Relatórios

Encontros de filosofia para mulheres

2020

Questões apresentadas no Encontro de Filosofia para Mulheres

1o encontro

18 de agosto 2020

Anna Israel

 

Participantes:

Adriana Scott, America Cavallieri, Camila Guarita, Catharina Johanpetter, Fernanda Carvalho, Gabriela Schnaider, Gabriella

Paschoal, Helena Araujo, Lorella Coselli, Marina Bertoldi, Marcella Coselli, Victoria Barros

1. Nomes citados em aula:

a. Alfred Gell – antropólogo britânico

b. Arthur Danto – crítico de arte – escreveu o livro Após o Fim da Arte – muito bom

c. Aby Warburg – historiador de arte – pensou uma história da arte não cronológica – livro sobre ele A Imagem Sobrevivente, escrito pelo Didi Hubermann

d. John Dewey – filósofo e pedagogo americano – citações do livro Arte e Experiência enviadas na apostila – filosofia pragmática: para ele o pensamento filosófico tinha que estar atrelado à coisas práticas, praticáveis, e não ser somente divagações abstratas. Quis trazer a

filosofia para o mundo real

e. Jimmie Durham – artista americano

f. Lucy Lippard – crítica de arte e ativista americana – ler sua entrevista para a Folha de São Paulo https://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2020/01/museus-naoatendem-demandas-de-artistas-ha-50-anos-diz-ativista.shtml

g. Clement Greenberg – crítico americano formalista – foi muito importante na época do Expressionismo Abstrato (Pollock, Rothko, de

Kooning, Ad Rheinhardt, Clifford Still). Tinha uma visão bastante dogmática e fechada do que ele pensava ser arte.

 

2. LAND ART – principais artistas

a. Robert Smithson

b. Walter de Maria

c. Richard Long

d. Carl Andre

e. Michael Heizer

f. Robert Morris

g. (ver também: Christo & Jeanne Claude // James Turrell)

3. A experiência estética não faz parte mais do nosso cotidiano – ela foi reduzida a eventos culturais pontuais e há uma ideia de que só temos experiências estéticas em museus ou galerias ou instituições de arte hoje em dia

4. Calor – como gerar calor?

5. Rituais religiosos

 

6. Rituais

 

7. Rituais judaicos – tradição – sociedade – invenção de rituais no nosso cotidiano que estejam atrelados à nossa realidade, à visão de mundo que queremos construir –– para que a nossa fala, ou o que a gente diz acreditar, esteja cindido do que de fato fazemos, do que de fato somos.

 

8. Sentido – gerar sentido nas pequenas coisas

 

9. Capacidade, por exemplo, do funk em gerar calor, em movimentar um grupo

 

10. Reflexão: pensar uma pessoa com o poder de articulação e calor da Anitta mas que fosse profunda, mas que tivesse uma ambição espiritual? Nosso país poderia ser outro – poderíamos seriamente estar construindo uma tradição séria de algo de fato relevante, de algo que de fato poderia ter uma relevância histórica

 

11. Responsabilidade que a nossa elite tem em criar alguma coisa diferente do que já existe. Construir algo novo: e não somente continuar o que já foi feito

 

12. Desautorização do brasileiro? O que mesmo acontece? Por que “pagamos tanto pau” para o gringo? Para os EUA? Para a Europa? Síndrome do colonizado? O que é mesmo descobrir o que é ser brasileiro? O que é mesmo ser “eu”, e não ser constantemente influenciado por um sistema já pronto de ação, de decisões? O que eu penso mesmo? O que de fato pertence à mim?

 

13. Discurso – a importância e urgência de se construir um discurso, mesmo que seja para defender o próprio “gosto”, isto é, uma coisa que aparenta ser impossível de ser defendida. Talvez defender o gosto seja um modo de começar a se articular para fora de si mesmo, talvez defender o gosto seja um modo de falar para o outro quem cada um de nós somos mesmo – seja uma forma de expressão, ainda que pareça insuficiente.

 

14. A poesia, o objeto de arte é a manobra impossível de colocar em um espaço limitado algo que não se deixa ser reduzido.

 

15. Recursos – ferramentas para se defender algo.

16. Ter um discurso que não seja fechado, que não seja binário – gosto ou desgosto, ruim ou bom, feito ou bonito; não se trata disso, mas de conseguir enxergar mesmo o que está sendo feito e ter uma fala sobre algo, articular um pensamento sobre algo.

 

17. Tentar desenvolver uma postura não pré-conceituosa com as coisas: isto é, enxerga-las e ser capaz de analisá-las, para além do gosto.

 

18. Ninguém nunca nos ensinou a ter uma fala – a tirar as coisas da cabeça, e tentar dizê-las, mesmo que de forma torta.

 

19. Fazer perguntas – perguntas são essenciais! Mesmo que perguntas “bobas”. Investigar é muito importante. Desconfiar do que pensamos ter entendido, ou do que pensamos saber é um grande passo.

 

20. Modelo obsoleto de ensino das universidades, do espectador e do professor. Onde o professor fala e o aluno ouve. O méthodo pedagógico RES, do qual faço parte, propõe um outro tipo de abordagem pedagógica, de inclusão, de implicação, não de espectador, mas de integrante de algo

 

21. NOME PRÓPRIO – o problema do nome próprio, tanto em arte, quanto nas nossas próprias vidas. Acabamos criando um modelo do que são as coisas, criamos um projeto (uma projeção) do que é arte, do que é o outro, do que somos, acabamos seguindo um script do que pensamos ser correto – mas o corpo vaza, nós vazamos, e isso pode as vezes acabar sendo muito perigoso.

Estar aberto para poder se reinventar, isto é, descobrir novas formas de ser eu, se envolver com pessoas que não fazem parte do que acredito “ser eu”, para por exemplo, descobrir novas camadas de mim, ir para lugares que penso talvez me sentir desconfortável, para descobrir como eu me saio, ouvir musicas que não estou acostumada a ouvir, ver filmes que acho que não vou entender, enfim, são tantas as coisas que podemos fazer para tentar descobrir mais do que somos –– ainda que seja difícil, obviamente será difícil, mas penso

que são manobras profundas de cura. Frase de Goethe: “O artista trabalha metodicamente contra a arte”.

 

22. Vida que levamos hoje está voltada somente para o útil – para o “lucro”, para o resultado, perdemos muito a ideia de experiência, de ritual, de prazer e encantamento com o processo. Estamos viciados no conceito de “certo e errado”, e isso mina a possibilidade de simplesmente vivermos o processo, e ao mergulhar no processo, descobrir coisas novas, saídas diferentes, caminhos inusitados.

