LAMPRÉIA LINGUÍSTICA 1

 

Prelações de Rubens Espírito Santo sobre Nietzsche (Humano, Demasiado Humano) Professores Assistentes: Anna Israel e Luca Parise Coleção Anna Israel

apto. 282 Bloco “D” - ed. Copan

Relatórios oficiais das aulas por Anna Israel e Luca Parise

Quinta feira

18.fev.2016

 

Presentes: Clara Wernek, Marina Spinelli, Anna Casadevall, Anna Villá, Gabriel Botta, Luca Parise, Anna Israel, RES.

 

Pequena joia que foi esse encontro do Nietzsche. Curso enquanto linguagem, enquanto uma língua, uma língua que estamos querendo falar, mas que fala muito melhor do que nós. Que língua é essa querendo ser falada nas aulas, e qual é esse momento oportuno de tamanha limpeza, tão limpo que a sujeira se torna insuportável de permanecer estocada, que a própria sujeira parece querer se pôr para fora, quer ser o objeto da questão, a sujeira não quer mais manipular, senão ser um pouco mais o objeto manipulado. Mas que sujeira é essa que estamos falando? Não sujeira em termos de algo “sujo”, em termos de algo “ruim”, mas poder ver, justamente, que nossas contradições, “sujo”, “limpo”, “bem”, “mal”, “correto”, “errado”, fazem parte de nós: as nossas contradições nos constituem enquanto linguagem.

Aprendemos, desde cedo, “coisas”, assuntos, histórias, línguas, diversos idiomas, traquejos sociais, aprendemos a nos comportar de forma “correta”, a fazermos perguntas “inteligentes”, mas por algum motivo, parece que desde muito cedo somos condicionados, somos educados a nos impessoalizar, a nos distanciar de nós mesmos, a saber idiomas, milhares de idiomas, mas não a saber pensar o que pensa um idioma – ou seja, trazer a responsabilidade da pergunta, trazer a responsabilidade do comentário, para si, se tornou sinônimo de algo estúpido, sinônimo da pergunta “burra”. Que pergunta burra é essa? A pergunta, parece, que está o tempo todo nos sufocando, perguntando por nós, comprimindo-nos; é a doença que nos faz de sua marionete – mas como aprender o idioma dessa doença? Como vê-la, e não somente ser portadores dos olhos que ela mesma vê? A doença é que está vendo, falando, agindo, pensando... Doença aqui não como, mais uma vez, coisa negativa, mas doença como o único caminho possível, o que estamos chamando, e o que Nietzsche está chamando de doença, é justamente a coisa que nos mantêm vivos – “a morte se expia vivendo”, Giuseppe Ungaretti. A doença como coisa que nos “idiomatiza”, somos nossos próprios idiomas secretos, somos, cada um de nós, um idioma que está na iminência de se perder, de se tornar extinto se não nos tornarmos escavadeiros, mineradores desses idiomas: Nietzsche, Cézanne, Warburg, Goethe, Tarkovski, Giacometti, Beuys, todos morreram, mas não deixaram com que seu idioma se tornasse extinto, cada um foi atrás desse idioma secreto de si, e em algum ponto secreto se encontram, a Nachleben de Warburg é como o sítio em comum dos idiomas, a diferença de cada idioma, que se repete ao cada um se idiomatizar (ou, se repete na medida em que cada um traz para si a responsabilidade da pergunta, na medida em que cada um se responsabiliza por um problema real de si – “a verdadeira intelectualidade só pode ser um instrumento para se mapear”, RES). A beleza desse curso, dessas prelações de Rubens Espírito Santo em cima de Nietzsche, em cima de seu Humano, Demasiado Humano, é a busca por essa idiomatização de Rubens, tradução de Nietzsche para RES, para partir de uma tradução de si mesmo, um açambarcamento doloroso, penoso – para isso que serve a tradição, para ser estuprada, para ser devorada, e só assim ser traduzida. Tradução é poder enfiar o dedo na ferida do outro até ele sentir, até ver a ferida, ver a origem da ferida, ver a perversidade e complexidade da ferida, e gritar – o grito em si já é tradução.

Mas por que não fomos, quando mais novos, encorajados a buscar essa fronteira, esse grito, essa língua? É claro que a língua continental, as línguas europeias, asiáticas, americanas não dão conta do mundo - é preciso se aventurar no fundo dos mares, das fossas. Mas porque essa língua é tão rechaçada?

E que língua, que idioma é esse? Que idioma é esse que prescinde da palavra, que dá um jeito de falar, seja lá qual for o jeito, ele vai falar o tempo todo, e quanto mais acharmos que ele não está falando, mais escravos, mais condenados somos de sua linguagem. E por que dói tanto dizê-lo? Que pista essa dor nos dá sobre a própria existência epistemológica da doença? O que o nosso pavor, o que o fato de morrermos de medo da doença diz sobre a ontologia da doença? Qual a relação dessas coisas? O que faz o Rubens, como artista, pedagogo e pensador nesse curso? O que é o curso? Que curso? Curso para o quê? Trazer de volta ao pensamento de Nietzsche a própria pulsão de Nietzsche, a doença do próprio Nietzsche é que está sendo colocada em jogo no curso; ou pouco importa Nietzsche, ou quem seja, RES se utiliza desse pensamento para traduzi-lo no outro, o outro dele mesmo, e o outro do outro, traduzi-lo diretamente na doença do outro.

Mas voltando a um ponto que me parece muito fundamental para o relatório, mas não para o relatório enquanto relatório da aula, senão o relatório enquanto algo afetado pela aula, relatório enquanto coisa investigativa do método, e entender o método como método do método, como modo desenvolvido para operar na doença, um modelo utilizado para operar na coisa, nessa coisa que justamente “me parece fundamental para o relatório”: aula do quê? Parece-me que responder essa pergunta já parece um grande salto dentro da doença. O idioma. Idioma da aula. Em que lugar, espaço se dá a aula? De onde ela fala e para onde? O emissor é o RES; o receptor, nós. Mas dentro de nós há um mundo, dentro do Rubens há um mundo – de que buraco desse mundo vem e para que buraco desse mundo vai o que tem que ser dito? Me arrisco dizer que é uma conversa entre oceanos, entre o fundo, fossas dos oceanos, uma conversa entre os poços artesianos do ser – como o canto dos cetáceos, que podem se comunicar a distâncias incríveis e que também podem cruzar o globo em questão de dias – a aula se dá por essas bandas: ela flui do pacífico ao atlântico em questão de minutos, sem que percebemos como ela se deu. É uma espécie de comunicação que vejo, sinto, cheiro seus efeitos em mim, mas não consigo decodificar nem o canal e nem a mensagem.

A aula, o curso, Nietzsche, é somente um pretexto para que possamos nos reunir e ter um especialista desse idioma tentando forçar nós mesmos a falar, junto com ele, o idioma – ou melhor, por ora, ao menos ver o idioma, a ver a palavra estranha, o som irreconhecível de uma língua que nos parece demasiada distante. Idioma do recalque, idioma-Hurbinek, idioma do idioma – idioma que nos antecede, que nos sustenta; não somos nós que dizemos o idioma, é o idioma, justamente, que nos diz. Esse idioma se dá em uma área fronteiriça, uma área instável, cheia de placas tectônicas que se movem constantemente. É uma língua viva, mas mais do que viva, é uma língua que está constantemente mudando seus códigos, seus significados e significantes - uma língua na qual constantemente entram novos vocábulos e saem velhos, que para cada regra gramatical há centenas de exceções (idioma dinâmico irregular: estocástica). É uma aproximação, arrisco-me, da língua da linguagem.

Prelações de Rubens Espírito Santo sobre Nietzsche: instrumento para abrir feridas, feridas que estamos, porcamente, tentando tampar de qualquer maneira, que não queremos vê-las abertas. Feridas que as outras linguagens sozinhas, institucionalizadas, não conseguiram abrir: a filosofia, a arte, a psicanálise. É um instrumento adaptado (me arrisco a dizer, da filosofia, arte e psicanálise) para conseguir cutucar a ferida, lancetá-la para sair o pus, falar com ela e, justamente, curá-la.

Esse idioma parece se dar, realmente, através das fossas oceânicas do homem; esse idioma de que RES nos fala, que RES pronuncia – uma pronúncia que desconheço completamente (ou penso desconhecer completamente) mas que ouço mesmo sem saber pronunciá-lo, também tem suas características: ela encontra e abre feridas. Essa conversa, essa aula, esse seminário, essa sessão de análise, esse depoimento, esse idioma, se dá. Se dá no meu desconhecido, em algum outro de mim, em alguém de mim que temo tomar o controle, que pareço muitas vezes fazer de tudo para ter controle sobre esse outro, mas a aula viola-o, me viola e o atinge, e assim, se dá através de uma outra linguagem, de uma outra fissura que não é a do ouvido, por onde o som deveria entrar. Se dá através de um sentido que escapa todos os sentidos que nos foram ensinados, quem sabe toca nesse sentido que justamente dá sentido à existência de todos os outros, onde o ver, o sentir cheiro, gosto, ouvir, são todos dispositivos que estão sedentos para serem ativados de algum outro modo, são canais que utilizamos, ainda, muito precariamente.

Então, como falar sobre uma coisa, como ver uma coisa, como segurar uma coisa que não cabe dentro de um idioma tão primário que nos ensinaram até agora? Como poder abraçar essa “potência de si”, usar da própria energia da angústia para poder abraçá-la? Incorporar a linguagem da angústia como modo de “vencê-la”, ou melhor, não vencê-la, mas poder se incorporar um pouco mais da própria doença da angústia, se incorporar, não da angústia, mas do seu corpo, de sua tessitura, incorporar de cada vocábulo que compõe a palavra angústia, de cada vocábulo que ressoa dessa palavra, de sua genética, seu DNA, do que a antecede, do que a sustenta, e não vencê-la. Fazer com que o DNA da angústia possa se transformar em algo palpável, palpável por nós, em algo manipulável, um pouco mais manipulável. Justamente, a melhor forma de aprender um idioma é se lançar nele – então quais são as plataformas de estudos desse idioma?

Um dos resíduos evidentes desse encontro é que claramente então há um hiato entre saber de algo e saber de você mesmo. O curso do Nietzsche, só pode ser uma ferramenta para chacoalhar a ferida de cada um, para assim, quem sabe, quem suportar permanecer, poder ter um pouco mais de mobilidade, dentro de um caminho, que parece não ter saída.

LAMPRÉIA LINGUÍSTICA 2

 

Prelações de Rubens Espírito Santo sobre Nietzsche (Humano, Demasiado Humano) Professores Assistentes: Anna Israel e Luca Parise Coleção Anna Israel

apto. 282 Bloco “D” - ed. Copan

Relatórios oficiais das aulas por Anna Israel e Luca Parise

Quinta feira

25.fev.2016

 

Presentes: Clara Wernek, Marina Spinelli, Anna Casadevall, Anna Villá, Gabriel Botta, Luca Parise, Anna Israel, RES.

 

Há algo muito difícil de ser dito, no caso, sobre a aula, que é justamente o que a compõe, o que a antecede, o que a constrói antes mesmo dela acontecer. Acredito que a dificuldade em dizer o que precisa ser dito tem tudo a ver com a aula – não há como usar mais uma língua x para falar da língua y. A aula é essa outra língua, é outra mídia, é a utilização do recurso da palavra colocada em outra instância de discurso, é um discurso novo, inventado, é a idiomatização de um artista, por isso, não há distinção entre uma aula de RES e um desenho de RES, e isso tem tudo a ver com a doença, é a língua da doença colocada em outro lugar.

 

DOENÇA (dicionário Houaiss): 1. PAT alteração biológica do estado de saúde de um ser (homem, animal, etc.), manifestado por um conjunto de sintomas perceptíveis ou não; enfermidade, mal, moléstia <o câncer é uma doença de difícil cura>

2. p.etx alteração do estado de espírito ou ânimo de um ser <a tristeza era uma doença>

3. fig. devoção excessiva, mania, obsessão, vício <para ele o jogo era uma doença>

4. fig. ofício laborioso

5. BMG parto (ato de parir)

 

O que parece interessante da definição dessa palavra é que a doença parece então ser tudo o que nos escapa, o que nos escapa de nós mesmos, somos uma linguagem de outra coisa, no sentido de que tudo em nós parece ser linguagem da doença, desde uma dor de cabeça até um ranço? O que estamos chamando de doença, é algo que desequilibra, atrapalha, perturba? - de um modo simplista, pode ser visto como algo “mal”. Mas olhando por uma outra ótica, só há distúrbio, se há uma faísca, se há uma força geradora desse distúrbio – essa força é quase imperceptível – nesse momento a doença se faz fundamental, é um sismógrafo que acusa o terremoto. Frente a esse cenário, podemos tentar fazer o sismógrafo parar de apitar, desligá-lo, cobri-lo, jogá-lo no quarto ao lado, ou podemos parar e olhar para ele, investigar o que ele pode estar querendo nos dizer. Em que língua ele nos diz? Como interpretá-la? Como traduzi-la? Como usá-la, como usar essa língua da doença mais a nosso favor?

Rubens foi capaz de fazer uma negociação com sua doença, uma negociação com ele mesmo, com uma parte, essa enorme parte dele, parte que lhe escapa por completo, e negociar com essa parte, negociar para que ele possa começar a conhecer o modo como essa grande parte, essa doença, articula a palavra, articula a sua língua, e usar dessa articulação a seu favor, se absorver dessa articulação da palavra da doença e colocá-la em uma aula, em um desenho, em um discurso, em um discurso de vida; onde a própria vida se torna o discurso.

Há um hiato entre a força que gera o abalo sísmico e a nossa compreensão, o sismógrafo, como a doença, são agentes de tradução, aproximam de nossa sintaxe, uma informação que seria incognoscível de outra forma. Como aproximar esse maldito abismo?

A doença surge exatamente da minha fratura, ela ilumina a fratura, joga sal nela para que possa senti-la – ela permite que eu a costure, una-a. Só a doença faz isso. O homem saudável, o homem que não olha suas doenças não tem como suturá-la.

Só o vivo pode morrer. Só o doente pode se curar. O homem que se diz curado, que nega a doença, que não busca a doença, que não tem na doença o seu caminho, não poderá superá-la jamais. E o terrível dos dias de hoje, é que todos acham que está “tudo bem”, justamente pois a atenção está sendo colocada no lugar errado – a humanidade está sangrando. A humanidade estará sempre sangrando, e isso é o que a constitui enquanto humanidade. Mas esse sangue, os grandes homens da humanidade nos provam, pode ser usado como estrutura óssea de algo, servem para algo, existem e nos dizem algo. Saber dizê-lo é o que parece urgente.

Uma palavra chave é a inoperosidade. Ser inoperante – que difere de ser ocioso, vagabundo – é possibilitar a des-operaração da máquina. Não é um movimento passivo, que não demanda esforço, pelo contrário, é um movimento extremamente ativo, de permitir que algo não opere em um espaço vazio. Os obstáculos que encontramos em nosso caminho vão ser justamente o que vai nos fortalecer. A inoperosidade tem a ver com encontrar o seu próprio idioma para se dizer no mundo; enquanto nos sentimos “senhores” da coisa, estamos tentando operar – mas só podemos operar no conhecido de nós mesmos, nesse sangue que escorre constantemente, sem que percebamos. A inoperosidade tem a ver com você se responsabilizar por algo que você está fazendo, responsabilizar pela sua vida - pelo conhecido e pelo desconhecido, querer que o conteúdo se funda à forma, e que essa massa amorfa que são as próprias ações, seja o próprio norte de uma vida; que o “norte” da vida de alguém seja simplesmente responder a pergunta “o que vim fazer neste mundo?” “Por que uma coisa existe, e não outra?”, e responder isso com o modo que um vai conduzir sua vida, que seja a sua vida – a resposta é a própria vida – não tem como responder de outra maneira: não há texto, não há obra, não há aula, não há discurso, não há conteúdo miraculoso que seja mais poderoso que uma vida levada às suas últimas consequências, não há conteúdo mais poderoso que escolhas difíceis que são tomadas, em nome de uma invenção de uma nova tecnologia, em nome da crença de que é possível criar essa nova tecnologia, a dobra de si mesmo.

Lemos tudo errado... O conteúdo é inseparável da forma. Precisamos urgentemente abrir mão de um conteúdo, de uma compreensão da coisa, pois o próprio modelo que nos é ensinado a pensar, a ver, a ler, a falar, já é um equívoco; as coisas são muito mais sutis, mais traiçoeiras, a doença é traiçoeira, e por ora, parece-me que somos completos objetos dessa doença, não há como falar com essa doença, nessa doença, se não for através de uma total indistinção de forma e conteúdo, se não nos responsabilizarmos por nós mesmos, pela vida, enquanto não formos capazes de nos colocarmos na diferença das coisas que supostamente gostamos.

Há um trabalho incrível para esconder a doença, para que ela não se manifeste – um esforço social sistêmico para nos cindir da doença, para que extirpemos ela. Nos foi ensinado de que por trás das coisas há algo: não há nada por trás de nada, as coisas estão escancaradas na nossa frente, não há nada por trás da doença, a doença somos nós - EU SOU A DOENÇA; estamos querendo buscar definições, significados, suposições, compreensões sofisticadas, enquanto a forma, a escolha de cada palavra, a “escolha” do gesto, a escolha por uma coisa e não outra, já é todo o significado da coisa.

Para juntar forma e o conteúdo, eu e a doença, é necessária uma extrema violência, cavar esse espaço em nós com um machado e deixá-lo vazio para que uma outra forma possa se dar, possa se movimentar – é esse o espaço da poesia. É esse o espaço onde a aula se dá. O método, a aula, Nietzsche, está todo encapsulada na forma em como a aula se dá, na postura, no posicionamento, visão de mundo, responsabilidade, na violência, na insistência da pergunta, nos saltos, inferências, nos óculos, chapéu, regata, camisa de linho, bermuda, na meia colorida, no charuto, no silêncio de Rubens. Aqui é onde se dá a inoperosidade, no incaracterizável para o outro, no incaracterizável para o espírito de uma época, para uma língua corriqueira, para um idioma ordinário.

