo silencioso , em algo sublime. O sem sentido de uma cena comum parece se transformar em todo sentido de uma vida. Foi como se ver essa pintura tivesse podido transformar toda ausência de sentido mesmo da minha vida no meu grande sentido. Quando digo ausência de sentido, não quero dizer que minha vida não tenha sentido, muito pelo contrário, essa pintura me fez sentir muito profundamente como a própria vida é o meu grande sentido, é a minha direção, é o meu caminho. Estar viva é o meu caminho ! Não há sentido para ser encontrado na vida, já que a própria vida é o sentido.

  3. Além dessa pintura do Hopper, há uma pintura do Matisse que eu diria ser uma das minhas pinturas favoritas desde sempre - possivelmente desde a primeira vez que me lembro ter ido ao Moma, me lembro ficar fascinada com essa pintura. A aula de piano. É como se Matisse realmente tivesse conseguido captar aquele momento muito particular de fim da tarde, ou meio da tarde, onde a luz entra pela sala em um ângulo muito particular e gera sombras rígidas em móveis específicos e também no rosto do menino sentado ao piano. Mas a forma como ele pintou essa sombra em seu rosto é como se fosse o próprio tempo se movimentando - a sombra no rosto do menino é o tempo passando, ele conseguiu fazer com que o próprio tempo em movimento estivesse acontecendo na face do jovem.

​4. Há uma figura sentada atrás do jovem menino, sua professora, assim como sempre pensei. Ela sempre me pareceu como um sonho. Inclusive há uma dúvida se ela existe mesmo na pintura - é como se ela fosse um sonho do menino na aula de piano, como se ela tivesse lá e ao mesmo tempo não tivesse, seu inconsciente, seu desejo, sua imaginação… Matisse pintou somente seu contorno e o preenchimento de seu corpo deixou vazio, de modo que o próprio linho da tela ocupasse esse espaço vazio; sua presença é feita justamente da ausência de tinta aplicada na tela. Ou seja: ao mesmo tempo que a figura está lá, ela também não está, está em sua ausência, está por negatividade - há uma mancha de tinta azul em sua saia, uma figura incompleta, insuficiente, ambígua, que está e não está ao mesmo tempo (afinal de contas, também não é figura nenhuma, mas uma pintura, uma mancha e linhas com tinta, uma alusão também ao poder da arte moderna , que pode, mesmo sugerindo formas e linhas, permitir que o olho construa não somente uma cena, mas a própria atmosfera de um acontecimento).

5. O que acho fascinante nessa pintura é como ela sempre conseguiu instaurar uma atmosfera em mim , porque ela em si é só atmosfera, ela é justamente uma pintura, uma cena, um acontecimento que é apreendido como atmosfera, quem sabe mesmo como o acontecimento onírico, o espaço e tempo tão próprio do sonho, onde o tempo já não conhecemos mais, e o espaço vai se alterando constantemente - uma hora é de manhã e um segundo depois já é de noite. O Matisse conseguiu fazer exatamente isso com a sombra que corta o rosto do jovem menino aluno de piano, com a falta de planos em sua pintura, a falta de perspectiva, ou seja, os espaços de entrecruzam, se entrelaçam, os andares da casa se mesclam em um só, o que é fora está dentro e o que é vazio está preenchendo.

6. Outro detalhe muito interessante é o tema da pintura - uma aula de piano. Considerando que o período moderno foi justamente um momento em que os artistas reivindicavam pela abolição da ideia de tema, ou de narrativa em suas pinturas, acho curioso pensar o que mesmo está em jogo nesse título, para além da ilustração de uma aula de piano. Do que se trata mesmo essa “aula de piano”? Penso muito sobre o tempo da música, como uma suspensão de um tempo cronológico, e uma abertura para um tempo outro, tempo kairos, tempo oportuno, fatídico, um momento em que o dia a dia se suspende, uma ordem de consciência se atravessa por alguma outra coisa, essa coisa que inclusive sinto ser o que estava em jogo no início do século XX , o momento presente, as coisas como elas são mesmo, quem sabe possamos chamar isso de “o real”, e não mais uma ilustração ou uma alusão às coisas visíveis, não mais retratar ou falar sobre o mundo a partir de regras ou artifícios para poder fazer tal coisa, mas olhar para o que é vivo, o que existe, enquanto um fenômeno, enquanto uma coisa que também existe para si mesma para além do que vemos ou apreendemos dela. Sinto que essa pintura do Matisse captura exatamente isso: o instante muito fugidio do que é vivo — e chama isso de uma simples “aula de piano”, afinal de contas, como diz Fernando Pessoa em seu poema Tabacaria, “não há mais metafísica no mundo senão chocolates”. Assim como esse poema - que para mim é a manifestação, em forma de poema, de todo pensamento e angústia e dor do sentimento de estar vivo, que acontece em frações de segundos no personagem, enquanto fuma um cigarro em sua cadeira e se levanta para olhar para fora da janela -, a Aula de Piano de Matisse, é essa fração de segundo que dura uma eternidade dentro de nós em momentos qualqueres, onde de repente a vida parece sussurrar em nosso corpo e toda falta de sentido se revela enquanto o nosso bem mais precioso: o vivo.

Pensamentos de sábado

Depois de uma semana muito muito cheia organizacional em ny - acompanhando diariamente a mudança da minha prima Gabi para Columbia

28 de agosto de 2021

Anna Israel

Sem título
(Estudo de personagem Camila - RES + Ai + CP)
2021

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Expedição Cerrado
Aldeia Multiétnica
CAC -
Julho 2021

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Escritos de viagem 2 – 

31 de maio de 2020

Anna Israel

 

 

 

Acho muito interessante pensar sobre a “atividade” de ir ao museu. Realmente nunca havia parado para pensar sobre isso. Sempre me ative à criticar o museu e a institucionalização da arte, mas ao mesmo tempo, há algo que supera essa suposta perversidade; as pulsões, o que movimenta cada pessoa a ir até esse espaço - volto a me perguntar: o que cada pessoa está buscando ao ir ao museu? Tenho a forte sensação de que ninguém realmente se dá conta de um agregante esquecido quando se fala de arte - o artista, ou ainda, vamos inclusive esquecer esse nome, nos esquecemos geralmente justamente daquele que faz o que estamos presenciando, daquele que produziu o que nos movimentamos para ver. Então o que mesmo estamos indo ver? Sem dúvida não são imagens estáticas, formas bonitas, interessantes, sem dúvida não se trata disso - isso sozinho não teria o poder de movimentar por tantos anos a instituição que é o museu.

Ressalto a importância aliada ao esquecimento dessa figura (do artista) pois acho que se dar conta de que a magnitude, por exemplo, de uma pintura toda branca do Robert Ryman, foi feita por um homem, foi feita por um ser humano, foi feita por uma pessoa frágil, vulnerável, de carne e osso, com carências, traumas, mesquinharias, com tudo isso. Ainda mais, invertendo a construção da frase anterior, um homem dedicou sua vida a uma visão que mundo que permitiu que ele criasse um vínculo vital com o vazio marcado em cada uma de suas pinturas brancas. Aquilo não é “um pintura branca” , que qualquer um poderia fazer - como vulgarmente podem pensar. Mas a questão é ter o fôlego, a questão é conseguir estar em tamanho espaço inútil, para que o vazio seja a coisa mais poderosa que um possa consumar, para que o branco naquela tela seja na verdade o ar que aquele sujeito respira, o vazio em sua tela não está cindido de seu corpo, não é alheio à sua vida, não é decorativo, ornamental, conceitual, mas o branco em sua tela se tornou sua verdade mais profunda - e por isso, para uma pessoa comum, aquilo é uma tela em branco, mas para Robert Ryman, suas telas são provavelmente o universo em expansão, suas telas são provavelmente seus fantasmas sendo colocados a limpo .

Assim como sustentar um discurso poderoso, robusto, com solidez, na pintura de por exemplo Barnett Newman. Essa inversão de valores eu penso ser fundamental e vital, quem sabe uma das coisas que está mesmo em jogo na produção de arte de qualquer pessoa no ocidente: a inversão do trabalho para a violência, a inversão o “útil”, do “agradável”, da carência, do reconhecimento, para o inútil, o incompreendido, o vazio, o percurso, a aridez da fila”, o estofo, a envergadura, a paixão embasada, a paixão em discurso, a loucura articulada. INCOMPLETO .

Escritos de viagem 4

Anna Israel - 04 de junho de 2021

 

 

 

Tem qualquer coisa que acontece comigo toda vez que vou ao Metropolitan - é muito arrebatador o impacto dos trabalhos que estão nesse museu.

Tem um aspecto da pintura moderna em particular que eu acho muito fascinante: como aquilo é violento, como realmente aquilo está muito imbuído de espírito; diante de uma pintura do Manet, não tem como não me sentir constrangida de alguma forma, meu Deus quanta relação ele conseguiu criar com esse display, com esse meio, quanta relação ele conseguiu travar com algo tão íntimo de sua vida - como ele conseguiu travar essa relação pra fora dele, como ele conseguiu transformar a pintura num melhor amigo com quem ele divide suas mais proibidas confissões, como sua pintura é uma extensão de algo proibido dele, de um segredo muito muito íntimo , que creio eu, mal temos acesso, e de algum modo, ele conseguiu criar um acesso para esse segredo através de sua pintura. É impressionante como aquilo ferve de paixão ! As pinturas do Manet me arrebatam sempre muito violentamente porque elas são pura paixão, devoção a um ofício, devoção à investigar novas formas de existir, de questionar seu tempo, de correr riscos; uma devoção a querer travar um diálogo impossível, e de tanto ir tentando, de tanto ir investigando na própria pintura uma maneira de dizer, de balbuciar minimamente essa coisa, que uma hora a pintura parece responder na mesma ordem de impossível a esse diálogo, uma hora sua pintura parece que vira, a cada vez que vou ao met e vejo seus quadros, vejo uma coisa diferente - ainda que essa coisa diferente que vejo não vejo bem com meu olho, talvez seja mesmo um terceiro olho, como diz o Rubens em seu último poema. Algo muito misterioso , um tipo de sentido muito desconhecido é acionado que sabe que aquilo foi feito por alguém excepcional. E é justamente o mesmíssimo sentido que é acionado em mim diante de um trabalho do Rubens - por isso, prefiro confiar minhas palavras, minha vida à esse sentido, porque de alguma forma, também sinto que ele sabe muito mais do que eu, sinto que ele sabe muito mais de inteligência do que me foi ensinado ser inteligência, esse sentido sabe mais sobre critérios do que eu poderia tentar esboçar aqui.

Não tem como saber exatamente o que é, tento aqui escrever pra detectar ou colocar em palavras que coisa é essa, que coisa é essa detectada - mas esse sentido que apreende suas imagens como imagens em movimento, imagens nao estáticas, imagens com espírito, com volume, com carne, imagens vivas mesmo, esse sentido me urge por um novo tipo de articulação de mim mesma para poder dar vazão para seu dizer , para sua fala, seu discurso. Sinto que terei que me contorcer toda , cometer algum assassinato de mim para poder articular o discurso desse sentido - não me parece ter outro jeito.

Há um brilho que percebo sempre nas pinturas do Manet que fica muito nítido que aquilo não é uma coisa parada, sua pintura está em constante movimento, está constantemente se reavendo com ela mesma - é uma imagem em movimento no sentido de que aquilo não se trata de uma imagem sendo retratada, mas se trata de um modo de conseguir pintar seu próprio volume de vida , de pintar a própria coisa que deseja pintar, esse parece ser mesmo seu objeto de interesse: pintar não essas figuras, mas pintar o desejo violento de pintar. E é justamente isso que eu gostaria de conseguir escrever aqui ! Gostaria na verdade que esse texto fosse capaz de dizer o meu desejo desesperado de descrever o quão arrebatada é estar diante dessa vida em forma de pintura , no fundo, esses textos críticos que quero escrever sobre a obra de RES, na verdade não são necessariamente sobre a obra de RES , mas gostaria que os próprios textos fossem capazes de ser sua obra, gostaria que os textos fossem um índice do que sua obra é capaz de provocar em mim. Não quero descrever sua obra, não quero dizer sobre sua obra, mas quero que sua obra possa ME DIZER, conseguir que o seu impacto em mim fosse a articulação que eu tiver com o próprio texto , chega de texto sobre o impacto, o impacto é que tem que ser o texto ! - deixar com que minha comoção vaze para fora de mim de forma textual , de forma plástica, de forma que eu consiga me organizar melhor , preciso dar vazão ao impacto que este acontecimento tem sobre mim , encará-lo de frente, parar de ser covarde , parar de ser literal , parar de ser controladora ! Chega de tentar escrever , falar sobre a obra do rubens , chega de achar que eu tenho que ter uma fala sobre o méthodo, a Anna conseguir FALAR será a melhor forma que poderei enfim ter uma fala sobre tudo isso que, se eu continuar assim , terão uma hemorragia interna em mim ! Quero sangrar pra fora ! Quero sangrar na minha obra, quero ter uma hemorragia externa de mim mesma. Meu Deus como não dá mais nessa vida para ser tão literal !

