RES, a Loucura e a Nave

Organização de alguns pensamento recentes

 

Anna Israel

08 de fevereiro de 2019

 

Todo texto ainda requer muitas considerações – muito estudo. Este texto é ainda um esboço.

 

Parte 1

 

O que mesmo está sendo dito quando se diz que RES é um louco? Gostaria de refletir sobre essa afirmação, considerando especialmente que a palavra louco é uma palavra eminentemente ocidental. Uma vez que RES tenha construído o seu próprio mundo, sua própria cultura, esse conceito não mais me parece fazer sentido, esse conceito parece perder sentido dentro de seu contexto[1] – e é isso, justamente, o que salva RES de realmente “não poder mais voltar”, como um “louco de hospício”, já que, apesar de ter ido, ele também concomitantemente, não saiu daqui[2].

Tenho me interessado muito em refletir sobre as estruturas psíquicas, sociais e econômicas de outras culturas, de culturas primitivas, por exemplo – como se dá a psiquê de um aborígene? Como são as relações maternas e paternas de um Hopi? Qual a relação da esquematização de Freud da psiquê do homem ocidental com leis ocultas do universo? Onde Freud encontra Jung? Qual a relação da trieb, da histeria, das ninfas, da esquizofrenia, Warburg, Nietzsche, Hölderlin, o canto da sereia, o incesto, que pulsões são essas? Como desenvolver novos displays para essas pulsões tão enigmáticas do homem? Como outras culturas lidam ou colocam tais pulsões? Para o homem civilizado, teleológico, maniqueísta, determinístico, o seu “descontrole” ou a sua “ninfa”, sua “loucura” fere brutalmente as leis de sua sociedade, fere a ordem de sua civilização – civilização esta que está enraizada em sua ossatura, diria ainda que é como uma civilização psíquica; a ninfa fere o modo como o homem está organizado psiquicamente para viver nesse mundo, para viver as demandas “comezinhas” de seu tempo. Qualquer coisa que escape às leis ocidentais de um tempo enlouquece o homem, não sabemos mais o que fazer com a nossa contradição – não temos espaço em nossa casa para a ninfa, por isso, quando ela chega, ela chega arrombando tudo, destruindo todos os cômodos; quando a ninfa aparece, evidentemente, como não há espaço, ela destrói tudo que a impede de existir, e como sabemos disso, pois a ninfa habita dentro de nós, hiberna em nós, obviamente sentimos medo e fazemos de tudo, não para organizar os cômodos da casa para receber a ninfa, mas fazemos de tudo para evitar qualquer tipo de possibilidade que a ninfa entre na casa. A ninfa porém é muito mais inteligente do que nós, ela vai entrar hora ou outra, de qualquer jeito.

Mas me pergunto, por que então que um índio Hopi não enlouquece? Por que um Hopi pode se submeter a rituais, como o ritual da serpente[3] e não “enlouquecer”? Como é que um índio Hopi convive tão bem com a ninfa sem “enlouquecer?”

O que homens como Warburg, Nietzche e Hölderlin (os três, curiosamente, grandes gênios alemães) apesar de terem sido possuído pelas ninfas, apesar de terem entrado em lugares realmente surpreendentes deles mesmos, e terem isso datado, o que eles não conseguiram gerenciar e terem morrido na “loucura”, ou, poeticamente, terem tido suas casas arrombadas completamente pela ninfa? O que distingue um Hopi de Warburg e o que aproxima RES de um Hopi?

Sem duvida há algo que RES construiu que aparentemente o salva da loucura – apesar de que eu não diria aqui que ele se salvou da loucura, é justamente essa epistemologia que quero inverter, esse modo de articular o problema que eu quero ressignificar, pois Rubens não se salvou de nenhuma loucura, mas a transformou em algo que faz parte constituinte da gramática diária de seu corpo, abriu um espaço para a loucura em seu corpo. Então o que fez, não foi se salvar da loucura, não foi não estar na loucura e mesmo assim ser possuído pela ninfa, mas o que RES fez está mais próximo das bordas, está mais próximo de uma organização profunda dos espaços de sua casa para que a ninfa possa entrar pela porta, e não ter de arrombá-la; RES se interessou pelas bordas, pelas cercas, pela estratégia de alcançar algo. RES passa quase todas as horas de sua semana construindo um ambiente favorável para a loucura dentro de sua casa – de seu corpo –, alterou as leis de sua própria civilização psíquica e estrutural, cotidiana, de forma que hoje é um homem que vive na cidade, mas transformou todas as leis de sua cidade em leis de sua tribo. Não podemos esquecer, porém, que toda tribo exige seus sacrifícios – e é dessa forma que RES articula sua vida, é disso que se trata sua organização, também para entender quando algo precisa ir para outra coisa poder nascer. Assim como um Hopi, RES levou de volta as leis de seu tempo para leis regidas pelo imediato[4], e a partir dessas leis, articula suas decisões tão enigmáticas (e aparentemente muitas vezes contraditórias) cotidianas. Por isso, podemos pensar que RES vive na cidade, mas a cidade em que RES vive não é a mesma cidade em que vivemos.