Agora, o que parece interessante também de investigar, sobre o “curso do Nietzsche”, é o próprio método de como ele se dá: o que está sendo dito no curso? Por que ele aparenta ser tão volátil? O que eu estou “aprendendo” nessas aulas? A palavra “aprender”, por sinal, entra como um equívoco, entra como algo que pode ser absolutamente nocivo para o que realmente está por trás dessas prelações – nada está por trás, nada se aprende, não há nada necessariamente sendo comunicado, não há conteúdo nenhum sendo necessariamente comunicado, as prelações são o que está por trás delas mesmas; o que talvez seja mais interessante de absorver, é justamente a forma em como ele se dá, o modo como ele é articulado, o modo como cada palavra é articulada, composta, uma ao lado da outra, uma pergunta depois da outra, um salto após o outro – o que esses saltos estão cercando? Ou então, qual a natureza, a origem desse método em ficar dando saltos? Precisamos entrar em uma investigação mais vertical da doença, parar de ficar analisando particularidades, e começar a adentrar a construção de seu idioma, como operar em sua forma?

Justamente, RES não está interessado na exposição de assunto nenhum, e sim em como um pode absorver com a pele, um modo de posicionamento, como um pode absorver uma epistemologia, como um pode absorver uma construção sintática, como um pode compreender que há infinitos modos de se fazer algo, há infinitos modos de dizer a mesma coisa, e isso é o fascinante da história da arte, uma sucessão de diferenças, que se repetem. O que sobrevive ao tempo são as formas de se fazer algo, são métodos de açambarcamento. O modo como algo vai ser dito, operado, cirurgicamente operado, é que está sendo dito sem ser dito na aula. Ou melhor, está sendo dito, diz, mas de outro modo, na aula e depois da aula, e antes da aula, e mesmo que não haja aula – a questão é desaprender um modelo pueril de leitura, e aprender como mais pode-se ler algo.

Como se aproveitar da altíssima criatividade narrativa da doença, do sintoma, para operar no mundo? Como se aproveitar dessa montagem, da curadoria do inconsciente, para construir uma narrativa? Para construir uma aula? Para construir uma obra?

 

“Nesta aula, toda criação provém da cena, encontra sua tradução e suas origens num impulso psíquico secreto que é a Palavra anterior às palavras”.

Frase roubada de Artaud e reescrita por Anna e Luca

LAMPRÉIA LINGUÍSTICA 3

Prelações de Rubens Espírito Santo sobre Nietzsche (Humano, Demasiado Humano)

Professores Assistentes: Anna Israel e Luca Parise

Coleção Anna Israel

apto. 282 Bloco “D” - ed. Copan

 

Relatórios oficiais das aulas por Anna Israel e Luca Parise

Quinta feira

03.março.2016

 

junto com relatório da aula de segunda do dia 07.março.2016

 

Presentes: Clara Wernek, Marina Spinelli, Anna Casadevall, Anna Villá, Gabriel Botta, Luca Parise, Anna Israel, RES.

Presentes Aula de Segunda: Marina Spinelli, Jamal Campanha, Ana Viotti, Rafael Limberger, Lisa Gordon, Catarina, Gabriela Celan, Emmanuelle Gaden, Gabrielle Navarro, CCS, Gabriel Bondezan Botta, Felipe Goes, Luisa Gottschalk, Luca Parise, Anna Israel, RES.

 

Tópicos Prelações de RES sobre Nietzsche (Quinta-feira)

1. Continuar no prólogo

2. Associar esse curso do Nietzsche à uma investigação de método pedagógico de RES – o que é o método pedagógico de RES?

3. Transformar o terceiro anexo do Atelier do Centro em centro pedagógico de formação de jovens professores do método

4. Retomar duas palavras dentro da linha de reflexão do Nietzsche, palavras fundamentais para o método:

  • Trabalho

  • Poesia

Tópicos Aula de Segunda

1. A ideia de mestre para Nietzsche

2. O que Nietzsche entendia por “estilo”

 

Entender a palavra trabalho, dentro de sua complexidade: Para o Bataille, o trabalho é uma espécie de intervalo, de pausa na loucura; o trabalho é somente quando você está no seu absolutamente melhor; o trabalho que importa seria mais como uma pausa no que entendemos por trabalho, uma pausa no trabalho mecânico, no trabalho como somente o “ganha-pão”.

Trabalho para não estuprar, para não assassinar a pessoa na minha frente que demora na padaria, para não me matar, para não matar o outro, para não contaminar o outro do próprio ar que já está terrivelmente contaminado. Trabalho como solução para o ar contaminado. O que nos diferenciou dos outros hominídeos foi o trabalho, foi lascar a pedra: um intervalo em nossa animalidade pura, um sopro de algo sem direção que suspende a violência, ou melhor, que usa a violência a serviço de outra coisa, a serviço de um novo terreno, de um novo campo do hominídeo, o campo da pro-dução, o terreno de ser a sua própria iminência, de ser o que está latente em si, latente, fervilhando em algum lugar; entrar no seu terreno de potência, o terreno de ver todo poço de água potável dentro de si em um árido deserto, eis a pedra lascada: lascar a pedra foi um dia encontrar soluções para a vida, foi um dia espremer soluções para lidar com as adversidades, lascar a pedra como potência de ser no mundo, experiência pura, devir, ação antiteleológica - ninguém sabia a importância que a pedra lascada teria antes de fabricá-la. Errância. Entender que lascar a pedra foi para o hominídeo o que queremos entender como poesia, não tem nada a ver com práxis, não era um trabalho que se limitava em si. Hoje vemos o trabalho como algo que precisa ter um “fim” em si mesmo, ou melhor, o trabalho tem que produzir um fim, não pode mais ser o seu próprio fim, que seria, no caso, um trabalho que está trabalhando algo, o trabalho como experiência – esse tem a ver com construir, com poiesis, com arrancar os recursos de si mesmo no fazer. Passar do estado do “não ser” para o “ser”, do existir dentro de sua cabeça para existir no mundo.

Homo Faber como homem da experiência. Espremer soluções para lidar com adversidades, adverso dele mesmo, encontrar soluções para lidar com a sua incompletude, com a ideia de que a vida é finita, e por isso somos eternamente incompletos. Com a constatação desse fato, por que essa ideia de trabalho foi tão corrompida? Esse trabalho que estamos falando é fundamental ao homem, é o trabalho que movimenta a vida, mas foi totalmente desviado, como que canalizado em direção a um outro espaço. Como resgatar esse trabalho como peça chave da sobrevivência dos homens? Como sobrevivência espiritual dos homens? O que se perdeu no caminho? Por que algo se perdeu no caminho?

 

“Os homens perdem a saúde para juntar dinheiro, depois perdem o dinheiro para recuperar a saúde. E por pensarem ansiosamente no futuro esquecem do presente de forma que acabam por não viver nem no presente nem no futuro. E vivem como se nunca fossem morrer... e morrem como se nunca tivessem vivido.”

Dalai Lama

 

Esse trabalho que estamos investigando justamente é o que o método quer trabalhar enquanto trabalho, tem a ver com um momento de suspensão de toda a nossa loucura, um momento de suspensão do ser, um momento em que você pode entrar em seu estado de deriva, se deixar ser mais operado pelo seu impensado, pelo outro de você, e não mais pelo que esperam de você. Nesse caso, inverte-se toda uma noção de trabalho trazida pelo capital. O capital nos vende a ideia de que trabalhamos para sobreviver, que precisamos trabalhar para nos manter vivos, mas pelo contrário, enquanto trabalhamos nesse trabalho alienante e absolutamente automático, nos tornamos autômatos de nós mesmos, estamos estancando todo movimento de uma vida. A questão que parece termos perdido por completo e que é de importância vital usar um tempo de nossa vida para o anti trabalho, anti trabalho impregnado pelo capital, precisamos usar um tempo para o inútil, para o trabalho poético, mas não poético no sentido raquítico que temos desse termo. Poesia é muito mais denso do que saber articular palavras. Poesia no sentido de saber articular as horas mais úteis do nosso dia para pensar em um investimento maciço em nós mesmos, mas não no sentido de sobrevivência, não no sentido de, por exemplo, acumulação de bens, mas esse investimento no sentido de trazer de volta a libido para o corpo, a paixão para o corpo, a vitalidade de existir para fora do bloco de concreto que o capital construiu invisivelmente, maquiavelicamente em torno de nós.

Hitler manipulou a palavra trabalho. “Arbeit macht frei” [o trabalho liberta] estava escrito na entrada de Auschwitz, na entrada de vários campos de concentração. Essa frase está na entrada do banco, do escritório, do serviço. Há um projeto que busca libertar o homem – independência financeira? Intelectual? Moral? – Através do trabalho, mas isso parece loucura, isso é o trabalho desviado, o trabalho que aprisiona o homem dentro de si, o trabalho que não permite o homem respirar, que não permite o espaço vazio. Mantendo-nos nessa afirmação maquiavelicamente pervertida por Hitler, podemos enxergá-la de outro modo, e ver como a questão do trabalho é perversa em termos de manipulação de um sistema: um sistema está usando o trabalho para nos levar inconscientemente às câmaras de Zyklon B de nós mesmos, e assim continuar vivendo essa desgraça espiritual; ou podemos entender trabalho como única possibilidade de salvar a vida, como única possibilidade de dar um gato no campo de concentração. Trabalho como trabalho de uma vida, como fazer a coisa que você gostaria de fazer no último dia de vida. O trabalho só pode ser isso. O campo sempre vai existir. O campo como muitas coisas, mas aqui como água contaminada que estamos bebendo, como oxigênio que está nos faltando, como o sem saída de você mesmo, como estar preso dentro de uma estrutura gramatical da sua própria língua – trabalho como única saída possível para isso, trabalho como modo de dizer, como modo de encontrar o copo com água potável em um deserto de nós mesmos. Só isso é poesia. Poesia não é você escrever um belo poema, ou algumas estrofes com demais figuras de linguagem. Escrever um poema é ter poesia na vida, é se salvar dessa câmara de gás, poesia é poder criar respiros e saídas de ar dentro de um corpo pressurizado, dentro de um modelo de educação pressurizado, um sistema de vida estancado. Esse é o único trabalho e a única poesia que pode um dia prestar. Trabalho só pode ser o que se trabalha quando você está trabalhando, ou seja, anti teleológico, ou seja, anti determinístico; é algo capaz de gerar movimento interno, algo possível para desestancar um sangue estancado, coagulado, é única liberdade dentro de tamanha contingência de si mesmo. O método, já que aqui estamos eminentemente querendo investigá-lo, trata desse tipo de trabalho, não o de gerar um bom desenho, mas o de gerar fúria em desenhar, o de gerar fúria em querer fazer um caminho distinto do que aquele que a escola ordinária te obriga a fazer. Trabalho como única solução para o campo, não saída, mas solução para administrarmos o campo dentro de nós. Como manter-se mais articulado dentro de um caminho sem saída, como encontrar poesia dentro de uma zona tão cinzenta. O trabalho pode ser então o que faz do campo um caminho poético, é o capaz de “inclinar-se à inteligência do Pater Omnipotens” (afirmação de Cézanne), como faz Rubens, suportar o corte aberto, suportar ser a sua obra aberta de vida, trabalho como possibilidade de resgatar a ideia de “sem saída” de um terreno negativo, pejorativo. Ver o “sem saída” como milagre – entender o eterno retorno de Nietzsche, entender que o momento presente é tudo o que tenho, que a vida vai acabar, que nossa vida, a de cada um, tem um prazo, mas que a existência, aparentemente, não tem prazo, e como então aproveitá-la da melhor forma? Como viver a vida como se cada dia fosse o último? Que trabalho é esse trabalho-testemunho de uma vida? Trabalho que se funde de forma indissociável, informe, a própria vida e sua manutenção, sua experiência de estar vivo. Relação do eterno retorno de Nietzsche com o inútil de Bataille (o inútil de Bataille não é o não-útil. O trabalho inútil como trabalho-testemunho, trabalho que gira em torno dele mesmo, trabalho-milagre, trabalho-poiesis, trabalho-processo, trabalho como repetição de uma ação não alienada). Um soluciona o outro. Bataille encontrou a solução prática para o mito do eterno retorno de Nietzsche. Por sinal, Bataille não só encontrou a solução prática na formulação desse conceito, mas através de sua desgraça, inventou um estilo – estilo maldito pelos franceses. O estilo é a descaracterização de uma pessoa, em nome do trabalho, em nome do eterno retorno, o estilo é a desterritorialização de Deleuze e Guattari, estilo é a diferença que se repete, é a idiomatização de cada um, é o modo como os homens que sobrevivem ao tempo inventaram de dizer, é o que fica, é a invenção de cada um, é a obra aberta desses homens. Estilo é o cheiro da ambição na obra de um homem. Estilo tem a ver com o modo como alguém conseguiu articular sua vida em nome de um dizer, estilo tem a ver com visão de mundo, onde visão de mundo não é somente algo passivo, mas visão de mundo é capacidade de articulação das suas ações em nome de algo em que se acredita. É quando a crença, quando o discurso se torna indissociável do corpo, isso é o estilo para Nietzsche. Quando a sua vida se torna inseparável do que você diz ao mundo. “Quando mais consciência dos sinais que você emite para o mundo, mais estilo você vai adquirir” (RES), mais você vai conseguir ser o seu próprio idioma, mais incorporado de você mesmo você conseguirá estar. Quanto mais consciência desses sinais, mais você se aproximará de seu outro, mais você vai se tornar o que você é, e aí, o terrível, é que você pode descobrir que é o contrário do que gostaria de ser. O estilo tem a ver com você encontrar a doença e transformá-la em matéria, transformá-la em sintomatização, ou seja, fazer da própria doença, do sintoma, de toda uma linguagem que nos diz o tempo todo, fazer disso o nosso dizer, abraçar isso, ter um pouco mais de dizer sobre isso que nos diz constantemente. Puta merda, estilo é algo absolutamente fascinante: é você conseguir se vestir da sua própria pele, é fazer de sua pele a sua vestimenta, e não ela se fazer de vestimenta dela. Estilo é conseguir descobrir o que é o seu estilo, o que é você, o que é o que te escapa, e usar desse “o que te escapa” como sua vestimenta, se incorporar de seu próprio couro. Mas aparentemente isso leva uma vida, isso leva muitos sacrifícios, isso leva muito desapego para ser feito, queremos demasiadamente o couro do outro, pagamos ainda muito pau, temos muito medo do nosso próprio couro, sentimos muito medo ainda de viver a serviço do mistério, a serviço da gratidão em estar vivo, e com isso, entregar-se à busca do que sou, à busca do “o que eu vim fazer nesse mundo?”, quais esses sinais que eu emito que eu nem mesma sei? Quais esses sinais de mim que me antecedem e que eu, enquanto acho estar no controle, estou deixando escapar? O que sou quando não quero ser eu? O que está sendo por mim o tempo todo enquanto eu quero passar por outra coisa? A resposta disso tudo é o estilo. Ou melhor, não sei bem se uma resposta, não sei se um é capaz de realmente responder essas questões – como Cézanne mesmo afirmou, “eu fracassei” – então quem sabe a vida dedicada a esse trabalho, esse trabalho, o de autoconhecimento, autoconhecimento no sentido de olhar para a minha pele, sentir seu cheiro, observar a gramatura dos meus pelos, dos meus poros, entender as veias que passam por debaixo de minha pele, minhas alergias, esse trabalho é o trabalho que estamos falando. O que é isso que sou? O que é isso que não sou? Como posso ser uma coisa e não outra? Que outra coisa é essa que também sou? Mas, e o que eu não sou, o que é então? O que é em mim o que não sou?

Arte não é mais um lugar de trabalho poético. O artista se tornou absolutamente teleológico. Poesia, trabalho e arte são opostos ao teleológico. É urgente que paremos de tentar fazer algo para o outro, fazer algo por um resultado rápido, fazer algo para se obter aprovação, confirmação, aceitação, é urgente que gozemos de nosso dia-a-dia, gozemos em estar vivo, em errar, errar e aprender com o erro, errar e suportar a errância, errância que é trilhar os próprios pés na nossa areia inexplorada; o único trabalho que um jovem pode fazer é o de desenvolver fôlego para entender que uma formação, entender que uma obra leva tempo para se construir. Mas isso é terrível demais de aceitar no mundo em que vivemos hoje. Digo por mim, há cobrança, o inimigo está em todo lugar, querendo ver resultado, querendo ver produto, querendo ver dinheiro, querendo ver afirmações no mundo... As nossas atividades no mundo precisam voltar a girar em torno de seu próprio processo, precisamos voltar a resgatar a poesia da vida, a poesia em dirigir por uma hora atrás de um parafuso, entender que se esse é o trabalho de arte – não é o trabalho pronto, mas a hora levada em direção a um parafuso, parafuso invisível do trabalho, mas parafuso capaz de prender uma cabeça que está despencada do resto do tronco, vivemos uma sociedade acéfala.

O método é um novo espaço arquitetônico. Uma arquitetura nova da pedagogia. Um espaço novo dentro do termo pedagogia, uma arquitetura que une o trabalho à poesia, a disciplina ao rigor – o método te instrumentaliza internamente para movimentar a sua libido em direção a uma decisão. Não nos enganemos, estamos falando eminentemente de contradições, estamos falando aqui da relação entre a poesia e a violência – “Ostras felizes não produzem pérolas”.