Escritos pós início de retornada da leitura O Erotismo, de Georges Bataille — tentando investigar o desenho de RES

Anna Israel

11 de abril de 2021

CAC

 

 

1. Vendo o desenho de rés percebo que ele conseguiu fazer com que um dos instrumento “civilizatórios” do homem, que é o trabalho, estivesse a serviço de sua violência, e não o contrário . Assim , o rés me parece inaugurar uma forma completamente impossível de ser humano, de ser finito, de ser mortal, isto é: ter consciência de sua mortalidade, e ainda assim ser sua própria violência. A consciência de seu estar vivo não interdita sua violência, muito pelo contrário, ele conduziu essa consciência em direção a encontrar saídas , rotas de fuga , passagens de ar para essa violência.

2. Mundo profano = trabalho enquanto mundo sagrado = violência. Muito profunda essa distinção elencada por bataille ! Meu Deus ! O que ele está dizendo, de outra forma é que o mundo profano tem a ver com o que é útil , enquanto o mundo sagrado tem a ver com o inútil, tem a ver com o excesso, com o dispêndio, com o resto, a sobra, com o que é descartado do tempo, com o que não comunica, o que não “presta serviço”, com o que está às margens do dizer, com aquele que inventa uma fala que diga, e não que comunica, portanto, não serve para o trabalho, não serve para um tipo de máquina do tempo girar, enquanto esse inútil, ou, como quis bataille também, a “violencia” nesse caso, é o que faz a máquina do sagrado girar.

3. Violência aqui vem de VIOLAÇÃO. Violência é quando algo viola, quando algo é violado, quando no caso o ser humano viola uma condição que lhe foi desenvolvida há mais de milhões de anos — o bataille percebe que o homo-faber, homem que ainda quase não andava ereto, ao desenvolver ferramentas para o trabalho, juntamente disso também começou a ter um senso crítico sobre sua própria existência - isto é, consciência de sua mortalidade.

4. A consciência de que vamos morrer é intrínseca ao advento do trabalho na vida do homem. Trabalho enquanto coisa útil - refletir sobre isso. O que está em jogo mesmo nessa relação !

5. Conjunto de condutas humanas fundamentais (isto é, os elementos fundamentais que nos diferenciam do animal): 1) trabalho / 2) consciência da morte / 3) sexualidade contida

 

6. Nesse caso, rés fez uma inversão muito poderosa aí ! Ele fez com que dois mundos pudessem se unir, ele transgride justamente o interdito que o limita enquanto um ser profano / e também não está suspenso como um louco somente na violação, mas ele faz com que o próprio trabalho esteja a serviço de leis que não mais dizem respeito às leis que me parecem ter conduzido o homem à um tipo de civilização. Ao transgredir as leis que regem um modo de conduzir o trabalho, na verdade ele está transgredindo um modo de se relacionar com a sua própria condição de ser pensante , ele eleva algo que a princípio é o que justamente o condiciona enquanto profano, terrestre, a algo que diz respeito a uma condição sagrada, isto é , uma condição que não mais diz respeito ao que é finito. É um trabalho portanto, sem expectativa, inútil para esse tempo e para essas leis — e esse inútil é a chance que ele tem de tocar em entrar em uma relação profundamente erótico não somente consigo mesmo, mas com o outro , que aqui é em questão o desenho. Relação disso com o eterno retorno de Nietzsche .

7. Por isso , penso que o que o rubens está apresentando com sua obra é mesmo o futuro, é mesmo a construção de uma outra espécie, de uma outra civilização — no caso, me parece que é aí a diferença que se repete ao longo do tempo, ao longo das décadas de história, esse trabalho a serviço da construção da possibilidade que o homem possa encostar no céu, que o ser humano possa transgredir a própria impossibilidade de ser racional e ao mesmo tempo louco, de se saber insuficiente e mesmo assim continuar tentando, de saber que o barco vai afundar de qualquer jeito, mas nem por isso deixar de remar.

8. Algumas relações para pensar mais a fundo - para equacionar e inferir : trabalho - útil - homem civilizado - racional - não macaco - descontínuo - consciência da morte - sexo envergonhado (entre quatro paredes) // violência - inútil - violação - animal - contínuo - sem consciência da morte - sexo sem vergonha (exposto, explicito)

9. O que é o sexo explícito de modo mais profundo ? Não seria a obra de todo grande artista uma grande orgia sendo exposta à todos ? E como eu posso justificar isso? Estudar mais ! Está me faltando recursos para ir mais afundo nessa justificativa.

10. Essa investigação de Bataille sobre o Erotismo - sobre a transgressão e o interdito , equaciona-se quase que de forma matemática. Tentar colocar essas questões para fora de modo mais visual para eu organizar melhor esse estudo.

11. “As expressões mundo profano (= mundo do trabalho, ou da razão) e mundo sagrado ( = mundo da violência) são muito antigas. Mas profano, mas sagrado são palavras da linguagem irracional.” Bataille

12. Observação muito importante para refletir: o que Bataille está dizendo com o final dessa frase ? Que profano e sagrado são palavras da linguagem irracional ? Ou seja: que essas palavras em si , a invenção dessas palavras, vem de um lugar que não é da razão, portanto, a invenção dessas palavras vem de um lugar não profano do homem - um lugar do não-trabalho, um lugar do não-útil. Talvez o que esteja em questão com essa conclusão seja: de onde surge a invenção dessas palavras ? A serviço do que está a invenção de palavras de uma linguagem irracional ? Perguntar sobre isso para rés - levar em conta que parece que essa afirmação como um todo é uma equação. Essa observação final conclui algo nessa equação.

13. Esse assunto é tão tão tão profundo e proibido , ou, interditado para um modo de me relacionar com a minha consciência, que me sinto completamente sem chão , como se algo fosse começado a ser apreendido, são disparados espasmos de consciência mas que são interditados de serem cercados. Justamente, aqui, sinto estar escrevendo ainda numa chave, em uma lógica, em uma sintaxe completamente da comunicação, do útil, do outro, da língua que tem um receptor, estou numa esfera do trabalho aqui, e sinto que há algo profundo que urge para ser violado para que enfim eu consiga dizer o que está sendo pretendido (apreendido) em meu corpo - porém, que corpo é esse entao que eu tenho que a cada dia que passa construir para suportar a sua própria violação em nome desse dizer ? Em nome dessa violência, dessa fúria, dessa coisa que quer ser dita mas interdita por mim mesma ? E então , me pergunto, quem mesmo sou eu ? Sou essa que está interditada de dizer ? Ou sou o próprio interdito?

sto é, meu corpo, é a única chance que eu tenho também de manter-me viva. Portanto o que está em jogo aqui é: conseguir me matar, e ainda assim permanecer viva para continuar sempre morrendo.

13. Esse assunto é tão tão tão profundo e proibido , ou, interditado para um modo de me relacionar com a minha consciência, que me sinto completamente sem chão , como se algo fosse começado a ser apreendido, são disparados espasmos de consciência mas que são interditados de serem cercados. Justamente, aqui, sinto estar escrevendo ainda numa chave, em uma lógica, em uma sintaxe completamente da comunicação, do útil, do outro, da língua que tem um receptor, estou numa esfera do trabalho aqui, e sinto que há algo profundo que urge para ser violado para que enfim eu consiga dizer o que está sendo pretendido (apreendido) em meu corpo - porém, que corpo é esse entao que eu tenho que a cada dia que passa construir para suportar a sua própria violação em nome desse dizer ? Em nome dessa violência, dessa fúria, dessa coisa que quer ser dita mas interdita por mim mesma ? E então , me pergunto, quem mesmo sou eu ? Sou essa que está interditada de dizer ? Ou sou o próprio interdito?

14. Talvez é aí que esteja a grande contradição cruel de nós seres humanos: o fato de que somos tanto o que está interditado, quanto aquele que interdita. Ou seja, seria muito fácil deixar de estar interditado, bastaria matar-me, é assim, estaria livre disso que me interdita. Mas o que me interdita, isto é, meu corpo, é a única chance que eu tenho também de manter-me viva. Portanto o que está em jogo aqui é: conseguir me matar, e ainda assim permanecer viva para continuar sempre morrendo.

15. É isso o que vejo rubens fazer a cada desenho. É um modo que ele arranja de se matar, de se transgredir, de arrancar pra fora o que o impede , o que o interrompe de existir, e ainda assim estar vivo para contar a sua história -

16. O que resta de auschwitz - o testemunho do muçulmano

17. “Se tudo é vivo, não é porque tudo é orgânico e organizado, mas, ao contrário, porque o organismo é um desvio da vida” — Deleuze e Guatarri

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4. Vivemos um tempo onde somos muito controladores também seria o mesmo que dizer: realmente vivemos um tempo onde não existe o outro para nós. Somos muito ensimesmados.

5. Diferença entre ter uma opinião sobre algo e realmente agir dessa forma

6. Diferença entre uma opinião e uma visão de mundo

7. Uma opinião é mental - enquanto uma visão de mundo me parece muito mais violento, uma construção na própria estrutura do corpo, do seu tempo, do espaço, da sua própria vida, do dia a dia, uma visão de mundo cria-se ao longo do uma vida, enquanto uma opinião é algo puramente mental, intelectual, que não ter implicação real na vida do sujeito, uma opinião não te cobra coisas, enquanto uma visão de mundo acaba cobrando, o próprio corpo, afetado pela construção de uma visão de mundo, te cobra coisas. Ou seja: construir uma visão de mundo é de certa forma construir um sem liberdade para si mesmo - é um sacrifício de si, é um abandono de poder ter uma opinião. Aquele que tem uma visão de mundo - ou poderia colocar aqui, aquele que construiu um corpo - , não tem opiniões.

8. Relação de não ter opiniões com o corpo sem órgãos - Deleuze

9. Estudo do bataille : transgredir o interdito não tem nada a ver com o que pensamos enquanto transgressão - ou pelo menos como eu estava pensando. Tem muito a ver com a história do controle e descontrole. Por exemplo, a violência que o bataille comenta também não tem em absoluto nada a ver com a “violência animal” - com a violência como fúria reativa. A violência da transgressão não tem nada a ver com ser reativo a algo. Parece ser mais uma violência que tem muito cálculo, uma violência de quem se sabe prisioneiro do interdito. Uma violência que ao mesmo tempo sabe que o interdito é a única coisa que o mantém vivo - ainda que também seja a coisa que o limita. É um jogo muito bonito, uma economia muito sofisticada. Não há transgressão se não há interdito. Poderia fazer uma analogia com o controle: não há descontrole se não há controle. Portanto, o descontrole não é uma negação do controle, senão uma compensação, uma economia, uma dialética. Não é excludente. A violência não é O animal, por exemplo, não é livre por ele não ter interdito, o animal simplesmente não é livre já que ele não possui algo que o impossibilita de liberdade. A ideia de liberdade só existe pois há uma ideia de prisão. Portanto não há como um ser só “livre”. Ou colocando em outros termos, em termos duchampianos, “não há solução pois não há problema”. O que está sendo dito aqui é que: o problema (o que nos impede, a nossa insuficiência) é justamente o que permite, o que urge, para que a solução exista (uma transgressão da impossibilidade, o gato) - mas a solução nunca poderia existir se não houvesse o problema. Nossa condição é essa ! Isso abre um espaço gigantesco dentro de mim ! O que eu infiro disso tudo é que: os problemas que se apresentam para mim podem ser justamente o que vai me salvar - os problemas são o caminho para a construção. Os impedimentos existem para que exista também as saídas. O que essa dialética toda também apresenta é que: não existe um cenário ideal ! Não existe uma ideia de perfeição ! Sempre haverá a insuficiência, ou ainda, é da insuficiência que eu vou falar. E também para eu realmente chegar na insuficiência tenho que esgotar meus recursos ! E esgotar meus recursos também parte de ver hoje quão poucos recursos eu tenho (portanto, quão insuficiente ainda sou - e ver isso não pode ser um impedimento para eu continuar ! Pelo contrário, tem que ser um estímulo para eu continuar cavando por mais recursos!).

