SALA DOS CADERNOS

DE RUBENS ESPÍRITO SANTO

Sala dos Cadernos RES é uma parte da Coleção Anna Israel feita através de um pacto vitalício iniciado em 2011, entre Anna Israel e o artista, pensador e pedagogo, Rubens Espírito Santo.

Hoje, a Sala dos Cadernos comporta aproximadamente 1000 cadernos de RES feitos ao longo de sua vida, assim como a documentação de sua obra feita por ele mesmo. 

O devir tem a ver com a criança na cama dos pais.

Este é o 2 relatório do Seminário de Anna Israel sobre Mil Platôs de Gilles Deleuze e Félix Guattari

Giulia Naccarato

I

  1. Esta semana fui na Coleção de Cadernos da Anna.

  2. CONTEXTO: nesta coleção tem - pelo menos - 15 anos da vida do Rubens - tudo datado em cadernos.

  3. Existe um quarto na casa da Anna só para estes cadernos

  4. Há pelo menos 15 anos o Rubens faz listas diárias e recortes de jornais - isso só da parte que eu vi, sem contar os cadernos mais antigos que não estão lá.

  5. Ele escreve sobre compras feitas, o que ele almoçou, quem cozinhou, com quem ele brigou, ideias para desenhos, rascunhos de mapas. Qualquer coisa é motivo para pensar.

 

 

II

 

"Acho que escrever é um devir alguma coisa."

Deleuze em "O Abecedário"

III

 

  1. Por um lado sei que me é impossível escrever. A fala é insuficiente diante da coleção de cadernos, dos desenhos de sexta, é insuficiente por que a fala não basta.

  2. Por outro lado sei que devo continuar a escrever.

 

 

IV

 

 

  1. Não basta fazer tudo direitinho, não basta apenas acordar cedo e ler o jornal, não basta ler e estudar, não basta desenhar - não basta seguir fórmulas - as fórmulas estão vencidas - não existe mais um remédio para o nosso tempo. Buscamos feito pragas uma poção que dê conta de uma insuficiência, que masturba minha carência, que me faça acreditar que sou uma boa menina e por isso há de vir os frutos MAS NÃO ME ENSINARAM A LUTAR PELOS MEUS FRUTOS, POR QUE NÃO ME ENSINARAM A PLANTAR?

  2. Aprender a plantar não é apenas esperar pelos frutos, mas é lidar com a frustração, é ter fé, resiliência, é acreditar, por que viver é só tentar, viver é a próprio guerra de seguir tentando - e aprender a viver com isso, com o vazio, com isso que sobra, com aquilo que não sei.

  3. Aprender a plantar é lidar consigo mesmo, com os desejos e expectativas - pode-se dizer que plantar é um exercício de solidão.

  4. Aprender a plantar é também estar diante do nosso podre.

  5. Plantar é o começo de um lugar que é seu, é um lugar sagrado e intocável, um lugar que pode estar em contato com o devir-criança, com esta "infância do mundo", com um lugar que nos foi roubado.

  6. Plantar é tentar recuperar este lugar.

 

 

IV

TEMENOS

 

"São como que contraespaços. As crianças conhecem perfeitamente esses contraespaços, essas utopias localizadas. É o fundo do jardim, com certeza, e com certeza o celeiro, ou melhor ainda, a tenda de Índios erguida no meio do celeiro, ou e então- na quinta-feira a tarde -a grande cama dos pais. E nessa grande cama que se descobre o oceano, pois nela se pode nadar entre as cobertas; depois, essa grande cama e também é o céu, pois se pode saltar sobre as molas; e a floresta, pois pode-se nela esconder-se; e a noite, pois ali se pode virar fantasma entre os lençóis."

 

Michel Foucault em "O Corpo Utópico, As Heterotopias"

 

Os cadernos do Rubens são inventários. Quando ele diz que sua visão não é retilínea tem muito a ver com isso. Os cadernos são uma data de uma investigação, de resgatar este lugar como a cama dos pais.

 

Rubens me perguntou na sexta de manhã o que diferencia ele das outras pessoas - entre muitas coisas, era para eu citar apenas uma.

Citei que ele é um cara que pensa. Isso já é raro, mas não é só isso.