Mas se a condição de ir é não retornar[5], como é possível RES ir e voltar ao mesmo tempo? Como é possível estar em dois lugares ao mesmo tempo[6]?

RES construiu um lugar que em si não tem retorno, então não há assim perigo de não retornar mais, já que ele já está no sem retorno, está aqui mesmo em seu lugar sem retorno; assim, não precisa sair de um lugar para ir a outro – ele já se encontra, a todo tempo em outro lugar. A questão configura-se de forma lógica. Ele já renunciou um lugar antes mesmo de ir, por isso ele pode sempre voltar e nunca voltar, ao mesmo tempo.

Dessa forma, podemos dizer que Rubens não é um louco, mas é um selvagem, um selvagem que também é um intelectual, um selvagem que tem conta no banco, um selvagem que possui uma biblioteca, que tem 30 alunos, um selvagem ocidental. Dizer que RES aproximou mundos significa dizer que ele feriu as fronteiras de diferentes civilizações para que elas pudessem coexistir, ou ainda, para que um novo homem pudesse ser criado, assim também pensava René Char quando escreveu que “os homens de Lascaux e suas pinturas poderiam ainda revelar milhares de “coisas escondidas” inescrutáveis, inclusive – e especialmente – para os homens enviados nas missões espaciais do século XX[7]”. Isto é, o homem do futuro tem que resgatar o homem das cavernas para sobreviver.

Parte 2

 

Que lugar sem retorno é esse que está? Como é que RES consegue estar lá, em sua torre[8], e aqui ao mesmo tempo? A questão é que RES transformou o próprio “aqui” em uma outra dimensão – eis o lugar que não há mais retorno, uma ideia de “aqui” foi realmente abandonada, foi deixada para trás no caminho, foi deixada para trás para que outra coisa pudesse ser construída[9]; apesar de pensarmos que RES está aqui, digo, no espaço psíquico em que estamos, ele não está – não somente no espaço psíquico, mas no espaço psíquico, espiritual e também físico: Rubens transforma as atividades mais banais desse tempo em atividades que estão a serviço desse espaço outro que construiu. Utiliza de todos os recursos de nosso tempo, a economia, o espaço, Marte, as disputas na Venezuela, a ruptura da barreira em Brumadinho, Jeff Bezos, Elon Musk, o mercado financeiro, o insensibilizador Zilka, usa todos os aparatos de um tempo a serviço de sua “torre”, usa todos os aparatos de um mundo para outros fins, com os fins de um trabalho profilático para se manter vivo nesse outro mundo. Da mesma forma que um índio Hopi utiliza os recursos que há em torno dele para uma cerimônia, RES faz a mesmíssima coisa – esse é o modo que pode se aproximar do Hopi, de outra cultura, adentrando profundamente em sua própria, é o modo que ele pode ser um xamã, é o modo como ele pode receber diariamente a ninfa. RES faz o ritual da serpente não com uma serpente na boca, mas com um papel Arches na parede e uma barra de grafite na mão. Tem que ser orgânico com o seu ser, com seu tempo, a palavra só faz sentido dentro de um contexto. E RES tem um contexto muito claro para se utilizar de todos esses recursos.

 

Parte 3

 

RES construiu com sua obra, um novo corpo, uma nova cultura enraizada em seu próprio corpo, onde, apesar das leis não serem regidas mais pelas leis do nosso tempo, ele usa os instrumentos das leis do nosso tempo e os utiliza como instrumentos nas leis da própria ninfa – essa é sua barganha com a ninfa, essa é sua moeda de troca. Uma manobra sua muito violenta foi a de construir um ambiente favorável para a ninfa poder entrar e não destruir tudo, um ambiente onde a ninfa possa entrar, sentar e tomar um café, ainda que seja de seu modo (os desenhos feitos nas sessões de sexta são um excelente registro do “café tomado pela ninfa” a seu modo). RES construiu com sua obra uma nova configuração da morada de seu próprio sujeito, onde ele pode abrir muitas outras portas de seu ser, mas sobretudo, a obra espetacular não é somente o registro desses outros espaços de sua morada, mas também a sistematização da possibilidade da construção de um novo homem, a sistematização da invenção de um novo homem que está em latência nele mesmo, a organização da vida de forma que ela possa sempre receber visitas inesperadas e não entrar em colapso – eis o que chamamos de o méthodo.