 

“A ação de ensinar não envolve apego a conceitos”

Thaise dias Alves falando sobre Nietzsche

 

Assim como a ação de trabalhar não envolve apego a profissões. Trabalhar não diz respeito à profissão nenhuma. A profissão é somente um pretexto. O artista é aquele capaz de fazer de uma profissão, qualquer que seja, o oxigênio inventado dentro de uma asfixia. É aquele capaz de inverter os nomes corrompidos das coisas: o trabalho de repetição como solução para o autômato. Repetição capaz de gerar uma abertura, ao contrário da repetição automatizada. Por isso, pergunta fundamental para esse novo trabalhador, o que se trabalha de fato quando se está trabalhando? Essa pergunta é absolutamente maravilhosa. O método não é um conjunto de regras, o método não é uma fórmula, o método tem a ver com ferramentas, como você vai articular você mesmo. É o sinônimo de uma liberdade possível dentro da contingência.

A Máquina do Mundo

Carlos Drummond de Andrade

 

E como eu palmilhasse vagamente

uma estrada de Minas, pedregosa,

e no fecho da tarde um sino rouco

 

se misturasse ao som de meus sapatos

que era pausado e seco; e aves pairassem

no céu de chumbo, e suas formas pretas

 

lentamente se fossem diluindo

na escuridão maior, vinda dos montes e

de meu próprio ser desenganado,

 

a máquina do mundo se entreabriu

para quem de a romper já se esquivava

e só de o ter pensado se carpia.

 

Abriu-se majestosa e circunspecta,

sem emitir um som que fosse impuro

nem um clarão maior que o tolerável

 

pelas pupilas gastas na inspeção

contínua e dolorosa do deserto,

e pela mente exausta de mentar

 

toda uma realidade que transcende

a própria imagem sua debuxadano rosto do mistério, nos abismos.

 

Abriu-se em calma pura, e convidando

quantos sentidos e intuições restavam

a quem de os ter usado os já perdera

 

e nem desejaria recobrá-los,

se em vão e para sempre repetimosos mesmos sem roteiro tristes périplos,

 

convidando-os a todos, em coorte,

a se aplicarem sobre o pasto inédito

da natureza mítica das coisas,

 

assim me disse, embora voz alguma

ou sopro ou eco ou simples percussão

atestasse que alguém, sobre a montanha,

 

a outro alguém, noturno e miserável,

em colóquio se estava dirigindo: “O que procuraste em ti ou fora de

 

teu ser restrito e nunca se mostrou,

mesmo afetando dar-se ou se rendendo,

e a cada instante mais se retraindo,

 

olha, repara, ausculta: essa riqueza

sobrante a toda pérola, essa ciência

sublime e formidável, mas hermética,

 

essa total explicação da vida,

esse nexo primeiro e singular,

que nem concebes mais, pois tão esquivo

 

se revelou ante a pesquisa ardente

em que te consumiste... vê, contempla,

abre teu peito para agasalhá-lo.”

 

As mais soberbas pontes e edifícios,

o que nas oficinas se elabora,

o que pensado foi e logo atinge

 

distância superior ao pensamento,

os recursos da terra dominados,

e as paixões e os impulsos e os tormentos

 

e tudo que define o ser terrestre

ou se prolonga até nos animais

e chega às plantas para se embeber

 

no sono rancoroso dos minérios,

dá volta ao mundo e torna a se engolfar,

na estranha ordem geométrica de tudo,

 

e o absurdo original e seus enigmas,

suas verdades altas mais que todos

monumentos erguidos à verdade:

 

e a memória dos deuses, e o solene

sentimento de morte, que floresce

no caule da existência mais gloriosa,

 

tudo se apresentou nesse relance

e me chamou para seu reino augusto,

afinal submetido à vista humana.

 

Mas, como eu relutasse em responder

a tal apelo assim maravilhoso,

pois a fé se abrandara, e mesmo o anseio,

 

a esperança mais mínima — esse anelo

de ver desvanecida a treva espessa

que entre os raios do sol inda se filtra;

 

como defuntas crenças convocadas

presto e fremente não se produzissem

a de novo tingir a neutra face

 

que vou pelos caminhos demonstrando,

e como se outro ser, não mais aquele

habitante de mim há tantos anos,

 

passasse a comandar minha vontade

que, já de si volúvel, se cerrava

semelhante a essas flores reticentes

 

em si mesmas abertas e fechadas;

como se um dom tardio já não fora

apetecível, antes despiciendo,

 

baixei os olhos, incurioso, lasso,

desdenhando colher a coisa oferta

que se abria gratuita a meu engenho.

 

A treva mais estrita já pousara

sobre a estrada de Minas, pedregosa,

e a máquina do mundo, repelida,

 

se foi miudamente recompondo,

enquanto eu, avaliando o que perdera,

seguia vagaroso, de mãos pensas.

 

O que é isso que me escapa? Porque me transformei em máquina? O que impede o homem a ter estilo? De se açambarcar de seu corpo, de seus sinais, de si? De ser consciente de si? Être bien dans sa peau [estar bem na própria pele]? O que me escapa? O que dá medo? Tenho medo dessa pele, do meu couro? Tenho medo da fusão. Tenho medo que se funde na pele, na MINHA pele algo que eu não sei que é meu, algo que está escondido no fundo do poço, algo que eu mesmo escondi. Sei o que escondi em algum lugar em mim, por isso mesmo tenho medo - não posso enunciar o que escondi, há tempo a palavra não dá conta, mas sei, sou. Sei por uma outra língua, uma outra palavra, que grita, é ensurdecedor - há uma guerra dentro de mim, há toda a Europa de 1945 no meu peito, mas eu não posso falar, Eu não posso gritar porque eu não SOU essa guerra, tenho medo de sê-la, tenho medo de não dar conta, mas isso já se dá em mim - tenho medo de SER eu mesmo, medo de ter estilo, medo de me responsabilizar pelos sinais que eu emito. Mas que contradição é essa? Tenho medo de ser eu mesmo? Medo do quê na verdade? Quem sabe seja do descontrole, queremos tanto estar no controle... Queremos tanto responder por um “eu”... A lucidez é um inferno se não se tem ferramentas, a obesa erudição intoxica, é veneno. Tenho medo. Tenho medo de ser lúcido, de responder pela minha lucidez. A violência está latente, está na pele, no segurar o café, no acelerar o carro, é um vômito de bile sobre todos nós, a máquina, o trabalho não a suspende, desloca-a dentro de mim, mas não a suspende - essa violência movimenta a máquina, mas ela não se gasta para fora de mim, ela não é suspendida, ela me queima, ela me destrói - eu estou sendo queimado vivo por mim mesmo - não há mais Gestapo, a SS, o Sonderkommando, Die Polizei. Não há mais fora de mim, eu os internalizei, eu me fundi com eles - O Nazismo antecipou uma das maiores atrocidades que o homem já fez com ele mesmo, mostrou-o externo ao homem, hoje, fundimos com a nossa vida - o banco, o escritório, o MBA, o mestrado nos “salva” e sobre esse “trabalho” vamos conquistar o mundo.... o mundo nos conquista, dou o meu sangue para ser a ruela mais insignificante dessa maldita máquina. Que máquina é essa?

O Método de Rubens fagocita o trabalho do Bataille de forma que esse é o caminho para a Arte nietzschiniana. O método é contra a máquina, joga areia nas engrenagens para que se possa tirar um braço, para que se possa amputar o que está gangrenado e possa se ter um novo braço, um novo corpo. Trabalho. Trabalho. Ser poético, usar a violência em prol do homem, deixar a máquina estraçalhar o seu corpo-eu, o método estraçalhar o meu corpo- máquina – parar de oferecer resistência, para que se possa ter o homem-livre, contingente homem-livre, para que se possa ter arte.

 
 
 

LAMPREIA LINGUÍSTICA 4

Prelações de Rubens Espírito Santo

sobre Nietzsche (Humano, Demasiado Humano)

Professores Assistentes: Anna Israel e Luca Parise

Coleção Anna Israel

apto. 282 Bloco “D” - ed. Copan

Relatórios oficiais das aulas por Anna Israel e Luca Parise

Quinta feira

10.mar.2016

 

Presentes: Clara Wernek, Gabriel Botta, Lis Ferreira, Luca Parise, Anna Israel, RES.

 

Pauta:

1. O que é um amigo? Sobre o ponto de vista do Nietzsche

2. O que é habitação / moradia?

3. Como um pensamento de um filósofo pode influenciar o pensamento de outro filósofo? Ou seja, Nietzsche influenciou Bataille. O que é um Mestre de forma atemporal?

4. Linguagem: filosofia da linguagem

 

Entender essa questão da linguagem como elemento fundamental para o desenvolvimento do curso, desenvolvimento do curso dentro de cada um, ou, desenvolvimento de cada um dentro do curso. Entender que essas prelações são uma ferramenta, constituem uma linguagem própria do próprio curso; curso como algo não expositivo, mas como construção de uma própria linguagem. Todo grande artista (de forma expandida), antes de ter um corpo filosófico, antes de ter um conteúdo, cria um modo de dizer, uma forma de dizer, um modo especifico de estar no mundo. O conteúdo se dá através desse modo de dizer, através de uma forma, uma forma que ele cria dele mesmo, para fora dele. Como eu vou dizer o meu dizer para fora de mim? Como pô-lo no mundo? O conteúdo já existe, o já é poderosíssimo, o conteúdo é a própria linguagem de estar vivo, de respirar, de ter libido, pulsão de vida, de morrer, o conteúdo já é estar vivo. Como dar forma à linguagem? Como transformar a vida, a libido, o ar em coisa para fora de mim, e não somente em sensação, como transformar toda uma sensação de comoção em ação no mundo, em decisão?

 

“Sem forma revolucionária não há conteúdo revolucionário”.

Maiakovski

 

Justamente, como forjar a própria linguagem se eu não conheço sua totalidade? A minha totalidade? Se tornar o que você é, dizer a sua própria linguagem, dizer o seu dizer, pode acabar sendo o contrário do que você gostaria de ser, pois, habitar uma linguagem passa obrigatoriamente pelo seu impensado, passa por desvelar-se. Só se pode falar nu. Construir esse dizer talvez seja um altíssimo nível de espiritualidade, no sentido de que será necessário abrir mão de algo, de algo que eu gostaria de ser, para ser outro algo, algo que me constitui, algo que sou, que me antecede, para ser o meu próprio ‘algo’ no mundo.

Essa linguagem, essa forma revolucionária é você conseguir transformar a sua vida na sua missão, no seu talento, no que te escapa constantemente, nos sinais que você emite sem mesmo saber. Talento é missão. O talento enquanto coisa que me escapa, enquanto coisa que aparentemente me tem antes mesmo de eu tê-la. Saber ler esse “talento”. Essa forma revolucionária tem a ver com esses sinais que emitimos o tempo todo; observar esses sinais como pistas para você se apropriar, se apropriar dos sinais que você emite, dos sinais que carregamos nas costas, nas doenças, e vê-los, vê-las como início de toda uma nova construção sintática do seu dizer, do se portar no mundo, de uma visão de mundo, ou seja, construir um estilo, traduzir a minha totalidade para o mundo e deixá-la aberta, sangrando – essa totalidade é incompleta e quem sabe, daí venha tamanho medo que sentimos em ver, a nossa totalidade incompleta.

Arte é uma linguagem por si só, tem a sua própria gramática, a plástica como um outro alfabeto, como um novo terreno, campo de sintaxe dele mesmo. Não tem como olhar ou falar de arte estando fora dela, para falar de arte você tem que sacrificar algo para poder ser penetrado por ela, para poder ser violado por uma obra, por uma artista, pela fala - deixar que tudo isso entre, como um vírus que penetra a totalidade do seu ser e o contamina, o embriaga. É preciso se entregar a algo, ser-se violado por algo.

Não foi-nos ensinado a ver, a ler. Leitura não tem nada a ver com ler um texto, ou falar um idioma, como já discorremos aqui. Leitura tem a ver com esse ser-se violado. Para se falar algo, de fato, teremos de usar a língua portuguesa, e não ser falado por ela. Usar a língua portuguesa, no caso, como fez Guimarães Rosa, seria o mesmo que violar o campo de concentração da língua que nos diz constantemente, que nos prende dentro dela, que nos incapacita de nos dizer, de realmente dizer o que tem que ser dito, estamos sufocados por uma língua pois não aprendemos a utilizá-la de forma movediça, utilizá-la como ferramenta de nós mesmos, a traí-la, a corrompê-la em prol de nós mesmos. Somos sufocados pois somos falados por ela. É impossível traduzir o conteúdo para a forma sem destruir tanto o conteúdo e a forma, sacrificar os dois, para que um novo algo possa se dar. É essencial que essa tradução não seja cientificista, positivista - é preciso estuprar a linguagem, estuprar a forma para que se funda com o conteúdo e me possibilite falar. Essa nova forma, produto da violação da linguagem e do conteúdo, é viva, pulsa, respira, não é a forma petrificada que está nos museus, não é a forma petrificada que está no idioma, na arte, no teatro, no cinema e em todos nós, por algum motivo terrível. Essa forma que estamos sufocando, que estamos estagnando, bloqueando seu movimento, não dá trégua, vai existir da maneira que tiver que existir, seja por bem ou por mau. A forma revolucionária é desde a “Paixão Segundo São Matheus” até um câncer.

A poesia, por excelência, é um veículo da forma. A poesia como trabalho não alienado, como trabalho do inútil, como possibilidade de viver uma vida mais sadia, não intoxicados pelo Zyklon B. É preciso criar um repertório de novas ferramentas capazes de corromper a sua própria língua. Aqui não há nada de determinismos, não há uma fórmula, é absolutamente estocástico, como o movimento de um pedaço de madeira sendo levado pela força da água de um riacho: não há uma linearidade, não há uma justificativa universal, só há erro. Desvio. Afastamento da média. Essa nova forma, a poesia, nós mesmos, somos produtos de todos esses erros.

A língua de cada um faz parte de um sistema altamente complexo, onde o primeiro passo para início de qualquer construção seria o de um inquérito das expiações: o que eu falo, porque quero falar? O que realente quero falar? Quem está falando? De onde vem minha fala? Para se apropriar do próprio estilo, o próprio modo de dizer, é preciso destruir tudo. Ter a audácia, a violência, a vontade, a vontade de existir para fora de suas paredes blindadas e destruir tudo, explodir o bunker e suportar o desgosto alheio por essa vulgaridade, por esse escancaro, por esse espaço vazio arrebentado à força e que deve permanecer aberto - a linguagem própria se precipita nesse espaço vazio, em nenhum outro.

Parece muito mais fácil estar em um lugar passivo, ler de forma passiva, ser de forma passiva, existir somente para dentro de si mesmo, construir narrativas perversas e se apegar a elas, se apegar a uma verdade que parece existir só para não termos que conviver com o vazio. Construir o vazio é entrar nesse espaço de deriva à força, de maneira totalmente ativa. Ter o “luxo” de estar ã deriva é para poucos que têm a violência de se tirar do comando, de aceitar o vazio da transitoriedade da vida, de que as coisas passam, e algumas coisas temos que deixar passar, abrir mão do que eu chamo de “eu” para dar um passo em direção ao âmago de mim, esse vazio violento. Esse vazio de inoperosidade [Desouvré] exige um esforço brutal, exige que se vá contra a operação. Para se conquistar o vazio onde a inoperosidade se dá é preciso lançar mão de todas as ferramentas, de toda a violência para cavar esse espaço, não há nada de passivo, só violência. Violência consigo próprio, contra própria carne, arrebentar-se.

“Criar uma casa cheia de portas vazadas, onde todos podem entrar e mesmo assim, você continua sendo privado” RES Criar esse espaço público que ainda assim é privado. É totalmente paradoxal: quanto mais conseguirmos abrir esse espaço, destruir as paredes, se abrir para o outro, o corpo, o desconhecido de nós mesmo, nossos desejos e medos, mais espaço interno vamos ter – não é se blindando que se protege, mas, pelo contrário, se abrindo, estando aberto, se vulnerabilizando, esse é o único modo de ler mesmo, de dialogar, de falar, de se salvar.

 

“Linguagem é a casa do Ser, o Ser habita a linguagem”

Heidegger

 

Voltando à questão da leitura, grande equívoco da educação do nosso tempo: a leitura não se restringe a ser alfabetizado. Nosso corpo está lendo e falando o tempo todo, esse “dizer que diz por nós” está constantemente em ação. Justamente, estamos doentes por isso, doentes por estarmos cindidos à essa capacidade refinadíssima de leitura. Leitura é uma gripe, leitura como o corpo franzindo-se no frio, como os pelos levantando-se para criar uma camada protetora do vento gelado que assusta um habitat em equilíbrio do corpo, como angústia, como ansiedade, como paixão, leitura como projeção no outro, como comoção, como incapacidade de dizer algo para o outro, como uma febre, leitura como uma dor de cabeça, como um pesadelo, como anorexia, esquizofrenia, desconfiança, gastrite, leitura como descer do carro e xingar um ciclista, como uma raiva descomunal, como um câncer, como uma doença auto imune.

O corpo está constantemente lendo o mundo, o outro, e a ele mesmo, e respondendo, da forma que ele pode. Na grande maioria das vezes, estamos distantes demais de nosso próprio corpo para perceber isso, isso cinde, isso gera uma incapacidade de fala real. O inconsciente, por exemplo, o sonho, quem sabe, seria o palco de encenação de toda essa leitura, também com sua sintaxe própria, mas como um lugar de resposta do corpo à essa leitura diária que ele faz. Nesse caso, Freud afirmou que Nietzsche foi o homem que fez a autoanálise mais profunda de si. Eu diria – na tentativa de aproximar a afirmação de Freud à essa elaboração acerca da leitura – que Nietzsche foi o primeiro grande leitor. Nietzsche leu de forma ativa. Isso não tem absolutamente nada a ver com ler palavras reunidas em uma frase; antecede as palavras, antecede a sintaxe das palavras. A questão é: o que está por trás dessa sintaxe? O que elas estão construindo? O que elas estão cercando? O que elas são, elas mesmas, enquanto palavras? Um grande poeta, no caso, como Hölderlin, não queria, justamente, cercar nada, queria fazer da palavra a própria coisa a ser cercada, fazer da palavra a sua intransponibilidade transponível em palavra. E isso o levou à loucura ... Somos demasiadamente tacanhas com a nossa capacidade de leitura. Claramente essa linguagem é muito poderosa e é essencial que ela seja unida ao corpo, à forma, que esteja presente no mundo real. A erudição pura de qualquer linguagem intoxica e pode matar o homem.