O pensamento do Rubens é sofisticado, mas acho que um fato que diferencia, que chega a ser divino,  é que ele não fincou em um só lugar, ele permitiu que o pensamento fosse atravessando todos as esquinas do seu corpo, criando uma teia, criando uma organização que é capaz que flagrar minúcias.

 

Então hoje o seu lugar sagrado não é o caderno, não é a sessão de desenho, seu lugar sagrado é a sua própria vida.

Visita à CIAI - 06.06.202

por Victor Aliperti

 

  1. Depois de 2h e ter visto dois cadernos de RES parei um pouco para observar a própria sala dos cadernos. Uma das coisas que mais me chamou atenção foi ver a diferença do aspecto visual dos cadernos mais antigos com relação aos muito, muito recentes. Os cadernos de 1990 até 2018 tem formatos, grossuras, cores e encadernamento específicos, alguns tem espiral, outros não. Já a partir de 2019, dá para enxergar uma unidade visual muito específica. A grande maioria são de tamanhos similares, são os mesmos tipos de caderno, com a mesma grossura, encadernamento muito simples e muito funcional, todos os cadernos sem espiral, todos sem pauta. Parece que o corpo dos cadernos, a cada ano, foi ficando mais estruturado, mais disciplinado, mais obsessivo, mais ajustado, parecendo realmente que foram objetos impressos de uma máquina. Isso me faz muito questionar: Em que lugar Rubens chegou? De onde ele partiu e para onde foi? Qual a relação dos cadernos dos dois ultimos anos com a sua produção plástica de escultura e desenho dos ultimos dois anos? E com a produção de escrita? E com a produção pedagógica? Os cadernos adquiriram uma similaridade estética a serviço de quê? Qual foi o motivo pelo qual há essa mudança tão brusca e tão visível na estética dos cadernos? Que lugar sua obra alcançou que impactou tão agressivamente a estética dos cadernos?

  2. Agradeço muito a Anna por esse projeto, pelo cuidado com os cadernos, pela manutenção desse conjunto de objetos que são de valor inestimável para humanidade e por ter aberto as portas de sua casa para jovens do CAC poderem visitar essa Sala em meio a uma pandemia. Isso é muito próximo de uma benção, é um shot de esperança e um comburente muito potente para chama que queima dentro de mim!

  3. E agradeço muito a RES por ter se feito tão disponível ao longo de sua vida. É realmente uma dádiva poder ser seu aluno e ter acesso aos cadernos que dão muitas pistas de como ele construiu sua obra, como ele construiu sua vida, a si mesmo! Agradeço muito por ele levar o “deixar um depoimento” tão a sério. É lindo de ver.

  4. ESSA SALA é FODA!

Pesquisas sobre a Sala dos Cadernos (SDCIAI)

Projeto de Mestrado na PUC / SP de CCS sobre os Cadernos de RES na SCIAI com a orientadora Cecília Almeida Salles

[...] Este trabalho tem como objetivo investigar a construção de uma obra a partir dos cadernos de Rubens Espírito Santo. As possibilidades de descobertas nos cadernos permanecem ainda desconhecidas, pois este é um trabalho em busca de algo que está por ser descoberto. Porém, já me são suscitadas questões como:

 

  1. Como a linguagem verbal é usada nos cadernos e qual é sua função no processo de criação do artista? Quais são variantes linguísticas exploradas e criadas nos vestígios do processo de escrita do artista?  

  2. Como o contexto histórico e cultural é discutido nos cadernos?

  3. Como os manuscritos configuram-se como parte fundante do pensamento?  

  4. Como o erro se inscreve nas anotações e qual seu papel em sua obra, por exemplo a presença de erros de digitação cometidos na transcrição de trechos de manuscritos para o celular e que são mantidos pelo artista?

Coleção_Anna_Israel_-_sala_dos_cadernos.

Vídeo de Fabiana Reis sobre a sala dos Cadernos

dUm morto debaixo de mim

CCS, Relatório Curso do Methodo, visita à Sala dos Cadernos

de Rubens Espírito Santo na Coleção Anna Israel, 8 de junho de 2017

A felicidade de ser uma pessoa sensata e ponderada, um homem de sentimentos simples, ele a vê explodida em fragmentos, como ruidosos e retumbantes blocos de rocha a rolar no desmoronamento da montanha que é sua vida. E ele ainda a ajuda, está decidido. Quer se sujeitar por inteiro à má sorte de ser poeta: perecer o mais rápido possível!

