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Encontros de Filosofia para Mulheres

 

Curso ministrado por Anna Israel que iniciou em agosto de 2020. São encontros semanais entre um grupo de mulheres interessadas na contrução de um pensamento crítico e filosófico. Os encontros acontecem via plataforma digital Zoom.

 

Desejo poder formar um grupo de mulheres interessadas em se aprofundar em questões reais de maneira mais profunda e filosófica, construir um espaço de pensamento crítico mais embasado, e menos pessoal, alicercar a construção de uma mulher mais pronta para o embate com o mundo, tanto o mundo externo quanto o seu próprio mundo de fantasmas internos. Um investimento em um conhecimento que esteja a serviço de algo, que esteja serviço a se relacionar melhor com um mundo prático subjetivo para assim poder existir também para fora, construir coisas no mundo, ter algo no mundo. 

 

Investigar nosso contexto atual, focando em questões de arte, psicanálise e questões da mulher, a partir de citações de grandes pensadores e artistas do nosso tempo. 

Partiremos sempre de uma citação, de um filme, de um trecho de livro, de um trabalho de arte, de uma questão proposta por alguma aluna, e vamos tentar pensá-la no próprio corpo, isto é, entender quais são as implicações reais dessas frases nas nossas vidas. Iremos utilizar essas citações de pensadores para pensarmos a nossa própria vida e o que queremos construir no mundo.

Encontros de Filosofia e Arte para Mulheres

03 de fevereiro de 2021

Camila Padilha Orientação: Anna Israel Relatório #1

O que o relatório cria a partir da sua própria criação?

O que de fato ele é capaz de suspender para que seja possível botar em prática uma nova interpretação, novos caminhos para existir? Como esquivar-se, através dos relatórios, da Verdade a qual estamos submetidos? O que é essa Verdade em nós? Onde mesmo ela age?

Neste pequeno texto, trataremos muito pouco de linguagem, semântica, gramática; nesta tentativa, a proposta deste texto é que ele seja vivenciado, é que ele nos faça duvidar minimamente do que entendemos por um relatório, por cada palavra escrita aqui; a proposta deste texto é que duvidemos de tudo o que foi escrito em prol de uma pergunta maior, extremamente pessoal, uma pergunta que incite uma mudança, uma manutenção de algo, um rompimento com uma epistemologia já sabida, uma transformação na linha do tempo, conversão de ​chronos​ para ​kairós​, o instante oportuno.

Que ao longo dos relatórios, do semestre, possamos nos sustentar a partir de perguntas mais profundas, e não se conservar apenas em respostas espertas e agudas.

Como nos relacionamos com o que é revestido da Verdade, de perguntas honradas, dadas, de conhecimento já formulado? Como estar à deriva, no descampado, para responder a essas perguntas? Ou melhor: como propor novas demandas fora das nossas já conhecidas afirmações? Como podemos, no dia a dia, explorar formas de se revisitar, se reestruturar? Como deixar de ser hermético? A serviço do que não duvidamos mais do que nos é dado, da nossa própria conduta perante a vida?

Quais são as verdades que construímos para sobreviver – e não viver, perceba a diferença – e que enrijecem a nossa existência, o nosso "Ser molinho"? Em que situações aplicamos a nossa verdade? Como se sacrificar e se afastar o suficiente das próprias certezas a favor de sentir, profundamente na própria pele, o que é se contradizer, o que é ter minimamente poder de escolha, o que é estar entregue a um Eu de verdade, aquele que argumenta contra si mesmo assim como a seu favor?

Que as indagações, o cotidiano e a prática sejam uma maravilhosa oportunidade de afrouxar o elo que prende nossos vagões uns aos outros, e que estas aulas nos

permitam descarrilhar de vez o trem que nos carrega, liberando espaço suficiente para que manobras reais sejam aplicadas a favor da construção, dia após dia, de um futuro menos cego para nós.