Tirando algumas coisas da cabeça

Anna israel

17 de abril 2021

Sábado

 

 

1. Fala de rés pra mim nessa última quarta feira sobre o trabalho - o modo como ele me ajudou com o desenho foi ao não me ajudar no desenho. Na verdade, ele foi cirúrgico como mestre: o único modo como ele pode me ajudar nessa altura do campeonato foi falando pra mim seguir pro próximo. Na verdade, o desenho não tem a ver com o desenho, o mestre ouve o que está por trás do que nós mesmos pensamos estarmos perguntando. Há uma camada da pergunta que diz respeito ao desenho, mas há uma outra camada da pergunta que realmente não tem a ver com o desenho. Na verdade, enquanto eu seguir achando que a pergunta é sobre o desenho, eu nunca vou conseguir seguir em frente com o próprio desenho inclusive ! Se eu continuar achando que a pergunta é sobre o desenho, vou me relacionar com o desenho sempre em sua camada superficial, vou acabar sempre me relacionando com a superfície de algo, com a superfície de mim mesma, com a superfície do meu desejo.

2. De onde vem essa vontade tão grande de querer acertar ? Por que somos assim ? Por que é tão difícil investigar ? Trocar a palavra acerto por investigação. Por que querer acertar no desenho ? Ao invés de experimentar no desenho ? Acertar com o outro, ao invés de se relacionar com o outro ? Acertar num prato, ao invés de cozinhar ? Por que impusemos a ideia de acerto às coisas que fazemos ? Por que não somente nos deixar sermos levados pela coisa ? Se relacionar mesmo com a coisa ? Quem disse que desenho tem a ver com o que eu penso de desenho ? Inclusive para julgar o que eu penso ser um acerto ? Quem disso que escultura tem a ver com o que eu quero acertar na escultura ? Quem disse que texto é ter uma ideia do que eu quero dizer é depois colocá-la no papel ? Idem para pedagogia. Idem para gastronomia. Idem inclusive para as nossas relações. Que arrogância pensarmos que já sabemos das coisas e agirmos de acordo com uma projeção do que pensamos ser o modo correto de agir com aquela coisa. Claro que existe uma outra questão que não se exclui aqui que é a técnica, mas técnica não tem nada a ver com acerto , o acerto em questão aqui tem a ver com alguma outra coisa, tem a ver com uma carência, tem a ver mesmo com uma loucura absurda !

3. A respeito disso então me lembro da conversa que tive com rés outro dia - perguntei para ele sobre o descontrole. Como sou controladora. Como somos no geral controladores, queremos controlar. O que é mesmo essa vontade de controlar ? Realmente não é uma vontade, é quase que uma epistemologia cognitiva, o controle na nossa vida parece mesmo como uma instalação no nosso próprio ser , um mecanismo de ser do qual estamos presos. Rés me mostrou que o que é descontrole para mim não tem nada a ver com o que é descontrole para ele. Descontrole não é o oposto do controle - eu associei o descontrole (no meu caso) a uma “bagunça”.Para rés, o descontrole só existe quando, diferente do modo como eu estava querendo (muito sintomaticamente) enxergar, quando não há mais recursos, quando todos os seus recursos são esgotados, talvez ainda, o descontrole tem muito a ver com técnica - quando toda técnica já foi utilizada, então um outro território emerge para a ação. Nesse caso, quando rubens diz que sou controladora, ele não está dizendo para eu estar mais no descontrole (como eu pensava) - isso não faz sentido nenhum dentro inclusive do que ele esboçou -, mas simplesmente está dizendo para eu abrir mão um pouco do meu controle, abrir mão de querer acertar, abrir mão de uma déspota dentro de mim querendo me pôr à prova, abrir mão do controle tem a ver com experimentar, com errar, com me permitir me seduzir, com se envolver mais com a coisa e menos com a minha loucura, se envolver mais com a coisa e menos comigo mesma (isto é, meu projeto ou projeção da coisa).

Inquérito sobre o fazer

Escrito da madrugada

06 de maio de 2021

Anna Israel

 

O que fazer com a energia tão violenta que existe dentro de mim?

Vontade de engolir o mundo

De sair pelos cantos gritando

De devorar minha própria fala

Que linguagem é essa que brota de mim mas que não tenho palavras ainda para proferir ?

Independente do que seja o display, seja fala, seja texto, seja escultura, desenho, coleção, seja uma aula, poesia, um prato bem feito de frango, meu Deus ! Como vou devorar o mundo então com essa ânsia antes que ela me devore ?

Um deslumbramento absoluto com a vida - um encantamento profundo, o que fazer com isso? Como dizer isso? Dizer ISSO que na verdade sou eu tomada por isso, é a revelação disso sobre mim, no meu corpo, me desvelando para mim mesma e me apresentando sempre um mim que me espanta, me gera medo, angústia, vontade de desistir tamanho peso dISSO sobre meu corpinho - um corpão suplicando para que se arranje subsídios para estofar esse corpinho ainda perdido diante dessa coisa. Um corpão se revela e pede para ser construído a qualquer custo no mundo , da forma que for, errando, sujando, desajeitando, o que seja - estou começando a saber que se eu não desajeitar, é ele que vai me desajeitar.

Um encantamento profundo com o moço passando em minha frente com lábios bem carnudos e pele tão escura que mal o vejo; o adolescente tirando um pedaço gigante de carne nas costas de uma van refrigerada ; a bunda empinada da moça que cruza a minha vista no trânsito, o rapaz de olhou para mim de dentro do ônibus - quem é ele ? O que ele sente ? Como sente dor ? Como sente paixão ? Quais suas memórias de infância ? Pra onde ele vai ? E agora enquanto escrevo, o que está ele fazendo ?

Meu Deus o que fazer com isso?

Transformar isso em alguma coisa para fora de mim antes que eu mesma seja a coisa o fora de mim transformada por essa fome !

Hoje sonhei com fazer

Fazer qualquer coisa !

Não importa o que !

Mas fazer para arranjar um display que seja para poder comer, devorar a vida que existe dentro de mim !

É uma fome brutal !

Uma voracidade tremenda !

Vontade de arrancar a pele do corpo

Tiro um cochilo de tarde e acordo sem entender que horas são, que dia estamos, onde estou, que lugar é esse, que corpo é esse, o que é isso que sou e isso que está acontecendo na própria experiência de poder me perguntar o que acontece . Me sinto como uma estranha em meu próprio corpo, qual o sentido dessa vida ? O que é isso mesmo? De repente essa pergunta estupida é assaltada por essa voracidade - a pergunta então perde o sentido, a pergunta vem de um lugar mental, vem de um lugar tentando encontrar um chão para pisar, a pergunta vem da vontade de me corporificar como um ser humano, ser civilizado, que pergunta, que faz, que tem dúvidas, que trabalha, ganha o dinheirinho, vai pra casa, debate com os colegas, puta que pariu ! Eu não quero essa vida ! Isso tudo me parece mais como um display que inventei , inventamos, para tentar lidar com a minha voracidade tremenda que ainda não encontrei ainda um nome melhor para chamá-la.

Qual o sentido da vida ? Essa pergunta me parece a resposta ou a articulação equivocada ao sentimento que antecede a pergunta . O sentimento que antecede a pergunta pede ação ! Pede trabalho, movimento, energia, calor ! A voracidade que antecede a pergunta pede desesperadamente a invenção de um display condizente com ela para existir - um display que não a reprima, um display que não a transforme em meu sangue pisado ! Que porra de pergunta é essa ?!

Talvez

O grande problema com a arte no nosso tempo - e aqui quando digo a arte , também me incluo no problema, estou aqui acusando ninguém ! Estou pelo contrário, tentando colocar um pouquinho de luz sob minha própria espécie -, os motivos criados que sustentam a produção me parecem ser motivos ainda da superfície , reconhecimento, fama, o nome próprio do artista, do poeta, do escritor, do colecionador, mas meu Deus, e a volição ! Meu Deus e a pulsão ! O tesao ! A angústia ! O calor ! A fala engasgada ! O nó na garganta ! O corpo gelando de repente e em seguida a cabeça fervendo ! Para onde vão esses todos ? Não posso mais me sentir covarde em relação as falas que deixo de dizer com medo de errar mas que ficam engasgadas, como mais um sangue pisado ! Falas engasgadas - uma vida engasgada. Engasgam em nome de que ? Quem foi que disse que elas precisam ficar dentro de mim ! Maldita vontade de fazer certo ! Fazer bonito ! Fazer bem feito ! Antes de fazer bem feito preciso do feito ! Do feito inclusive para entrar no embate, entrar no jogo , sair da prisão de ventre, da coisa engasgada que não quer sair, só sair, só por pra fora, existir como coisa real para fora de mim e não mais se incendiando para dentro de mim ! Esse incêndio é o meu erro, e é desse erro que então preciso motivar a minha ação.

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Um novo conceito de Galeria de Arte

 

"Sobre ser colecionadora de RES:

Colecionar sua obra é uma forma de recordação, de colocar em reunião novas coerências que estabelecem para mim um espaço de infinitas possibilidades nesse corpo intermediário que cria-se nessa relação ostensiva entra o interno e o externo. Nessa relação, Rubens entrega-se a ser somente um suporte, um suporte de algo que necessita existir, não a partir dele, mas junto dele, nessa conjuntura, nova conjuntura. Colecionar se torna para mim uma forma de recordação de um esquecimento muitíssimo remoto, um esquecimento que não adquire sua foram de outra maneira, não se transforma em recordação, mas a coleção possibilita que o próprio sujeito "esquecimento" se apareça na sua mesmíssima forma, em seu vazio, sua nulidade, em sua ausência de resposta, o esquecimento se apresenta como uma pergunta fundamental."

Anna Israel, Passagens de Anna Israel sobre

a obra de Rubens Espírito Santo, 2017

Pensamentos sobre a produção —

Após estudo Genealogia da Moral de Nietzsche

 

Anna Israel

20 fevereiro 2021

  1. Vaidade

  2. Carência

  3. Reconhecimento

  4. Ansiedade

  5. Expectativa

  6. Projeção

  7. O outro

  8. Minha dor

  9. Energia

  10. Volição

  11. Potência

  12. Vontade

  13. A vontade de ser alguma coisinha

  14. A vontade de criar alguma coisinha que me parece relevante

  15. Mas também a vontade de abrir mão disso tudo

  16. Vontade de furar esse sistema

  17. Vontade de descobrir o que tem do outro lado desse sistema, desse comportamento, dessa cadeia de regras tão rígidas que algo em mim inventou para existir .

  18. Vontade de descobrir mesmo o que mais eu sou para além do que eu sei de mim

  19. O que mais eu posso ser para além do que me contaram

  20. Quais os limites do meu corpo ? Para onde posso ir com próprio corpo ?

  21. Energia - energia de uma pessoa, energia de um lugar, energia pesada, energia leve, de onde mesmo percebemos isso ? Qual o órgão que detecta esse tipo de linguagem ? Qual meu instrumento de leitura para essa linguagem da energia ?

  22. Psicossomática

  23. Paixão - amor profundo - amor , o mesmo é isso ? Como dizer isso ? Como articular isso no mundo ?

  24. Cisão do que eu penso e do que sou mesmo capaz de fazer — aporia entre dois mundos, um mundo ideológico e um mundo psíquico / ser o que eu penso ? Como suturar a minhas ações no mundo de modo que elas estejam alinhadas com o que eu digo acreditar ? Construção de um novo espaço

  25. Manobras

  26. Ver o jogo, ver as peças todas do jogo, e não somente um lance , não somente o meu lance. Ver o outro, ver movimentos futuros

  27. Na verdade, estou compreendendo que não se produz arte. Não se faz arte em algumas horas, não tem como você impor um querer seu à um material, a um fazer, para se fazer arte . Fazer arte me parece, na verdade é uma negociação com várias leis , de modo que um dia arte possa de fato nascer de um fazer. Nem sei mesmo se faz sentido a construção da frase “fazer arte”, talvez arte se faça mesmo, depois de trabalhar muito, depois de um investimento espiritual doloroso, como um tropeço no meio de uma saga, e enfim você levanta do tropeço e se dá conta do novo espaço que você agora está.

  28. Sinto que é como se por muito tempo, vou me desaprendendo a agir de uma forma, terei de ir insistindo a abrir mão da minha carência, da minha vontade de acertar, da minha expectativa, da minha megalomania, e só fazer. E a cada vez, ir aprendendo com esse fazer — a demanda do fazer é o próprio fazer, não pode ser outra. Talvez ai é que a coisa fica difícil, reconstruir uma demanda para que ela não seja só uma vontade de tampar um buraco, de obter respostas , de obter reconhecimento, de chegar em algum lugar, de me projetar para fora de mim; mas a demanda ser a própria vontade de cavar esse novo espaço de existência, a demanda enquanto cavar um lugar desconhecido, sem garantia, sem resposta, sem reconhecimento, escavar um sítio ainda desterritorializado de mim mesma.