 

23. Problema do uso do termo NAIF para designar uma “arte popular”, ou talvez, uma arte que não tenha vínculo direto com uma narrativa ocidental, que não tenha um vínculo com a tradição. Naïf significa “ingênuo” em francês. Ao denominar algo diferente de nós de “naïf”, de ingênuo, estamos assumindo uma postura arrogante de julgar o diferente de inferior, o que não temos acesso, é inferior a nós. Quem disse que a nossa forma de cognição é a única? Quem disse que não existem outras formas de inteligências? Quem disse que o ser humano se define e resume pela sua capacidade intelectual? Existem muitas outras formas de apreender e experienciar a realidade, assim como existem muitas outras dizer, através de displays diferentes dos que já conhecemos.

 

Relatório do 2º Encontro de Filosofia para Mulheres

25 de agosto de 2020

Anna Israel

 

Participantes: Adriana Scott, America Cavallieri, Camila Guarita, Catharina Johanpetter, Fernanda Carvalho, Gabriela Schattan, Gabriella Paschoal, Helena Araujo, Lorella Coselli, Marina Bertoldi, Marcella Coselli, Victoria Barros Realizado por Adriana Scott e Lorella Coselli

 

1. NOMES, LIVROS E PENSAMENTOS APONTADOS NO ENCONTRO

 

a. Goethe (1749 – 1832) – escritor, filósofo e cientista – foi mencionada a frase “O artista trabalha metodicamente contra a arte”, partindo dessa frase podemos pensar na importância de o artista não ir em busca de algo que já existe e sim buscar o desconhecido.

 

b. Jonh Dewey (1859 - 1952) – filósofo e pedagogo americano – um dos seus livros “Arte e Experiência” prega que o pensamento filosófico tem que estar atrelado a coisas praticas, praticáveis e não ser somente divagações abstratas. Eu me questiono como poderíamos conduzir nossa vida de maneira mais poética, como conseguimos sair do automático e transformar os nossos atos em um fazer repleto de paixão, calor, pensamento e envolvimento. Penso que se mantermos a mente num estado de atenção plena presente nos atos, nos apropriando do que trabalha a filosofia oriental com a pratica da Meditação, talvez conseguimos prestar atenção aos nossos sentimentos, sensações corporais, pensamentos e dessa forma ir ao encontro de um autoconhecimento que poderia nos ajudar na expressão do nosso eu.

 

c. Sócrates (469 a.C. – 399 a.C) - filósofo – criou o método chamado Maiêutica, através do qual ele procura dentro do Homem a verdade. Através de questões simples, inseridas dentro de um contexto determinado, a Maiêutica dá à luz um conhecimento que já existe dentro de cada um. É famosa sua frase “Conhece-te a ti mesmo”. Penso que esse método deveria ser disciplina no ensino escolar, teria algo mais importante do que nos conhecermos intimamente? Teria algo mais importante do que aprendermos a pensar? Infelizmente no momento e nesse mundo cruel teria sim, o interesse das instituições.

 

d. Louise Bourgeois (1911-2010) – artista plástica - conhecida por introduzir na arte um assunto que até então não era tematizado de forma tão direta, um conteúdo altamente pessoal envolvendo o desejo inconsciente, sexual e do corpo. Sexualidade como propulsora da relação da família e das pessoas que se gostam. Desejo como algo que todos nos temos e as vezes não temos consciência, e muitas vezes nos leva a fazer escolhas que depois não conseguimos lidar. Louise foi citada durante o encontro por ser um exemplo de artista que consegue apresentar suas dores através das suas obras com uma linguagem universal que dialoga com todos nos. Foi discutido a importância do artista ter essa linguagem universal, a importância do “ser artista”, ou seja, um posicionamento diante da vida. E como as obras passam a ser um registro da construção de toda a sua expressão artística. Por que não fazemos o mesmo, por que não somos artistas, por que não conseguimos expressar o nosso intimo?

 

e. Pablo Picasso (1881 – 1973) - pintor espanhol, escultor, ceramista, cenógrafo, poeta e dramaturgo – foi mencionado uma frase dita por ele “Quando eu tinha 15 anos sabia desenhar como Rafael, mas precisei uma vida inteira para aprender a desenhar como as crianças", pensando nessa sentença, trago outra para refletirmos "Todas as criaturas nascem artistas. A dificuldade é continuar artista enquanto se cresce". Eu acredito que quando criança estamos mais conectados com o nosso íntimo, com o nosso eu, com a nossa essência e dessa forma somos artistas, mas ao crescermos nos é imposto a necessidade de escondê-lo na região mais profunda do nosso ser. Por que não podemos manter essa criança viva dentro de nós?

 

f. Clarice Lispector(1920 – 1977) - escritora – foi indicado a leitura do seu livro “A Paixão segundo G.H.”. Durante o encontro buscou-se analisar o conto “Mineirinho” do livro “Todos os contos” da autora (breve relato abaixo no item

 

2). Clarice foi uma escritora que buscava o questionamento do ser, o intimismo, o peso existencial. Ela mergulha profundamente em si e consegue através das suas dores dialogar com o leitor, deslocando o olhar para uma visão sensível e intima da existência. Para mim, ler os textos dela é como uma terapia de reconhecimento e autoconhecimento.

 

a. Sergio Buarque de Holanda (1902 – 1982) – sociólogo e historiador. Foi mencionado o termo “Homem cordial”. Tal citação remete ao livro “Raízes do Brasil” que tem um capitulo intitulado “Homem Cordial”, no qual o autor defende a tese de que seria o brasileiro um ser que age de maneira emotiva, não racional. Eu concordo que somos um povo emotivo, o que acredito ser bom, mas precisamos ter um discurso mais claro, mais direto e mais relacionado com o nosso eu.

 

b. Nietzsche (1844 – 1900) – filósofo – citação de: “Amor fati“ - uma expressão latina que significa 'amor ao destino', 'amor ao fado'. No estoicismo e na filosofia de Nietzsche significa ou trata-se de aceitação integral da vida e do destino humano mesmo em seus aspectos mais cruéis e dolorosos. Esse termo foi usado para discorrermos sobre a importância do nosso amor ao nosso destino. Tem algo dentro da gente que só nos mesmos podemos saber, uma pulsação de vida (o grão da vida). Depende somente de nos mesmos irmos em direção a isso, rompendo com tudo que a vida diz que devemos ser. Eu acredito que a chave seja conseguirmos responder a questão: “Quem sou eu?”

 

c. Agnes Martin (1912 – 2004) – artista plástica – o nome dela surgiu como exemplo de uma pessoa que teve uma infância e uma vida adulta que foi moldando-a. Pioneira do movimento abstrato americano conhecido como minimalismo. Sua infância foi caracterizada por uma imensa solidão, ainda criança perdeu o pai e teve uma relação difícil com a mãe que era emocionalmente distante dela. Sua família mudou-se de cidade varias vezes ao longo da sua vida. Estudou em varias instituições. Diagnosticada com esquizofrenia aos 40 anos, passou por tratamentos de eletrochoques e se afastou por 5 anos do convívio social, possivelmente para se tratar, ao retornar, decide ter uma vida austera e sozinha durante a maior parte da produção dos seus trabalhos artísticos.