Temos muito barulho interno. Vivemos em uma sociedade barulhenta pois não suportamos o nosso próprio barulho. Barulho como resposta à essa leitura, como interferência, como fios soltos, como ouvir uma pessoa desesperada tentando falar em chinês com você. Leitura de uma leitura. Queremos ao máximo nos afastar de nós, nos afastar das nossas brilhantes capacidades, nos afastar de ler melhor as coisas, ler como primeiro passo para uma entrega, ler no sentido de entrega, no sentido de descolamento do eu, no sentido de nos percebermos escravos de nosso próprio eu, de nossa própria língua.

A vida em si é só texto, um complexo texto que morremos sem ler, que passamos batido ao estarmos preocupados em “entender quem foi Nietzsche, entender o conteúdo de Nietzsche”. Um texto que temos muito para colaborar, que devemos ser coautores, mas que, em sua esmagadora maioria, não fazemos, não damos o passo, não dizemos, não nos responsabilizamos - não falamos. Não falamos por que não temos o que dizer, não falamos por não falar. Por não querer suprir o hiato que há em nós – não falamos por medo. MEDO. A filosofia não serve para merda nenhuma se não for para nos deixarmos corajosos para pularmos no abismo vazio de nós, se não nos der uma fala, uma língua, uma gramática, para cada um poder falar. Para poder gritar o que quero gritar há tanto tempo e está preso em minha garganta. O choro não chorado, o beijo não dado, a doença não tida, o soco não dado – ferramenta de tradução. Grito preso em minha garganta que nem mesmo sinto mais, que intoxica, a cada dia que passa, cada célula do corpo.

Antes de entender quem foi Nietzsche, acho importante entender “o porquê de querer saber quem foi Nietzsche? Para o que isso te serve? O que você está estudando quando está estudando? O que você está indo fazer ao assistir uma aula de RES? O que te faz ler um livro do Nietzsche ou do Bataille? Isso em si já inaugura o curso, inaugura a vida.

O curso é atemporal, é inútil, inteligível, porque é justamente, formalmente, tudo o que está tentando ser elaborado nesse texto, é pura forma, linguagem que comunica mas nada informa – é forma de RES, é a sua morada, é poesia. Como ler essa morada? Como ler, precisamente, sem saber a língua? O curso é atemporal, é uma obra, pois ele antecede a si mesmo, e quer, justamente ser uma antecedência dele mesmo para o outro. Isso é a obra de um artista: ele doa algo dele mesmo para o outro pois já tem tudo que ele pode ter dentro dele. Já é a sua própria habitação, já é sua própria moradia. Todo o conteúdo já está no texto que é a própria existência, que é estar vivo. A questão é a forma como cada um vai ler. O curso não principia nem acaba, é um momento oportuno.

“Deus não resulta mais inalcançável que o conceito de homem ou de mundo. Ao contrário: a essência do homem e a essência do mundo não é mais acessível que a essência de Deus. De ambos sabemos ou muito pouco ou muito”.

Franz Rosenzweig

 

 

EPÍLOGO

 

Mas o que isso tudo quer dizer? O que isso tudo significa? Temos um medo infinito da nossa própria solidão, do fato de que, no fundo, só eu habito em mim mesma, habitamos sozinhos esse lar. Morremos de medo de nossa capacidade de leitura, por isso inventamos infinitos mecanismos de somente nos afastarmos de nós, de nos despertencermos de nós. Ler é viver, é o próprio organismo em movimento, em homeostase, em negociação com a morte. A leitura é o gerenciamento da vida com a morte. Lendo, se percebe como ser finito, percebe a morte e se passa a pode negociar com ela - só pode falar quem lê. Ler é olhar a morte nos olhos e fala com ela.

Inventamos segredos, inventamos “trabalho”, ocupações, “amizades”, um leque cheio de teóricos amigos, objetos teoricamente de poder, habitações, bens, barulho, muito barulho para não ter que lidar com a única moradia que levamos constantemente conosco, para não ter que dar ouvidos a um silêncio ensurdecedor que é o silêncio de estar vivo morando dentro de você mesmo.

Ter uma vida espiritual é passar a expiação a limpo, e isso, por algum motivo, me parece extremamente solitário. Passar a expiação a limpo é ter de conviver somente com você, com o seu desejo, com a sua missão, com o seu silêncio, com o seu barulho, com a decisão de não estar em barulho, e estar em silêncio. O barulho ocupa a solidão como um parceiro. Ser artista não é pintar um belo quadro, vender milhões, estar em uma galeria; antes disso, ser artista é construir uma moradia dentro dessa linguagem que nos constrói, dentro dessa linguagem que nos aprisiona, é criar um respiro, respiros, saídas de ar dentro dessa prisão, é habitar dentro de sua própria linguagem, ser seu próprio lar. Não é sair da prisão - isso é impossível, só a morte é capaz de tirar da prisão, mas isso não é um problema - é essencial ter ciência disso para poder viver, para não ser tão alienado. Só pode viver quem pode morrer, se sujeitar à morte de verdade, através da vida, através da prisão, através da cruel exercício de leitura, cruel exercício de despertar de um coma - essa é a sua ferramenta para construir uma linguagem.

E assim voltamos para o primeiro item da pauta da aula: o que é um amigo? Para Nietzsche, o amigo é “quanto uma pessoa é capaz de aguentar de Verdade.”

Ou seja, amigo é aquele capaz de te fazer uma oposição positiva, comprometer a amizade em nome da própria amizade, em nome de ser um amigo verdadeiro, de ver o outro. O amigo, do jeito como queremos que ele seja, nunca vai existir, pelo menos não se chama “amigo”. Projetamos demais a ideia de algo perfeito, e esse perfeito não existe, faz parte do nosso imaginário. O perfeito só vai existir quando não tivermos mais projeção.

A ideia de perfeito só poderá existir quando ela for imperfeitizada. Quando a própria palavra se perder dentro dela mesma. O perfeito é o aqui e o agora, perfeito somos nós com todas nossas incompletudes, só isso pode ser perfeito, mas para que sejamos perfeitos, temos que destruir a ideia de perfeito, temos que trazê-lo, renomeá-lo, para o mundo matérico, real, fora do mundo da projeção, fora do mundo dos sonhos, da fantasia, do imaginário. Ou seja, o perfeito só existe enquanto imperfeito. O imperfeito tem que pertencer a perfeição e tomá-la de assalto.

“Não há solução pois não há problema”.

Duchamp

 

 

Estas aulas são uma peça da Coleção Anna Israel

LAMPREIA LINGUÍSTICA 5

 

Preleções de Rubens Espírito Santo sobre Nietzsche (Humano, Demasiado Humano)

Coleção Anna Israel

apto. 282 Bloco “D” - ed. Copan

Professores Assistentes: Anna Israel e Luca Parise

Relatório psicografado de Anna Israel da aula do dia 17.mar.2016

NY, 2016

OU

Solução para uma Democracia Inapócrifa: Escrever um Relatório do (per)Curso de Anna Israel no (per)Curso das Prelações de Rubens Espírito Santo sobre Nietzsche

OU

Diferença que se repete: De Jorn Zorn a RES – Prelações de Rubens Espírito Santo sobre Nietzsche

em um Concerto de John Zorn em um domingo frio de NY

 

Presentes: Clara Wernek, Gabriel Botta, Anna Viotti, CCS, Lis Ferreira, Cídio de Almeida, Luca Parise, RES.

 

NY, 2016

Estabelecer uma relação de estar distante e escrever um relatório, usar isso como ponto de partida para o relatório, para as aulas, para o método, para como RES enxerga democracia, fatura, fratura, arquitetura, poesia, experiência, sobre suportar o silêncio pensante, sem obter resposta alguma que não seja a resposta de estar em estado de pensamento, a resposta de estar em trânsito em mim, a resposta de encontrar as prelações de RES em mim, antes mesmo da aula, mesmo que eu ainda não seja capaz de segurá-las, mas percebê-las. Vejo aqui um acontecimento interessante e muito ilustrativo da aula e do método: o método não pertence ao Atelier do Centro, não pertence ao Atelier como lugar fechado, o método justamente expande as paredes que oprimem o Atelier do Centro e Rubens como algo fechado, o método, do modo como é, esclarece o Atelier, esclarece a si próprio como arquitetura emocional do sujeito. O método existe somente quando quem estiver inserido no método entender que pode levar o Atelier consigo para o lugar que seja, Rubens é um canal de algo, está servindo a algo, o Atelier é um estado de espírito, é um lugar dentro de cada um. Fazer parte do método, ser violado por ele é a possibilidade de permanecer no método mesmo distante do método, mesmo com os meus próprios códigos, preceitos, com a minha rotina a distância; o método é movediço, mesmo em NY posso estar no método, longe de meu país, porém dentro de meu país, dentro de meu próprio país interno, país que habita o outro de mim – o método é uma ferramenta para a aproximação desse país, para a des-cisão de mim com o meu país. Se limitar a pensar que o método se restringe ao espaço físico do Atelier seria o mesmo que pensar que arte pertence ao artista. O método é um modo de conhecer o meu próprio país, mesmo distante do Brasil, conhecer os horizontes do país inexplorado que eu habito, que me devora, que me adoece e ao mesmo tempo me cura; conhecer a minha língua, que não tem nada a ver com o português, muito menos com o inglês. Como é possível eu ser outra pessoa quando falo em inglês? Quem sou eu que fala inglês? Quem sou eu que fala português? Qual é a língua que eu realmente falo? Como John Zorn fez ontem em seu concerto especial de domingo, Bagatelle’s (nesse semestre, todo domingo há uma apresentação especial onde músicos escolhidos pelo Zorn tocam alguma de suas 300 novas composições): fica evidente que John Zorn é uma saída para o artista de nosso tempo, por sinal, John Zorn está no método, mesmo distante do Brasil, mesmo sem nunca ter visto aula nenhuma, John Zorn faz as suas prelações de Rubens Espírito Santo sobre Nietzsche, descobriu um horizonte possível no seu país, escava os pés em uma areia ainda inexplorada da música, dele mesmo, de uma gramática que parece não ter mais saída. Algo que parece não ter mais para onde ir, ele não cessa de martelar, não cessa de ir, de continuar indo onde não tem mais para onde ir, descobriu um lugar, um horizonte, espremeu o seu idioma para fora dele e para dentro da gramatica da música. Isso é dar certo, é estar em movimento, é experienciar o seu próprio movimento, é trabalhar no erro de não estar repetindo o que outros músicos estão fazendo, é sustentar um lugar minúsculo de música experimental em uma esquina insignificante de NY onde não se vende bebida alcoólica, nem mesmo água, nem café, só existem cadeiras, cerca de 40 cadeiras e um piano e alguns cavaletes para partituras, e mesmo assim fazer o que tem que ser feito; dar certo é poder se divertir com o seu fazer, é gozar no seu fazer, estar apaixonado pelo seu ofício, pela sua vida, pelo próprio percurso de uma vida.

Zorn cria movimento dentro do alfabeto da música, cria buracos, túneis subterrâneos dentro de um terreno lacrado, dentro de um alfabeto perfeito, torce a perfeição de um alfabeto para encontrar sua imperfeição, infringe a lei dentro da lei da gramática. Um grande artista é necessariamente um homem da lei. Um grande artista opera dentro da lei, conhece muito bem todos os seus preceitos, toda a gramática, o alfabeto, a sintaxe, as ressonâncias, a etimologia, para poder movimentar o próprio movimento dos códigos da lei. Sem a lei não há para onde ir, não há invenção, só há loucura, há somente ruído, e ruído estamos fazendo o tempo todo. O artista, justamente, quer silenciar o ruído, quer ter poder sobre tanto ruído, quer enfrentar o ruído, e para isso ele precisa de suas armas. Ser um homem da lei é uma grande arma para o ruído, é um modo de operar nesse intervalo de não ter autonomia nenhuma e manobrar dentro dessa contingência. Ser um homem da lei significa arcar com as regras do jogo e mesmo assim querer vencer o jogo, vencer o jogo do próprio jogo como o adversário, onde o adversário é a própria lei, onde o adversário são as regras, os códigos, os nomes-próprios, a palavra, o significado, o conteúdo: estar dentro da lei para justamente vencê-la, mais ninguém, para vencer a própria resistência da lei. Estar a serviço de algo, vir ao mundo e estar a serviço desse “vir ao mundo”, estar a serviço do mistério e do milagre que é estar vivo, estar a serviço do próprio pensamento que pensa, do próprio movimento que move, do coração que palpita sozinho. Aqui encontra-se a democracia. Democracia é justamente poder escrever um texto a distância, é autorizar-me a dizer que estou sim presente no curso, no curso que estamos desenvolvendo, no curso de ser discípula de RES, no curso de ser mulher, no curso de ser artista, no curso do curso, em meu próprio (per)curso, no curso de estar inserida no método, que significa estar presente no curso a 7700km de distância do curso. Democracia significa poder ser a anti-propriedade de mim mesma, significa poder ver o outro, poder ouvir o outro, poder me desligar um pouco de minhas loucuras, me desligar do que foi previamente construído para mim, assim como o pensamento não pertence ao filósofo, eu não pertenço a mim, eu me excedo em mim, minha linguagem se excede em mim, me é maior, e por isso aparentemente impossível de apreender, de agarrar, de abraçar, de açambarcar. Quero poder falar desse lugar, esse é o único lugar possível que eu realmente posso falar, é o lugar onde não há mais distância alguma, é uma possível democracia de algo, mas que algo é esse? Democracia para RES: possibilidade de cada um para pensar, possibilidade de trilhar em direção à sua própria natureza; entrar em estado de pertencimento de si, ao desvincular-se do que se pensa de si. Dentro de um sistema absolutamente alienante, democracia de verdade, para além de qualquer tacanhice política, é poder afirmar que eu posso escrever esse relatório, democracia é possibilitar que o outro pense, possua uma (mínima que seja) emancipação de pensamento, emancipação de leitura, leitura em termos gerais, não no regime da leitura alfabetizada, não leitura tacanha somente das palavras, democracia é a possibilidade de destruição de todas as palavras, de furar os olhos e continuar vendo, de nunca ter lido um livro e ser um intelectual, um intelectual de forma expandida, um intelectual desprendido do intelectualismo, livre de sua própria categoria de ser algo. Democracia é poder se livrar do regime enfadonho expiatório, regime enfadonho do dizer, da genética, regime social, regime do estilo, de uma moral tacanha, regime de uma epistemologia.

Que relatório é esse que escrevo? Sobre o que na verdade escrevo? O que digo sobre mim nessa escritura? O que isso está dizendo, o próprio relatório a distancia, que linguagem de mim é essa? E onde há o diálogo disso, dessa indagação com a aula? O que isso me revela? O que isso me revela sobre o método, sobre o Nietzsche, sobre Res, o mestre, a discípula, sobre o outro de mim, o que isso revela sobre o meu outro, sobre o outro de quem lê, sobre o outro que lê e rechaça esse texto e o outro que lê e quer saber sobre o que escrevo ao levantar tantas questões sobre uma mesma coisa? Estaria eu fugindo de algo? Fugindo de uma resposta? Sinto que mesmo se estivesse fugindo, estou, nessa fuga, tropeçando na coisa que parece estar querendo entrar ao encontro de mim, só não sou capaz ainda de ver esse objeto do tropeço, apesar de meus pés estarem cheios de hematomas. O Atelier do Centro não é um lugar físico, senão a fisicalidade de algo em mim.

Democracia é poder estar em trânsito, poder pensar, poder encontrar o próprio pensamento pensante; o ser humano é por excelência um grande pensador, mas não suportamos o vazio do pensamento, não suportamos o caminho sem fim do pensamento, do trânsito, do intervalo, e por isso queremos respostas, queremos acertos, queremos pontos finais. Estar a serviço de algo maior que eu, caso o contrário vamos querer muito rapidamente o fechamento de algo, vamos querer muito rapidamente um resultado, uma resposta. Suportar a suspensão desse fluxo, desse curso (curso como curso da vida, curso enquanto caminho), suportar o estado de suspensão da resposta ser o curso, da resposta ser o caminho, a pergunta já é a resposta. Destrinchar essa palavra resposta e tirá-la de um campo teleológico, somente assim vamos nos aproximar do que realmente poderia ser uma resposta: uma vida é uma resposta, uma vida levada às últimas consequências é uma resposta, estar em estado de paixão pela vida é uma resposta, ser mais perdulário como uma resposta; a experiência como uma resposta, o trilho, simplesmente trabalhar na capacidade de ouvir o outro pode ser uma resposta. Suportar o vazio da pergunta, perceber o vazio da pergunta como resposta para alguma coisa, como afirmação diante da vida, diante de você mesmo, a desconfiança de si como resposta para uma des-estagnação, parar de desconfiar tanto no outro e passar a desconfiar mais em si mesmo, para assim poder de fato ver o outro.

 

John Zorn realmente inventou um modo de dizer, que seria o mesmo que dizer: Zorn encontrou uma fresta, criou uma abertura dentro de um projeto supostamente fechado, rompeu com a porta de uma lei, rasgou uma saída de uma pele lacrada, rasgou um dizer dentro de si, dentro de uma língua atrofiada, de uma língua que parece não ter mais saída em nosso tempo. Sempre vai parecer não haver mais saída, no fundo, não há saída mesmo, uma vez que a saída implica em um fim, então a única saída está na experiência, está na insistência, está em uma vida, na fatura de uma vida, na fatura da pele grossa da mão de um sujeito. A saída cada um terá de inventar com a própria vida – a vida, o percurso, o trilho, o descaminho. O artista é capaz de forjar essa saída, de martelar na grossa pele da lei; abocanhar a pele do interdito de sua própria língua.