RES vive a loucura diariamente, como um Hopi vive a loucura diariamente – dentro das leis que regem sua “civilização psíquica”; a loucura não configura-se mais como antítese de sanidade, a loucura é o seu estado diário, mas os recursos que o cercam garantem que ele não seja trancafiado em um quarto com uma maca. RES dilatou a loucura para todos os seus campos de fazer, a ninfa está solta em sua vida, a ninfa não aparece somente no desenho, no texto ou nas aulas, a ninfa aparece na sua contabilidade, na sua leitura do jornal, no seu café quando acorda, na sua organização obsessiva, a ninfa e a Sofrosyne cada uma faz um pouco o papel da outra, as fronteiras que dividiam uma da outra foram dissolvidas. Acredito que é isso a grande chave do méthodo, vejo aqui um bom modo de entender melhor do que se trata mesmo as assistências, a insistência por organização, insistências por mapas e diagramas, diagramas de metas, procedimentos, estratégias, cálculo, cuidados com o corpo, compreensão do corpo de forma dilatada, enfim, o méthodo não quer formar um “bom artista” para o nosso tempo, mas o méthodo quer fornecer recursos para construir o homem do futuro, um ser humano que possa entrar cada vez mais nas portas trancadas de si sem enlouquecer, isto é, sem que ele vire um autista, um solipsista, sem que ele se desligue desse mundo. O méthodo quer construir um ser humano que insira o seu mundo dentro desse mundo, que possa estar por mais tempo em estados de atravessamento e saber o que fazer com isso, quer construir um sujeito que possa desfrutar não somente mais da vida, mas da própria matéria de seu corpo encapsulado, um sujeito que possa saber que está sendo regido um pouquinho pelas leis do imediato. O corpo é a nossa nave e a nossa nave é a única coisa que pode nos levar para lugares impensados de nós mesmos.

Precisamos abandonar uma parte de nossa nave para que possamos continuar a nossa viagem, para que possamos continuar a nossa missão. E só com esse abandono que também poderemos retornar (e ser o que já fomos um dia).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Índio Hopi durante Ritual da Serpente e RES durante uma sessão de desenho sexta-feira

 

 

 

 

Ritual da Serpente e Sessão de desenho de sexta de RES

Impressionante como as imagens são idênticas.

[1] Contexto aqui segundo o linguista Emile Benveniste, isto é, o contexto é o modo de significar um enunciado. Considerando o contexto que RES construiu com sua obra, a palavra “loucura” enquanto a antítese de “sanidade” não parece mais se adequar. No contexto criado por RES, a palavra “loucura” e “sanidade” deixam de se apresentar como antitheses, e passam a coexistir, como a mesma palavra. Loucura e sanidade no contexto de RES assumem a mesma função – a questão é então a de entender, que contexto é esse?

 

[2] Gato de Schrödinger, teoria quântica criada pelo cientista Erwin Schrödinger – onde o gato pode estar concomitantemente morto e vivo.

[3]  Ritual da Serpente: Cerimônia Hopi em que os índios manipulam serpentes com as mãos e bocas para soltá-las em seguida e esperar seu retorno em forma de raios e chuvas.

[4] A Literatura e os Deuses, Roberto Calasso falando sobre Hölderlin.

[5] O muçulmano é o único capaz de dar o testemunho – mas o muçulmano não tem mais as condições de dar o testemunho – O que resta de Auschwitz, Giorgio Agamben. Pergunto-me, quais as condições necessárias para que o muçulmano possa ser muçulmano e ainda assim dar o testemunho?

[6] Mais uma vez, há aqui uma profunda relação com a teoria de Schrödinger que se tornou muito importante para a física quântica: como um objeto pode estar e não estar concomitantemente? Quais as conclusões que podemos tirar de um objeto ser também a sua contradição?

 

[7] Em A Ascensão de Atlas, Glosas sobre Aby Warburg, de Fabián Ludueña Romandini.

[8] Como escreveu Lila Loula em seu texto “A Torre”, depois da torre em que Hölderlin se isolou por 40 anos.

[9] Isso me faz pensar na nave espacial, que depois de conseguir, com uma força muito agressiva, atravessar a camada da atmosfera, e deixar de ter a Resistência da força da gravidade, ela tem que abandonar uma parte de sua estrutura, para poder seguir viagem – para que a nave possa continuar viajando nesse novo campo, ela precisa deixar algo para trás, só assim pode seguir viagem.