 

d. Orides Fontela (1940 - 1998) – poeta brasileira de tendência contemporânea - citação do poema abaixo que remete ao momento que foi discutido sobre a importância do erro. Por que é tão assustador a possibilidade de errarmos? O erro pode ser uma pista para outro caminho, para uma reconstrução. Como vou me reconhecer se não for me arriscando e errando, e assim encontrando a possibilidade de me reconstruir e me fortalecer. Precisamos articular nosso cotidiano de uma forma mais vulnerável, deixar que os acontecimentos nos toque, nos sensibilize. Foi sugerido algumas pequenas ações para implantarmos no nosso dia a dia como forma de estar aberto para nos reinventarmos e, bem como, descobrirmos novas formas de ser e de se relacionar: assistir filmes ou ler livros que pensamos não termos capacidade para entendimento; ouvir musicas que não ouviríamos; ir a lugares que não iríamos. Como dito no primeiro encontro, obviamente será difícil, mas talvez possam ser manobras profundas de autoconhecimento e cura.

 

Errância

 

Só porque

erro

encontro

o que não se

procura

 

só porque

erro

invento

o labirinto

 

a busca

a coisa

a causa da

procura

 

só porque

erro

acerto: me

construo.

 

Margem de

erro: margem

de liberdade.

 

e. Dostoiévski (1821 – 1881) – escritor, filosofo e jornalista – o livro “Crime e Castigo” dialoga com as obras de Clarice Lispector.

 

f. Ray Dalio (1949 - ) - gerente de fundos de hedge e filantropo - foi mencionado um de seus livros: “Princípios” para exemplificar o fato de que não e só um artista que pode propor algo novo. Dalio, depois de cometer um dos maiores erros de sua vida, propôs um novo modo de abordar a profissão dos investidores e tornou-se uma lenda na gestão de hedge funds.

 

g. Giorgio Agamben (1942 - ) – filósofo e escritor – citação de um livro dele intitulado “O que resta de Auschwitz” como referencia a constatação de como a fala se assemelha a um campo de concentração. A língua nos aprisiona.

 

2. CONVERSA SOBRE O CONTO “MINEIRINHO” DE CLARICE LISPECTOR

 

Durante o encontro conversamos sobre as possibilidades de interpretações do conto de Clarice Lispector e as articulações de pensamentos em associação com questões da nossa realidade.

 

Iniciamos lendo o seguinte trecho do conto:

 

“...Para que minha casa funcione, exijo de mim como primeiro dever que eu seja sonsa, que eu não exerça a minha revolta e o meu amor, guardados. Se eu não for sonsa, minha casa estremece. Eu devo ter esquecido que embaixo da casa está o terreno, o chão onde nova casa poderia ser erguida. Enquanto isso dormimos e falsamente nos salvamos. ...”

 

E, após a leitura, conversamos sobre o tanto que nos escondemos de nós mesmos. Eu acredito que a palavra “sonsa”, desse trecho do conto, poderia ser uma metáfora para as máscaras que habitualmente usamos, e aqui não me refiro as máscaras que usamos para os outros, mas também aquelas que usamos para nós mesmo. Estamos sempre nas aparências, sempre com medo que a nossa casa estremeça. Que medo seria esse? Seria o medo de descobrir e reconhecer algo em nós que não aceitamos? Precisamos repensar essa busca pela aceitação do si mesmo, como uma necessidade de atender ao eu mesmo. Estamos sempre fazendo concessões para que “a nossa casa não estremeça”. Estamos sempre atendendo a demanda de um aparente não-eu, procurando escapar da nossa verdade íntima. Precisamos enxergar o que esta dentro de nós, a nossa pulsação de vida, aquilo que somente nos mesmos sabemos, o nosso grão da vida. Precisamos ter coragem de assumir, amar e ir em direção ao nosso grão da vida, ao nosso destino como diz a expressão Amor-fati, citado por Nietzsche.

 

Na sequência, lemos o seguinte trecho:

 

“...Até que treze tiros nos acordam, e com horror digo tarde demais – vinte e oito anos depois que Mineirinho nasceu – que ao homem acuado, que a esse não nos matem. Porque sei que ele é o meu erro. E de uma vida inteira, por Deus, o que se salva as vezes é apenas o erro, e eu sei que não nos salvaremos enquanto nosso erro não nos for precioso. Meu erro é o meu espelho, onde vejo o que em silencio eu fiz de um homem. ...”

 

O que seriam os 13 tiros, por que a necessidade de tantos tiros, um só não seria suficiente? Me pergunto o que se passava com esse policial que precisou dar 13 tiros? Trazendo para a nossa vida, seria isso uma metáfora do nosso desajuste com o nosso íntimo? Sabotamos tanto o que esta dentro de nós, acumulamos tantos nãos, nos omitimos diante de tantas coisas que de repente precisamos de 13 tiros para extravasar, para sair do script que criamos para nós.

 

Provavelmente estamos imbuídos daquele medo já dito de não nos posicionarmos quando necessário por medo da não aceitação de si mesmo, e assim vamos acumulando concessões ate o momento que precisamos extravasar. O que precisamos fazer para que isso não ocorra? O que eu preciso fazer?

Outro trecho que despertou nosso interesse:

 

“...Sua violência inocente – não nas consequências, mas em si inocente como a de um filho de quem o pai não tomou conta. Tudo o que nele foi violência é em nos furtivo, e um evita o olhar do outro para não corrermos o risco de nos entendermos. ...”

 

O que coloca um ser humano nessa posição de violência? Eu acho que temos responsabilidade por ele se encontrar nessa posição, somos omissos diante de tudo que acreditamos estar ou ser errado, somos omissos diante da força que aniquila o ser humano e por vezes o joga nessa necessidade de transgredir.

 

No trecho abaixo temos o uso da expressão “grão da vida”:

 

“...Quero uma justiça que tivesse dado chance a uma coisa pura e cheia de desamparo em Mineirinho – essa coisa que move montanhas e é a mesma que o fez gostar “feito doido” de uma mulher, e a mesma que o levou a passar por porta tão estreita que dilacera a nudez; é uma coisa que em nos é tão intensa e límpida como uma grama perigosa de radium, essa coisa é um grão da vida que se for pisado se transforma em algo ameaçador – em amor pisado; essa coisa, que em Mineirinho se tornou punhal...”

 

Discutimos anteriormente a necessidade de ir em busca de uma potência dentro de nós, que somente nós conhecemos, o nosso grão da vida. Uma potência que nos mantêm vivo, nos movimenta em direção aos nossos anseios. O que acontece quando tentamos domesticar essa potência? Continuamos “sonsa”? E o que acontece quando essa potência é pisada, aniquilada, impossibilitada? Seria nesse momento que a violência aparece? Pareceme que quando essa potência vai sendo aniquilada existe uma necessidade inerente de procurar extravasar esse acúmulo, de transgredir. Quando penso no caso do Mineirinho, penso que ele extravasou para a violência, e no caso do policial, ele extravasou nos 13 tiros. Acredito que a trajetória da artista Agnes Martins, que passou por situações que moldaram toda a sua vida adulta, seria um exemplo de alguém que canalizou o acúmulo da sua potencia para algo positivo, no caso sua obra artística.