  29. Com o tempo, ao insistir nesse modo muito violento de me relacionar comigo mesma através desse artifício externo, seja ele qualquer coisa, ou melhor, ao de fato me permitir relacionar com alguma coisa outra, que não seja eu, talvez eu comece a criar um espaço , um território interno e externo que possa começar a se configurar como um território da arte — mas a palavra arte aqui na verdade, pouco importa ! Que mané arte, que mané “território da arte”, isso já mostra como há uma vontade de de construir algo que já tenha um nome, uma projeção, uma forma definida. O que estou tentando dizer aqui justamente tem nada a ver com isso, com uma projeção, com nomes próprios, vou reformular a frase acima: ao de fato permitir-me uma relação com alguma coisa outra, que não seja eu, talvez eu comece a criar um espaço , um território interno e externo que possa começar a se configurar como um território enfim autêntico de mim mesma, uma morada, talvez eu consiga enfim dilatar esse espaço que quer a todo custo se fechar em mim, dilatar minha ferida, e viver a partir dela, não querer escondê-la, não querer mascara-la, não querer maquia-la, dissimular-me, mas faz com que o próprio ardor da ferida seja o meu ponto de partida. O ponto de onde tenho que partir para atravessar um lugar já sabido de mim, para atravessar esse terreno enfadonho de mim.

30. Por isso, fica muito óbvio que arte , que o caminho da arte está diretamente relacionado com um caminho espiritual. O caminho da arte é mesmo uma forma de ficcionar um novo território, uma nova linguagem para poder existir. Faz muito sentido Nietzsche relacionar arte com a embriaguez, já que ela seria um estado de suspensão da verdade, um estado sem expectativa, um estado à deriva, um estado onde o sujeito não mais é sujeito à um tipo de romance familiar, não mais está submetido à leis psíquicas que o conduzem pelo mundo, não mais está submetido a um modus operandi onde sua dor é o centro do mundo, onde sua locomoção por essa vida está pautada por respostas de sua dor; então está suspenso dessas leis, o caminho da arte tem a ver com um enfim respiro de uma imposição de um modo de existir.

31. O desenho é um campo ativado de bombas . Não se pode sair vivo de um desenho . Cada desenho é uma morte . Morte que impulsiona a próxima vida . Sem desenho para mim não há vida !” RES, 2021

32. Nesse sentido, a ideia de “fazer arte” é uma furada ! Não se faz arte, mas alguma outra coisa uma hora parece começar a se fazer dentro do sujeito, e sinto que a essa coisa, damos o nome de arte, e esse sujeito deixa índices desse território de ação no mundo - e ao mesmo tempo, a própria relação com esses índices (com o objeto) é também o que alimenta o motor dessa mecânica.

33. “Construção de uma rede para pescar o desenho . Onde também sou pescado . Sou Caça e caçador ao mesmo tempo . Há um objeto é um homem que marca um objeto , meu desenho põe em cheque estas leis , onde o homem é marcado pelo que está fazendo , isto é , ele mesmo é desenhado ao desenhar , na verdade ele é mais desenhado do que desenha .” — RES , 2021

34. Aquele que deseja tornar-se artista, está mesmo desejando o que ? Penso que está desejando renunciar um mundo, está renunciando um modo de ser, renunciando garantias desse mundo , aquele que quer ser artista, sinto que deseja mesmo fazer um pacto com esse sem garantia, deseja fazer um pacto com sua ferida, um pacto com sua intimidade, com aquela coisa só ele sabe que tem, e que convive diariamente, mas no final do dia, nunca sabemos ao certo o que fazer com essa coisa - coisa sem nome, coisa essa que faz a gente querer levantar da cama , para viver mais um dia, ainda que nossa desculpa por levantar da cama sejam tantas outras coisas nomeáveis, penso que na verdade não fazemos mesmo a menor ideia do que nos tira da cama para existir . Sinto que o artista que entrar nesse lugar dele mesmo, no lugar que o é diariamente mas que ele tem tão pouco conhecimento, como uma enfim sutura de partes cindidas de si.

35. Ao invés de se lamentar pelo vazio, ou de querer entupi-lo de coisas a qualquer custo, o artista quer conseguir dilatar o vazio, e descobrir o que mesmo tem nesse lugar, nesse lugar que tememos tanto encarar. O artista é sim um niilista, mas um niilista afirmado , um niilista absolutamente consciente, um niilista apaixonado pela sua condição de não ser nada, já que ser nada é a única coisa que permite ele estar disponível para ser qualquer outra coisa coisa - e ao ser conscientemente nada, o artista ficcionar um lugar para existir nesse mundão .

LIVRO MUNDO REAL

ANNA ISRAEL 2020

À VENDA

BINGO! O objetivo de arte teria que ser um objeto, um movimento, um acontecimento, uma fala, uma articulação que justamente resgata o sujeito da cama para querer começar o dia, que faz o sujeito desligar o Netflix para querer fazer algo que preste de sua vida [...]

Nesse cenário, Christophe apresenta a relação do mundo da matéria e do mundo do espírito. Através dessa não relacionabilidade, já que um é sólido e presente, ele reúne nossos estados físicos para serem visto e tocado; enquanto o outro é invisível, emocional e se prova difícil de ser definido, até com a intangibilidade das palavras.

Ambos possuem seus próprios sistemas completos que obedecem às leis de forças opostas. Ao colocar a matéria e o espírito lado à lado, em sintaxe, de maneira totalmente contraditória, Christophe sugeriu que esses mundos são inseparáveis. Em que situação é possível a coexistência de espírito e matéria? Eu presenciei um ser humano hackeando o mundo do espírito, a serviço da arte, para converter a matéria em coisas de investigação superior. Observando deste modo, a arte se expandiu para fora de sua própria forma, apresentando-se para mim então como uma existência em que seu próprio fundamente de ser arte (ou em que o próprio fazer arte) é a tentativa de alcançar algo para além das muralhas do mundo físico. Este espaço onde a arte existe me parece um espaço de um mundo “alegórico”, um mundo do qual já se tem falado muito, mas raramente é ou foi encontrado. Dizem ser a aporia entre os mundos da matéria e do espírito, onde as leis de ambos são como serpentes sem pernas dançando, aguardando pelo soar do sino da arte para poder revelar a matéria e espírito como uma existência de dupla natureza. 

Quando a mente vive no mundo da sobrevivência, da não-arte, leva-se muito tempo para compreender o espírito na matéria. Já que o funcionamento da lei que profere que “aqueles que têm, terão mais; e aqueles que não têm, terão menos”, é compreendido por todos como uma grande antítese de liberdade e mobilidade.

E somente no mais profundo pessimismo sobre a humanidade que isso poderia se concretizar. Mas, ao meditar sobre nosso tempo, eu então me dou conta de sua profunda plausibilidade, e esse tempo seria uma pista para a minha compreensão. Assim, podemos imaginar um grande pote dourado no céu, contendo uma provisão de calor. A quantidade de calor sucumbe à primeira lei da física, ela é fixa, natural, ela não vai se reproduzir a si mesma. Rodopiando para baixo em nosso solo terrestre, o calor se espalha, como raios solares, penetrando nestes corpos mais limpos e afastando-se daqueles que possuem um bloqueio. O calor aqui é a matéria viva sobre a qual a “espiritualidade” e a “riqueza material” são medidas. 

 

É comum no Ocidente se referir ao fluxo de calor como canais que conectam entidades através do tempo e do espaço. Se você se encontrar em uma maré de má sorte, vale a pena consultar os santos ou uma boa benzedeira. 

Agora, imagine essas marés de má sorte em níveis de classe social, imagine-as maiores ainda em “níveis culturais”. Há costumes “xamânicos” coreanos que realizam cerimonias para libertar os caminhos de passagem espiritual em indivíduos e famílias para dar passagem; para liberar estas energias, homenageando seus ancestrais – espíritos evocados de outra dimensão à favorecerem os processos mecânicos deste mundo.

 

Pensamentos após “Talento – Sobre a Antipedagogia de Rubens Espírito Santo”

Mensagem para Christophe

 

Isul Kim 12.01.2021

 

Texto refeito em português por RES, através da tradução de Anna Israel

16.01.2021

Revisão por CCS

Poderia começar com uma passagem do texto de Christophe Kotanyi que configura o cenário em que RES existe?

 

“Já que o mundo material deve ser regido pela ‘lei de conservação de matéria e energia’, a primeira lei da física moderna: se você adquire algo em algum lugar, você deve retirá-lo de algum outro lugar. Mas o mundo espiritual é regido por uma lei oposta: aqueles que têm, terão mais; aqueles que não têm, terão menos.”

Aqui encontra-se um ritual meticuloso, com uma cerimônia extravagante em um altar das mais vibrantes frutas e bolos e porções generosas do licor de mais alto nível sendo servido no cálice vazio do convidado ausente. A opulência e profanidade ardem em mim como um suborno aos espíritos para “por favor, darem um jeito nisto”. Sem isso, alguns pensam que o destino é um caso perdido. Mas com isto, nós descobrimos um ritual, uma invenção, uma ação artística, um hacker humano para saquear o mundo do espírito em prol do nosso mundo terrestre.  

Então quais seriam outras invenções disruptivas dos sistemas de energia? Invenções que introduzem um canal entre o mundo da matéria e o mundo do espírito? Talvez valha consultar RES ou assisti-lo durante sua sessão de sexta, onde sua violência brutal e profanidade o conduz para o centro de uma força magnética própria. 

Como um trabalho de arte se apresenta para expor o seu próprio processo de criação? Poderiam ser os detalhes, as horas de desenho técnico, que foram atropeladas em seguida pelo branco, e depois lavado em álcool e incinerado com fogo, erros e mais erros e erros intencionais deram ao trabalho em particular uma “fatura” onde as pegadas do artista poderiam ser rastreadas. O processo tinha muito a ver com uma brincadeira sem pensamento, é um assombro como o produto final não é somente um monte de lixo no chão. Mas mesmo assim, um monte de matéria sem sentido reunida em um fardo humano e emocional. Assim como as esculturas de água de “Masaru Emoto”, será possível que algo da intencionalidade do artista tenha vazado para o trabalho?

Então, o que é o artista?

 

O artista deve ser um narcisista – Christophe falou sobre a urgência de meios para a sobrevivência do artista no tempo presente. Acredito que eu tenha medo de ver o mundo como uma narcisista, até mesmo por um instante, pois temo que as exigências disto me prendam ao mundo físico. Quiçá isto ainda não me concerna já que sou jovem, como jovem artista procurando recursos para viabilizar meus projetos. Mas acredito que se encontra aqui, pelos passeios solitários labirínticos do pensamento onde o talento é encontrado. O tipo de talento que Christophe fala; a capacidade de se ver feridas no mundo e não enlouquecer. A questão seria identificar estas feridas e negar a nós mesmos fechá-las. Mas ampará-las em seus lados, abrir a ferida, fazer a ferida visível, deixar a ferida para os outros se ferirem. Já que quinze corpos cercando um espaço contêm maior capacidade de um corpo somente dentro dele. O Atelier do Rubens é uma organização onde o espaço físico reúne corpos com feridas abertas, e a partir das leis do mundo espiritual: ferida atrai ferida, e RES orquestra o hackeamento colecionando as feridas físicas de jovens volições artísticas, para suprir a ferida de um sistema maior. A mecânica da força é abastecida. 

Antes que eu seja ilegitimada por mera especulação, é importante voltar para a ferida. É melhor que ela seja compreendida na própria pele. É essencial que se tenha ela para se começar qualquer coisa. Vou me reportar à passagem de seu texto onde cita o niilismo de Nietzsche:

 

“O niilismo é quando você “não” vê o mundo como ele é, mas como deveria ser. Deveria ser maravilhoso, mas não é. Então, não deveria ser. Esta é a fórmula de todo niilismo.”

 

Devo admitir, eu não li Nietzsche. Pego atalhos na literatura. Estou em dívida. Mas como já estou endividada, vou aventurar-me em uma falsa premissa. Em sua noção de expectativa-real, o reconhecimento das contradições, Nietzsche intuía que ele estava esbarrando em algo grande. 