Pontos importantes falados hoje na aula de teoria de escultura

22 de janeiro de 2019

Anna Israel

 

  1. Ponto importante que amarra as questões discutidas na aula: Deslocamento da ideia de ver a escultura de Rodin na Pinacoteca para ir ao Mercado Koreano no Bom Retiro - se isso não for “ver o Rodin na Pinacoteca” nos dias atuais, ninguém realmente está vendo Rodin na Pinacoteca. 

  2. Importância de entender manobras na história da arte ocidental - não ser naif, não achar que se está “inventando a roda com um trabalho”.

  3. Outra importância de entender manobras na história da arte ocidental é: se apropriar das manobras na relação com a plástica, isto é, relações de simetria, relações de assimetria, ativação de um espaço, a base do trabalho faz parte do trabalho - des-hierarquização do “objeto de arte”

  4. O que foi a arte moderna? O que é isso que chamamos de “moderno?”

  5. Esgotamento da ideia do objeto - para um início de esgotamento da ideia de sujeito, investigação das possibilidades do próprio sujeito, investigação das possibilidades de relação com a experiência de estar vivo.

  6. Qualquer coisa pode ser o objeto de arte se ele for capaz de gerar uma mobilização – por isso o objeto em si não é mais importante (Duchamp) - o que importa não é o objeto mas é o quanto de desejo um homem é capaz de gerar no outro – o que importa é você conseguir realmente movimentar a vida de alguém – isso é fundamental para o antropólogo britânico Alfred Gell — o sujeito que é capaz de fazer isto é o artista, ou, como prefere, um agente social. Se o sujeito, através somente de sua visualidade, por exemplo, (se este for o seu depoimento), for capaz de gerar vontade no outro de estar vivo e de ser um ser humano melhor, se a visualidade de um sujeito tiver a potência de gerar um movimento profundo na vida de outra pessoa ou comunidade, então este cara é um artista (para Gell). — esse pensamento foi elaborado há provavelmente 50 anos mas parece fazer sentido profundo para o futuro. Gell foi um antropólogo e a partir de seus estudos de culturas primitivas, chegou a essa conclusão sobre o artista. Ou seja, o artista do futuro, está muito próximo do artista “primitivo”.

  7. Brancusi foi aluno de Rodin

  8. Brancusi / Rodin / Manet des-hierarquizaram a ideia de figura e fundo, objeto e suporte do objeto de arte - o que isso revela, o que podemos inferir disto? Há uma des-hierarquização do objeto de arte. Não há mais a ideia do objeto enquanto uma coisa grandiosa – algo foi diluído. O que importa foi deslocado. Ou já havia um início disto.

  9. Freud / Marx foram dois gênios do século passado. Ambos discorreram sobre a estrutura / o jogo / o sistema do capital. Marx no caso, já previu toda relação extrativista do homem com suas relações, assim como Freud também expôs a relação extrativista que o sintoma tem com o homem. Como somos presas de uma estrutura sintomática – estrutura esta que se encaixa perfeitamente com o sistema do Capital, estrutura de bi-nômios – empregado e empregador, predador e presa, por exemplo. A questão porém apresentada na obra de RES (inclusive com a teoria do gato e do pós gato que estou investigando) é que o empregador também pode ser o empregado. A presa também pode ser o predador. Na verdade, aqui seria poder ver o sintoma não como algo “ruim”, mas o sinthoma como potência do ser – inclusive, isto é justamente o que Nietzsche se questiona quando diz, “e se ao abrir mão do meu pior, eu estarei também abrindo mão do meu melhor?”. Aqui configura-se a tríade dos três grandes gênios do século XX: Freud — Marx — Nietzsche. Há um padrão que os une. Acredito (ainda muito por intuição) que a obra de RES revela uma resposta a esse padrão, ou ainda, um impensado que perpassa essa tríade.

  10. Tentando elaborar essa ideia: RES, com sua obra, ou, ao desenhar, cria uma estrutura totalmente revolucionária e transgressora com o sistema do Capital. Nas leis do sistema do Capital, para que esta engrenagem possa andar, é necessário que haja um cara que ganha e um cara que perde – a competitividade é um conceito fundamental no sistema do capital, onde um tem que ser melhor que o outro, onde para um ganhar o outro tem que se fuder, onde para que um ganhe a vida o outro tem que perder a vida. No sistema do Capital, um se torna rico na medida em que o outro se torna pobre – é uma relação altamente extrativista com o outro, sendo o outro qualquer coisa externa ao sujeito, e qualquer coisa, inclusive – mesmo que seja interna –, externa à própria ideia do sujeito (aqui, vejo, é onde entra a perversidade do sintoma – que se manifesta muitas vezes enquanto “resistência”). Também podemos associar aqui a ideia então de que “é necessário matar aquele ou aquilo que compete comigo”. Ou, para alguns, “é necessário destruir ou eliminar o que me faz mal” , ou “o sintoma”. E assim, sobramos com a indagação de Nietzsche: devemos mesmo eliminar o sintoma? Devemos mesmo eliminar aquele que compete, ou amá-lo?