E por último, o trecho:

 

“...O que eu quero é muito mais áspero e mais difícil: quero o terreno.”

 

Penso que o terreno, aquele que é continuamente sólido, independentemente dos tremores e do colapso último da casa, esse mesmo terreno é o que nos faz capazes de ver como tudo se constitui. Aqui somos capazes de enxergar e dizer a verdade. Um local que não temos medo de errar, pois ele permite a reconstrução e a liberdade como dito tão claramente no poema “Errância” de Orides Fontela.

 

Nesse momento de identificação com o conto, percebo que, assim como Louise Bourgeois apresenta suas dores através da sua obra e por meio de uma linguagem universal dialoga com todos nós, Clarice Lispector faz o mesmo nesse conto, nos levando ao nosso mais profundo íntimo. Imagino que a arte beba dessa mesma verdade. Dificilmente teríamos arte, caso continuássemos “sonsas”.

 

Relatório 3ª aula - Encontros de Filosofia para mulheres​ de Anna Israel

por  America Cavalieri

  • Jacques Lacan (1901-1981) 

Psicanalista francês traduziu e fez inferências nos textos de Freud

Lacan apresentou a idéia dos registros essenciais da realidade humana: o simbólico, o imaginário e o real. 

 

  • Ferdinand de Saussure (1857-1913) e Charles Sanders Pierce (1839-1914) Filósofos que pesquisaram o campo da linguística e da semiótica:

Sem a linguagem, o pensamento é uma nebulosa vaga, inexplorada

 

  • A análise Lacaniana leva muito em consideração a PALAVRA: 

“ O Inconsciente se articula através de uma LINGUAGEM’’ (Lacan) 

 

  • Temos uma projeção de nós mesmos através da linguagem 

 

  • Linguística = Significado (a idéia) + Significante (a forma, o “corpo” que se vê ou se ouve da palavra)

 

  • Lacan era fascinado pela PALAVRA 

 

  • “A MULHER NÃO EXISTE”: Pensamento expressado por Lacan que foi tema central da nossa 3ª aula.  

 

  • homem possui um objeto simbólico através do qual ele se identifica: o falo

O mundo ao nosso redor é repleto de referências à esse símbolo da força e da existência masculina, os obeliscos, edifícios, torres, etc... O britânico Hargrave Jennings fez uma extensa pesquisa sobre essa questão (livro: Phallic objects, Monuments and Remains de 1989) 

Somos cercados por exemplares fálicos da arquitetura com construções que brotam na paisagem. Um exemplo de arquitetura que podemos enxergar como feminina é o projeto de Tadao Ando para Naoshima no Japão no qual a construção foi feita por dentro de uma colina. 

 

  • Podemos relacionar a mulher ao elemento que todas carregam consigo durante todas suas vidas: a BOLSA. A bolsa que abriga em seu interno o que lhes é relevante. 

A mulher faz uso dos adereços para substituir a falta do objeto falo. 

 

  • A mulher constrói uma narrativa interna muito poderosa. Essas elocubrações são de algum modo uma resposta para algo. Vivem nesse mundo que criam internamente assim como criam a VIDA. 

 

  • Bruxas: julgadas por terem mergulhado no universo do feminino 

 

  • Para Lacan, por se identificar com o falo, o homem não tem a mesma necessidade de CRIAR. 

 

  • Grandes artistas: não são aqueles que encontram respostas, mas sim os que sustentam PERGUNTAS. Em geral esses são homens silenciosos como Cezanne e Giacometti que viviam e exploravam esse rico universo interior Na sociedade espera-se do homem o TER UMA RESPOSTA, o PROVER, PRODUZIR, a eles não é dado o privilégio da leveza do universo das elocubrações. 

 

 

  • EXPLICAR                x         INVESTIGAR 

(dever satisfação ao outro)     (devaneio, buscar, entrar em contato) 

 

 

  • A riqueza do vazio (espaço de investigação, de levar o que nos é precioso) -> O Ócio Criativo, Domenico de Masi. 

 

  • Georges Bataille (1987-1962) 

Filósofo francês, que pesquisou a importância do inútil e o limite do útil

 

 

  • Conclusão da 3ª aula: 

“Não é que a mulher não existe, temos que inventar o ser mulher”

“Será que não temos que descobrir o que é o ser mulher ao invés de nos compararmos aos homens?” 

 
 

Relatório 5ª aula - Encontro de Filosofia para Mulheres

15 de Setembro 2020

Lorella Coselli

—o amarelo invade meus olhos—

 

Amarelo é sol, que é a luz que cancela a escuridão da noite. A reflexão de Rubens Espírito Santo pode ser noturna, mas é o dia que traz o entendimento necessário.
Uma vez, uma chefe minha me aconselhou a nunca tomar uma decisão a noite. A noite é preta, ou algumas vezes azul marinho, tem suas próprias ciladas, as sombras confundem, objetos parecem ser algo que não são. Quando criança, deitada na cama já com as luzes apagadas, abria os olhos no quarto e passava horas enxergando coisas inexistentes. Com o clarear da manhã, esses monstros sumiam e o breu era substituído por um amarelo claro, quase branco.

claro, fácil, aurora, brilho, clarão, clareza, dia, luminescência, luminosidade, luz, resplandecência, resplender, sol

Lorella significa pequeno bosque de loureiros.  

Relatório 5ª aula - Encontro de Filosofia para Mulheres

15 de Setembro 2020

Fernanda Carvalho

Abrir este compartimento que me dá paixão?

(também nas funções do trabalho)

 

Como um divisor de águas - de tudo que envolve minha vida.

(Arrombar esta porta da vaidade e carência)

 

(Por exemplo, relação Anna com ateliê do Centro e pedagogia para abrir esta porta).

 

Tentar um pedacinho de transformação

 

Para não se contentar com tão pouco discutir questões de como os outros nos vêem - escutar elogios - palavras generalizadas e a zona de conforto.

O quanto você consegue dizer algo para alguém, se colocando

Um lugar de agressividade e situações de risco que também tem relação com o amor

 

Não confundir silencio com omissão. Não confundir fala com histeria.

- Antropólogo, Alfred Gell - O que estamos fazendo e o que está sendo feito enquanto estamos fazendo alguma coisa - trabalho que diz respeito a arte, linguagem, simbolismo e ritual.

 

A arte relacionada com um “calor”, sistema de ação que pretende mudar as coisas e não codificar. O artista que faz um foco, que encaminha as coisas/indivíduos para um lugar mais profundo deles mesmos.

 

A melhor forma de ajudar ao outro é ajudar a sim mesmo!

(Com ações espontâneas)

 

Joseph Beuys, “Todo homem é um artista”.

 

A capacidade de transformação, de alto reflexão e agenciamento das coisas do mundo a partir da arte e sua excelência.