Voltando a uma questão que eu entendo como importantíssima para essa última aula, “todo artista é um homem da lei”. Se fosse o contrário, todo manicômio estaria cheio de gênios, eis o que faz com que um “louco” como o Artur Bispo do Rosário seja um artista – Bispo, mesmo fora da lei, encontrou um sítio na lei para ser artista, de algum modo muito sofisticado, e quem sabe, um saber, um saber que sua loucura compreendeu, uma escritura que sua loucura conseguiu apreender, uma leitura da lei para que ele pudesse ser um artista e não somente um louco. Ou quem sabe, o que chamamos de sua “loucura”, particularmente, seja justamente essa compreensão, essa capacidade de leitura. (Somos muito tacanhas, achamos que sabemos de tudo, achamos já termos inventado tudo, achamos que conhecemos o homem, mas tudo ainda está completamente por fazer e tudo sempre estará por fazer. Não sabemos de nada, isso aqui é somente uma grande suposição, indagação, dúvida.) Estar na lei é poder transgredir a lei dentro da mesma. É foder com a palavra através da palavra, é utilizar a própria palavra como agente de seu estupro, foder com a sintaxe e mesmo assim estar na sintaxe. Só assim nasce algo novo. O artista trabalha metodicamente contra a arte. O artista é um estuprador da arte.

Mas essa lei requer serias considerações: Não estamos falando aqui da superfície da lei, de um código de lei, da leitura da lei, de um determinismo, de uma conduta específica, de um modelo específico, de um “estilo” de lei. Aqui trata-se de uma espécie de magma da lei, magma do próprio sujeito, estamos falando da própria escritura de algo, da lei enquanto os poços artesianos do ser, lei enquanto gramática altamente estocástica, da Lei de Kafka, da Matrix; aqui trata-se de uma re-união de Apolíneo e Dionísio, da Thesis e Physis; sem a Thesis seríamos puramente loucos, animais, e (supostamente) sem a Physis somos doentes como estamos, burocratas que estão criando cânceres. Onde o câncer é a manifestação de uma Physis oprimida. Estar na lei e criar dentro da lei é suportar a contradição de ser Thesis e Physis ao mesmo tempo; estar na lei e transgredir a lei é poder fazer um rombo no próprio cérebro e deixar haver fluxo entre Logos e Pathos.

Democracia é poder dialogar com o outro, poder de fato dialogar com o outro de mim, é justamente poder fazer esse rombo no próprio cérebro e descategorizá-lo, deixá-lo em estado heterotópico. Democracia é poder destruir tudo para poder ser um ser humano que pensa, pensa com o corpo todo. Destruir tudo: ter a audácia de destruir tudo que foi aprendido, todo um modo de ser, de dizer, de agir, de se comportar, destruir o certo e o errado; ver a abertura para o impossível dentro de uma sintaxe, na errância dela mesma, errância: margem de liberdade: desvio do certo e do errado, desvio dos polos, intercâmbio dos polos, somente na errância que se cria, no estar em estado de pensamento alto, sem destino, onde o caminho, o trajeto é o destino, estar no seu silêncio pensante, no movimento da fala, no movimento do pensar: aí há algo que é o avesso do acerto, e que também não é o erro, nem o acerto, somente é.

Suportar o pensar, suportar estar em estado de pensamento sem obter respostas, ver quanto fôlego alguém tem para fazer uma viagem sem destino, para entrar em um dialogo sem fim. Sair no meio da noite para uma caminhada, uma simples caminhada, onde o seu fim é somente a caminhada, nada mais, somente andar, ver o outro, sentir o cheiro frio da rua que arde o nariz, perceber o movimento de um quarteirão e a falta de movimento do outro... Esse é o fôlego de um grande artista: sair para caminhar todas as noites sem destino algum, mergulhar e ter ar para conseguir ir ainda mais profundamente e saber que haverá mais lugares ainda para ele descer, continuar cavando mesmo sabendo que o buraco é infinito. Por algum motivo nos condicionaram a achar isso uma questão sem sentido, mas o “sem sentido” dessa questão é justamente o que interessa o artista, justamente como o único sentido possível, o inútil de Bataille, suportar não tentar tampar esse “sem sentido” com uma resposta, com um teleologismo. O buraco da vida é infinito e temos que conviver com isso. Ninguém está cavando buraco finito algum, estamos cavando, mesmo sem saber, o buraco infinito do desejo, o buraco infinito do descontínuo. Alguns lidam com ele de forma inconsciente e ordinária, buscando supostas respostas. Mas a única “resposta” mesmo é a morte, esse é o testemunho que ninguém pode voltar para contar. Por isso o artista tem que forjar a morte, tem que espremer um testemunho do sem sentido dentro de um complexo sentido da lei, da palavra escondida de um dicionário, da palavra ainda e para sempre inexistente. O artista desloca o buraco infinito do desejo para o seu fazer, sacrifica os desejos ordinários, primários, desejos da superfície, abre mão da confortável ignorância de estar na Matrix e opta pela pílula azul, opta por ver que haverá de ser o próprio maquinista da escavação desse túnel sem fim.

O método é o caminho, somente um caminho, para um lugar onde os desejos podem se realizar. Porém esse lugar é também o próprio caminho e esses desejos também, como a lei, requerem considerações. Desejos também como o que move o sujeito, mas não como o que o move superficialmente, mas como o que move o seu movimento, como a linguagem por trás de seu movimento – ainda temos uma capacidade terrível de tradução de nós mesmos. Construção da possibilidade de começar a entrar mais em contato com o nosso desejo proibido (creio que isso tem muito a ver com o idioma). O que eu acho fascinante é que estar vivo implica em conhecer esse desejo proibido, (o que sustenta a vida é o desejo proibido, portanto, ser é sinônimo do desejo proibido, e não o Seer de Heidegger, mas o ser, simplesmente enquanto existir, esse já é o desejo proibido) ainda que digamos que não. Claramente, a questão é a cisão, a questão é que nos lemos ainda muito precariamente, nos traduzimos de forma estúpida, mal percebemos que somos o tempo todo a tradução do desejo proibido, e sua escritura está criptografada através de nossos sintomas. Inquérito dos sintomas como primeira etapa. Vejo o método como a Zona de Stalker, como a construção de um trilho em direção ao quartinho que Stalker quer levar os seus acompanhantes. RES quer possibilitar o caminho para o quartinho de cada um. Porém o método é somente uma esperança, somente um caminho, uma busca, um gatilho, ascender uma faísca para que o ser humano possa ainda ter esperança nele mesmo, esperança na experiência como única possível finalidade, para que o homem possa acreditar no seu melhor. O método não tem finalidade alguma senão essa: esquecer o que é o “produto” do método, desligar a ideia de finalidade de algo, e experienciar a própria fatura e fratura do movimento, da transitoriedade da vida, de um dia após o outro, da luz e da noite, consecutivamente; é experienciar a vontade de poder, de potência, de potência no cotidiano, de esperança na própria vida. Enxergamos tudo ainda como um “problema”, vemos o “problema” como obstáculo, nos decepcionamos com os obstáculos pois ainda temos muitos ruídos, pois ainda somos sujos. Uma vez menos sujos, uma vez mais limpos, com mais silêncio, entenderemos que os obstáculos não são obstáculos, que “não há solução pois não há problema”, que os supostos obstáculos fazem parte do caminho – não há mais conotação negativa de empecilho no obstáculo, o obstáculo existe para fazer do caminho mais interessante, para fazer do caminho o protagonista.

Dedico esse relatório ao meu mestre e grande amigo, Rubens Espírito Santo. Eu sou sua discípula. Minha gratidão não cabe em mim.

 

 

Estas aulas são uma peça da Coleção Anna Israel

LAMPREIA LINGUÍSTICA 6

 

Preleções de Rubens Espírito Santo

sobre Nietzsche (Humano, Demasiado Humano)

Professores Assistentes: Anna Israel e Luca Parise

Coleção Anna Israel

apto. 282 Bloco “D” - ed. Copan

Relatório por Anna Israel

Quinta feira

24.mar.2016

 

Presentes: Clara Wernek, Anna Viotti, Catarina Cassius, Marina Spinelli, Luca Parise e RES.

 

 

Pauta da aula:

 

Outra forma de inteligência – o que é? Tentativa de análise metodológica – formas de inteligência deslocadas de lugar

Análise superficial da carta / relatório da Anna de NY

Um plano de inserção: planejamento de carreira

Considerações gerais.

 

            O que é inteligência e o que é a burrice? O que nos foi ensinado como inteligência? O que nos foi ensinado como burrice? Dissolver um pouco as fronteiras entre essas duas palavras; uma vez que esse curso pretende ser uma plataforma para que cada um seja capaz de realmente pensar, de entrar em acesso consigo mesmo, de democratizar algo, democratizar o pensar, o ver, o falar, o ler, descobrir o seu próprio modo de falar, ler, pensar, ver, escrever…

 

Inteligência:

1. Faculdade de conhecer, compreender e aprender.

2. Capacidade de compreender e resolver novos problemas e conflitos e de adaptar-se a novas situações.

 

 

            Justamente, por algum motivo, foi-nos ensinado a inteligência como algo enrijecedor, como algo somente mental, como saber dar uma boa resposta, ou ter uma boa memória, ou saber articular-se em um texto. Mas como isso poderia “resolver novos problemas e conflitos”, como isso poderia ser um modo de “adaptar-se a novas situações”?. Ampliar a compreensão da palavra inteligência, na verdade, seria uma forma de levá-la de volta ao seu sentido original: lidar com adversidades, conhecer o outro, entrar de encontro com o outro, o outro, não somente como outra pessoa, mas o outro de você mesmo. Inteligência como uma forma de romper com os mapas e nomes que nos foram construídos, como forma de conhecer mais a você mesmo, conhecer os terrenos desocupados de si para que possamos lidar com a nossa insuficiência, com a nossa incompletude nessa vida, com os interditos intransponíveis. 

            Mas por algum motivo essa inteligência foi deturpada, essa inteligência caiu nas garras de um sistema que a simplificou a ser valorizada em nossa sociedade como algo completamente teleológico e utilitário, como algo mecânico, com, na verdade, um distanciamento de si e uma aproximação de uma erudição que está nos deixando obesos. Inteligência seria mais como physis, como modo de espremer um suco de uma fruta que aparentemente não tem mais recursos, mas hoje entendemos inteligência como thesis, como saber falar corretamente, como saber ler e memorizar um tratado filosófico, como saber da cronologia da história da arte, mas não viver arte no corpo, com saber recitar um poema, mas não ter uma vida poética… A inteligência que estamos interessados aqui, justamente é o que escapa essa inteligência teleológica, inteligência da thesis, é uma inteligência capaz de re-unir a thesis e a physis, a loucura e a sanidade, é a inteligência de saber se movimentar diante de um estado de deriva, de saber ser coerente no caos. O que não está contemplado hoje em dia nessa palavra “inteligência” é o que (também muito deturpado) chamamos de “burrice”. Burrice como o estado do louco, como aquele que não sabe, aquele que age sem sentido, o idiota de Dostoiévski, burrice como aquele que supostamente não sabe falar direito, aquele que gagueja, aquele que escreve errado, como Hurbinek, o ser que não fala língua alguma, apenas balbucia. O “burro”, como entendemos hoje em dia, é o homem inútil, o homem que não serve para a máquina pois por algum motivo não consegue se articular dentro dela, ou, ela não conseguiu articulá-lo dentro dela, ou, mais terrível ainda, ele permanece à margem pois é uma resposta da produtibilidade da máquina, enquanto ele possui algo de maravilhoso, que é um anti-enrijecimento.

Mas, o que seria essa burrice (ou melhor, essa Inteligência que estamos sondando, que é uma anti-inteligência)?

 

Sítio, uma geografia não tocada, inativa (inativo é muito diferente de inexistente) - em estado latente.

 

Essa inteligência, acredito, ou burrice, o que seja, tem a ver com um estado de mais limpeza do ser, ou seja, uma inteligência que nos dias de hoje, chamamos de “inútil”, e consequentemente de “burrice”: burrice em gastar todo o dinheiro comprando papel e material para fazer um desenho, mesmo que não venda, burrice em sair para uma caminhada sem destino durante as oito horas mais produtivas do dia, usar do tempo produtivo para fazer algo supostamente inútil, para simplesmente andar, andar sem nenhuma rota, sem nenhum motivo, somente andar por andar; burrice em ter um bom amigo, em comprometer uma amizade ao ser verdadeiro com o outro, ao querer o melhor do outro, mesmo que seja duro de ser dito, burrice em ser honesto, em dizer o que realmente pensa, sujar-se para justamente poder estar mais limpo diante de uma situação, para não criar hematomas internos; burrice em se colocar em situações supostamente de risco, burrice em se colocar em uma situação desconfortável, em sair de um lugar de conforto e se testar em estados de desconforto. Por que isso tudo é tão discriminado? Por que essas “burrices” são tratadas como tal, são rejeitadas, foram retiradas da vida, se um dia vamos morrer? Por que tanta “utilidade” se a vida é pura interrogação? Essa burrice tem a ver com se colocar para fora da máquina, essa burrice não serve para o sistema, o sistema quer que sejamos inteligentes, quer que tenhamos respostas prontas, rápidas, pois precisamos rapidamente alimentar algo, alimentar uma máquina, a máquina do capital, da produtividade que não pro-duz nada, que produz material descartável, que produz material de um jogo que está levando o ser humano às ruínas dele mesmo, uma produção que não está a serviço de nada, não está a serviço da graça, da graça da vida.

            Dito isso, compreender essa burrice como forma muito alta de inteligência, como um outro tipo de inteligência, como um contato com essa geografia que não está sendo tocada de nós, com esse sítio que se encontra em estado latente.

 

            Como acessar esse material latente? Há diversas maneiras que se tem contato com esse sítio, podemos citar: natureza, arte, psicanálise, espiritualidade, etc. Um ponto essencial dessa inteligência/burrice que estamos sondando – talvez possamos chamar de o outro da Inteligência –, é que ela opera em qualquer ser humano, mesmo o indivíduo mais perdido tem contato com esse lugar, ele é operado por esse lugar muitas vezes, esse lugar é o lugar que sustenta a vida, e justamente, por cuidarmos tão pouco desse lugar, ele tem tentado dar respostas a essa falta de comunicação – a doença é uma resposta, a somatização, como resposta da burrice de nós. Essa operação se dá através de uma linguagem, uma linguagem que não nos foi ensinada, mas que possui toda uma sintaxe própria, uma gramática - queiramos ou não, estamos constantemente falando, porém estamos com o músculo da leitura dessa linguagem atrofiado, mas se não falássemos essa linguagem que é básica, fundante do ser, não sobreviveríamos. O que faz um mendigo sobreviver, permanecer vivo, não tem nada de inteligente (ser bom em, por exemplo, matemática), está muito mais ligado a essa inteligência-burra que estamos tentando mapear; é algo mais íntimo, mais atávico do homem, são decisões que não passam pelo cérebro necessariamente, é uma inteligência que pode vir (e vem) do dedão do pé, do pulmão, da barriga, etc: é um manancial de energia em nós mesmos. Mesmo sem saber, somos usados por ela (ela é o meu outro), ela se dá, escapa - sem ela não seria possível sobrevivermos, essa inteligência-burra que estamos querendo mapear é o que sustenta a vida.

 

            Essa energia, essa inteligência-burra não é, em sua totalidade, nata ao ser humano. Uma parte fundamental dela é genética, interna, está em nós, nos sustenta. Acessar essa parte já pressupõe um conhecimento violento de si, uma dessolidarização radical consigo mesmo, com sua inteligência; pressupõe um risco, o risco de aceitar não estar no controle, o risco de se sustentar aberto, a deriva, de suportar a pergunta em vez da resposta. A partir do momento que se acessa essa parte, se tem a ciência dessa sua incompletude, que há uma outra parte, uma outra inteligência-burra que não está em nós, ou melhor, que está comprimida em algum lugar, e tem que ser construída, reconstruída, tem que ser conquistada e que reside externamente ao sujeito – tem que se inventar algo que não se possui mais. Essa segunda parte, externa, é mais complexa, pois demanda produzirmos algo, criar algo de verdade que possa nos constituir, falar uma língua da qual não falamos, inventar essa língua. Se a primeira parte dessa linguagem envolve assenhorar-se dela, assenhorar-se de si, a segunda parte envolve assenhorar-se de algo que não é seu, fagocitar algo externo, o outro e permitir que isso entre em você e faça parte do seu corpo. Uma vez conquistada essa inteligência-burra interna e externa, pode-se chegar ao terceiro lugar, no lugar da fusão – fundir o interno com o externo, fundir o outro no eu, tecer de volta a cabeça ao corpo, fundir você com você mesmo.

 

            Esse lugar, que resulta dessa fusão é a burrice completa, ou a inteligência completa, já não tem mais nome, é imapeável – é um estado absoluto de não pré-conceito, um estado de possibilidade de ver o outro, olhar tudo como se fosse a primeira vez, estar totalmente aberto ao outro, pois o outro está fundido em você. Há uma promiscuidade entre o sujeito e o objeto, há uma mistura – pode-se finalmente ver de verdade. Quem sabe essa seja um grande estado de liberdade, o de ser burro, o de não ter rótulos, o de ver as coisas como elas são, como fenômenos, e não nomes-próprios, não categorias, somente elas mesmas.

 

            Voltando ao que chamam de inteligência, que é oposta a essa inteligência-burra: essa inteligência, que é uma falsa inteligência, impede o sujeito a estar empoderado de si – um sujeito supostamente inteligente sabe que não pode escrever como Shakespeare, simplesmente, não é possível. Só um sujeito burro se propõe a fazer isso. Só alguém que não “entende” a dimensão de Shakespeare, não coloca Shakespeare como inalcançável, como mito, só ele pode se atrever a superá-lo, pois não está limitado a ele – para o burro, o limite é frágil.