  11. No caso da obra de RES, o que é fascinante é que RES ganha mais vida na medida em que justamente devolve também a vida àqueles que o acompanham, ou àqueles que o fazem assistência, ou o assistem desenhar. Res não fica “rico” (tanto materialmente ou espiritualmente) tirando a vida dos outros, mas fica “rico”, ou, produz sua obra, na coexistência da devolução da vida para aqueles que trabalham para a obra. Esta manobra, seja na estética, na ética ou no espírito, eu considero revolucionária.

Ver o instante de soslaio

Eu não acho que o desfecho da aula tenha sido a capacidade de RES de sedução de um jovem adolescente. 
O que mais me comove e me fascina e realmente me faz compreender tantas coisas com meu corpo que sou incapaz de dizer, que sobram pra mim, é que RES seduz o próprio instante de vida, e ao invés de como todos nós que vivemos a consumir o instante (o nosso mais precioso e esgotável bem), RES vive para fazer dele o próprio protagonista, a estrela principal. A estrela não é mais o Rubens, não é ele quem está no comando, ou gerenciando qualquer coisa, mas articula de tal forma algo para que a própria vida possa falar, para que a vida - e não ele -, possa fazer seu depoimento na frente dos nossos olhos. 
É lindo e muito humilde um homem que poderia falar tanto de si ou de tantas outras coisas para se autopromover, só fala o necessário para poder deixar brilhar a única coisa que realmente importa, a matéria da vida. 
Isso é o que eu considero um nível muito alto e muito perfeito de agradecimento e de pacto e de serviço. 
Sou muito privilegiada por poder ver, mesmo que de soslaio, o instante através dele.

Reflexões depois da sessão de desenho de RES de 11.jan.2019


 

  1. O desenho aqui é uma força altamente ativa e pós extrativista, onde RES organiza uma situação e leva ela até um limite, um limite de atividade que não é mais gerenciada por ele, mas gerenciada pelo própria pulsão em outra sintaxe de linguagem. Ao contrário de uma extração de algo, ou de uma situação em que RES “espera algo do desenho”, há aqui o inverso, uma doação de si para que um calor originário possa ser sentido na pele de quem presencia o acontecimento - como a CCS colocou em seu texto, uma catarse. Res desenha a serviço da catarse, a serviço de que o homem possa voltar a adentrar a carnatura da vida, mesmo que seja por um instante. 

  2. O desenho é na verdade um agente de deslocamento do desejo. Res ficciona a tal ponto sua vida, que seu desenho se torna um dispositivo (ou um agente) que desloca o desejo, desloca a libido em sua direção - isto é, em sua direção, mas a direção não se trata propriamente da superfície do desenho, a direção que Res desloca a minha libido e o desejo é na verdade a própria coisa sem nome que acabamos por nomear de “desenho”. É fascinante ter o desenho enquanto esse objeto que podemos nomear enquanto desenho - o desenho está lá servindo algo, ele está salvaguardando algo, está lá enquanto uma coisa que existe para dar pele a um símbolo. O desenho tem a força de suportar ser chamado de algo enquanto alicerce para que possamos criar recursos para poder falar daquilo que não dá pé. 

  3. O objeto INSENSIBILIZADOR “Zilka”. O sintoma se transveste de muitas coisas, pode se transvestir de uma mulher com peitos grandes e cinta liga e decote, pode se transvestir em uma criança, em uma bolsa da Gucci, em uma grande coleção de arte; todos esses não se tratam do sintoma, mas são displays do sintoma. A questão que considero genial aqui é que não se trata de destruir o sintoma, já que isso seria impossível, mas deslocar o display do sintoma para um outro display que seja tão sedutor quanto aquele já configurado. Acho que aí entra esse objeto, o insensibilizador, no caso - assim como toda série de desenhos de Res são invenções constantes de novos displays sedutores para o sintoma, para que o sintoma não vaze e arranje seu próprio display (o que acontece na grande maioria das vezes). Rubens entendeu que o fazer tem que ser sedutor - aí acredito que seja uma das fontes de tamanho calor: na fricção do deslocamento do display do sintoma, na batalha para mover uma cadeia genética de lugar.