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Esse projeto é a biblioteca central de Seattle – o Koolhaas parte do pressuposto de fazer projetos super complexos, cheios de problemas, para que ao longo do processo ele tenha que pensar em soluções novas, desenvolver ou ir atrás de novas tecnologias para solucionar os problemas que ele criou. E disso nasce sua arquitetura – eu acho genial !

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Lista Anexa
Encontros de Filosofia e Arte para Mulheres 03.02.2021

Bianca Argolo

  1. No fim do dia, a competição é com nós mesmos - o ​outro somos nós mesmos

  2. Tende-se a enxergar no outro coisas que não são reais

  3. Olhar para o trauma como algo a serviço da construção de

    mim. Olho com maus olhos pois é uma expiação que foi construída há muitos anos, gerações de expiações familiares passadas

  4. O que achamos e pensamos tem pouca ou quase nenhuma autonomia. C​ omo atravessar essa questão e não responder apenas através da nossa dor?

  5. Isso me lembra uma passagem dos Relatórios das Aulas de Segunda da Anna: o​ que eu recuso vai sempre morar em mim

NIETZSCHE

  1. Suspensão de valores

  2. Necessidade de concluir algo gerada por uma falta profunda

  3. Homem: fuga do espaço de deriva x Nietzsche:

    personificação do estado em que a verdade é suspensa. Com essa suspensão, o que surge?

  4. A verdade é uma construção do ser humano. ​O momento de desilusão é como a vida é. ​Todo o restante são construções

  5. Acabar com a ilusão é o mais próximo de estar vivo. E a partir disso, como construir a vida?

  6. Amor Fati = amor ao destino. Não a uma projeção ou projeto, algo desprovido de verdade ou expectativa

  7. Os dois caminhos da solução: investigar o problema x tapar o problema

  8. Queremos sempre uma solução e pouco investigar algo

  9. Por que não queremos fazer perguntas?

  10. Mulher: espaço interno de fantasia que poderia servir de investigação

Seria a verdade uma ilusão de

perspectiva cuja origem reside em

nós mesmos?

Escritos Íntimos de Adriana Scott Fevereiro, 2021

Estive pensando novamente sobre a verdade.
Lembram quando usei a metáfora da lâmpada como um foco que ilumina um pedaço muito pequeno no meu íntimo? Então, esse mesmo foco ao ser direcionado para o mundo em que vivo não seria a “minha” perspectiva, diferente da perspectiva do outro? E não faço eu uma interpretação de tudo de acordo com esses dois focos, o olhar interno e o olhar externo? Dessa forma, como posso eu falar sobre verdade se não vejo o todo? Nesse ato de olhar para dentro e para fora e construir a minha verdade parece haver uma busca imensa por conhecimento, uma busca desesperadora por resposta, muito mais do que por perguntas. E essa busca está sempre em algo que já existe, que já foi dito, que já foi instituído, por tanto é uma verdade que foi construída por alguém.

Me pergunto se a verdade seria algo a ser procurado ou se ela não estaria no processo. Quando falo de processo, penso no mais simples de todos, no meu dia a dia, na minha vida, no meu trabalho, nas minhas relações, nas construções do que realmente creio, do que realmente é importante para mim, do que realmente é verdade para mim. Dessa forma, eu a construo dia a dia, podendo mudá-la de acordo com a minha necessidade. São verdades essenciais a minha vida, ao meu viver.

Nesse momento paira uma dúvida na minha mente: se são construídas por mim e para mim, por que tenho uma necessidade absurda de impô-las ao outro?

Acredito que posso afirmar que algo que é tido como verdadeiro por mim ou por alguém não significa que seja verdadeiro. Se é uma construção pessoal, uma crença pessoal, como pode ser totalmente verdadeiro, universalmente verdadeiro?

Dessa forma, um mundo verdadeiro não existe absolutamente!

E se ele não existe, por que eu quero impô-lo ao outro? Sim, estou me fazendo a mesma pergunta, mas agora sobre o ponto de vista de que não são apenas minhas verdades, mas sim de que elas não existem.