 

A percepção do micro, das essências que criam um ser humano…

 

A criatividade e a capacidade de dizer algo engajado, integração e integridade

Arte X Ação X Movimento revolucionário

Diálogo entre Anna Israel e Manu Gaden

Escritos de domingo:

Sobre O N que escapou no Dona Anna do último texto

Manu Gaden

6 de outubro de 2019

Fiquei com vontade de analisar meu lapso ao escrever no último relatório a seguinte frase: “Dona Anna (com dois “n”)é a faxineira que limpa a minha casa” e somente ter acrescentado este “n”uma vez, sendo que reli e revisei o texto várias vezes, depois o nome D Ana aparece com um “n”só.

Existem várias annas na minha vida hoje : a dona ana que limpa a minha casa, a D. Ana Viotti que havia relutado muito a dizer, a Dona Anna Israel o que estava a coçar a sua garganta na aula do méthodo do dia anterior, a D. Anna Israel, símbolo de poder que caga de medo dele, a Anna minha aluna de francês, a Ana Mohallem, minha vizinha.

É interessante este lapso: D anna é a faxineira que limpa a minha casa. Quero deixar claro que não estou falando da Anna real aqui, senão da “D Anna” que existe como um símbolo na minha cabeça, penso que está tudo aí: em algum lugar simbólico a figura da Dona Anna me serve para limpar a minha casa pois D. Anna é uma figura que me exige excelência, assim sou forçada a limpar a minha “casa” de qualquer jeito para me relacionar com D Anna. Isso se reflete também na relação com D Ana minha faxineira. Por eu ter olhado e cuidado de minha casa, D Ana imediatamente se sentiu impelida a dar-se mais dignidade, e também quis comungar algo comigo, sentar- se à mesa de alguém também significa aceitar partilhar algo.

O que penso ser mais fascinante no último texto que escrevi: ”tornar-se mulher”, é esse “n” que apareceu sem pedir licença e que era o que eu estava procurando ao escrever o texto. 

Este “n” é o que me dá motivação para fazer esse outro texto agora, porque não sei bem dele, exatamente porque ele me escapou completamente e me foi apontado pelos olhos observadores do mestre. Este “n” diz muito sobre mim. Sobre questões muito sérias de apropriação de minha origem...

Ou nem sei se é isso, na verdade este “n” é um puta jeito de inventar algo novo. O N da questão. N de navio, de Navegar, de Navegante, também é a última letra do meu nome: GadeN, faltaria mais só mais um cabinho para ser M de mulher. O N é mais fálico, desenha-se mais como um raio, é um Z virado, é uma letra iNcompleta, algo que pede logo uma próxima coisa. 

Uma vez iNveNtei um persoNagem que tinha as iNiciais: WN, era o persoNagem priNcipal de um coNto erótico. Meu aNalista da época chegou a me perguNtar o porque desta escolha? Por que WN? Nunca soube responder, e eis que ele me aparece novamente para cutucar minha angústia, miNha leNtidão ao recoNhecer meu lapso, miNha risada imediata ao perceber a coNfusão, a Necessidade de responder imediatamente a coNsideração do mestre. 

N também de Não, Não à ordem estabelecida, meu primeiro grande Não quando aos 4 aNos de idade recusei-me, com todas as forças que meu pequeno corpo podia suportar, a fazer o exame médico sem sentido que a escola pedia.

Tudo isso é muito bonito, ficar pensando sobre a estética da letra N, este N imprevisto me forçou também a pensar sobre o existência dessas D Anas na minha vida. Nunca havia parado para pensar, e gostaria de em vez de ficar circuNdaNdo em volta da letra chegar na letra mesmo, subir o primeiro cabinho I íngreme, escorregar pelo segundo cabo: subir por fim no último para olhar a vista.... 

Gostaria de entender precisamente a fala do mestre, o que ficou tão claro para ele através deste lapso? Que “ouro” efetivamente entreguei com este N que passou por debaixo da terra do texto e está aqui iNquieto e iNsisteNte!

Dona Anna e Dona Ana, uma faxineira, outra filha do banqueiro, o que elas realmente representam dentro de mim, essas anas? Sem contar a Ana Viotti e a Ana Mohallem. Todas mulheres, em busca de inventar um sentido novo para essa palavra, todas são de certa maneira um N, um esboço, um início de fala, todas sempre lutando para AUTORIZAR - SE mesmo que de forma inconsciente muitas vezes. O N é amoral, não tem certo Nem errado, a orientação do mestre no dia da aula do méthodo: arrumar briga, não de maneira pessoal, porém sim de maneira gratuita. Aos poucos vamos entendendo que nunca é gratuita. Sempre ao arrumar a briga, mesmo que de maneira sintomática estou procurando desenmaranhar um nó, (temos muito medo de arrumar briga de verdade, sarna para se coçar) mas sempre quando se arruma briga se descobre algo novo, e existe um preço a se pagar. 

Gostaria de pensar sobre um ocorrido que pode ter contribuído para cometer este lapso no texto:

Durante a aula após inúmeras provocações do mestre a Ana Viotti disse a Anna I que ela não aguentava mais trabalhar para ela, que ela era muito dondoca e a Anna Israel também foi provocada pelo mestre para se pronunciar, se defender, humilhá-la. Anna Israel tem muito medo de exercer o poder do qual é símbolo, e parece mesmo que o mestre está pedindo para exercê-lo de maneira literal, porque ao menos aí o medo pode ser gasto, e ao menos aí está dando um oportunidade para Viotti autorizar-se a um ato de resistência. E penso que para Anna Israel também seria o caso, pois após inúmeras vezes exercendo o poder desta forma “gratuita” ela descubra outra forma na própria forma de se relacionar com Viotti?

Voltando a minha frase, talvez as Annas foram realmente faxineiras nesta aula pois me apontaram o medo que sentimos.Das duas partes eu vi medo, da minha parte vejo medo também, ao escrever esse texto.

Me parece que estou cutucando a onça com a vara curta, me parece que estou querendo me aproximar do embróglio da família Magalhães Vieira, mas também do pais sulamericano Brasil. Talvez aí o N aponte a direção, o que está por trás deste medo é o nosso complexo de inferioridade, nossa excessiva cordialidade primeiramente com nós mesmos e depois com o outro.

Penso na Ana Viotti, a ninja, a que gosto de chamar assim pela agilidade que possui nas sessões de sexta, e na Ana Viotti incapaz de falar na aula do méthodo, ou melhor, a sua perversidade em se calar, 

em não conseguir dizer “não” para ela mesma. Ou a fala maravilhosa da Ana Mohallem no final da aula, uma fala do corpo, não me recordo do conteúdo mas me recordo o gesto de se abrir ao desconhecido de si ....e me dou conta que parece mesmo que é sempre pelo erro, pelo avesso, pelo que estremece que podemos chegar a outra coisa, foi somente através do lapso do N que pude escrever até aqui...

(Continua no próximo texto...)