  4. A manobra é muito sofisticada: Res transforma uma pulsão de morte em uma pulsão de vida - transforma a energia de destruição do homem em uma energia de criação, de invenção, de obra - de invenção constante de si mesmo. E assim faz isso também no próprio desenho: utiliza um instrumento de morte em série e o subverte para gerar vida, o subverte enquanto instrumento de vida, de desejo, de libido, de motor, de calor. 

  5. Me parece muito mais proibido comprar essa arma para usá-la em um desenho. Mas o que é mesmo isso que chamamos de “usar em um desenho?” Qual é mesmo essa finalidade de utilização que está em jogo que é mais proibida que tirar uma vida de uma pessoa? Destruir é sem dúvida muito mais fácil que construir, e para que o sistema do capital possa continuar girando, a morte diária do homem é necessária. É necessário que matemos o outro para acharmos que estamos crescendo e o próprio desejo de crescimento é uma manipulação perversa que na verdade garante a nossa condição de zumbis diariamente. O que então esses desenhos propõem é justamente o enfrentamento - e por isso eles se tornam uma força tão poderosamente ativa - desse sistema. O proibido que está em jogo na compra e na utilização dessa arma é justamente ela estar matando o próprio RES, ela está sendo usada para aniquilar um sistema que corre em nossas veias e nos oprime diariamente. A Zilka não está perfurando o papel, mas está perfurando o colonialismo do brasileiro, está perfurando o holerite, a casa própria, para que possa vazar o espírito atrofiado no homem. A Zilka está sendo usada como instrumento de subverter as leis não somente do nosso tempo, o Capital, mas para subverter a lei capital do sintoma.

A linguagem do méthodo

 

Realmente parece que há uma linguagem própria do Atelier do Centro, dessa zona, que de tempos em tempos faz uma limpeza ou uma calibragem na máquina para que ela possa girar de uma nova forma. Parece que tem horas que o que está gerando ruído é tirado à força para que a corrente possa fluir. Não que alguém gere ruído necessariamente, mas quem sabe um tipo de energia que não está em concordância com a máquina é sacrificada pela própria máquina a serviço de sua sobrevivência. Da mesma forma que existem horas em que algumas peças precisam assumir novos lugares, e peças novas tomem os lugares das antigas, como um sistema autocorretivo. É muito bonito. O corpo Méthodo realmente está se provando ter vida própria e Res é o grande leitor desse corpo. Res lê o que o méthodo precisa, Res lê as demandas do méthodo para que a obra prossiga. É muito parecido com o desenho – Res ouve as exigências do desenho. Mas claro que estamos aqui usando esses nomes “desenho” e “méthodo” por falta de outro nome, esses nomes são artifícios. Então me pergunto, o que mesmo é a coisa que Res lê e ouve e responde e da qual está a serviço? Qual é mesmo a voz de comando que o mestre obedece para manter a máquina girando com tamanha precisão?....

Pequena reflexão pós aula de segunda

18 de fevereiro de 2019

 

 

 

 

  1. A aula de segunda de hoje comprova a teoria de Alfred Gell do agente social no ocidente – a aula de hoje explica a complexidade do fenômeno da arte no ocidente, e também deixa visível o quão mal formados somos como um todo, como um todo MESMO. O modo como se pensa arte hoje é uma piada. O modo como nós estamos em um automatismo de pensamento é muito triste. A aula de segunda de hoje foi uma prova de que arte e pensamento são coisas muito sérias e muito materiais – e é justamente aí o poder revolucionário da arte. E o fato de não sermos ensinados esse tipo de coisa tão estrutural, o fato de não ser óbvio para nós que o que importa é o contexto nas relações, na comunicação, nos significados, em tudo, faz com que sejamos absolutamente superficiais com tudo e dessa forma vivemos um delírio completo da vida. 
    A aula hoje foi muito muito importante para que os jovens (me incluo cem por cento) deixem de ser bobos e feitos de trouxa. Arte é um movimento muito profundo. A aula de segunda de hoje explica uma possível aproximação de um objeto de arte ocidental com um primitivo, para Gell, ou seja, o objeto é o índice. E perguntar sobre características do índice é uma coisa, e outra é sobre a importância de uma obra – isto é, o conjunto de muitas coisas que extrapolam inclusive o índice, perguntar sobre a importância de uma obra é, quem sabe, finalmente começar a falar sobre o objeto que importa mesmo quando se trata de arte.