A verdade não passa de uma ilusão de perspectiva, isto é, me parece que se trata de uma vontade de engano. Nos enganamos a nós mesmos a respeito da verdade por necessidade. Necessidade para vivermos a nossa vida, para vivermos em sociedade.

Mas, será que seria possível permanecer conscientemente nessa ilusão?

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Trabalho feito em 1977 no Novo México por Walter de Maria.

O trabalho consiste em 400 postes de aço com pontas, dispostas em um retângulo de 1 milha × 1 quilômetro

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Texto escrito por Adriana Scott

Querida Anna, 

Quando assisti o filme Stalker do Tarkovsky, essa parte transcrita abaixo me tocou tanto que gravei (gravação acima), sem entender muito bem o quê ou aonde me tocava. 
Acredito ainda não saber, mas resolvi te escrever para tentar vislumbrar um fio de entendimento do porque me é estranho.

“E permita-os rirem de suas paixões. Porque o que chamam de paixão, na realidade, não é energia espiritual... mas apenas fricção entre suas almas e o mundo exterior. 
E o mais importante, permita que creiam em si próprios. Permita que se tornem indefesos como crianças, porque sua debilidade é uma grande coisa, mas sua força é nula e sem efeito.
Quando um homem nasce, ele é débil e frágil, e quando morre é forte e resistente. Enquanto uma árvore cresce, é suave e flexível, mas quando está seca e dura, ela morre. Força e resistência são companheiras de morte. Flexibilidade e vulnerabilidade são expressões do frescor do ser. Por isso, quem endurece nunca vence.”

No último encontro falamos sobre verdades, aquelas que construímos para sobreviver. Não quero pensar nas verdades que eu construí, me nego a pensar que fui eu que construí, prefiro pensar que são verdades apresentadas a mim e eu as selecionei para me apoiar, para ser minha terceira perna, meu cajado, para fazer o alicerce da minha morada... não posso pensar nelas, não quero questioná-las, revelá-las, pois terei que enxergar que elas precisam deixar de existir para eu existir...mas se deixarem de existir não tenho mais meu castelo.  
Não quero ficar vulnerável. 
Tenho medo desse estado. 
Tenho medo de existir de “verdade”. 
O que é existir de verdade? 
Não tenho a mínima idéia...  
Talvez ser como uma criança? 
Tornar-me indefesa e livre como uma criança? 
Como posso aprender a ser algo que já fui? 

"Quando eu tinha 15 anos sabia desenhar como Rafael, mas precisei uma vida inteira para aprender a desenhar como as crianças"- Pablo Picasso 

O que Picasso quis dizer com desenhar como as crianças? Tento resgatar da memoria lembranças de quando era criança. Lembro de brincar sozinha e não me aborrecer comigo mesma, ao contrario. Lembro de uma entrega total, como se o mundo tivesse parado. Nada mais tinha importância. Lembro de estar completamente aberta, lembro de algumas vezes ser dura e querer impor meu desejo, mas lembro de abrir mão, lembro de sacrificar meu desejo, minha imposição, em nome daquele momento:  a alegria do brincar, ou seria a alegria do existir? Era uma entrega total de mim mesma a aquele momento.  Era uma liberdade incrível! Como trago tudo isso de volta? 

A Solange falou sobre a polarização atual no campo da política. Prefiro pensar incialmente na palavra polarização deixando de lado o assunto política. Tento lembrar o que acontecia quando criança e aparecia divergências. Parece-me que havia uma entrega minha enorme em busca de entendimento, uma grande flexibilidade. 
Hoje em dia me vejo tão distante dessa criança, me parece que estou o tempo todo numa monstruosa polarização com verdades adquiridas ou construídas por mim mesma e imposta ao outro, sem tolerância, sem diálogos, sem aceitar diferenças, sem perguntas, sem voltar atrás, sem ceder, fica claro para mim que nesse estado me torno uma árvore seca e dura, próxima a morte, estancada, presa por correntes tão grossas e pesadas que nem uma tempestade consegue me mover, muito menos me quebrar. Concentro-me unicamente na minha posição, quero iluminar um único plano, o meu. Penso que me assemelho a uma lâmpada de foco único. Não, não quero só enxergar esse foco, quero ser como a luz da natureza que quando se propaga ilumina todos os planos. Como ser essa luz da natureza? Como iluminar todos os planos dentro de mim? Sinto que só vejo um pontinho iluminado em mim, e é esse único pontinho que quero impor ao mundo, não questiono, não cedo, não aceito diferenças, não pergunto, pois tenho muito medo do resto de mim que é pura escuridão.