Resposta de Anna ao texto da Manu sobre seu lapso

07 de outubro de 2019

Querida Manu, 

Acabei de ler seu texto - e como você me perguntou hoje mais cedo o que tinha pensado (e na falta de comunicação por eu ter me referindo a outro texto pois não havia recebido esse - já que você “curiosamente” tirou um N do meu nome ao me inserir no e-mail, automaticamente me tirando do e-mail, automaticamente impossibilitando a aNNa de receber o seu texto), agora que li seu texto gostaria de ser franca com você sobre o que pensei - nós duas merecemos isso:

Acho seu texto muito bonito Manu, mas acho que ele está falando de qualquer coisa, menos do lapso.

Muito honestamente acho que esse texto é uma tentativa “muito inteligente” da sua parte de fugir da questão - questão essa que eu sei que você sabe, e sei de verdade que você também sabe que está fugindo dela. Acho um texto obviamente bem escrito e que mostra claramente uma vontade de sua parte de investigar algo, mas acho que você está criando algo artificial para investigar para não ter que realmente se sujar na investigação, para não ter que realmente investigar algo físico, real, concreto, material que te toca nos lugares que você não deseja. 

Acho que seu texto é uma tentativa de você falar do que você gosta - e não uma tentativa de você falar do que não gosta. Nesse sentido o lapso em si do primeiro texto é maravilhoso pois ele expõe com clareza o que você não gosta - ele te obriga a falar do que você não quer à sua revelia. Por isso acho, de maneira bem lógica, e bem pouco emocional, que você nesse texto desviou do lapso já que expôs coisas que te interessam, já que você expôs coisas que te seduzem e não coisas que te geram pavor. O lapso ainda é uma obra-prima, ou o “ouro”, como falou RES.

O que me ocorre de maneira brutal em relação ao “ouro”: a única Anna que existe no Atelier (note os dois N’s - a palavra é maravilhosa pois ela é um símbolo, por isso Ana e Anna são duas palavras completamente diferentes para seu inconsciente, apesar do som ser o mesmo. Por isso, acho um engano da sua parte colocar a Ana Mohallem e a Ana Viotti no mesmo saco da Anna - são palavras, ou símbolos, diferentes para o inconsciente - como uma maçã e uma laranja - ambas são redondas mas nem por isso são a mesma coisa). Voltando, a única Anna que existe no Atelier sou eu - isto é, Anna nesse caso também é igual a: filha da puta dondoca filha de banqueiro que tem poder que tem dinheiro que tem isso que tem aquilo que cozinha que escreve que produz vitrine que compra roupa cara que janta no parigi que viaja pra caralho que conhece um bando de gente rica que tem contatos que tem um puta carro que é a discípula mais antiga e a puta que pariu - ou melhor, são os primeiros atributos que alguém usa para projetar algo de mim - pois apesar disso tudo sou também inúmeras outras coisas para mim mesma e ainda sou inúmeras outras coisas que eu mesma desconheço, e ainda não sou nada disso também)

Não me parece à toa que qualquer um queira que essa filha da puta dessa Anna aí fique um pouco de quatro esfregando o chão encardido da sua casa. Eu mesma quando penso sobre essa Anna tenho vontade de matá-la ! Madame do caralho!\E honestamente, sendo bem honesta aqui, talvez seja exatamente isso que eu faça na maioria das vezes que eu me desresponsabilizo em relação ao meu poder. Toda vez que falho ao não ser dura com os outros, toda vez que falho ao não dizer o que penso, na verdade o que estou mesmo fazendo é tentando matar essa Anna filha da puta para que o outro não a veja, nem que seja por um instante, nem que seja como um truque de ilusão - ou um trompe l’oiel, se você preferir. É literalmente isso que eu faço. 

Porque eu mesma não suporto essa filha da puta hostil pra caralho dessa putinha dessa Anna que tem tudo — ela pesa pra caralho em mim, então tento te enganar, fazendo você acreditar que ela não sou eu, só um pouquinho...

E o que decidi deliberadamente fazer aqui é expor a todos essa filha da puta nessa resposta ao seu texto.

Acho romântico da sua parte achar mesmo que seu inconsciente tenha associado a sua faxineira com uma figura que te exige excelência. 

Acho você, Manu, muito mais ousada do que isso. Acho que inclusive a Manu que quer descobrir justamente a Mulher quer isso porque sabe que ela ainda é perversa. Assim como eu, Manu, e grande parte das mulheres, somos do mal, somos nojentas, pequenas, baixas, vivemos de loucuras na nossa cabeça, mas também como você, Manu, eu suplico por redenção nessa vida, eu suplico para que eu possa ser mulher de outro jeito, eu suplico diariamente para que eu possa inventar um novo display ou novo modo de ser mulher, colocar outra coisa no lugar da nossa perversidade, do nosso jogo traiçoeiro.

Por isso, acho que esse texto ainda é um jogo com você mesma - acho o seu lapso, seu ato falho, o N que apareceu na sua faxineira, um suplício da Manu por redenção, acho esse lapso realmente uma obra-prima da mulher que queremos inventar, é um suplício, um pedido de salvação para que deixemos com que nossa sujeira esteja pra fora de nós para que nós mesmas fiquemos de quatro esfregando o nosso próprio chão encardido de uma vez por todas!

Com muito carinho e respeito,

Anna

Resposta a Anna

Continuação do texto sobre o “n” – Escrito número 4

Manu Gaden

4 de novembro de 2019

Obrigada Anna pelo seu último texto, eu o li e reli muitas vezes.Acho que ele responde várias perguntas que me fiz no terceiro que enviei logo após você ter enviado a sua resposta. Obrigada por se sujar e falar de coisas difíceis para nós duas, acho que eu falava disso no último texto sobre a necessidade de criar algum tipo de interlocução para sair de minha cabeça e conseguir enxergar o que realmente importa. Gostaria de pontuar algumas questões que seu texto me fez pensar:

1 Sobre o primeiro texto que escrevi sobre o “n”, acho você severa demais em relação ao que chama de traiçoeiro na mulher, é verdade que existe um ocultamento no meu segundo texto que é uma coisa que se apresenta no funcionamento do sintoma. Eu realmente estou começando algo e usando a escrita para pensar, para desenvolver uma coisa que eu nunca tinha pensado, e só no terceiro, é verdade, começo a conseguir me sujar. Não estou escrevendo esse quarto texto como algo pessoal, gostaria de deixar isso bem claro, se estou escrevendo uma respota a Anna é na medida que você enquanto ser humano está se debruçando sobre questões parecidas com as minhas. Mas o motivo pelo qual estou escrevendo há alguns dias sem parar vai além de eu precisar te falar que em certa instância você me oprime. A prova é que falo e desenvolvo isso no último terceiro texto sobre o “n” que escrevi antes de você enviar esse. Esse não é o único ponto, nem a verdade absoluta do texto que escrevi. Quando começo a escrever sobre o “n” é também porque considero ele como uma coisa, como eu disse amoral, com inúmeras possibilidades inclusive esta de podermos estar pensando juntas sobre o devir mulher, criança, inseto, orquídea, não acho que exista uma única coisa possível de afirmar sobre o meu lapso. 