 

  1. Pensar mais sobre o que constitui mesmo a fatura em um trabalho – que extrapola o trabalho, mas nem por isso não está no trabalho; o que extrapola o trabalho também está no trabalho: as relações de Paul Klee com o Benjamin está no Angelus Novus. As relações, os elos travados para “fora” do trabalho são constituintes da fatura e da envergadura do trabalho. Está aí uma diferença fundamental entre a obra do Paulo Pasta – que teve como interlocutor o Rodrigo Naves, e o Sean Scully – que teve como interlocutor o Habermas. O Rodrigo Naves faz parte da fatura de uma tela do Paulo Pasta assim como o Habermas faz parte da fatura de uma tela do Sean Scully. 

Sobre o pote de vidro, somente


Anna Israel, 27 de fevereiro de 2019

A questão é que não se trata de aprender a fazer as coisas, ou aprender uma coisa ou outra coisa. Acho que queremos muito aprender a fazer as coisas, quis muito ter um ofício, quis escrever, quis ler, quis pensar, desenhar, esculpir, ser uma grande mulher, mas a questão é que não se conquista nenhuma dessas coisas quando se quer qualquer uma dessas coisas. A questão que importa profundamente, que estabelece uma mudança crucial de comportamento é: como vou fazer essas coisas, como vou fazer qualquer coisa? Como vou me fazer no mundo? Como vou me fazer? Como vou me articular através das coisas, qualquer uma que seja, que eu faço? Não se trata de aprender a escrever, mas de como vou aprender a aprender escrever? Não se trata da escrita propriamente, não pode ser esse o fim, mas a escrita, no caso aqui é o processo e não o fim, a escrita é o processo, o artifício pelo qual vou caminhar em direção a como estarei eu me fazendo no mundo, como estarei eu me fazendo nesse pouco tempo que tenho de intermitência do meu batimento cardíaco?
Hoje entendi que “cuidar da fritadeira” foi o comecinho da minha investigação do diagrama “autópsia do real” de RES. Isso porque cuidar da fritadeira não era somente limpá-la, mas investigar quais seriam as articulações e providências necessárias para esse cuidado? A manutenção é o que mais importa, isto é, não importa ser gênio, não importa ser atravessado pela ninfa, mas qual a manutenção necessária que terei de fazer uma vez que sou atravessado? Qual a manutenção de mim necessária que terei de fazer uma vez que me foi dado o privilégio da vida? Ou ainda muito mais profundo (voltando para o lugar que tenho dificuldade), o que é mesmo cuidar de uma fritadeira – o que é mesmo a fritadeira em questão? Será que no fundo, a fritadeira não sou eu?
Realmente, finalmente entendi quando Fernando Pessoa diz que não há metafísica maior que comer chocolates: não há metafísica maior que limpar uma fritadeira. Ir e voltar de uma loja em uma região decadente de 1,99 atrás de potes de vidro para guardar os 4 litros de óleo... E quando achei que a tarefa estava enfim finalizada, com um enorme sorriso no rosto de tarefa cumprida, o pote de vidro escorrega da minha mão em frente à bancada da cozinha: que ingenuidade, a tarefa nunca está cumprida.
Talvez o que eu tenha entendido sobre o pote de vidro ter caído no chão e quebrado é que nenhuma tarefa nunca está mesmo cumprida. Esse é um dos motivos pelo qual Rubens vive diariamente na urgência. Não existe essa ideia de tarefa cumprida ­– essa ideia é para os fracos, para aqueles que querem pouco da vida e de si mesmos, para aqueles que vivem com uma ideia de finalidade das coisas, para aqueles carentes! O pote de vidro sempre vai quebrar no final da jornada. A pedra de Sísifo no final da montanha vai rolar montanha abaixo de novo. É um trabalho diário e constante de manutenção não da fritadeira, mas entendo bem mais profundamente, de manutenção de mim mesma e do desejo! Se não houver esse tipo de manutenção, o desejo vai criar outras formas para existir, vai se sorratear pelos becos sombrios de mim, e aparecer de maneira indesejada. Entender que o pote de vidro sempre vai cair no final da jornada é finalmente ver que minha vida está e estará toda por fazer.
Talvez o que me tenha ficado também mais claro hoje para mim é que não se trata mesmo de resolver a porra do óleo da fritadeira. Não existe fritadeira. Como não existe diagrama da autópsia do real. São todos a mesma coisa. Eu estabelecer uma diferença entre um e o outro vai fazer com que eu me relacione mal com ambos. Ou melhor, é o que justamente está acontecendo! O que está acontecendo não é que eu estou me relacionando mal com meus estudos, com a minha produção, o problema não está aí. O problema é que por estar me relacionando mal com as pequenas coisas como o pote de vidro para o óleo, isso vaza para qualquer outro lugar da minha vida, pois isso, o pote de vidro do óleo, é justamente todos os lugares da minha vida! A minha vida é um pote de vidro que preciso ir na loja de 1,99 comprar para guardar o óleo!
Dá pra entender inclusive mais porque o primeiro grande místico na Alemanha, Jacob Böhme era sapateiro. Ele na verdade nunca fez mística, ele só fazia sapatos muito bem! Possivelmente se alguém falasse para ele que era um grande místico, ele não entenderia nada!