Como entro nessa escuridão?

Como a ilumino?

Como me liberto?

Como existo? 
Aonde existo? 
Quando existo? 
Por que existo?

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Still do filme "Stalker" (1980) de Andrei Tarkovski 

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Carta de Sol Lewitt para Eva Hesse

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ENCONTRO DE FILOSOFIA PARA MULHERES

Por Anna Israel

 

RELATÓRIO #1

13.11.2020

Camila Padilha

 

O que a mulher espera de si mesma quando ela se sujeita a não falar sobre o que realmente importa – como o vazio que a Gabi trouxe, por exemplo? O que a mulher espera que aconteça com o corpo dela/com a sua mente/ sua sanidade se ela se propõe a seguir "a risca" todas as "apresentações" da sua vida? Qual parte de si ela vai mascarar durante toda a vida? O que aconteceu mesmo na aula para finalmente assumirmos um lugar da gente que interessa MUITO a nós mesmas?

 

Qual é o movimento diário, por exemplo, que a Bianca pode fazer para trazer essa questão do vazio da Bahia (me corrija se eu estiver errada) para o mais perto possível, para que essa questão não esteja em outra cidade (ou entre-cidades), mas perto o suficiente para que ela sinta esse vazio e dialogue com isso no dia a dia, durante o banho, quando cozinha, encontrando os amigos, lavando sua louça… A fim de ir até o limite do vazio... Será que a questão continuará tendo a ver com a Bahia? Como propor novos rumos para um vazio? Como dialogar com ele e entender o que ele nos pede? O que o vazio (gostaria inclusive de usar um outro termo, como o "privado" de nós, ou "íntimo" da gente) está querendo nos dizer mesmo? Sentir o nosso íntimo mais perto não pode ser um problema, e sim fazer parte da solução! *Camila tem que pensar muito nisso

 

Como dou conta de escrever esse relatório as 23h00 da terça-feira sendo que trabalhei o dia inteiro como um camelo e o "ideal" agora seria ir para a cama? Não acredito que esteja fazendo um esforço absurdo em me manter acordada, mas acredito que o fato de me proporcionar ter esse momento pós-aula com a escrita pode me fazer dormir em mais  contato comigo mesma… Nem que seja só um mísero pequenininho contatinho, mas algum contato -- que consequentemente vai me fazer acordar amanhã num puta bom humor ou num puta mal humor; convenhamos que dialogar consigo não é nada bonitinho, né, muitas vezes só dá dor de cabeça

 

Fico feliz que a escrita tenha se aproximado de mim hoje, e eu me aproximei dela;

de certa forma, se eu não me me disponibilizar a escrever o que eu gostaria que fosse dito, isso nunca vai sair, e o que de fato sai nunca é o que eu gostaria que fosse dito, assim como o que é dito está muito longe da palavra, e como a Anna colocou, nem numa língua diferente a palavra tem tanta força quanto uma nova forma de comunicação que se pode criar -- através de um calor, de uma sensação conjunta,

 

Estou totalmente solta neste texto (eu penso isso, mas na verdade mas não estou) , pareço desamarrada mas na verdade não tenho ideia para onde ele está indo, me sinto uma minhoca, uma biruta de posto, um pouco menos desaglomerada de mim e do que eu esperava desse texto, mas ainda sim presa a muito do que os outros querem de mim, demasiado presa num lugar da "pescaria coletiva da Camila", onde o mar está pra peixe e todo mundo pesca alguma Camila que agrada, sempre.