Robert Walser, Kleist em Thun em Absolutamente nada e outras histórias

 

 

Anna pediu que, para escrever este texto, eu tentasse detectar do que era feita a estranha atmosfera daquilo que pairava no ar depois que lemos os cadernos de Rubens? Essas não foram as suas palavras mas eu não consigo reproduzir quais eram. Aqui é uma tentativa da exposição do que pensei sobre esse momento tão indefinível que rondou a todos ontem, e que provavelmente não cessou de rondar.

Tem uma passagem do livro que estou lendo da Iris Murdoch, Sob a rede, que me fez pensar muito no Rubens. É uma frase bem curta e talvez até aquelas meio de impacto, sobre o amor ser aquilo que se tem por alguém que é inesgotável. Isso me fez muito Rubens e no fato de eu amá-lo não ser um fato que vem de mim, mas dele mesmo. Talvez o fato dele ser um poço sem fundo, de ser realmente inesgotável, não porque eu ache que ele é, mas porque há provas disso em todo o lugar e os cadernos feitos de listas que se repetem incansavelmente sem questionarem sua utilidade, fotos que pararam de exigir a atenção de quem as olha, esquemas sem contexto que se atualizam a qualquer momento são uma prova irrefutável; talvez seja isso o que lhe dá a propriedade de ser alguém amável, de ser alguém não apenas que provoca amor mas que exige isso de quem quer ficar perto dele; Rubens exige que eu dê um amor que muito provavelmente eu não conheça. Essa capacidade é aterrorizante: nunca vi alguém, a não ser em livros, e eu nem saberia dizer quais, conseguir bancar a responsabilidade de arrancar no outro um amor de uma forma não proposital, não carente, que não visa isso, este não é o objetivo do Rubens, ele não quer aprovação ou atenção, o amor que ele exige e que ele dá, não é o que penso sobre amor; é um amor que eu com certeza não tenho comigo; é um que afirma, que não tem dúvidas de que eu só posso entregar minha vida, que só por isso eu a recebi, e que me faz tentar entregá-la homeopaticamente todo dia: esse amor é algo totalmente letal. Um amor que faz tantas pessoas quererem servi-lo, porque também querem senti-lo, vivê-lo; um amor o qual eu me vejo querendo servir, por mais que não saiba como, me vejo querendo e me faz perceber que talvez eu nunca tenha realmente querido algo antes na minha vida.

A partir deste amor difícil de reconhecer, dele ser aquele conhecido estranho, aquele rosto que já vi em alguma festa mas que foi sempre a pessoa que saiu antes dela começar pois ele tinha que sair para pegar um ônibus que não iria parar em ponto nenhum, Rubens me faz estar em estado de pergunta, uma pergunta, porém, nua, sem morfologia, uma pergunta que, antes de não ter resposta, não tem face, não vê reflexo quando se olha no espelho, não tem documentação, certidão de nascimento nem de óbito; não consigo ler a pergunta na qual posso estar me transformando, tampouco sei ou saberei a resposta: é uma visão de um abismo por baixo dos meus pés, um abismo cuja terra não pode ser beijada pois não posso cair nele; tampouco ele pode ser deixado pra trás devido ao seu magnetismo, fé, ou seja lá o que for esta propriedade intrínseca a ele. Talvez os repetitivos e ainda assim singulares cadernos mostram um pouco desse abismo o qual tenho vertigem só de ouvir falar. Esse medo que eu tenho de viver, de olhar o abismo gerado pela minha própria vida, gerado antes mesmo dela nascer é escancarado para mim quando leio alguma página do caderno de Rubens falando que precisa comprar alho, cebola, uma cadeira e que faltam três alunos lhe pagarem.        

Mas talvez esta equação não seja essa mesmo, o que me intriga ainda é o fato de que talvez eu não seja inteligente o suficiente para ser capaz de sentir realmente medo desse abismo, um medo que só me aproximaria dele para nossas distâncias se encurtarem, para que ele deixasse de ser abismo, de ser tão alto, de ser tão longe, de ser tão externo; talvez o que Rubens tenha medo mesmo é de ser um morto antes da morte e por isso ele se entrega tanto - para que ela não lhe arranque dele mesmo.