Também não sei se vale a pena ficarmos afirmando o quanto as mulheres são “traiçoeiras” e “más”, a inquisição chamou as mulheres de bruxas e mandou milhares delas para a fogueira. Não me sinto muito mais traiçoeira do que um homem poderia ser ao não olhar a questão que eu mais precisava olhar, não acho que a mulher precise de mais redenção que o homem, ela esteve apenas numa posição diferente da dele no decorrer da humanidade e é isso que está mudando no nosso tempo: temos a chance de ser mais matéricas com a nossa criatividade! Na verdade desde o primeiro texto, antes de pensar sobre uma questão de gênero, estou mais interessada nesse devir que pode existir no humano, por isso o “n” me interessa tanto, é uma letra sem gênero e sem moral!

2 Há uma imprecisão na compreensão do meu texto quando você fala no seu texto que eu sou romântica ao pensar que “a D Ana minha faxineira é uma figura de excelência”. Não é isso que escrevi, estou falando da sua figura, enquanto símbolo de poder me exige que eu seja melhor. Veja a frase: 

Quero deixar claro que não estou falando da Anna real aqui, senão da “D Anna” que existe como um símbolo na minha cabeça, penso que está tudo aí: em algum lugar simbólico a figura da Dona Anna me serve para limpar a minha casa pois D. Anna é uma figura que me exige excelência, assim sou forçada a limpar a minha “casa” de qualquer jeito para me relacionar com D Anna. Isso se reflete também na relação com D Ana minha faxineira.

Dona Anna ( com dois “n”) é você enquanto símbolo, este foi o modo que encontrei para falar sobre o que a Anna representa enquanto um símbolo pelo lugar que ocupa, por isso uso o recurso “ Dona” Anna”, fazendo um jogo de palavras com o “Dona” da outra ana, mas não estava falando da faxineira neste parágrafo!

3 Voltando a questão da mulher “traiçoeira” que aparece no seu texto e me interessa pensar, muitas mulheres em outros tempos foram queimadas por serem julgadas na categoria “bruxas” ou seja: traiçoeiras, mentirosas entre outras acusações. Entre elas Joana D’ Arc.

Penso que o que chamaram de “ ser bruxa” para uma mulher naquela época é o que Deleuze chama de um devir revolucionário. Ou seja alguém que encontrou brechas, furou os orgãos para deixar o ar passar por ele e suportou este sistema. Ser bruxa na idade média significava sair de um determinado tipo de padrão imposto.

O lapso do N no meu texto, possibilitou uma brecha de ar na escrita, um tesão absurdo em escrever por 3 textos seguidos em muitos poucos dias, mal sei eu como arrumei tempo para escrever tanto, escrever sobre o N está significando me apropriar de um discurso.

 

Continuação do diálogo entre Anna e Manu

Depois do texto 4 da Manu

20 de novembro de 2019

 

Querida Manu,

No exercício de não ser omissa em relação às coisas e de tirar as coisas da cabeça, exponho aqui algumas observações bem pontuais sobre seu texto e sobre a minha posição em relação a mulher - para que não haja equívoco e para que possamos em algum momento adentrar mesmo um diálogo. Ou seja, para que possamos de fato dialogar, é antes necessário ter as coisas claras, as opiniões claras entre nós.

1 Eu não tenho interesse nenhum em tratar da mulher em relação ao homem, e sim em relação a ela mesma. Não tenho interesse nessa luta entre mulher e homem, por isso inclusive que me considero bem pouco feminista, ou mesmo zero feminista, se for esse o pressuposto do feminismo: a mulher fazendo frente ao homem, fazendo frente ao falo. Não sou ignorante ao fato de haver uma grande desvalorização da mulher, mas me pergunto de quem é mesmo que parte essa desvalorização, será que ela não começa com nós mulheres? Como será que também contribuímos para o cenário do modo como ele é?

Mas realmente, quero deixar clara minha posição em dizer que tenho muito interesse em pensar a mulher em relação a ela mesma e seus fantasmas, seus traumas atávicos, seus recalques essenciais, e as diversas formas que invento para resolver a minha insuficiência de não saber o que mesmo eu sou, em relação ao meu próprio vazio, em relação a minha buceta. Diria então que meu interesse pela mulher é bem pouco intelectual e teórico bastante pessoal - talvez por ser tão pessoal espero poder transformar isso em algo que toque o outro, seja homem ou mulher, o que seja, mas acho que discorrer sobre a mulher ou sobre qualquer outro assunto de forma ampliada passa totalmente pela nossa pessoalidade - é daí que considero nascer o calor. Acho que há a superfície da nossa pessoalidade, assim como há as trevas da nossa pessoalidade, aqueles lugares que não queremos por nada tocar, e acho que as trevas da nossa pessoalidade é quando ela já vira outra coisa , coisa terrível o suficiente que quando nos permitimos tocar e expor, ela se encontra com as trevas do outro. Por isso fui sempre tão fascinada pelos cadernos de RES - por mais pessoais que muito deles sejam, ele se aprofunda tanto em sua pessoalidade que uma hora ele está escrevendo sobre a dor da moça que mora embaixo da marquise do seu prédio, ainda que esteja usando “Eu”. 

Eu nunca tratei da mulher enquanto uma questão de gênero, mas enquanto uma coisa que desconheço - desconheço o que é mesmo ser mulher! (Por isso mesmo que nem seria capaz de fazer uma oposição dela ao homem, pois para isso, teria que antes saber o que ela é - e digo muito intimamente que não sei). E é porque desconheço que insisto minha vida em tentar descobrir o que é - já que me foi dado um vazio entre as pernas.

Insisto nesse ponto particularmente, pois apesar de não ter um conhecimento extenso de grandes feministas na história, acho que há um grande perigo no feminismo (note que não estou dizendo que há um perigo na investigação profunda do que seja a mulher, mas precisamente no que pode estar por trás do feminismo). Há um perigo, creio, dele tratar a questão da mulher de forma superficial, por tratar a questão da mulher sempre em relação ao homem, sempre em relação a alguma outra coisa, e não em relação a ela mesma. Não acho que a buceta seja a ausência de um falo, ou a ausência de algo, ou uma falta. Talvez uma grande revolução do próximo tempo seja a de entender a buceta, o vazio enquanto uma COISA, e não uma ausência de algo. E é em relação a essa COISA que penso partir a discussão sobre a mulher. 

Essa coisa é muito esquisita. Fomos ensinados desde sempre a entender uma COISA enquanto algo que tenha volume, algo que se pode pegar, tocar, segurar, e tudo que não se pode fazer isso simplesmente não existe. A buceta, por mais que ela se apresente enquanto uma falta, ela é bastante material, não deixa de ser uma coisa. Entender a buceta enquanto coisa, penso estar bastante relacionado com o computador quântico, com um pensamento não binário, como cheio e vazio, vivo ou morto, existente e inexistente. 