Sou a presa ideal do que eu prefiro dizer no lugar do que deve ser dito

 

Nada vai ao meu encontro se eu não me permitir. Se eu não largar as rédeas desse texto, não largar as rédeas do meu trabalho com a fotografia, não me desenrolar como uma possível artista e ter arrojo para poder dizer isso… É preciso descolar de uma articulação fajuta que eu tenho da Camila com a Camila e que constrói um delírio coletivo que não tem a ver comigo. penso agora se tenho alguma espécie de dislexia, esse texto me parece muito torto, ….

 

Muito obrigada Anna e a todas as meninas pelo primeiro encontro, foi super especial para mim.

Caderno de estudos de Anna Israel sobre a frase "amar é dar o que não se tem" (Lacan) de 2016

O dia em que eu não fui eu mas não deixei de ser eu suficientemente para de fato não ser eu, pois depois terei que lidar comigo

Bianca Argolo 17.11.2020

A epifania aconteceu alguns minutos antes da aula, no minuto em que vi Anna, que disse que eu parecia feliz. De fato, eu estava mais feliz que o normal. Não, estava radiante, estava consciente de que fiz algo hoje através do meu eu que não conheço. Um eu que estava ali naquele momento, mas que é tão embrionário, tão pequeno, que foi incapaz de se assumir e relatar algo. O eu feto nem te conhece, Anna, ele não queria aparecer assim, do nada ​— ​você poderia levar um susto, você está acostumada comigo às 19h30 na câmera depois de uma terça-feira lutando uma batalha que nem é minha.

O eu estava lá, em resquícios. Ele foi solar, foi protagonista dentro de mim entre hoje e ontem. Vou contar com maior precisão porque ele voltou agora, depois da aula. Estou invadida, ininterrupta, nem olho para as palavras que vão ficando para trás ​— depois corrijo o que escrevi depressa, errado, tudo meio vermelho, mas não posso deixar o feto escapar, ele é o fio condutor de toda uma meada que acontece dentro de mim há um dia. Estou detalhando tanto pois nem sei como explicar, estou correndo em direção a chegada e não sei onde é, mas, incrivelmente não estou perdendo o fôlego.

Quero contar, escrever, gritar, aproveitar a corrente elétrica que está me atravessando, me entorpecendo, porque depois vai ser muito, muito ruim, vai ser uma ressaca, sozinha no escuro, me sentindo mal, pensando o pior de mim.

Não é difícil fazer o que não se espera de nós, nem dar uma chance para que o eu que mora no fundo não morra ​— ​o ​pós fazer isso que está torturante, insustentável, que está sendo algo que nunca senti na vida, porque nunca o fiz. Amanhã tenho análise, graças a Deus, mas queria escrever isso sentindo na pele, como se escrevesse no meu próprio braço, como se estivesse quebrando minha bacia, abrindo uma ferida, como se estivesse ajoelhado no que escrevo, antes dos meus ouvidos serem beijados por encorajamentos às 9 da manhã e o dia começar de novo.

Quero escrever isso à flor da pele do que é parecer ser uma primeira coragem, algo que me afasta tanto de mim, que nem me reconheço nas palavras. Algo que estava dentro e que precisava ser colocado para fora, e como é bizarro ter vomitado uma coisa que estava a tanto tempo presa, que fazia parte integral de mim. Estou com um buraco no lugar que essas palavras, essas sensações moravam, sinto que eu mesma arranquei ​— ​não ​— arregacei, jorrei sangue e fiz uma sutura de primeira viagem com linha de costura de roupa e tesoura sem ponta. E esse depois tão assustador nada mais é do que a dor dos pontos, de não saber o que fazer com isso, não saber como amenizar, tratar, seria gritando? Não, eu estou tão perdida, estou me sentindo tão estranha neste corpo, estou suspensa mas não de um modo que geralmente fico ao escrever, eu estou me olhando escrever, não estou flutuando escrevendo.