Em cada mísero lugar que encosta, Rubens parece imprimir o cheiro da carne que, viva, se vê morrendo, apodrecendo; ele o faz da forma mais sutil possível; mesmo que a forma seja sutil, o cheiro é tão insuportável que é constrangedor não percebermos sua proveniência, ou me dar conta que eu não tinha me dado conta antes; é como se, depois de lermos seus cadernos, cada um se desse conta do cheiro mas sem saber se havia mesmo uma carne apodrecendo, ou se o cheiro vinha dele mesmo; será que estou fedendo desde cedo e não percebi, porém só agora me dei conta? Eu devo estar com algum problema ...

Os poucos cadernos que vi não continham textos poéticos ou literários - como se suas listas e colagens não fossem textos poéticos…que panaca eu sou - ou reflexões do Rubens. Apesar de querer muito lê-los, na verdade eu dei graças a deus por não encontrá-los, pois sinto mesmo que eu poderia ter quebrado ali mesmo, no confortável sofá da casa da Anna. Não queria encontrar o menino grandão que senta na última cadeira da sala de aula. Sinto que não aguentaria, parece que sou sensível demais pra ser feliz ou triste - isso, aqui, não é uma qualidade como é a fragilidade do Rubens, que se suporta enquanto tal a todo momento sem resistir (atitude que tomo continuamente, mesmo que resista) - e Rubens me aponta o dedo me mostrando que eu realmente não aguento, não dou conta, muitas vezes não sei como nem porque me ponho ao lado de um buraco tão fundo, que diz pra mim sempre que meu corpo não cabe lá se eu quisesse me esconder e nem iria ter fundos se eu quisesse me matar. É uma benção, mas completamente amaldiçoada. É comida, mas estragada. É totalmente vivaz, sem nenhuma vida.

Rubens quer se fazer tão presente quanto a poeira que flutua da janela assim que ela se abre quando a noite acaba e o sol nasce, aquela poeira que não dá pra limpar com pano, que não é matéria da sujeira de um chão imundo mas também não é transparente como água. É uma poeira esquisita e fundamental, linda e inútil.

Ler os cadernos do Rubens faz com que me encontre com o desamparo de me esquecer da minha melhor memória de infância; da letra da minha música preferida; com o desespero de ter, por um momento, esquecido meu próprio nome! De saber que vida não é aquilo que sempre entendi por vida. Me faz perceber que parece um disparate chamar meu corpo de meu - ainda não o possuí, e, mesmo sem perceber que não posso, não tentei o suficiente.

Eu gostaria de falar tudo isso melhor, sem metáforas, mas eu realmente não sei, é não é que não pense nisso, penso mais nisso do que gostaria, escrevi isso desesperada no celular dentro ônibus, estou sem a droga da caneta, mesmo que eu vá reescrever o dia todo não tenho nem uma caneta; choro no meio da rua, e mesmo assim não encontro na esquina qualquer palavra desconhecida.

Acho então que talvez, o melhor jeito para que seja dito o que é aquilo que a presença de Rubens instaura no ar, mesmo que ela se dê através de seus cadernos, é continuar vivendo, ou melhor, continuar tentando encontrar uma possibilidade de viver a absurda impossibilidade de viver perto do Rubens, e continuar tentando dizer não da forma mais elegante o possível para todas as possibilidades que se põem diante de mim e que falam "você pode ser pequenininha, você pode voltar pra Jandira, você pode ter o calor que quiser embaixo do edredom que quiser.”

É assustador ver que as labaredas chamejantes que saem das mãos de Rubens saem realmente das suas mãos e não de seus sonhos; é assustador que Rubens viva uma vida repleta de amor e não tem sonho algum.     

Parece que já escrevi tudo isso antes, que sempre são as mesmas coisas, apesar da sensação ser nova, são as mesmas coisas, sendo que a coisa mesma escapa; enquanto que Rubens faz com que diversas coisas sejam sempre a mesma.

Parece que Rubens faz continuamente um ritual, mas não para conversar com os mortos simplesmente, como alguém poderia dizer, isso seria relativamente fácil; mas ele quer o difícil, o impossível: falar com os mortos que moram embaixo de mim, os que não conseguiram se manter em vida. Talvez isso me deixe como que sem chão: como se tira um tapete debaixo de uma pessoa fazendo-a cair, Rubens tira o que me servia de base para me apoiar: um morto de debaixo dos meus pés, fazendo-me cair para ter que estar viva e me acostumar a pisar com os pés no chão.

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