Mas sinto estar desviando do que importa.

O que acho que importa mesmo aqui é continuar defendendo a minha posição sobre a mulher ser extremamente traiçoeira e perversa. Inclusive, se você acha que fui dura demais com essa afirmação, te peço então para que você elabore o porquê disso. 

Penso inclusive que você foi moralista com a minha afirmação sobre a perversidade da mulher. Quem disse que essa perversidade é algo ruim? Penso que é justamente a perversidade da mulher o que também possibilita que ela seja bruxa. É a perversidade da mulher que permite que ela seja brilhante! É a perversidade da mulher que lhe dá acesso a lugares muito desconhecidos. Acho que um cara como Duchamp por exemplo realmente se inoculou da perversidade da mulher. O que chamo de mulher ainda extrapola a própria questão da buceta física! 

(Pequena digressão que pode servir como início de um próximo texto: Estamos entrando em um tempo em que a questão de gênero está virando algo totalmente obsoleto, e isso me permite questionar se não teriam os grandes artistas da humanidades, grandes homens, pensadores, o que seja, não teriam esses homens se inoculado justamente disso que estou chamando de “perversidade da mulher”? - vamos tentar pensar a palavra perversidade não enquanto algo negativo: Do Latim, PERVERTERE, “levar ao caminho errado, corromper”, de PER-, “totalmente”, e VERTERE, “virar”. Ou seja, a capacidade de virar totalmente. A capacidade de corromper algo. No caso de RÉS, posso afirmar então que ele é um ser altamente perverso, pois ele conseguiu corromper brutalmente a condição de sua própria espécie.)

Eu acho na verdade a mulher brilhante! Acho a mulher fascinante, genial, altamente poderosa, feiticeira - mas a questão é que estamos articulando todo um potencial em um display que ainda não me parece muito interessante, um display pessoal, um display da nossa carência, da nossa pira, da nossa loucura. Nem acho que o potencial da mulher esteja em latência , acho mesmo que ele está bem manifesto, mas temos mesmo um problema ancestral de display, ou ainda, não, display não é bom, temos um problema ancestral com o objeto. 

O objeto da mulher ainda me parece uma resposta à epistemologia da vagina enquanto falta, e não a epistemologia da falta enquanto coisa.

Essa inversão talvez seja mesmo o que quero conseguir articular nessa vida! Não faltamos algo, pelo contrário, POSSUÍMOS algo muito misterioso, algo informe, uma caverna, um casulo, um infinito, um buraco negro, uma galáxia, uma gagueira, uma pergunta, um sussurro, um segredo, um insabido, um informe, uma cavidade, um abrigo para um outro... 

2 Gostaria de te pedir, Manu, por favor que você tente elaborar o porque você acha que sou “dura com a mulher”, se você mesma quer defender o empoderamento da mulher? Na verdade, acho mesmo que sou mole com a mulher, sou mole ainda comigo, e é por isso inclusive que tenho um mestre, para ser ainda mais duro com a minha incapacidade de ser perversa (de virar totalmente) no lugar que importa comigo mesma! Se queremos pensar e trabalhar juntas o que é a mulher, acho que teremos que ser muito duras com nós mesmas, pois acho que um grande problema é exatamente sermos moles, é sucumbirmos à nossa perversidade, ou a nossa necessidade de perverter o mundo e o outro em uma narrativa sintomática que serve só para alimentar um limo pegajoso que resiste em descolar da nossa espécie. Sou dura com a mulher na medida da minha inquietação em perguntar o que mesma eu sou. E honestamente, ainda me sinto mole... 

Penso na dureza com que é o Rubens muitas vezes para ser capaz de PERVERTER uma situação, para ser capaz de parar a loucura do outro, em nome do amor que ele tem pelo outro. 

Reinvindicar pela potência da mulher parte sim, penso, em sermos muito frias com a nossa loucura, em sermos secas com nossa vileza - mesmo que seja difícil, acho que passa por aí. Essa é a minha crítica ao feminismo: acho ele muito bonzinho com a mulher! Acho que ele afaga a mulher.

3 Percebo que existe uma influência grande da sua leitura do Deleuze nesse posicionamento de insistir em pensar o “n” enquanto um devir. Mas pressinto que você possa estar cometendo um equívoco com nessa leitura. Não há devir que não esteja altamente atrelado a uma verdade muito íntima, talvez inconfessável do sujeito. Acho que você está tentando forçar uma coisa com o “n” o chamando de “devir”, mas na verdade pressinto que você esteja se descomprometendo com a situação. 

Essa palavra é muito boa para o que quero dizer: o devir é algo que pelo que vejo em rés, é algo altamente comprometido, é uma instância que não se forja, ela mesma te forja para dentro dela, é como um retorno à um lugar originário da sua própria espécie. Por isso, acho que para se estar em “devir-o-que-quer-que-seja” é necessário antes ter feito uma expedição bem profunda e bem dolorosa dentro de si mesmo, para que você deixe de ser você mesmo e passe a estar em devir. Acho que para se estar em devir, temos que estar com as contas em dia, não podemos estar em dívida. Dito isso, acho admirável a sua posição em relação a Letícia, acho admirável a sua fala no último almoço em relação a cortar os laços até que se tenha uma clareira nessa relação obscura. Acho que esse tipo de posição é uma construção desse devir-mulher. Talvez seja aí um momento em que o “n”, esse “n” que você está chamando de sem gênero e sem moral, pode estar começando a falar. 

Ainda, acho que para esse “n” realmente não ter gênero nem moral, muitas e muitas coisas têm que ser passadas a limpo. É ingênuo pensar que esse lapso já é sem gênero e sem moral, é ingênuo pensar que um lapso de uma jovem de 29 anos não tem gênero nem moral. Freud uma vez falou, quando perguntaram sobre o que representava seu charuto, que às vezes um charuto é só um charuto. Acho que todos interpretamos muito mal essa sua fala. Não levamos em conta seu contexto. Essa fala não vale para ser reproduzida por aí. Para Freud, o inventor da psicanálise, um charuto pode só ser um charuto, mas para algo só ser algo, muita coisa teve que ser desvelada antes. Sem dúvida a frase de Freud é de um homem em devir, mas não podemos esquecer quem foi Freud. 

Mas volto a dizer algo que considero importante: realmente acho a sua posição em relação a Letícia um início de construção de um “n” sem gênero e sem moral, acho a sua posição sem dúvida um puta caminho para a mulher. 

Já deu da buceta ser um lugar obscuro, de escuridão, já deu da mulher não ser clara com ela mesma e com o outro. Já deu da buceta ser ausência enquanto falta. Precisamos iluminar essa ausência e entendê-la em coisa !

Entenda isso Manu, como um pedido também meu pra você de me alertar de qualquer possível obscuridade que você farejar em mim. 

Um beijo com muito carinho.

No avião a caminho de Dubai,

Anna

 

Relatório 4ª aula

por Gabriella Paschoal

 
 
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