O niilismo então se tornou a perspectiva moderna, não? Uma linguagem comum, vazando das galerias de arte e cafés modernistas do século 20. Penso especificamente no “Cafe de Flore” e os pensadores existencialistas que despiam nossa ilusão para expor a vida como nada. Mas esse nada é uma liberdade absoluta, e com essa liberdade nós continuamos a moldar uma visão verdadeiramente crítica em uma sociedade que vemos manifestações artísticas nas ruas, na internet, feitas e encontradas em qualquer lugar, acessíveis. Mas para onde isso tudo está indo?

Talvez a ferida seja como fogo. Nós usamos diferentes ferramentas para inflamá-lo. O calor te embriaga. O artista reconhece o fogo como uma coisa crucial, e constrói uma arena em volta dele, o eleva, o cerca com dançarinos cerimoniais que atiram seus corpos em volta de mais corpos no chão, comendo terra. Arte é brincar com fogo. Ela induz o fogo a queimar. A arte tem um grande potencial em sobreviver através da história em imagens e em livros, já que ela foi o fogo que ardeu. Mas quando o fogo é destrutivo, quem faz o papel de apagá-lo?

RES não apaga o fogo. Ele joga combustível no fogo. Ele planta faces em suas próprias contradições imundas. Sem reconhecer a ferida, não há espaço para locomoção. E através de feridas, é melhor sair correndo. 

Mais uma vez, penso em Nietzsche, que fala comigo através de inferências. Se o niilismo é ver o mundo em suas insuficiências, e um artista deve criar espaços para observá-lo, então seu oposto deve buscar criar espaços negativos para que novos parâmetros existam – como uma criança, criando à vontade. Um arquétipo tão profundo que financiou as fantasias do Terceiro Reich, a criança do Nietzsche ou o “Übermensch” representa a figura de poder superior, o criador, o mestre, aquele que supre as feridas. E quem constrói uma persona da criança, e do “Übermensch” melhor que Rubens Espírito Santo, que por nenhuma coincidência, como o “espírito santo”, ele nasceu. 

 

Já que a própria religião é uma construção humana, uma tecnologia artificial para compensar as feridas da humanidade. E se eu puder insistir, uma profunda manobra artística. O maior “hack” humano para dentro do mundo do espírito. Esta manobra, diante da carência espiritual da humanidade, percorreu pelo tempo e espaço e coletivamente criou artefatos: igrejas, templos, terreiros, profissões, símbolos, rituais, sistemas de ordem, histórias de cem anos atrás, histórias que extrapolam nossa realidade física. Através disso tudo, nada é respondido. Esta própria vulnerabilidade de palavras do espírito pode supor a indefinibilidade da arte, e volta a RES, cujas pinturas e poesia podem ser vistas como artefatos da invisibilidade maior do Atelier, um espaço que gira em torno de uma força magnética própria.

 

E para concluir em coro

O Artista é um hacker

O Artista é um colecionador

O Artista é um niilista

O Artista é uma criança

O que eu mais invejo, a criança, por seu ser livre; estado corrente suspenso de julgamento. A epoché, RES gentilmente afirmou, talvez esteja tão profundamente enraizada dentro do ser que, até em ausência absoluta de pensamento, nossas intenções primordiais são conservadas. Na “epoché”, o artista deve ser um narcisista. Pois é o trabalho mais honesto do artista.

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In this scene, you pose the relationship of the material world and spirit world. Through its very non-relatability, for one is solid and present, it gathers our physical states to see and touch it; while the other is invisible, emotional and proves to be difficult to define even with the intangibility of words. Both are their own complete systems that abide to rules of opposing forces. By placing material and spirit side-by side, in syntax, in its absolute contradiction, you suggested the very inseparability of these two worlds. 

Within which context is the co-existence of matter and spirit apparent? I have witnessed a human hacking into the spirit world, in the name of art, to transverse matter into things of higher investigation. Observing this, art expanded out of its form to reveal itself to me as an existence for the very action is an attempt to reach beyond our physical borders. This space where art exists sounds of an allegorical world, spoken of but rarely found. It is said to be the space between the worlds of matter and spirit, where the laws of each - like legless serpents in dance, await the chime of artistry to expose matter and spirit as an existence of dual-nature. 

When the mind lives in the world of necessity, of non-art, it takes great lengths to comprehend the spirit in matter. For the workings of the law that states; those who have will get more, and those who don’t will get less, is the great antithesis of freedom and mobility for all. And only in the depths of a curse upon humanity that this be true. But as I ponder this very implausible law, do I realise its very plausibility, and that time is the clue to my understanding. For instance, it helps to imagine a big golden pot up in the clouds, containing reserve energy. The amount of energy abides by the first law of physics, it is fixed, it is natural, it will not clone itself. Swirling down onto our earthly terrain the energy spreads, very much like the rays of the sun, absorbing into those bodies with clearance and repelling off those that hold a blockage. The energy here is the living matter upon which spirituality and material wealth are measured. 

It is common in the East to address energy flow as channels that connect entities beyond time and space. That, if you find yourself in a cycle of bad luck, it is worth consulting your ancestors. Now, imagine these cycles of bad luck on a class level, and then imagine it bigger on a cultural

level. Korean shamanic customs hold forth ceremonies to clear spiritual passage rights in individuals and families to give clearance to these energies by raising tribute to their ancestors - spirits deemed to exist in the dimension of these other-worldly workings. A meticulous ritual is involved here with an extravagant spread on an altar presenting the most vibrant fruits and cakes and generous portions of top shelf liquor poured into the empty cup of the deceased guest. Its opulence and profanity allures to me as bribery to the spirits to ’please go put matters straight’. Without it, some believe destiny is a hopeless case. But with it do we discover a ritual, an invention, an artistic action and much like a human hack, to reach the spirit world from our earthly terrain. 

So what other inventions are there to disrupt energy systems? To puncture a channel between the material world and spirit world? Perhaps it’s worth consulting RES or to watch him during a Sexta drawing session where his brute violence and profanity draws him in the center of a magnetic force of its own kind. 

How does an artwork stand to show the process of its creation? It could be the details, the hours of fine sketch, painted over in white, then again, washed in alcohol and set alit, errors and more errors and intentional errors gave one particular work a volume where the artist’s movements could be decoded.

Thoughts following ‘’Talent – On Rubens Espírito Santo‘s Anti-Pedagogy’’ Message to Christophe

Isul Kim - 12.01.2021 

Then what is the artist? 

The artist must be a narcissist - You spoke of the artist’s key to survival in the modern day. I believe I am intimidated to see the world as a narcissist, not even for a glance, for I fear the necessity that enforces it will nail me to the physical world. Perhaps this is not yet of my concern as my interest is young, much like a young artist finding privacy for the support of their individual facilitations. But I do believe it is here, in the lonely meanderings of thought that talent is found. The kind of talent you speak of; the ability to see gaps in the world and not turn crazy in the sensitivity to it. It is to identify gaps and to deny ourselves the possession of it. But to grab it on its sides, to open the gap, to make the gap visible, to leave a gap for others to participate. For fifteen bodies forming a shape in space contains greater capacity than one body standing inside it. RES’ atelier is one such organisation where the physical space collects bodies which themselves contain gaps, where by the laws of the spirit world; gaps attract gaps, and RES orchestrates the hack by hoarding the physical gaps of young artistic intentions, to fill the gaps of a greater system. The mechanics of the force is fuelled. 

Before I am ruled out for speculation, it is important to return to said gap. One should better understand it for one’s self. It is essential that one has it to start anything. I would refer to the passage from your text on Nietzsche’s nihilism:

‘’Nihilism is when you don’t see the world as it is, but as it ought to be. It ought to be beautiful, but it isn’t. So it should not be. This is the formula of all nihilism.’’ 

I must admit, I have not read Nietzche. I am a literature short-cut. I am in debt. But as I am already in debt I will risk a false assumption. In its very notion of expectation-reality, the recognition of contradictions, Nietzche knew he was tapping into something big. Nihilism has become the modern-day perspective, isn’t it not? A language turned common, growing out of art galleries and modernist cafes of the 20th century. Mainly I’m thinking Cafe de Flore and their existentialist thinkers who stripped back the illusion to expose life as nothing. But that nothing is absolute freedom and with this freedom we continue to shape an inherently critical view on society that we see artistic manifestations on the streets, on the internet, made and found, everywhere, and accessible. But where is this all going? 

Perhaps the gap is like the fire. We use different tools to ignite it. The energy allures our attention. The artist recognises the fire to be a crucial thing and builds a podium around it, elevates it, encircles it with performative dancers throwing their limbs around more bodies on the floor, eating soil. Art is playing with fire. It persuades the fire to burn. It has a great potential to resonate throughout history in pictures and books, for it was the fire that burnt. But when the fire is destructive, whose role is to then extinguish it? RES does not extinguish the fire, he ignites it. He plants faces into their own dirty contradictions. Without recognising the gap, there is no room to move. And through gaps one is made to run. 

 

May I begin with a passage from your text that sets the scene where RES exists? 

‘’Because the material world may be ruled by the ‘’law of conservation of matter and energy’’, the first law of modern physics: if you gain something at some place, you must take it from somewhere else. But the world of spirit is ruled by the opposite law: those who have will get more, those who don’t will get less.’’ 

The process was much like thoughtless play; it is a wonder the final product isn’t a heap of trash on the floor. But nonetheless, a heap of purposeless matter pulled together in a composition that gestures something human and emotional. Like Masaru Emoto’s water sculptures, could it be that something of the artist’s intentionality has been shed into the work? 

Then what is the artist? 

The artist must be a narcissist - You spoke of the artist’s key to survival in the modern day. I believe I am intimidated to see the world as a narcissist, not even for a glance, for I fear the necessity that enforces it will nail me to the physical world. Perhaps this is not yet of my concern as my interest is young, much like a young artist finding privacy for the support of their individual facilitations. But I do believe it is here, in the lonely meanderings of thought that talent is found. The kind of talent you speak of; the ability to see gaps in the world and not turn crazy in the sensitivity to it. It is to identify gaps and to deny ourselves the possession of it. But to grab it on its sides, to open the gap, to make the gap visible, to leave a gap for others to participate. For fifteen bodies forming a shape in space contains greater capacity than one body standing inside it. RES’ atelier is one such organisation where the physical space collects bodies which themselves contain gaps, where by the laws of the spirit world; gaps attract gaps, and RES orchestrates the hack by hoarding the physical gaps of young artistic intentions, to fill the gaps of a greater system. The mechanics of the force is fuelled. 

Before I am ruled out for speculation, it is important to return to said gap. One should better understand it for one’s self. It is essential that one has it to start anything. I would refer to the passage from your text on Nietzsche’s nihilism:

‘’Nihilism is when you don’t see the world as it is, but as it ought to be. It ought to be beautiful, but it isn’t. So it should not be. This is the formula of all nihilism.’’ 

I must admit, I have not read Nietzche. I am a literature short-cut. I am in debt. But as I am already in debt I will risk a false assumption. In its very notion of expectation-reality, the recognition of contradictions, Nietzche knew he was tapping into something big. Nihilism has become the modern-day perspective, isn’t it not? A language turned common, growing out of art galleries and modernist cafes of the 20th century. Mainly I’m thinking Cafe de Flore and their existentialist thinkers who stripped back the illusion to expose life as nothing. But that nothing is absolute freedom and with this freedom we continue to shape an inherently critical view on society that we see artistic manifestations on the streets, on the internet, made and found, everywhere, and accessible. But where is this all going? 

Perhaps the gap is like the fire. We use different tools to ignite it. The energy allures our attention. The artist recognises the fire to be a crucial thing and builds a podium around it, elevates it, encircles it with performative dancers throwing their limbs around more bodies on the floor, eating soil. Art is playing with fire. It persuades the fire to burn. It has a great potential to resonate throughout history in pictures and books, for it was the fire that burnt. But when the fire is destructive, whose role is to then extinguish it? RES does not extinguish the fire, he ignites it. He plants faces into their own dirty contradictions. Without recognising the gap, there is no room to move. And through gaps one is made to run. 

So what other inventions are there to disrupt energy systems? To puncture a channel between the material world and spirit world? Perhaps it’s worth consulting RES or to watch him during a Sexta drawing session where his brute violence and profanity draws him in the center of a magnetic force of its own kind. 

How does an artwork stand to show the process of its creation? It could be the details, the hours of fine sketch, painted over in white, then again, washed in alcohol and set alit, errors and more errors and intentional errors gave one particular work a volume where the artist’s movements could be decoded. The process was much like thoughtless play; it is a wonder the final product isn’t a heap of trash on the floor. But nonetheless, a heap of purposeless matter pulled together in a composition that gestures something human and emotional. Like Masaru Emoto’s water sculptures, could it be that something of the artist’s intentionality has been shed into the work? 