A cirurgia está me custando uma falta momentânea de linhas de raciocínio clara, estou ditando as palavras para ter certeza que serão digitadas, mas elas saem do nada, desse eu pequeno, que nem sabe escrever, nunca foi alfabetizado, nunca saiu para ver o mundo com os próprios olhos. Esse eu míope que nem enxerga a tela direito, eu preciso de óculos, tenho três graus de miopia, estou com eles, mas o feto precisa de mais, ele não vê nada, é muito rápido, só precisa cuspir e sair correndo. Ele me custa muito ​— ​fiz algo hoje que não era esperado de mim porque não fui eu quem fez e, no fim das contas, resta a mim mesma ter que lidar com isso ​—​ eu não faço ideia de como.

É a primeira vez que desalgemo o eu, ele não sabe nada do que estipulei de ser, por isso é tão infame, tão grosseiro, tão real e tão distante de mim. Mas ele sabe o que preciso muito mais do que eu, ele nunca escreveu textos e escreve melhor que eu, ele é tão vital, ele é a vida, ele sou eu.

Anotações de Agnes Martin em seu caderno pessoal

tradução por Anna Israel

Encontros de filosofia

para mulheres

Anna Israel + Espaço Téa

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Aula 1

A experiência estética a partir do filósofo americano John Dewey (1859 - 1952)

Aula 2

Leitura de "O mineirinho" de Clarice Lispector (1920 - 1977)

 

Aula 3

"A mulher não existe", Jacques Lacan (1901 - 1981)

Aula 4

A relação de arte com espiritualidade a partir do filósofo francês Gilles Deleuze (1925 - 1995)

Aula 5

Arte como uma atividade revolucionária a partir do antropólogo inglês Alfred Gell (1945 - 1997)

Aula 1: John Dewey

“Os inimigos do estético não são o prático nem o intelectual. São a monotonia, a desatenção para com as pendências, a submissão às convenções na prática e no procedimento intelectual. Abstinência rigorosa, submissão coagida e estreiteza, por um lado, desperdício, incoerência e complacência displicente, por outro, são desvios em direções opostas da unidade de uma experiência.”

John Dewey (1859 - 1952), 

filósofo e educador americano, 

no livro Arte e Experiência

I’m nobody! Who are you?

Emily Dickinson 

 

 

I’m nobody! Who are you?

Are you nobody, too?

Then there’s a pair of us — don’t tell!

They’d banish us, you know.

How dreary to be somebody!

How public, like a frog

To tell your name the livelong day

To an admiring bog!

A dança e a pantomima, origens da arte teatral florescem como parte de ritos e celebrações religiosos. A arte musical era repleta do dedilhar de cordas tencionadas, do bater de peles esticadas, do soprar de juncos. Até nas cavernas, as habitações humanas eram adornadas com imagens coloridas, que mantinham vivas nos sentidos as experiências com os animais muito intimamente ligados à vida dos seres humanos. As estruturas que abrigavam seus deuses e os meios que facilitavam o comércio com os poderes superiores eram criados com um requinte especial. Mas as artes do drama, da música, da pintura, e da arquitetura, assim exemplificadas, não tinham nenhuma ligação peculiar com teatros, galerias ou museus. Faziam parte da vida significativa de comunidades organizadas. 

John Dewey, Arte como experiência

BIBLIOGRAFIA PARA INTERESSADOS

TEORIA DE ARTE

  1. Arte como Experiência, John Dewey

  2. Arte e Agência, Alfred Gell

  3. Livro do Desassossego, Fernando Pessoa

  4. Poemas de Emily Dickinson

  5. Poema Cântico Negro de José Régio

  6. Livro de arte africana 

  7. A História da Arte, Ernst Gombrich

  8. Arte Moderna, Argan

  9. A Vontade Radical, Susan Sontag 

  10. A Imagem Sobrevivente, Didi Huberman – sobre o pensamento do historiador Aby Warburg

  11. A Vontade de Poder, Nietzsche

  12. Sobre a Natureza Íntima da arte, Anna Israel

por Anna Israel

 

Aula 2: "Mineirinho", Clarice Lispector

“(...) Essa justiça que vela meu sono, eu a repudio, humilhada por precisar dela. Enquanto isso durmo e falsamente me salvo. Nós, os sonsos essenciais. 