 

            O que estamos querendo cercar, na verdade, nada mais é que uma capacidade aguda de discernimento, uma capacidade aguda de ver, de não estar cego, de ver além do mapa, conseguir ver o território, estar na sua própria heterotopia, ver que as fronteiras podem ser dissolvidas, pois não há fronteira alguma, a fronteira é uma construção da suposta inteligência, do homem sábio, da máquina, do sistema, a fronteira é um dispositivo para a dispositivação de nós. Pessoas inteligentes, hoje em dia, são mapeáveis, são pessoas que pensam conhecer o limite, pois o estudaram, conhecem suas “limitações” e as respeitam, conhecem os nomes, conhecem supostamente a gramática, a história, a cronologia, a taxonomia, e estão intoxicadas por isso, não podem criar nada pois respeitam demais as coisas; a solução para isso tem que ser a promiscuidade, tem que ser o roubo, o assalto, tem que ser não ter respeito pelo passado, não “pagar pau” para o passado, para assim poder descobrir algo novo, para assim poder estar livre, minimamente livre, para desbravar o território infinito que existe e sempre existirá para ser desbravado.

            O burro é inconsequente, indomável. O sujeito inteligente-burro é muito difícil de se mapear, é pura contradição, é certo e errado, ao mesmo tempo, é sim e é não, pertence à uma lógica movediça; ele não segue uma distribuição normal de probabilidades, o seu movimento não é linear, não é utilitário, é estocástico – vive em uma dialética muito mais sofisticada, muito mais complexa, encontrou dentro da contradição uma coerência absolutamente sofisticada.

Esse sujeito tem o seu sinal, sua linguagem não codificada – só um outro como ele, só aquele que abandonou algo de si, seja do modo que for, pode verdadeiramente entendê-lo. É urgente aprendermos a articular e traduzir essa inteligência-burra, isso é essencial para que possamos ser para o mundo, transformar isso em obra, transforma em coisa. Ser somente para nós nos intoxica, viver somente internamente nos comprime, nos sufoca. O modo de abandonar isso é ser para o mundo, é abandonar o apego melindroso do eu, dar piras, das narrativas histéricas internas.

 

            Estar no mundo é abrir o meu mundo. Estar totalmente aberto ao outro, ao erro, a ser ferido, mas esse é o único modo de ter uma importância real para o outro, viver a alteridade - a consequência disso, do homem burro-inteligente que se abre para o mundo, que destrói os muros do castelo e passa a ser o castelo, é conquistar um lugar real no mundo e não só dentro de seu feudo - a violência para destruir o muro, para abrir está intimamente ligado a ter um poder real, a existir, a ter recursos. Não se tem como destruir o muro sem violência, é impossível. É urgente uma violência contra si mesmo, se fraturar, fraturar o conhecido de nós, fraturar um lugar confortável, mapeado, violentar um nome-próprio de nós, nome-próprio dado por uma inteligência estúpida, pelo querer ser algo só para o outro, só por carência, para assim poder desbravar os territórios desconhecidos de nós mesmos, desbravar o outro de nós que respira por nós constantemente mas não o conhecemos, para poder começar a conhecer mais tudo o que é em mim enquanto sou e enquanto quero resistir ser.

 

            A essa altura, podemos propor uma outra leitura em cima do que significa inteligência e burrice para o senso comum: queremos compreender burrice como capacidade de entrega, de estar no outro e permitir que o outro esteja em você. Inteligência, sendo assim, seria uma resistência ao outro (inclusive, principalmente, inacreditavelmente resistência a si mesmo. A inteligência-burra demanda a não nomeação das coisas, usar uma não linguagem, deixar as cosias desprotegidas: isso é burro, mas só isso nos permite acessarmos algo de maneira real, de maneira carnal, de maneira física, emocional, de maneira que você perceba as suas próprias vísceras respondendo por você; ser burro é permitir que suas vísceras respondam mais que sua cabeça, deixar que as vísceras respondam mais que o que a escola nos ensinou. O sistema pedagógico hoje e consequentemente o ser humano estão em ruínas pois estamos querendo ser inteligentes demais, homens demasiadamente civilizados, domesticados, homens-corretos. Mas não é que aqui estejamos reivindicando por uma rebeldia, por uma “loucura” gratuita, a questão que é realmente terrível é que o ser humano é totalmente errado, estamos carecendo do nosso estado de incompletude, estamos carecendo por erro, carecendo, não mais pelo saber, mas agora carecemos do não saber, precisamos voltar a um estado de conviver com a nossa ignorância, conviver com a ignorância e nos permitir a experimentar, a viver a vida, nos permitir ao tropeço, ao obstáculo como coisa maravilhosa da vida, como parte do caminho, não podemos querer traçar um caminho sem obstáculos, construir estradas sem imperfeições, a imperfeição uma hora vai cobrar de nós, e está cobrando – a doença como uma cobrança altíssima dessa, imperfeição, dessa burrice.

 

A burrice nos permite olhar.

Só o burro é capaz de inventar.

 
 
 

LAMPRÉIA LINGUÍSTICA 7

 

Preleções de Rubens Espírito Santo

sobre Nietzsche (Humano, Demasiado Humano)

Professores Assistentes: Anna Israel e Luca Parise

Coleção Anna Israel

apto. 282 Bloco “D” - ed. Copan

Relatório por Anna Israel

Quinta feira

31.mar.2016

 

Presentes: Lis Ferreira, Clara Werneck, Rafael Chvaicer, Gabriel Bondezan Botta, Luca Parise, Anna Israel e RES.

 

Pauta da aula:

 

            Continuação da última aula, focar na questão da inteligência, focar no que está escapando a essa elaboração; se aprofundar em cada estágio dessa teoria desenvolvida por RES, dessa tríade – elemento fundamental para o método, quem sabe uma estratégia de ataque do método, o lugar que o método quer atacar, o lugar que precisamos suturar, suturar em nós, o método quer dialogar com essa inteligência – essa inteligência é a única que interessa o método, essa inteligência tem a ver com o nosso outro, o outro de mim, com o corpo, com o que me caracteriza, com todo um complexo que faz bater o coração, ou arrepia os pelos para acumular ar quente e se proteger do frio, com uma angústia que é um modo de grito, de urro altíssimo do outro de mim. É urgente que paremos de pensar que somos inteligentes pelos motivos errados, inteligentes por sabermos de “assuntos” irrelevantes, inteligentes por um excesso de informação, ao contrário de um excedente da experiência. Essa inteligência do acúmulo não vale nada, isso é uma categorização da inteligência, uma redução miserável de nós, do nosso potencial. Inteligência tem a ver com o organismo estar em constante produção, o organismo estar injetando hormônio e químicos constantemente em meu corpo, que produz tristeza, melancolia, excitação, libido, isso é muito mais inteligente do que um diploma de qualquer doutorado. O método quer atacar a inteligência enquanto um dispositivo que nos mina de acessarmos o que realmente queremos entender por inteligência, o método quer ferir, destruir, estilhaçar, abocanhar essa inteligência, a parede rígida e resistente dessa inteligência, para que possamos, voltar a estar mais em contato com nós mesmos, parar de ser só uma cabeça ambulante, parar de querer acertar, e fazer as coisas do coração, fazer as coisas com paixão, trabalhar o seu desejo mais íntimo, o desejo que nem se apresenta enquanto desejo, o desejo que são todos os sinais que eu emito, que é tudo de nós quando não estamos tentando estar no controle, ou mesmo quando achamos estar no controle, o desejo que escapa o controle, o desejo enquanto missão, o desejo enquanto linguagem invisível de mim, enquanto insatisfação, insistência, coragem, ambição, fragilidade. Tradução para a palavra desejo: o outro de mim.

 

 

Res colocou na mesa três tipos de inteligência:

 

a)    Inteligência genética;

b)    Inteligência conquistada;

c)   Fusão das inteligências anteriores, essa inteligência é a que abre uma nova perspectiva, um novo modo de estar no mundo, uma porta, um canal no corpo que se abre. Como se essa inteligência fosse uma reestruturação do corpo, um remanejamento do DNA da pessoa, uma nova pele, uma reciclagem calcária, e ao mesmo tempo, é como se essa inteligência fosse um retorno, um retorno a um abrigo, um retorno ao próprio abrigo do ser, um retorno ao que chamamos de moradia, de casa, de casa enquanto ser a sua própria casa, o seu próprio lar. É uma fusão de um abrigo que nos é atávico com as ferramentas encontradas no meio do caminho. Casa: voltar a estar em contato com o seu arsenal de ferramentas, de recursos, seu arsenal alquímico, a reunião de todas as partes cindidas do corpo com as que encontramos fora do corpo, onde a leitura, que nos ensinam enquanto A, B, C, enquanto palavra, enquanto sintaxe, passa, ou retorna a estar em outra esfera de leitura, retorna a ser um diálogo de mim com esse outro, uma negociação com a vida; leitura como simplesmente estar vivo, o vivo que lê, lateja, pulsa, inteligência do sangue que corre por debaixo da minha pele, a leitura passa a ser o que antecede a linguagem de mim, passa por esse canal, onde o que se lê talvez deixe de ser a linguagem, para ser o que a antecede, seja lá o que for; essa inteligência justamente é uma afronta à linguagem, ou quem sabe, uma negociação com a linguagem, uma negociação com a lei, com o interdito, com o dispositivo do meu próprio corpo, o corpo se torna um dispositivo des-dispositivado, isso, quem sabe, seja esse terceiro nível de inteligência. Lugar terrível. Lugar de abandono total. Algo precisa ser abandonado para se alcançar esse lugar. Como na Matrix, algo é abandonado após tomar a pílula azul. Acredito que esse abandono seja realmente o abandono do gozo que em algum lugar temos ao ser um dispositivo, um gozo perverso, um gozo do sujeito, uma característica do sujeito que a máquina soube detectar muito bem, um gozo em sentir-se útil, em sentir-se autor (mas autor de um nada, de um nada que a máquina deturpa e convence-nos ao nos recompensar com bens, com festa, com visibilidade, “sucesso”). Abandono da ideia positivista de que somos fortes, somos completos, temos um discurso, temos opiniões, sabemos de tudo, produzimos, somos produtivos, temos que fazer algo por um fim, temos um projeto de vida incorruptível, somos autônomos, autores, temos controle... O abandono de todo um lugar conhecido que um sistema demanda e chama de vida, chama de eu, chama de ser humano, chama de relação, de leitura, compreensão, inteligência, arte, poesia, gozo, erótico, que um sistema perverteu absolutamente fazendo assim de nós meros dispositivos para o andamento dele. Entender essa terceira inteligência como um estar limpo, de pele limpa, lavada, emancipada de sujeira, de traça, emancipada do limo do conhecimento, limpa do limo do dispositivo, da inteligência, dos dispositivos do saber. O único dispositivo do saber é o nosso próprio corpo, justamente pois é o anti-dispositivo.

 

            Apesar de querer muito me debruçar sobre tamanho fascínio abstrato que é a terceira parte da tríade, o terceiro momento da inteligência, acho importante manter um foco nos procedimentos que a antecedem, para que ela se torne absolutamente objetiva, e não somente elucubrações teóricas de um relatório de um curso. O que estamos aqui tentando entender por inteligência é muito mais sofisticado, é muito mais terrível, muito mais misterioso, emaranha-se nas próprias raízes do ser, na fonte impalpável das sensações.

 

            O que visa essa tríade, essa teoria? Essa manobra? O que é essa manobra? Acredito que ela seja uma possibilidade de nos desacorrentarmos, uma possibilidade de ter mais poesia na vida, de usar melhor um corpo sofisticadíssimo que temos, de explorar mais o que é estar vivo, as possibilidades de estar vivo, as nuances da inteligência, da leitura, as nuances de viver enquanto um agente de si mesmo.

            Acho de extrema importância nos perguntarmos: o que é isso que essa tríade cerca, o que ela abraça, o que está por trás da vontade de elaboração, teorização, invenção conceitual e exposição dela? Mapear as inteligências como estratégia para se soltar, minimamente, do dispositivo.

Dispositivo: Campo de Concentração.

 

            Entendê-la como mapeamento de algo, como início de um processo de rompimento com três tipos de campo de concentração:

 

O campo da expiação;

O campo da resistência do fazer, da resistência de criar uma negociação com o mundo externo, o campo de conseguir produzir para fora de si mesmo, o campo resistente do poder real no mundo, de uma articulação real no mundo;

O campo da linguagem.

 

            A pretensão dessas aulas é a de realmente inventar um novo tipo de pedagogia, inventar uma pedagogia que seja um anti-dispositivo, uma pedagogia do mergulho, uma pedagogia do mergulho dentro da experiência de estar vivo, pedagogia de aprender com o seu corpo, aprender com os obstáculos no meio do caminho, aprender com a resistência, ouvi-la, entrar em confronto com ela, dialogar com a angústia, ouvir o discurso das adversidades e perceber as respostas que damos a elas; acabar com essa ideia de pedagogia só por um conhecimento mental, uma pedagogia ordinária, pedagogia de informatividade, de um acúmulo de informações que não servem para nada, só servem para um discurso superficial de algo, discurso fechado, discurso para nos envaidecer diante do outro, para uma competição de quem tem a sacola de informações mais farta, só servem para construir um discurso que estanca o sangue que quer estar em movimento, não servem para nada a não ser para nos tornarmos obesos eruditos, doentes. A pretensão dessas aulas é a de, justamente, poder inventar um novo tipo de pedagogia para o nosso século, para o futuro, entender questões do nosso tempo, como anomalias da modernidade, tiques, comportamentos obsessivos, estados mórbidos, sujeita emocional, falta de paixão, falta de comprometimento; perceber que essas questões que estamos em teoria “acostumados” a ver por aí, são na verdade uma resposta terrível do nosso corpo a uma atrocidade que vivemos hoje em dia, uma ruptura absoluta de nós com nós mesmos, de termos sido absolutamente enfeitiçados pelo Capital, pelo útil, por gerar riqueza, por ser um instrumento, ou, por ser carvão que vai ser queimado para girar a engrenagem da máquina. Estamos sendo transformados em pó, em cinzas, e nosso corpo está orando por socorro. Estamos, não mais no trem indo em direção ao campo, mas dentro do campo e sendo conduzidos às câmaras de gás, estamos dentro das câmaras de gás, mas pensamos estar livres, pensando que somos autônomos, que estamos “bem”, estamos trabalhando, fazendo o nosso serviço (a serviço do quê?), mas o nosso corpo, inteligente, percebe o Zyklon B penetrando os poros do corpo. O modelo pedagógico que temos hoje é um dispositivo dessas câmaras de gás, é um dispositivo de alienação, enquanto achamos sermos inteligentes por “sabermos de coisas”, estamos atrofiando todo um outro tipo de saber que aparentemente é perigosíssimo para a máquina.

 

Nessa aula, nos debruçamos sobre o primeiro item da tríade:

 

a) Inteligência genética – O campo da expiação:

 

O que seria isso? Aqui voltamos ao início desse curso do Nietzsche: não temos autonomia nenhuma. Somos produtos dos nossos pais, de nossos antepassados, expiamos características, hábitos, expressões, articulações de nossos pais, doenças de nossos pais; somos produtos genéticos deles, e por isso, obviamente, herdamos isso deles. Herdamos por exemplo, um tipo de pele, um tipo de pelo, de cabelo, de cheiro, um formato de nariz, a cor do olho, as resistências, vícios, traumas, expiamos geneticamente o que somos de nossos pais, e eles de seus pais e assim por diante.

Há também essa herança espacial, ou seja, dependendo do lugar onde moramos, o nosso corpo responde a esse habitat, no caso quem morou a vida inteira no campo, se relaciona com o mundo de uma maneira muito especifica, ou no caso de quem morou a vida inteira na cidade, ou no caso de um esquimó, com certeza suas questões, ou o modo como ele lida com a vida, o modo como ele responde à vida é muito particular ao habitat que ele nasceu. Mas como ele criou essa resposta? Como ele aprendeu sem nem saber como se comportar desse modo? Quem aprendeu? Isso é ensinado? É sobre essa inteligência, esse tipo de aprendizagem que se trata a primeira inteligência. 

Somos condenados à uma herança social: você é o país que você vive: somos frutos de todos os traumas de nosso país, de suas guerras, da falta de guerras, de sua intelectualidade, de seu pragmatismo, de seu melindre, de seu esoterismo, de sua tradição, falta de tradição, de sua urgência, de sua hostilidade, somos frutos de uma construção social de nosso país e somos presos a isso. No caso, claramente há uma diferença entre o homem de São Paulo, com o homem do Rio de Janeiro, o homem de NY, o homem de Paris, da Dinamarca... Dentro de cada país, dentro de cada lugar, há todo um constructo daquele lugar, uma faceta daquele lugar, um charme particular daquele lugar, um modo de comer, um modo de se vestir, um modo de articular a palavra, de responder a uma crítica, de escrever, de pensar, de andar, de olhar, de gesticular; ao longo da história da humanidade, foram se construindo diferentes “tribos” e cada uma delas tem suas particularidades, e padrões. Há um padrão do que é “ser brasileiro”, um padrão do que é “ser americano”, um padrão de comportamento do que é “ser rico”, “ser pobre”, ser rico no Brasil, assim como ser rico na Inglaterra. Até o nosso próprio sexo, o gênero possui uma inteligência própria como também está socialmente preso em um campo de concentração: temos que responder ao que esperam desse sexo – o homem tem que responder à vida de uma maneira e a mulher de outra.

Existem muitas nuances que herdamos do país em que vivemos, dos pais que temos, da classe social que estamos inseridos e isso é o primeiro tipo de inteligência que queremos observar: parece que o nosso corpo responde a tudo isso encontrando um modo de fazer parte disso. Nós mesmos respondemos às situações genéticas, sociais, de um país, de expiação, sem nem sabermos, sem termos controle nenhum; de uma determinada maneira, o nosso próprio corpo – o outro de mim –, eu que escapo de mim, sou isso sem nem mesmo saber como, por algum motivo existe algo em nós que leu uma situação toda e respondeu, e responde a ela desse modo como somos. Somos, porém, apesar de, agora, nos percebermos inteligentíssimos em um lugar, escravos disso, expiamos isso, mas não necessariamente significa que estamos fadados a ser isso. A expiação é um tipo de inteligência, e a questão, nesse primeiro item, é a de justamente perceber a manobra sofisticadíssima do corpo ao ser isso.