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Tentando falar uma coisinha sobre os últimos textos-acontecimentos de RES

4 DE JANEIRO DE 2021

Tem um tipo de poema do Rubens, como também um desenho, que eu fico muito impressionada o quanto eles parecem estar em movimento / eu digo que são cinematográficos por falta de palavra melhor, mas são cinematográficos não por RES descrever imagens, mas por ele ser capaz de ir lá longe dentro das imagens que são ocultas para nós, as imagens do nosso imaginário.

Me toca muito profundamente.

Sinto uma vontade de ficar voltando ao texto, voltando ao espaço que ele aciona, a essa espaço ascendido dentro de mim - acendido e ascendido, já que ao algo ser acendido, ao mesmo tempo, também sou ascendida para outro patamar da carreira de mim, subo em retrocesso e volto a sentir o vestígio de uma vida constantemente me foge, uma vida que o tempo todo me desliza por entre os dedos . Talvez o que queira dizer com o cinematográfico em sua obra é que ela aciona em mim um fenômeno de perceber minha própria vida se movimentando, ela aciona imagens que estão em minha memória mas que não tenho acesso, me faz sentir saudades de um tempo que nunca soube que vivi, e ao mesmo tempo me apresenta a uma pessoa que sou eu , que estará sempre um paço a frente de mim, e por um minúsculo segundo, enquanto estou imersa no texto e nessa memória não vivida, eu e essa coisa que está sempre um lance para frente, experienciaremos o acontecimento de ser uma só, por um milésimo de segundo, encontro-me com esse outro, e imediatamente ele se vai.

Talvez essa necessidade de escrever sobre seu texto seja um modo de resgatar esse instante, é um modo de , não alcançar essa coisa, mas não ficar tão atrás na corrida, quem sabe para poder , aos poucos, ir dilatando o tempo que estarei em sua sua presença, dilatando o tempo de comunhão entre eu e esse meu outro adiante.

 

Há também também o próprio movimento de vida dentro de mim sendo acionado, sendo implicado: ao mesmo tempo que o texto me impede de reconhecê-lo como algo cognoscível por mim, ele também abre um novo cognoscível, abre esse outro espaço de compreensão que hiberna dentro de mim - e diria até que esse espaço de compreensão que hiberna e que enfim é acionado, é o meu corpo em estado de sutura, meu corpo se reorganizando de uma desordem ancestral, meu corpo acordando de um sono milenar .

Lendo esse texto percebo que Rubens não precisa mais de nenhum assunto ou motivo pra escrever : realmente , ele está no próprio assunto, a própria possibilidade de haver a palavra já é o assunto, e a palavra aqui é ambígua, ela possibilita , assim como ela encerra, ela fecha, ela interdita - e quando digo a palavra na verdade a palavra em questão é ele mesmo , é o seu próprio corpo .

O que eu acho surpreendente é isso, é não haver mais distância nenhuma entre aquele que quer escrever, aquele que escreve , e a palavra escrita - e o texto em ação, e sua agência no mundo igualmente , já que ele agenciou o estado de excitação e urgência em mim para poder me manifestar de alguma forma através deste texto, articular o dizer que explode dentro do meu corpo de algum modo através dessas palavras. É justamente sobre esse “através” que quero comentar: não há mais “através de algo” no texto de rés , não há mais essas três instâncias , não há mais aquele que escreve e o escrito, o escrito em si é o próprio que escreve pois não há escrita nenhuma, há inscrição de si mesmo no mundo, inscrição, inscritível, inscritura. Dessa forma a escrita não é nem mais um display para algo, mas a escrita se torna a própria coisa , encontrando uma maneira de se inscrever dentro do asfalto duro duro muito duro do dizer.

E você Rubens articula a palavra de tal forma que coloca a palavra (ou você, você se articula de tal forma no mundo) que já eliminou todo tipo de dispersão, de suposto assunto, de vontade de comunicação, de carência, fez uma faxina violenta nos arredores todos do dizer para poder sempre estar na jugular do seu próprio assunto.

Ou então , o assunto é uma faca tensionando sua jugular, prestes a rompê-la, e o que segura a faca de dar o golpe fatal, são esses espaços que você consegue abrir com sua escrita, com seu texto, com seu acontecimento no mundo.

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Ela levou 16 facadas no rosto na frente das filhas:

Inquérito sobre a primeira facada

Poema em 3 atos

Anna Israel

30 de dezembro 2020

O que é poesia ?

O que é fazer poesia ?

O que será fazer poesia para além da poesia ? Mas que para além é esse ? Como assim “poesia para além da poesia”?

Se há uma “para além de” algo então não me parece haver o algo. O algo tem que ser capaz de se sustentar por ele mesmo. A poesia não precisa de um “para além dela” para ser poesia ! Por pode precisar !

Não parece haver poesia coisa nenhuma !

Não se faz poesia , se faz vida, se faz calor, se faz erotismo, sedução, gozo, entrelaçamento, transa, volição, entrega, conversão , se faz vontade de estar vivo, de inventar saídas de ar ... o nome poesia é só o nome que damos a essa qualquer outra coisa que se faz quando não está se fazendo alguma coisa que já tenha um nome. Existir no não-nomeação, viver fora do nome, eis aqui o que me parece ser poesia , eis a ficção : viver fora do nome é enfim poder ficcionar um nome , um código nominal que não é nominável , é inominável, e por isso damos a ele o nome de poesia , mas poesia é um nome que sem a coisa que a antecede , não diz nada. É uma palavra sem nome - portanto só a carcassa de um corpo sem alma. Corpo sem alma também me parece querer dizer: um corpo sem calor , um corpo frio , um corpo desapaixonado de si mesmo . E esquentar um corpo não é fácil , da mesma maneira que não é fácil esquentar a relação com o que gostaria de dizer aqui - mas o que gostaria de dizer aqui, na verdade não tem a ver com o aqui , com o texto , com as palavras , mas tem a ver com escrever-me de volta para dentro de mim, tem a ver com acionar as chamas do meu próprio corpo : eis o que gostaria de dizer aqui. Portanto esse dizer não se trata de um dizer comunicativo , não se trata de um dizer no texto, mas o texto é que irá dizer em mim. Este texto na verdade é um pedido, um suplício para que eu volte a dizer-me em mim. E para isso, preciso dar algo em troca para o porteiro do texto, e essa coisa é o próprio texto.

Portanto o aqui por ora, esse texto , essa escrita , é uma tentativa não de gerar calor na escrita ! Que erro o meu querer pensar deste modo, esse modo é totalmente predatório ! O que eu quero aqui mesmo, o texto em questão , é um dispositivo da chave do disjuntor do meu próprio calor ! Acionar o texto significa na verdade acionar o motor de mim mesma . Aquecer minha engrenagem . Não deixar a máquina parar de rodar. E quando digo não deixar a máquina parar de rodar, não estou me referindo a uma morte literal , mas estou me referindo a não me deixar tornar-me uma carcassa da minha própria palavra sem vida, sem alma, sem ânimo, sem paixão , sem tesao , sem amor , morna , amordaçada ; deixar a máquina parar de rodar significa me deixar cair no estado de ser uma palavra sem nome, um estado de ser uma palavra que não diz nada, uma palavra sem contexto , e o meu contexto é justamente o meu calor ! É no meu calor, na minha efervescência que encontro meu contexto, meu texto que me antecede , e que precisa desse texto aqui para poder existir para fora de mim , e desta maneira construir minha morada do meu próprio contexto no mundo: fazer do meu calor, a minha morada.

PRÊMIO FUNARTE RESPIRARTE 2020 

EDIFÍCIO VALÔNIA

Anna Israel

2013-2020

OBJETOS - COLEÇÃO AI

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JOHN

ZORN

COLEÇÃO AI

PENSAMENTOS A PARTIR DOS ESTUDOS DE SPIVAK

17 DE FEVEREIRO DE 2020

Ideologia: vivemos sob uma ideia, uma visão de mundo que não tem nada a ver com o que realmente acreditamos. Existe uma visão de mundo introjetada nos países sub-desenvolvidos, assim como na mulher, assim como no assalariado, assim como inclusive na própria classe dominante - a classe dominante precisa viver sobre uma ideologia para sobreviver inclusive seu próprio nível de exploração — como por exemplo ir à praia em um condomínio fechado e enquanto você está tomando sol e tomando uma caipirinha há homens de camisa e chapéu de palha varrendo as folhas secas que caíram das árvores. A ideologia que está encrustada em nós é o que permite que aceitamos sem questionar uma cena como essa. No caso dos países sub-desenvolvidos, ou no caso da mulher, há um modo de pensar que foi introjetado em nós para pensarmos que temos que viver uma vida somente a serviço de uma sobrevivência básica, ter uma casinha, um carro, fazer uma universidade, ter um diploma, ter um mínimo de reconhecimento, enfim, cada classe social tem as suas próprias regras do que se espera - mas a questão mesmo que está por trás disso é terrível: temos que pensar desse modo para que uma máquina muito mais poderosa que nós continue girando, para que essa máquina funcione. Não conseguimos unir prática e teoria não por uma incapacidade nossa, não conseguimos viver no risco a serviço de um desejo profundo não porque só somos mesquinhos, mas porque há um sistema inteiro que gasta milhões para que seja assim, não questionar o sistema faz parte do plano do sistema. Não questionar a condição que vivemos faz parte de uma ideologia imposta à nós. Isso serve para qualquer caso, seja para o pobre ou para o rico: ser pobre e viver uma vida somente na chave da sobrevivência assim como ser rico e não se responsabilizar por ser rico, ser rico e achar que isso basta para viver, para ser alguma coisa.

Ponto importante: uma ideologia não é uma coisa ruim, mas vivemos a partir de uma ideologia capitalista que pode ser muito perigosa. RES também cria uma ideologia, mas pautada por regras completamente diferentes. Por isso, inclusive que o Atelier do Centro é um lugar tão perigoso, pois ele desafia um sistema na prática, inventou um sistema paralelo de troca, de trabalho, hierárquico, ou seja, vertical, em que ele não tem mais poder às custas da miséria de seus alunos ou funcionários, pelo contrário, ele incentiva a anti-alienação daqueles em volta dele justamente para que a máquina possa girar.Uma visão de mundo (ou uma ideologia?) de verdade, que se aplique na prática, que esteja vinculada a realidade, que não seja somente uma fala sem ação, é algo quase impossível de se criar! Requer uma força que vai contra todo o funcionamento político, econômico e social e psíquico de um tempo. Uma visão de mundo é algo muito mais sério e muito mais complexo que eu já pude imaginar. Ninguém no Atelier hoje, a não ser RES, tem uma visão de mundo - podemos seguir um cara brilhante, trabalhar muito para mudar, trabalhar muito para mover um ossinho de lugar, mas enquanto existir trabalho é porque essa visão de mundo está ainda em processo de construção. No caso de RES, não há mais trabalho para por exemplo, estudar, escrever um texto, optar por algo a seu favor do que algo a favor do sintoma. No caso de RES, hoje, ele se move a partir das leis do mundo paralelo que ele inventou. Note: anti-hippie, não alienado, não de esquerda, uma ideologia que está fora do constructo binário ideológico da direita-esquerda. Uma ideologia enquanto resposta à essa problemática. Uma resposta à Marx (extremamente precipitado e leviano da minha parte escrever isso, mas veio), uma resposta ao plano de consistência de Deleuze.“A mulher não existe” (Lacan) “O Brasil não existe” (AI) - são frases muito parecias, gostaria de explicar a relação que percebo nessas duas frases, inclusive para que ninguém pense que eu não acredito no Brasil e que o Lacan desprezava a mulher. Da mesma forma que a mulher não pode existir enquanto uma resposta à falta de falo, ou ainda, a mulher querer existir buscando preencher seu vazio com um milhão de coisas, um milhão de respostas para sua pergunta impossível, um bando de adereços, verdades, afirmações, a mulher tem que descobrir o que é ser mulher para existir! A mulher não pode mais existir enquanto uma resposta à colonização fálica em sua psiquê, a mulher não pode mais existir enquanto uma resposta ao complexo de castração. A mulher tem que escavar a caverna de sua própria buceta.

A mulher não tem como de fato existir se for através da tentativa de suprir a falta do falo! Assim como o Brasil, é igualzinho (!!!), não podemos mais existir enquanto resposta ou projeção do falo americano ou europeu, do sucesso europeu, das soluções dadas por um país de primeiro mundo. Teremos que descobrir as soluções de um país de terceiro mundo, por isso que o narcotráfico é tão poderoso - ele não “paga pau” para ninguém.