Para que minha casa funcione, exijo de mim como primeiro dever que eu seja sonsa, que eu não exerça a minha revolta e o meu amor, guardados. Se eu não for sonsa, minha casa estremece. Eu devo ter esquecido que embaixo da casa está o terreno, o chão onde nova casa poderia ser erguida. Enquanto isso dormimos e falsamente nos salvamos. (...)” 

Mineirinho, Clarice Lispector

por Adriana Scott e Lorella Coselli

BIBLIOGRAFIA PARA INTERESSADOS

  1. Seminários do Lacan

  2. Paixão Segundo GH, Clarice Lispector

  3. Todos os Contos, Clarice Lispector

  4. Crime e Castigo, Dostoievsky

  5. Memórias do Subsolo, Dostoievsky

  6. Os Irmãos Karamazov, Dostoievsky

  7. 10 Poemas Líricos, Rubens Espírito Santo

 

Aula 3: "A mulher não existe", Lacan

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Chef's Table: Jeon Kwan

Still de Gritos e sussurros, Ingmar Bergman

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Chef's Table: Niki Nakayama

Emily Dickinson

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Jessye Norman

Still de Mullholand Drive, David Lynch

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Hilma af Klint

Eva Hesse

BIBLIOGRAFIA PARA INTERESSADOS

1. Seminários do Lacan

2. Seminário XX, Mais, ainda, Lacan

3. Destruição do pai, reconstrução do pai, Louise Bourgeois 

4. A Gaia Ciência, Nietzsche

5. Leituras e Leitores de Lacan em Três Aforismos, Editora Intermeios

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por America Cavalieri

 

Aula 4: O que é o ato de criação?

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“Qual a relação entre a obra de arte e a comunicação? Nenhuma. A obra de arte não é um instrumento de comunicação. A obra de arte não tem nada a ver com a comunicação. A obra de arte não contém, estritamente, a mínima informação.” 

Gilles Deleuze (1901 – 1981), 

filósofo francês, no texto “O Ato de Criação” 

BIBLIOGRAFIA PARA INTERESSADOS 

  1. 10 Poemas Líricos, Rubens Espírito Santo 

  2. O Belo Autônomo, Editora Autêntica 

  3. O Arco e a Lira, Otavio Paz 

  4. O que resta de Auschwitz, Giorgio Agamben 

  5. O Erotismo, Georges Bataille 

  6. A conversa infinita, Maurice Blanchot

por Fernanda Carvalho

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Aula 5: Arte como uma atividade revolucionária a partir de Alfred Gell

O que é mesmo o trabalho que fazemos quando estamos trabalhando?

Fala

Por Orides Fontela 

 

Tudo

será difícil de dizer:

a palavra real

nunca é suave.

Tudo será duro:

luz impiedosa

excessiva vivência

consciência demais do ser.

Tudo será

capaz de ferir. Será

agressivamente real.

Tão real que nos despedaça.

Não há piedade nos signos

e nem no amor: o ser

é excessivamente lúcido

e a palavra é densa e nos fere.

(Toda palavra é crueldade)

por Lorella Coselli

Eu vejo arte como um sistema de ação, que pretende, antes, mudar o mundo, do que codificar sentenças sobre ele.

Alfred Gell

BIBLIOGRAFIA PARA INTERESSADOS 

  1. Arte como experiência, John Dewey

  2. O Limite do útil, Georges Bataille

  3. O erotismo, Georges Bataille

  4. Arte e agência, Alfred Gell

  5. A felt hat: Joseph BeuysLucrezia de Domizio Durini

por Fernanda Carvalho

 
 
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