            É nítido e muito simples o que estamos querendo dizer: basta assistir a um filme dinamarquês sobre uma família dinamarquesa e um filme americano sobre uma família americana. Como ambos são tão diferentes? Por que são tão diferentes? Ambos são igualmente seres humanos, mas como é possível eles responderem à vida, à natureza, a um tipo de inverno que só há na Dinamarca e um tipo de inverno que só há nos EUA, de modo tão distinto? Como isso foi construído? E como um americano é tão parecido com o outro? De onde vem esse “saber ser americano”? De onde vem o “saber ser brasileiro”? Um brasileiro nos Estados Unidos não é compreendido não por não falar inglês, mas simplesmente por dar um beijo no rosto de um americano como um cumprimento, isso já é linguagem do brasileiro que não é do americano, isso já é um fazer do brasileiro que não é do americano, isso é uma expiação do nosso país que o americano não expia do dele (no caso, ele expia outras questões). Isso é expiação de um país, isso é uma inteligência que temos que é muito maior que nós. A língua alemã, por exemplo, tem palavras que não existem na brasileira, não porque não soubemos traduzir, mas porque a nossa vida, a nossa tradição enquanto brasileiro ainda não teve a necessidade de inventá-la, isso é inteligência genética.

            Isso não nos foi ensinado como inteligência. Não nos foi ensinado a perceber que somos inteligentes muito antes de possuirmos uma língua – o próprio feto que se desenvolve dentro do útero da mãe já possui uma inteligência. Já, acredito, está construindo recalques, recalques que estão sendo passados pelo sangue da mãe, recalques em ter de se desenvolver de espermatozóide para feto, de feto para recém-nascido, recém-nascido que chora ao imediatamente sair da barriga da mãe – isso é inteligência.

            Compreendendo a complexidade dessa inteligência e o fato de sermos completamente escravos dela, ou melhor, não escravos, mas não termos controle dela, a questão é a de compreender como ela funciona, como funciona sua engrenagem, para poder trabalhar a seu favor, para podermos alterar o nosso sistema expiatório. O nosso corpo então responde a situações novas – se saímos de uma zona de conforto e experimentamos qualquer coisa que seja nova, o corpo vai injetar novas químicas dentro dele mesmo, pois ele precisa encontrar um modo de responder àquilo (como encontrou um modo de responder ao país onde vive, por exemplo, “sendo brasileiro” ou “sendo americano”). O corpo nos dá novas informações, novas percepções, para lidar com as adversidades – aí nasce algo novo, esse é o espaço para o início de uma nova construção de si mesmo, para o início de uma negociação com o campo de concentração da inteligência genética.

            Precisamos acreditar que podemos aprender com a divergência, aprendemos com o recalque. Por sinal, essa inteligência genética nos prova que o corpo aprende com o outro, o corpo aprende com a alteridade, o corpo responde ao habitat externo. É necessário, nos colocarmos em situações não convencionais, como por exemplo, usar um tipo de roupa diferente do que o usual, cortar o cabelo de outro modo, escrever em uma língua diferente, segurar o lápis de outra maneira, dar uma caminhada em um momento inoportuno, acordar em um horário inusual, conversar com pessoas desconhecidas, mudar uma rota de hábito, usar o corpo de outras maneiras, se permitir fazer uma pergunta agressiva, simplesmente experimentar novas situações, para que se possa acessar outras formas de conhecimento do corpo. O corpo é um arsenal muito profundo, muito inteligente, sua leitura é muito densa e ele se reinventa constantemente para poder lidar com uma situação estranha.

 

            Com essa manobra, começamos a tatear o segundo item da tríade:

 

b) Inteligência conquistada.

 

            Ter um plano de guerra para o corpo começar a responder de outra forma ao campo de concentração da expiação. Entrar em confronto com o outro e com o mundo para descobrir como podemos arrancar de nós novas respostas.

            Mais importante que o artista criar um mundo próprio, seria o artista lutar com o mundo externo, o artista se colocar no mundo, enfrentar o mundo. Isso sim seria de fato criar um mundo próprio, pois o que estamos chamando de “mundo próprio interno” é só expiação, é a primeira parte desse relatório, são expiações de nossos pais, país, gênero, classe, enfim, esse suposto mundo próprio não possui experiência. Construir um mundo próprio, ou, descobrir, espremer um mundo próprio seria se submeter à experiência, seria começar a enfrentar a resistência de si mesmo para fora de si. Criar um mundo próprio é justamente se colocar no mundo e conhecer-se para fora de você. Como eu ajo em determinada situação? Como eu falo com determinada pessoa? Realmente viver a experiência e sair de um mundo da fantasia, um mundo do delírio, um mundo de abstrações, de projeções de si mesmo – enfrentar o mundo.

            A nossa expiação gera inércia, é uma inteligência que também precisa ser trabalhada, precisamos ser ferramentas de uma reestruturação de nossas expiações, forçando-nos a situações estranhas, a desconfortos, confrontos; assim vamos abrindo canais, acionando dispositivos dormentes internos, dispositivos que nos foram amortecidos, e assim trabalhamos para que essa inteligência “a)” seja trabalhada, para contribuirmos ao ensinamento do nosso corpo em relação a novas situações, ou melhor, para que sejamos nós mesmos dispositivos de acionamento de novas respostas de nós.

O enfrentamento com o mundo real e consequentemente com as nossas expiações gera uma segunda pele, gera as armas, as munições que nos aproximam de nossa natureza, desse outro desconhecido de nós. O enfrentamento com a resistência do mundo faz com que tenhamos que espremer respostas do nosso corpo, do nosso outro para lidar com as nossas adversidades, como uma alquimia do ser – o obstáculo será uma ferramenta para que se encontre uma solução. Justamente, essa solução será uma nova pele, será um recurso espremido, como nos tempos de guerra, toda uma nação tem que espremer dessa dificuldade soluções, invenções para lidar com as atrocidades da guerra. O período de guerra é um período fértil para o novo.  Estar atento à resposta que o corpo vai dar, estar atento às soluções geradas por essa inteligência, estar atento a isso – isso está intimamente relacionado a uma inteligência muito mais profunda, uma inteligência que emaranha-se no organismo vivo, inteligência que é muito maior do que nós mas que também é cada um de nós.

Essa simbiose, essa relação de experiência do interno com o confronto do externo gera uma roupa nova, a mão fica calejada, fica áspera. Por exemplo, a mão de um trabalhador rural é muito mais áspera que a mão de uma criança. A inteligência do corpo do trabalhador criou essa pele nova para lidar com as adversidades que ele encontra no seu ofício. É sobre isso que estamos falando, mas a questão é a de descobrir, experimentar, essa nova pele de cada um – isso é estilo para Nietzsche, é o colete e chapéu de feltro de Beuys, o terno de Barnett Newman, a roupa de camponês de Heidegger, o charuto de Freud, o chapéu de rabino de RES, a sobriedade de Albers; é descobrir, inventar, estar atento às respostas da nossa inteligência para perceber os sinais que ela está nos transmitindo e usar esses sinais a nosso favor.

 

 

                                                                        –––––––

 

 

            Para finalizar esse relatório, do modo como finalizou a aula: nada está sendo dito na fala de RES, mas algo é pescado, algo está tocando o outro, algo está sendo dito através da fala. Não há informatividade, não há conhecimento sendo passado, não há comunicação, mas algo está sendo dito. E como eu sei que algo está sendo dito? Como sua aula pode gerar o choro em alguém e esse alguém nem mesmo saber porque está chorando? Essa é a inteligência que queremos mapear. Precisamos nos suturar. Estamos cindidos.

 

A inteligência é um campo de concentração. Quando mais você se abre a ela, quando mais você a conhece, mais consciência dessa prisão você tem, porém mais livre de ser um dispositivo você está. É um jogo que requer negociações.

LAMPRÉIA LINGUÍSTICA 8.1

 

Preleções de Rubens Espírito Santo

sobre Nietzsche (Humano, Demasiado Humano)

Professores Assistentes: Anna Israel e Luca Parise

Coleção Anna Israel

apto. 282 Bloco “D” - ed. Copan

Relatório por Anna Israel

Quinta feira

07.abril.2016

 

Presentes: Rafael Chvaicer, Ana Viotti, Catarina Cassius, Gabriel Bondezan Botta, Luca Parise, Anna Israel, RES.

Breve relato de uma aula aparentemente sem importância nenhuma:

 

O que realmente esperar de uma vida?

Por que tantas profissões, tantos títulos, tantos nomes, códigos, discursos, tantos assuntos, respostas, religiões, tantos eventos, tantos cursos, tantos diplomas, amigos, amantes, viagens, estilos, tribos, línguas, suicídios, tantas mágoas, tantos livros, tantas certezas, tanta arrogância, tanta humildade? O que são todas essas coisas? Que modo é esse que criamos para viver? Que dizer é esse no que estamos tanto tropeçando? O que realmente queremos dizer? O que realmente queremos ser? O que realmente queremos fazer de uma vida? Que merda é essa que é viver? O que eu vim fazer nesse mundo? Como me negociar nesse planeta de mim que mal eu conheço? Como é possível nos conhecermos tão pouco? Ser a nossa morada e mal conhecer um cômodo? Para onde vai o estado de graça que a criança de mim sentiu, sem ter porquê nenhum? Somente o estado de sentir-me viva, de não saber de nada, mas de sentir o meu corpo em êxtase, constante excitação interna com coisa que seja. Por que, de repente, convocamos tantas coisas externas para nos deixarmos supostamente satisfeitos? Ou melhor, por que só não se deixar ser seduzido pela vida que nos atravessa ao manter-nos vivos? Por que criamos tantas coisas, coisas que supostamente dizem nos deixar felizes? Dopamina. Palavra chave. Substância química gerada pelo próprio corpo que produz esse estado de graça físico. Substância química criada e injetada por nós mesmos, pelo lugar, lugar que habito, lugar meu, lugar que sou, esse lugar que me é e que produz, ele mesmo, esse estado de êxtase. Isso a serviço do quê, se não for do próprio movimento da vida? Poder viver à altura do que me faz vivo. Mas o que é isso que me faz vivo? Não, essa é a pergunta errada. A pergunta correta seria: por que não somos capazes de viver à altura do que nos faz vivos? O que nos está sendo arrancado?

 

No fundo, não existe curso nenhum. Isso tudo que acontece e que relatamos é só uma possibilidade de vivermos com mais amor, de estabelecermos amigos, amigo como alguém que é capaz de me ferir em nome do meu melhor, comprometer a amizade em nome da amizade, a serviço de sermos mais humanos, de sermos um pouco, nem que seja miseravelmente, melhores, menos sujos, menos perversos, menos mesquinhos, menos duros. Isso é somente uma oportunidade para vivermos com mais movimento, mais maleabilidade, uma possibilidade de não acumular a vida, mas viver a vida, usar a vida; não esperar um momento oportuno, mas fazer de cada segundo um milagre, fazer dos momentos difíceis os momentos oportunos, de dias “ruins” os dias iluminados. Possibilidade para vivermos a vida, entendermos um pouco mais o porquê de vivermos, para quê vivemos, em nome do quê vivemos; possibilidade de ouvir mais o corpo, ouvir mais a palpitação do coração mudando de ritmo, perceber uma onda de calor que passa pelos braços, um frio que sobe da pelve ao peito, um estado de alerta que nomeio de “medo” que me sequestra, um cheiro, um olhar, um gesto, meu Deus, por que isso tudo passa tão desapercebido? Por que falamos tanto de Nietzsche, de arte, de estética, de plástica, de história, tratados, teorias, filósofos e sábios, e não somos capazes mais de perceber o ritmo do coração palpitando dentro do próprio peito como o assunto fundamental para ser comentado? Há vida que passa por mim, há vida cruzando o meu destino de agora – que cruza a matéria de mim que é toda vida de mim; há vida que se aloja nesse meu mísero corpinho frágil que dou tão pouco valor. A formiga que sobe pelo meu pé e eu somos igualmente toda vida que há nessa vida. Ou seja, a vida mais insignificante nesse planeta já é toda vida que há de existir.

 

Como é possível eu ter segredos que eu nem mesma sei? Se eu não for capaz de tocá-los, vocabulizá-los, serei então somente uma potência de algo, potência de mim, uma aposta de mim, uma aposta de algo que nunca foi. Ser uma aposta é ainda não ser algo, viver para sempre nesse ainda-não de algo. Não quero ser aposta, não quero mais saber de coisas, saber do método, do curso, de RES, de Nietzsche; o que desejo é poder encontrá-los dentro do meu fazer, vê-los sendo articulados por mim. Dizer o que tanto me engasga, viver uma vida fazendo o que se ama, o que se realmente tem paixão, fazer o que você quer fazer, viver essa vida realmente consumida de vida, de tesão, de paixão, dopamina, de vontade, de olhar para o outro e perceber que ele é idêntico a mim, somos igualmente frágeis, suscetíveis, tensos, suamos frio, temos medo e sentimos amor.

 

Esse amor é o berço invisível da aula. Amor como fragilidade, vulnerabilidade, espaço vazio, hiato – uma violência contra o fim, contra a utilidade, contra a expectativa, contra a máquina, uma violência exuberante, que possibilita que outra coisa se dê. Ou nem se dê, pouco importa o que se dá. Essa não é a questão. A questão é ter amor, amor pela vida, é ter vida, é estar em comunhão com a vida, com o movimento que me movimenta com o meu limite. Precisamos conhecer os nossos limites, saber quando uma coisa não vai mais, para só assim sê-la de outra forma, ser-me de outra maneira, dizer-me de outro modo. Como foi o que aconteceu na aula. O espaço da aula foi dilatado. Uma eventual não-aula é forçada para dentro da aula e a aula vira outra coisa, a coisa que ela sempre quis ser: um silêncio, silêncio de tanto barulho que criamos para não ouvir o nosso próprio silêncio, o meu hiato, meu intervalo de eu comigo mesma; a aula é isso: o hiato que se acomoda entre cada palavra, o hiato que se ajusta entre o espaço vazio de cada um, o discurso que é sobre ele mesmo, ou seja, uma cabeça sem discurso nenhum, somente uma cabeça, um tronco, braços e pernas transbordados de vida.

 

Eu não quero escrever um relatório da aula. Gostaria de ser capaz de relatar simplesmente o estado de graça que me foi proporcionado nesse encontro. Encontro de pessoas que amo, que realmente sinto amor, que realmente quero ser penetrada, e quero me deixar, me abrir para poder penetrar nelas. Não como um sexo vulgar, mas como, nem que seja por um milésimo de segundo, uma transgressão dessa distância infinita intransponível que existe entre nós, mas que, ao mesmo tempo, não existe. Algo em mim sabe que essa distância não existe – essa distância é a cela que a existência atropelada por cada um de nós nos confere, mas se há existência que passa por ele e por mim, se somos frutos de um existir que também nos pertence, então em algum lugar nos unimos. Se há distância, se há espaço, então já há algo. É nesse vazio, nessa intransponível distância justamente, que só pode haver encontro, a arquitetura desse espaço vazio intransponível nos pertence, tanto a mim, quanto ao outro – só aí há encontro. A aula foi esse encontro, dentro do vazio que se assenta entre nossa distância infinita. 

 

Esse é o espaço, a atmosfera, realmente, o lugar, o assunto, o método, o vinho, o banho de banheira, os seios à mostra, a orgia, isso é a orgia, o espaço para uma orgia a serviço desse algo que me viola, me violenta, me açoita, me abraça, açambarca, se abarca em mim e me sufoca a escrita, me sufoca o dizer, se impõe sobre mim como um porteiro da lei, de uma lei que parece ser tudo que deixo passar despercebido: o fato de que não dou conta de algo, o desalento, a minha carência, o desejo, a insegurança, a potência: o sem saída de mim. Por que é tão difícil de dizer o que realmente é para ser dito? Ou, por que é tão difícil dizer o que eu desejo dizer, dizer esse calor de tantos dizeres que se dizem e disseram-me antes mesmo de existir e me constituem hoje, nesse exato momento, enquanto pessoa que quer somente uma única coisa: ser fruto desse desejo. Traduzir-me para fora de mim. Ser uma serva do organismo do meu dizer. Traduzir a comoção que me faz continuar insistindo nessas palavras ordinárias que ainda parecem não dizer nada. Palavra só pode ser ação, só pode ser a tessitura de uma outra palavra, de sua pré-palavra, de seu vocábulo, do motivo, do urro que necessita da palavra, do ruído que produzo antes de conhecer a língua; o ruído de meu próprio idioma, a gramática de meu silêncio; ser a intensão por trás do meu dizer, destruir todas as escolhas das palavras, nomes, preconceitos e vaidades, e caminhar por esse sobrevivente sem-saída de mim.

 

LAMPRÉIA LINGUÍSTICA 8.1 (2)

 

 

Preleções de Rubens Espírito Santo

sobre Nietzsche (Humano, Demasiado Humano)

Professores Assistentes: Anna Israel e Luca Parise

Coleção Anna Israel

apto. 282 Bloco “D” - ed. Copan

Relatórios oficiais das aulas por Anna Israel e Luca Parise

Quinta feira

07.abril.2016

 

Presentes: Rafael Chvaicer, Ana Viotti, Catarina Cassius, Gabriel Bondezan Botta, Luca Parise, Anna Israel, RES.

 

 

Breve relato de uma aula aparentemente sem importância nenhuma:

 

O que realmente esperar de uma vida?