O Brasil ainda não existe pois ainda não vivemos o risco de tentar descobrir o que é ser brasileiro mesmo. O que é inventar um caminho ainda não inventado? O que é desenhar na areia inexplorada brasileira? O que é o plano de carreira para um país subdesenvolvido? A questão é que como não temos tradição teremos que partir do risco total para inventar enfim alguma coisinha! E o que é interessante é que uma decisão de risco obriga que toda uma nova estrutura, que toda uma nova engenharia seja inventado para sustentar tal decisão de risco. O risco leva ao risco - o risco te pede soluções novas. Não adianta querer estar no risco pensando em soluções antigas. O risco inventa um novo corpo em cada um. A questão é que eu acho que a vontade de estar no risco não pode ser o fim, o fim tem que ser outra coisa, o “riozão” do desejo não é o risco, o “riozão” do desejo aqui talvez seja mesmo descobrir o que eu vim fazer nesse mundo, descobrir o que eu sou mesmo capaz, investigar até onde eu posso ir, investigar até onde meu corpo aguenta, investigar rotas de fuga de mim mesmo. RES e o narcotráfico são mesmo dois exemplos geniais do que é a invenção do Brasil, e de forma análoga, do que é a invenção da mulher.

Pergunta que me sobra ao ler as primeiras 50 páginas da Spivak: um país como o Brasil por exemplo, subdesenvolvido, claramente é explorado pois possui uma riqueza absurda - em termos de commodities, temos muito poder, mas um poder que nos é explorado, não temos tecnologia ainda, não criamos recursos ainda (tanto psíquicos, quanto ideológicos) para tomar posse da riqueza do nosso país. Me parece que o brasileiro teria que se apropriar do que é seu, como justamente faz o narcotráfico, o brasileiro tem que entender que ele tem poder, mas que os grandes impérios não permite que tenhamos acesso - pois supostamente, segundo a lógica da Spivak ou do marxismo, poderia comprometer um sistema capitalista (da mais valia, por exemplo). Há um projeto para que o brasileiro não se aproprie de seu potencial para não comprometer um sistema (aqui estou ciente de que estou sendo muito simplista). Até aí, consigo entender a lógica... Mas o que eu não consigo entender é porque exatamente e no que exatamente é a mulher explorada? Porque há um projeto para que a mulher não se faça a pergunta do que é mesmo ser mulher? Porque há um projeto para que não haja um investimento na investigação do nosso vazio? Porque o próprio feminismo tende a ser machista? Por que a mulher vive às custas de um homem? Por que a mulher ainda sabe tão pouco de si mesma e de seu potencial? Por que a mulher investe tanto em sua loucura? O que nos foi colonizado? Qual é a terra da mulher que estão ocupando? Ou que estão ocultando de nós? O que estão explorando de nós mulheres e que não sabemos? Qual é a riqueza oculta da mulher para ela mesma que não querem que vejamos? Há algo muito misterioso para mim aí. Porque a exploração de gênero? A exploração de gênero está a serviço do quê? Seria da capacidade reprodutiva da mulher? Seria uma exploração da figura materna, que cuida da casa, que cuida da família, para que o homem possa estar no poder, para que o homem possa ter a certeza de que sua espécie irá se reproduzir, a partir de sua mulher? Seria a mulher, em uma posição de poder, uma ameaça da reprodução da espécie do homem? Não pode ser só isso! Me parece que há coisas muito mais profundas sobre a mulher que estão sendo mantidas em sigilo de nós. Urgente pensar mais sobre isso - ler Madame Blavatsky ? Onde posso encontrar pistas para isso?

Esse tipo de texto requer outro tipo de relação minha com a escrita, é muito interessante. É como se eu tivesse que ancorar toda minha capacidade de abstração no chão, esse tipo de texto é bem pesado para mim, me pesa, me ancora, me tira de um estado de suspensão. É muito seco.

PARTE II

Qual é esse espaço no meio do tempo, no meio do tempo constante que vivemos, espaço disponível, sedento para ser ocupado por nós? Vivemos em tamanho automatismo que não conseguimos entrar dentro do tempo da nossa própria vida para existir: o momento oportuno não existe! Não existe uma hora certa, a hora certa está em nossa frente, mas não conseguimos entrar na nossa própria hora certa de agora para existir. Há uma desapropriação absurda do nosso espaço de existência, desse espacinho na ponta no nosso nariz que espera para ser ocupado. A máquina do mundo (como quis Drummond) se abre para nós, mas nós sem ao menos avaliarmos o que estamos perdendo, seguimos vagarosos, de mãos pensas. Somos incapazes de enxerga-lá. Somos incapazes de ver qualquer coisa que não sejam nossos probleminhas, nossos machucadinhos. Desviamos diariamente da luz que vaza dela iluminando um possível outro caminho. Meu Deus, qual é o trabalho necessário que estamos deixando de fazer para poder ver essa luz? Para estar disponível à essa luz que está batendo em nosso rosto? Parece que estamos sempre indisponíveis a essa sensação, estamos indisponíveis à epifania. E quando a epifania vem, também estamos pouco instrumentalizados a lidar com ela. É mesmo um trabalho de uma vida, eu sei, eu sei que há ansiedade, e não é fácil mesmo! É mesmo um trabalho diário, árduo, suado, dolorido, massacrante de tentar entrar em retrocesso de nós mesmos, de voltar para um lugar que nunca nos permitiram estar, de voltar para um lugar proibido, originário de nós mesmos. Sinto vergonha da nossa espécie. Tem horas que fico constrangida pela com nossa loucura, timidez, carência, nossa tagarelice, nossa vontade de reconhecimento, nossa expectativa de sucesso. Fico constrangida com o quão dodói somos, o que mesmo aconteceu com a gente? O que mesmo aconteceu com nossa espécie para sermos tão dodóis? Onde mesmo que fomos tão feridos? Porque tanta carência, meu Deus? Se vim para essa vida, se estou no Méthodo, se tive a graça de ter cruzado com um mestre e de ter em algum momento nessa relação descoberto que sou discípula, então realmente a minha obra nessa vida terá que ser me redimir de tamanho constrangimento. Há uma diferença muito grande em ter um mestre e de descobrir que você é discípulo. Por muitos anos, uma pessoa pode ter um mestre, muitos e muitos anos ter a luz quente que irradia do mestre batendo em sua face. Mas não necessariamente se é discípulo. Ser discípulo é construir não uma saída, mas construir por anos o seu próprio beco sem saída, por muitos anos se deixar tornar-se ciente, ciente de si mesmo, ciente de sua situação miserável, de sua sujeira, de suas dores, carências, e do desejo, do abismo do que se quer e do que está sendo feito mesmo para conquistar o que se quer. Será mesmo que queremos o que dizemos querer? O que é mesmo desejar algo senão ser capaz de possuir esse algo? Não seria o desejo intrínseco à obtenção do desejo? Não seria o desejo exatamente o oposto da falta? Não seria o desejo intrínseco à posse do que se quer?

Um dia, o sujeito que possui um mestre, pode se descobrir discípulo. E se descobrir discípulo é se descobrir sem mais nenhuma saída. E não ter saída é a única saída para poder negociar uma entrada com o porteiro da máquina do mundo

Lista após aula de sábado

Tentando botar a cachola para rodar

07 de novembro de 2020

Tatu

 

Anna, obrigada por insistir tanto que eu escrevesse após a aula - obrigada por insistir tanto na sua vida. Na verdade mesmo, esse agradecimento se deve ao Rubens por insistir tanto que a gente insista tanto na nossa própria vida. 

 

1. Por que é tão difícil se permitir fazer? Só fazer. Jogar uma isca no rio sem ser só para querer pescar o peixe grande de primeira. Fazer não precisa ser pescar o peixe - fazer também é jogar a isca todos os dias e permanecer mesmo sem pescar o peixe por dias. Estamos muito equivocados com o que é mesmo fazer algo, o que é um trabalho, o que é ser alguém, o que é bom ou não - acho que estamos muito errados sobre nós mesmos. Estamos muito pouco disponíveis para descobrir sobre nós mesmos - tenho uma idéia muito específica e fechada sobre o que eu acho que sou, o que acho que quero, o que acho que penso ser bom ou ruim, certo ou errado. Por que não entender que há tantas coisas que eu não sei e que a graça está exatamente nisso. Jogar a isca e não saber exatamente o que pode fisgar, estar aberto para ver o que vai surgir das profundezas do rio. Pescar é muito legal. Você joga a isca para um lugar que você não pode ver - seu corpo precisa estar atento, é ele que recebe os sinais. 

2. Existe um vazio em só fazer, por mais contraditório que isso pareça. Realmente, nós não fazemos de fato - nós ocupamos, preenchemos espaços vazios, desviamos energias e atenções, abarrotamos todos os quartos com tranqueiras para não sentir o vazio - fazer não tem a ver com entulho. Fazer é a atividade contrária de acrescentar - fazer é descascar a cebola, e não colocar mais camadas nela. Descascar a cebola pode ser uma atividade brutal. Fazer tem a ver com estar profundamente, intimamente conectado com a coisa. Essa coisa que me parece estar na obra de grandes homens e mulheres, essa coisa que se apresenta ao comer uma comida feita com amor e ambição, ao me relacionar com o outro por mais impossível que isso pareça, ao tomar sol na Teodoro Baima em frente ao estacionamento às 14h da tarde - fazer na verdade não tem nada a ver com grande obras - as grande obras surgem por causa do fazer. Estamos muito equivocados, meu deus do céu. A gente inverteu tudo - rebobinaram minha cabeça e o filme bagunçou legal.

3. Alma, espírito, áurea, trieb, pulsão, devir, deriva, calor, erotismo, chakras, natureza... e assim vai. Chamo de coisa talvez por ser inominável - talvez por estar ainda muito distante disso - mas nos momentos que consigo tatear isso, nos momentos em que sinto seu cheiro, seu gosto, o calor na minha pele, o toque suave, o perfume sutil - nesses momentos me sinto viva: esses momentos são fruto de um fazer - são frutos do que está a serviço do que é maior que eu, daquilo que eu não conheço e portanto não posso controlar. Bonito será o dia em que o cheiro, o gosto, o calor estejam cada vez mais nas coisas pequenas - que o acontecimento não seja escrever o texto ou dar uma aula - mas simplesmente fazer. A vida poder ser o acontecimento.

1ª Linha do tempo de RES

​Lógica, estética e religiosa

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2ª Linha do tempo ergológica de RES

​Século XXI - restos e sobras

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Reflexões após a primeira sessão da Anna Israel de sexta - com a Isa Sena

 

31 de outubro 2020

 

 

1. Algumas reflexões sobre a sessão com a Isa ontem. O que aconteceu? Entender produção de outra forma. A sessão de ontem não tinha a ver com produzir um objeto, mas parece que o objeto em questão que estava sendo produzido era mesmo a Anna e a Isa. As fotos que sobraram são mesmo datas. E é bonito pois realmente temos que investir para que a data seja impecável, não para ser vendida, mas para que, ao investir na impecabilidade da data, estamos investindo na apropriação de nós do acontecimento produção, estamos na verdade investindo e apostando na invenção de um novo modo de existir. Por isso, pensando um pouco sobre a conversa com a Manu no final do dia, a Manu investir em ter um excelente registro das sessões em que ela posa,

Polaroides de Anna Israel, 2020

Modelo: Isa Sena

não serve para vender essas fotos, mas na verdade enquanto um investimento na ficção da Manu no mundo, um investimento na invenção de uma descoberta do que é ser Manu. Talvez essa seja mesmo o tipo de produção para o futuro, e cabe a nós inventarmos constantemente DISPLAYS para isso. A escrita, no caso, é um display para a escritora. Mas a sessão com a Isa pode ser outro display completamente diferente para a escrita. Ou, dar as minha aulas para mulheres pode ser um modo, um display novo que posso investigar para a escrita. Talvez posar possa ser o modo em que a Manu desenhe, e dar aulas de francês pode ser o modo como a Manu escreva !

 

2. Autoria - estar no comando e não estar mais no comando. Diferença entre estar no comando e só fazer o que tem que ser feito. A ideia de comando é muito traiçoeira. Na sessão com a Isa eu não estava na posição de “comando”, de “controle”, mas eu simplesmente fazendo o que tinha que ser feito. Me envolvendo com as etapas desse fazer - e a cada etapa tentando ser exigente comigo mesma, tentando não esperar pouco de mim.