Por que tantas profissões, tantos títulos, tantos nomes, códigos, discursos, tantos assuntos, respostas, religiões, tantos eventos, tantos cursos, tantos diplomas, amigos, amantes, viagens, estilos, tribos, línguas, suicídios, tantas mágoas, tantos livros, tantas certezas, tanta arrogância, tanta humildade. O que são todas essas coisas? Que modo é esse que criamos para viver? Que dizer é esse que estamos tanto tropeçando? O que realmente queremos dizer? O que realmente queremos ser? O que realmente queremos fazer de uma vida? Que merda é essa que é viver? O que eu vim fazer nesse mundo? Como me negociar nesse planeta de mim que mal eu conheço? Como é possível nos conhecermos tão pouco? Ser a nossa morada e mal conhecer um cômodo? Para onde vai o estado de graça que a criança de mim sentiu, sem ter porquê nenhum. Somente o estado de sentir-me viva, de não saber de nada, mas de sentir o meu corpo em êxtase, constante excitação interna com coisa que seja. Por que, de repente, convocamos tantas coisas externas para nos deixarmos supostamente satisfeitos? Ou melhor, porque só não se deixar ser seduzido pela vida que nos atravessa ao manter-nos vivos? Por que criamos tantas coisas, coisas que supostamente dizem nos deixar felizes? Dopamina. Palavra chave. Substância química gerada pelo próprio corpo que produz esse estado de graça físico. Substância química criada e injetada por nós mesmos, pelo lugar, lugar que habito, lugar meu, lugar que sou, esse lugar que me é e que produz, ele mesmo, esse estado de êxtase. Isso a serviço do que se não for do próprio movimento da vida? Poder viver à altura do que me faz vivo. Mas o que é isso que me faz vivo? Não, essa é a pergunta errada. A pergunta correta seria: por que não somos capazes de viver à altura do que nos faz vivos? O que nos está sendo arrancado?

 

No fundo, não existe curso nenhum. Isso tudo que acontece e que relatamos é só uma possibilidade de vivermos com mais amor, de estabelecermos amigos, amigo como alguém que é capaz de me ferir em nome do meu melhor, comprometer a amizade em nome da amizade, a serviço de sermos mais humanos, de sermos um pouco, nem que seja miseravelmente, melhores, menos sujos, menos perversos, menos mesquinhos, menos duros. Isso é somente uma oportunidade para vivermos com mais movimento, mais maleabilidade, uma possibilidade de não acumular a vida, mas viver a vida, usar a vida; não esperar um momento oportuno, mas fazer de cada segundo um milagre, fazer dos momentos difíceis os momentos oportunos, de dias “ruins” os dias iluminados. Possibilidade para vivermos a vida, entendermos um pouco mais o porquê vivemos, para quê vivemos, em nome do quê vivemos; possibilidade de ouvir mais o corpo, ouvir mais a palpitação do coração mudando de ritmo, perceber uma onda de calor que passa pelos braços, um frio que sobe da pelve ao peito, um estado de alerta que nomeio de “medo” que me sequestra, um cheiro, um olhar, um gesto, meu Deus, porque isso tudo passa tão desapercebido? Porque falamos tanto de Nietzsche, de arte, de estética, de plástica, de história, tratados, teorias, filósofos e sábios, e não somos capazes mais de perceber o ritmo do coração palpitando dentro do próprio peito como o assunto fundamental para ser comentado? Há vida que passa por mim, há vida cruzando o meu destino de agora – que cruza a matéria de mim que é toda vida de mim; há vida que se aloja nesse meu mísero corpinho frágil que dou tão pouco valor. A formiga que sobe pelo meu pé e eu somos igualmente toda vida que há nessa vida. Ou seja, a vida mais insignificante nesse planeta já é toda vida que há de existir.

 

Como é possível eu ter segredos que eu nem mesma sei? Se eu não for capaz de tocá-los, vocabulizá-los, serei então somente uma potência de algo, potência de mim, uma aposta de mim, uma aposta de algo que nunca foi. Ser uma aposta é ainda não ser algo, viver para sempre nesse ainda-não de algo. Não quero ser aposta, não quero mais saber de coisas, saber do método, do curso, de RES, de Nietzsche, o que desejo é poder encontrá-los dentro do meu fazer, vê-los sendo articulados por mim. Dizer o que tanto me engasga, viver uma vida fazendo o que se ama, o que se realmente tem paixão, fazer o que você quer fazer, viver essa vida realmente consumida de vida, de tesão, de paixão, dopamina, de vontade, de olhar para o outro e perceber que ele é idêntico a mim, somos igualmente frágeis, suscetíveis, tensos, suamos frio, temos medo e sentimos amor.

 

Esse amor é o berço invisível da aula. Amor como fragilidade, vulnerabilidade, espaço vazio, hiato – uma violência contra o fim, contra a utilidade, contra a expectativa, contra a máquina, uma violência exuberante, que possibilita que outra coisa se dê. Ou nem se dê, pouco importa o que se dá. Essa não é a questão. A questão é ter amor, amor pela vida, é ter vida, é estar em comunhão com a vida, com o movimento que me movimenta, com o meu limite. Precisamos conhecer os nossos limites, saber quando uma coisa não vai mais, para só assim sê-la de outra forma, ser-me de outra maneira, dizer-me de outro modo. Como foi o que aconteceu na aula. O espaço da aula foi dilatado. Uma eventual não-aula é forçada para dentro da aula e a aula vira outra coisa, a coisa que ela sempre quis ser: um silêncio, silêncio de tanto barulho que criamos para não ouvir o nosso próprio silêncio, o meu hiato, meu intervalo de eu comigo mesma; a aula é isso: o hiato que se acomoda entre cada palavra, o hiato que se ajusta entre o espaço vazio de cada um, o discurso que é sobre ele mesmo, ou seja, uma cabeça sem discurso nenhum, somente uma cabeça, um tronco, braços e pernas transbordados de vida.

 

Eu não quero escrever um relatório da aula. Gostaria de ser capaz de relatar simplesmente o estado de graça que me foi proporcionado nesse encontro. Encontro de pessoas que amo, que realmente sinto amor, que realmente quero ser penetrada, e quero me deixar, me abrir para poder penetrar nelas. Não como um sexo vulgar, mas como, nem que seja por um milésimo de segundo, uma transgressão dessa distância infinita intransponível que existe entre nós, mas que, ao mesmo tempo, não existe. Algo em mim sabe que essa distância não existe – essa distância é a cela que a existência atropelada por cada um de nós nos confere, mas se há existência que passa por ele e por mim, se somos frutos de um existir que também nos pertence, então em algum lugar nos unimos. Se há distância, se há espaço, então já há algo. É nesse vazio, nessa intransponível distância justamente, que só pode haver encontro, a arquitetura desse espaço vazio intransponível nos pertence, tanto a mim, quanto ao outro – só aí há encontro. A aula foi esse encontro, dentro do vazio que se assenta entre nossa distância infinita. 

 

Esse é o espaço, a atmosfera, realmente, o lugar, o assunto, o método, o vinho, o banho de banheira, os seios à mostra, a orgia, isso é a orgia, o espaço para uma orgia a serviço desse algo que me viola, me violenta, me açoita, me abraça, açambarca, se abarca em mim e me sufoca a escrita, me sufoca o dizer, se impõe sobre mim como um porteiro da lei, de uma lei que parece ser tudo que deixo passar despercebido: o fato de que não dou conta de algo, o desalento, a minha carência, o desejo, a insegurança, a potência: o sem saída de mim. Por que é tão difícil de dizer o que realmente é para ser dito? Ou, por que é tão difícil dizer o que eu desejo dizer, dizer esse calor de tantos dizeres que se dizem e disseram-me antes mesmo de existir e me constituem hoje, nesse exato momento, enquanto pessoa que quer somente uma única coisa: ser fruto desse desejo. Traduzir-me para fora de mim. Ser uma serva do organismo do meu dizer. Traduzir a comoção que me faz continuar insistindo nessas palavras ordinárias que ainda parecem não dizer nada. Palavra só pode ser ação, só pode ser a tessitura de uma outra palavra, de sua pré-palavra, de seu vocábulo, do motivo, do urro que necessita da palavra, do ruído que produzo antes de conhecer a língua; o ruído de meu próprio idioma, a gramática de meu silêncio; ser a intenção por trás do meu dizer, destruir todas as escolhas das palavras, nomes, preconceitos e vaidades, e caminhar por esse sobrevivente sem-saída de mim.

 

Dez afirmações de coisas que eu gostaria de dizer, ou fazer, ou o que seja, simplesmente dez afirmações secretas de mim:

 

Sou apaixonada pelo meu pai e pelo meu mestre, mas só me relacionei com homens fracos

Quero ser uma dançarina de um strip-club

Quero transar com o meu melhor amigo

Sentar no colo de meu psicanalista, de frente para ele e ser sua vadia

Ser amante do meu mestre

Cantar, de noite, em um pequeno bar só para homens mais velhos, desconhecidos, e ninguém mais saber

Poder dizer isso tudo com mais tranquilidade, sem julgamento de mim

Quero que fiquem olhando para as sutilezas do meu corpo

Me transvestir de homem, mas sendo uma mulher. Não quero ser um homem, mas uma mulher vestida de homem

Sou apaixonada pelo meu irmão e desejo ele como o meu homem, desejo poder pará-lo, desejo seduzi-lo, desejo fazer dele o projeto de homem para mim, e é o que eu tento fazer constantemente ao seduzi-lo em direção do meu mundo

LAMPRÉIA LINGUÍSTICA 8.2

 

Presentes: Rafael Chvaicer, Ana Viotti, Catarina Cassius, Gabriel Bondezan Botta,

Luca Parise, Anna Israel, RES.

 

Preleções de Rubens Espírito Santo

sobre Nietzsche (Humano, Demasiado Humano)

 

Professores Assistentes: Anna Israel e Luca Parise

Coleção Anna Israel

apto. 282 Bloco “D” - ed. Copan

Relatório por Luca Parise

Quinta feira

07.abril.2016

 

Amor como ponto de saída da aula, como ponto final, como ponto médio. Como suspensão do ponto. Amor como amor. Amor como fragilidade, vulnerabilidade, espaço vazio, hiato – uma violência contra o fim, contra a utilidade, contra a expectativa, contra a máquina, contra a linguagem; uma violência exuberante, que possibilita que outra coisa se dê. A aula como um ser vivo, mutante que é burro, que se abre ao outro permitindo que o varre (não sem violência) e se fundam. A última aula do Nietzsche foi justamente essa fusão, o deslocamento da aula para um outro lugar que se fundiu com a própria aula e fez nascer uma terceira coisa, dentro da aula.

 

Não só sobre a aula, mas por que essa visão tão caipira e mesquinha, categórica de aula? Por que se restringe a aula ao que eu conheço dela? Um incêndio não pode ser uma aula no sentido mais nobre da palavra? Forma e conteúdo se fundem, a própria estrutura da aula se tornou aula, possibilidade de deslocamento, de criar um pequeno vazio, um momento de desaceleramento, de inútil, de suspensão. Quando a própria aula foi suspensa dentro da aula, se dá uma outra coisa. Que manobra incrível deslocar a aula, não para fora de si, mas para um outro dentro, que por não estar no meu mapa eu chamo, ingenuamente, de fora.

 

Aula como metáfora da vida, para o meu dia-a-dia, para o trabalho, para a festa – suspender a mim mesmo para que se possa ter o outro de mim, justamente como a aula. Suspendendo-me, o outro se dá em mim, não fora de mim, mas por cegueira e desconhecimento da minha própria linguagem, chamo-o de outro! Que medo que tenho de me perder, de não conseguir voltar para casa, de não voltar ao pai - medo caipira. A aula se dá na aula mesmo não sendo a aula. Eu me dou em mim, mesmo não sendo eu – então por que esse maldito medo de ser algo além de mim? De me extrapolar? De ser o que eu entendo como o meu oposto? Medo de me perder, de que eu não me dê em mim – isso soa totalmente estúpido e o é – salvo na loucura, na patologia, eu não tenho como não ser eu mesmo. Na verdade, nem na loucura eu não posso não ser eu mesmo. Então o que me interdita? O que antecede a minha vontade de manter comigo mesmo? Trair a própria aula, me trair é a única atitude responsável, consequente que me resta.

 

Ao suspender o fim, ao suspender a aula, sem negá-la, superar mantendo-a, um espaço se deu – trabalhar contra a aula é essencial. Trabalhar contra mim mesmo, me forçar para fora do caminho de mim, pois, estando inserido em um método (isso é muito importante) não vou sair de mim (ficar louco). Por mais radical, por mais externo, por mais “outro” que pareça, estou em mim – essa construção, essa expansão aconteceu na própria aula e isso permitiu uma ampliação da aula. O espaço entre o mestre e o discípulo, entre a aula e o mestre é justamente essa expansão, onde se dá essa liberdade, onde o outro se funde ao eu e formam uma terceira coisa, que sou eu.

 

A aula mesmo, só pode se dar quando ela está fora da aula, como se a negociação entre o fora e o dentro da aula fosse trazido para dentro, fagocitado pela aula – nesse momento, não há mais distinção, não há preconceito, não há julgamento moral ou social, simplesmente se é. A aula se dá.

 

Como se pode entrar nesse lugar – o que precisa para se suspender? Para se deslocar? Para pôr fogo na categoria. Para pôr fogo em mim como Domênico o faz? A última aula foi justamente, ipsis litteris, o discurso do Domênico em Nostalgia, teve a mesma violência, a mesma abertura, abriu o mesmo espaço. Um outro tipo de inteligência, um outro tipo de aula, um outro tipo de pedagogia, uma outra saída para a tragédia – não nova, mas simplesmente uma outra. A figura do Mestre é essencial, pois é exatamente na relação com o discípulo, nesse hiato entre mestre e discípulo: intransponível, impossível, que se dá essa suspensão.

 

Destruição do projeto, como destruir o projeto, sem ser através de um projeto de negação do projeto? Como suspender as coisas? Claramente a aula foi um momento de suspensão. Como isso se dá? Qual o projeto de ir contra o projeto? Me parece que essa epistemologia está errada. A vontade de ir contra a aula, de suspendê-la, não parte do sujeito, mas do próprio objeto aula, o sujeito só o ouve, o lê, o sente e deixa-o entrar nele, deixa-se ser operado pela aula – a aula me operou, operou a todos nós, principalmente ao Rubens, o mais vulnerável, o que pode realmente ouvir o que a aula pedia e deixou-se ser a aula, se penetrar por ela sem reservas, se contaminar. Estar atento ao outro, ouvir de verdade o outro, inclusive o outro de si, mesmo quando a fala é contra ela mesma, ela ainda é a fala – é preciso ter muita coragem para ouvir de verdade, deixar que a fala entre em você mesmo que ela seja contrária à própria fala, pois ela não tem como deixar de ser fala, ela não tem como deixar de operar, e isso é maravilhoso, isso é poesia.

 

Suspender a aula, suspender o projeto, me suspender se dá através do mestre.

 

Só pode realizar a manobra que foi feita na aula, quem a fez em si: essa pessoa é justamente o Mestre. O Mestre é o único que pode suspender a aula e fundi-la com o outro para que surja uma nova aula, pois ele é quem olha de verdade o outro. Fazer isso comigo mesmo, me fundir é impossível sem o Mestre por um motivo muito simples que tem a ver com o local que essa manobra se dá. Não consigo me fazer aula em mim, mas consigo, por mais difícil que seja, me fazer aula no Rubens. É difícil, extremamente difícil para mim, mesmo, pois é a minha morte. Não é “como se fosse”, é. Mas é uma morte acompanhada de nascimento e eu SEI que vai nascer, pois é o que está morto em mim, é o amor, é a poesia, é a humanidade, mas tenho medo, mesmo sabendo, tenho medo. Esse local de sacrifício é o mestre. Ele não é o sacrificador, ele é o altar. Nesse altar, eu posso me imolar, eu posso sobreviver ao morrer. Só depois da minha morte, eu posso viver.

 

Quando essa aula se dá, ou na relação mestre-discípulo, surge uma terceira coisa, uma terceira inteligência, uma outra forma de linguagem que permite o mínimo de liberdade que nos é acessível – que permite um momento de suspensão do dispositivo, um momento que nos damos por nós para fora do forno da máquina, fora do campo. Mas não estamos fora deles, não estamos livres, apenas transformamos isso na própria aula, dar um gato no campo, dar um gato no dispositivo, desviá-lo, erro e poesia. Excluí-lo, jogá-lo fora, é uma temeridade, é justamente o que nos sustenta: o que interessa é esse terceiro lugar, que não é João ou Maria, certo ou errado, sim ou não, liberdade ou Auschwitz, mas esse lugar que é a liberdade em Auschwitz. Essa é a única liberdade que podemos ter, dar um gato no próprio jogo no espaço entre as emendas, um pequeno momento de erro, de poesia, aí está a liberdade, aí está a aula, aí está o que é criado na relação mestre-discípulo:

 

Talvez esteja um pouco estranho, mas para mim isso tem tudo a ver com amor (talvez eu só esteja um pouco sentimental, mas acho que não). Tem a ver com amar o outro, tem a ver com humanidade. Tem a ver com a humanidade de verdade se dar dentro do campo de concentração, por poetas. Só dá para ser humano se se é poeta, se é artista - para mim, Luca Parise, essa tríplice: poesia, amor e humanidade é muito difícil, eu sou o campo, acho que para minha idade sou realmente bom no campo, mas ser bom no campo não tem nada a ver com ser bom em dar um gato no campo, em produzir poesia, amor, humanidade – eu poderia ser o cara do campo, do sistema. Como eu vou dar um gato no meu conhecimento do campo, na minha inteligência, para poder dar o gato no próprio campo? Em ser ARTISTA. Sinto que essa é a questão chave da minha vida: como deixar de ser um soldado da SS que conhece bem o campo, para ser um rato, um judeu que conhece os buracos? Mas não negar a porra do soldado, me transformar em um judeu soldado, uma terceira coisa, que na verdade não tenho a menor ideia do que seja, talvez seja mais próximo de uma Calopsita do que qualquer coisa que eu possa imaginar, pois eu olho o outro com os olhos de um soldado.

 
 
 
 
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