 

3. Tomar decisões

 

4. Cálculo

 

5. O que importa insistir e quando insistir é um perfeccionismo da ordem da carência?

6. Entender prioridades

 

7. Entender, não o que é uma prioridade PARA MIM, mas o que é uma prioridade para o próprio trabalho.

8. Suportar o silêncio de só fazer. Sem expectativa, sem querer chegar em algum lugar, mas fazer. Olhar e fazer. Olhar e tentar ver o que está me sendo dito. Há claro um sentimento muito contraditório ao ser “assistente de produção” de RES e ser a “diretora”. Ser assistente me permite me envolver inteiramente com a coisa, mas sem o vazio de tomar as decisões, de pensar no próximo passo, de suportar o fôlego de não impor expectativas da minha carência àquilo. Ser assistente é ótimo pois eu tenho um “cachorrão” correndo atrás de mim me fazendo ter muito claro as noções de prioridade. Agora, não ter esse cachorrão me obriga a inventar um discernimento muito pouco mental, quase que intuitivo, das prioridades. Na posição de “assistente de produção” eu posso “só fazer”. Mas meu Deus! É claro que isso me incomoda, pois é um truque, um truque que eu dou em mim mesma, uma grande sabotagem! O que eu quero mesmo, não é produzir a Isa, não é maquiá-la e penteá-la como se fosse uma boneca, mas o que eu quero é estar no próprio movimento do que aquilo está me fazendo, de suportar o silêncio daquilo, de investigar referências, de saber o que eu lhe posso pedir, o que não posso pedir, de tirar a minha saia e entender que ela é um material para o figurino, de sacar a hora do batom vermelho e a hora do batom nude, o que cada situação pede, porque um figurino mais vernacular é um figurino mais moderno?, quando que é a hora de parar? Quando é a hora de usar um novo filme e quando é a hora de não mais usar um novo filme ? Essas decisões são o que eu quero estar instrumentalizada para tomar, instrumentalizada intelectualmente, plasticamente, psiquicamente mas sobretudo, instrumentalizada da própria relação ou inteligência com o fazer.

9. Suportar ainda não saber o que é aquilo e mesmo assim continuar fazendo, e fazendo com os recursos necessários para eu poder me apropriar do fazer, para que o fazer faça com que eu me agarre em mim todinha, me autorize a dizer o que é tão íntimo pra mim que de tão íntimo sinto ser irrelevante de ser dito, sinto ser secreto e íntimo demais para existir para fora com uma forma. O que precisa ser dito tem que ser grande, grandioso,

tem que ser algo já conhecido, assimilado, forte. Isso tudo é tanta besteira que nos contaram, ou que eu mesma me contei e me convenci. Se eu ficar nessa chave vou perder a oportunidade única nessa vida de dar para a vida algo que só existe em um único lugar: e esse lugar sou eu. Mas não! Isso não é o suficiente para existir para o mundo! Meu estado de concentração e prazer e gozo e silêncio e seriedade e cálculo e investimento e pacto e relação não é relevante para o mundo! O trabalho tem que ser algo que já tenha um nome próprio! Pintura! Instalação! Escultura! Desenho! Vídeo! Meu Deus! Como é difícil realmente fazer com que a teoria penetre na prática! O que eu declamo teoricamente resiste bravamente em contaminar meu lugar de carência, de querer ser aceita, de querer ser amada - e desse modo, nunca estarei mesmo me inventando, me ficcionando no mundo! De todos os desenhos que fiz até hoje, penso que nas duas horas e meia da sessão com a Isa, ontem foi um grande display para eu desenhar! Desenhei sem medo, sem vontade de fazer um grande desenho, sem ideia do que faria com aquilo, sem me lamentar por não ter recursos o suficiente, só aconteceu. E não aconteceu grande coisa. Não foi um grandíssimo acontecimento, não foi nenhum espetáculo, e ao mesmo tempo, foi um grandíssimo passo que consegui dar, só ao fazer, foi um grandíssimo acontecimento para mim mesma, de descobrir uma nova forma de me relacionar comigo, de construir uma espécie de amor por mim, e pelo meu mundinho, por essa coisa que eu estou aqui chamando de “mim” mas que não faço a menor ideia do que seja. Dar espaço e valor para uma paixão secreta, dar forma a Anna no mundo - para fora da Anna ! Não dá mais para me impor um mundo que não é meu, não dá mais para eu querer fazer algo que não tenha a ver comigo. Tenho que partir de coisas que eu já tenho, e a maior coisa que eu tenho hoje sou eu ! São minhas paixões mesmo, são as coisas que me geram prazer! São meus segredos ! Minhas obsessões ! Transformá-las em algo que possa existir para além de mim mesma. E mais! Ficcioná-las a ponto de poderem ser muito maior que eu mesma. Para que elas possam me contar algo que desconheço sobre mim, sobre estar viva !

 

10. Preciso descobrir o meu modo de fazer ! O meu modo de operar, o que é a “minha sessão de desenho?” Como ela se articula ao longo da minha semana? Quais são minhas restrições fundamentais? Qual é mesmo meu papel de 1,50 x 1,50? O que é o meu momento de “virar o desenho”? O que é a Anna em estado de fúria ? Qual mesmo é esse estado que eu entro? Pelo amor de Deus tenho que deixar de ser literal com o que é produzir ! Ontem a Viotti falou algo que fiquei espantada com a precisão de sua fala (ainda que não fosse um movimento sabido meu para mim): que ela nunca tinha me visto tão calma. Será que esse estado não poderia ser hoje o meu estado de fúria? Será que entrar em um estado calmo e de concentração não é eu me relacionar de algum modo com uma fúria? Entender que a fúria não é o calor do espetáculo do fogo queimando um papel e atos violentíssimos repetitivos de um grampeador pneumático pregando materiais resistentes sobre uma folha de papel, mas a fúria talvez seja estar muito imerso e envolvido em uma ficção que não seja somente a ficção do sintoma, do romance familiar ! A fúria talvez seja justamente poder estar concentrada na invenção de um novo mundo !

 

11. O que é mesmo a produção? O que é mesmo o objeto? Sinto que na verdade o objeto dessa sessão com a Isa possa ser algo que na verdade não tenha nenhuma relação aparentemente direta com a sessão com a Isa! É uma contabilidade muito louca ! O que é mesmo o objeto que estamos produzindo ? Também para eu não perder essa coisa de vista ! Para eu não perder de vista esse objeto em questão - para que eu possa cada vez mais me apropriar dele. Talvez o que eu esteja tentando dizer aqui é: será que o objeto não é esse “estado tão calmo” que a Viotti observou? E se for, como então me apropriar cada vez mais dele?

Pensamentos de sábado - após sessão de sexta AI

07 de novembro 2020

 

1. Como investigar o universo da mulher no homem ? Que porra que é essa que estamos mesmo falando sobre universo da mulher?

2. Brinco

3. Colar

4. Unhas pintadas

5. Penteado

6. Maquiagem

7 .Bolsa

8. Meia calça

9. Laço no cabelo

10. Penduricalhos

11. Gesticulação

12. Sedução

13. Sapato de bico fino

14. Peito do pé exposto

15. Nuca

16. Perfume

17. O que são essas coisas todas para além dessas coisas todas ? Não quero ser literal e pensar que o universo da mulher tem a ver com usar brinco e prender o cabelo em um meio rabo ou uma trança. Mas ao que esses elementos todos indicam? São símbolos, sugerem algo que os transcendem, mas que algo é esse? Que linguagem é essa? Qual o tema por trás do uso desses códigos linguísticos ?

18. Como rés se relaciona visualmente com o universo feminino: essa foi uma puta sacada que ainda quero entender muito mais ! No caso o uso do Boné, da bota trippen, da calça de trabalhador, ou o suspensório, rés não utiliza esses elementos como meros acessórios ! Rés converte os elementos que usa, que veste, em elementos muito simbólicos, em códigos muito preciosos de linguagem, e então, o modo como insere esses elementos em sua visualidade não tem a ver com uma coisa funcional, mas com algo da ordem do símbolo. E também, não é um símbolo de uma ordem superficial, não é um símbolo mundano (talvez como seria no caso do uso do homem de um relógio), mas transforma esses elementos em símbolos muito poderosos que têm uma implicação muito profunda em sua psique. Ele mesmo joga com sua própria psique - diferente ainda de nós que somos jogados por ela, e por isso tão desapropriados dos próprios símbolos que carregamos diariamente. O símbolo , eu acho, faz muito parte do universo da mulher, isto é, é um instrumento muito agressivo de linguagem utilizado pela mulher - um instrumento de linguagem que a própria mulher ainda usa muito mal, usa na busca de se identificar no mundo, usa ainda para encontrar um lugarzinho no mundo, usamos ainda o símbolo de modo totalmente fálico, como um objeto que irá preencher um vazio e nos afirmar enquanto algo para o mundo. Como é transportar o símbolo para um lugar simbólico mais interessante ? Caramba, que difícil isso que estou tentando dizer - confesso que estou tentando tatear em algo, mas nem sei direito o que é.

19. Talvez possa esboçar de dois modos: qual a diferença no uso que RES faz dos elementos visuais boné de aba reta, suspensório, camisa lenhador e óculos Cartier para o uso que uma mulher qualquer faz de uma calça justa apertando a coxa e a bunda, peitos grandes, luzes no cabelo, unhas grandes, bolsa Louis Vuitton e batom vermelho ? Qual a diferença do uso desses símbolos ? Não a diferença entre eles - mas a diferença de como eles estão sendo usados ?????

20. Penso que o MODO como rés se veste é realmente extremamente feminino, é uma pista para sondarmos a mulher mais a fundo, e a construção de uma mulher para fora dela mesma, a construção de uma mulher apropriada de seu aparelho psíquico , biológico e desconhecido. Esse aparelho ainda nos dá um baile, nossa resposta ainda ao que é ser mulher ainda é muito primária.

 

21. Algo muito sério para pensar em relação em que rés articula seu discurso no mundo: há o tema que ele traz em uma mensagem / há também o código utilizado para transmitir esse tema / há o emissor e há o receptor. Sinto que rés faz uma revolução no modo como tem sido organizados esses elementos fundamentais da comunicação ! E portanto, rubens transforma a comunicação em obra ! Rubens atravessa uma ideia de comunicação - onde o emissor , o receptor, o tema é o código utilizado, são tratados de forma linear, autoritária, impositiva -, e ao atravessar essa ideia linear de comunicação, ele faz com que a transmissão de um tema, de um dizer, seja em si investigado ! A forma de transmissibilidade é um objeto de pesquisa ! Como cercar esse tema ? Como transmitir algo para o outro que não seja , por exemplo, passando de uma mão para a outra? Como que Rubens vai passar uma bola para o outro de uma maneira outra que de sua mão para a mão do outro? Como que ele vai passar essa bola e o próprio exercício de passar a bola de revelar que a bola pouco importa ? Que a bola em si está no modo que ele a está passando? É como se rubens subvertesse esses dados: receptor - emissor - código - tema ! É como se o Rubens (que é um ser que está inventando o futuro) embaralhasse todos esses dados e partisse de um novo ponto ! Quem é o receptor ? É aquele que está dizendo ou recebendo? O que é o tema? É a mensagem ou é a forma ? O que é o código? É o modo como está sendo feito ou é o receptor ? CARALHO - é revolucionário o que rés está fazendo com o próprio fazer linguístico

22. Nesse sentido, inclusive, penso muito levianamente, ou melhor, intuitivamente penso que é uma puta resposta ao que o Mallarmé fez com sua poesia !

A linha do horizonte

A luz difusa do fim da tarde

Um pescador lança sua rede

Vídeo: "Uma jovem atravessa a rua", Anna Israel, 2020

Captação de imagem: Fabiana Reis Santos

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Aula teórica de Anna Israel sobre moda no Parque do Carmo, 13082020

Alunos: Manu Gaden, Isa Sena, Rodrigo Cassia, Victor Aliperti, Laura Aliperti, Lila Loula, Fabiana Reis Santos e Leouac

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Polaroides de "Adelaide", coautoria entre Anna Israel e Rafael Chvaicer

A young girl crosses the street 

Poem by Rés - February 27th, 2020 

translation by Anna Israel

 

In the course of the night death

In the course of death day

In the course of life, death

In the course of death the gap.

 

In the course of death my life

The pain without any death

The pain filled with pleasure

The pain numbed from a single strike

 

In the course of my worthless self

JACKPOT

Hammerfisted by the left hand

I stumble against the lack of choice of myself

 

Another punch now in the gut

Misty clouds render above me

I’m blind from what I almost

Forget, I don’t recognize anymore

 

What keeps me alive, the untouchable

Memories, the right word,

Relentless, precise, precious,

I’ll turn this poem into the quest

 

For what will save me from my

own extinction. I know that

I can lose sight of myself. And to 

Make things worse, just see what meets the eye. 

The eye that locks me up. Detains me.