E é por isso que hoje eu não quero ser artista coisa nenhuma, nem crítica, nem escritora, nem nada disso. Eu só quero ser capaz de cuidar bem dessa fritadeira.

Reflexão de madrugada

 

  1. Curso do méthodo de ontem – como há expectativa da nossa parte. Me lembro de ouvir RES falando para a Julie, Mohallem e Isa sobre escrever um texto do último dia de suas vidas e sentir um frio gelado em meu estômago — na verdade um frio de uma expectativa absurda como se tivesse que provar algo para Deus que ele já não soubesse de mim. Uma expectativa de ter que ser capaz de dizer todas as coisas que nunca fui capaz de dizer. Talvez o frio na barriga seja também um sentimento de dívida, como se tivesse acabado o meu tempo, e intimamente sei que não o usei da forma como podia tê-lo usado. Adiei muitas coisas por preguiça, adiei muitas coisas por vaidade, por arrogância, por determinismo, agora entendo como se queixar é mesmo uma grande demonstração de arrogância, arrogância em achar que eu valho alguma coisa em latência mais que qualquer outra. O relato do último dia da Julie, Mohallem e Isa, ou, a ressignificação do que pode ser ir comer uma pizza, foi realmente epifânico para mim. Entendi que no fundo, não se trata de dizer tudo que não fui capaz de dizer, ou ser o que não fui capaz de ser, mas de fazer com que os momentos tenham um valor profundo para mim, realmente consumar os momentos em que estamos vivos, consumar o tempo de vida, ao invés de simplesmente ocupá-lo. Uma última pizza da vida na verdade é uma possibilidade de gozar com a vida – seja com a pizza, com a lichia, seja com um banho gelado, com uma boa conversa, um passeio pelo parque, seja ao acordar às 3 horas da madrugada no meu apartamento. Que maravilhoso poder ter acordado no meio da noite! Normalmente penso o contrário. Me sinto tão feliz em minha companhia nessa madrugada. Saio da cama e vou ver a noite escura das janelas de minha sala. É uma sensação maravilhosa, a cidade parece enfim civilizada, todas as luzes dos apartamentos escuras, todos em vigília, todos lá no mesmo lugar mas na verdade em outro lugar, no lugar de seu sono, que lugar que será que é esse? Que lugar que estamos quando estamos em sono? E que lugar que estamos mesmo quando estamos acordados? E que lugar também que estamos quando estamos de fato acordados e não só simplesmente de olhos abertos? Onde será que estou mesmo quando tenho meus olhos abertos? Clamo hoje então pelo meu resgate, por me resgatar desse lugar tão escuro e profundo que ainda me encontro quando tenho somente meus olhos abertos, mas em muitos lugares permaneço adormecida. O que será que é mesmo estar acordado? Que lugar é esse, meu Deus? Hoje consigo entender também um pouquinho mais, de forma simbólica, o lugar de RES, o lugar contraditório de estar em paz mas também de solidão profunda: em todos os prédio à minha volta, há somente a luz alaranjada do trabalho neon de RES que irradia pela minha janela. Todas as outras luzes estão apagadas. Todas as luzes à minha volta estão apagadas. Todos dormem enquanto eu estou acordada, escrevendo. Será que é isso que estou fazendo? Será que estou escrevendo? Na verdade, não estou escrevendo, estou mais inventando o meu desejo, inventando a mim mesma, vivendo o meu último dia de vida, isto é, fazendo o que eu sempre quis fazer mas acabava adiando. Não tenho mais tempo para adiar. Não tenho mesmo mais tempo para adiar as coisas que me dão prazer profundo nessa vida. Não se trata de escrever um texto, não se trata de escrever um texto sobre o último dia da vida, mas de ter prazer profundo com a vida!, se trata de ter prazer na relação comigo mesma!, se trata de seduzir o que resta do meu último tempo de vida – todo dia, todo segundo é o que resta para eu estar viva e poder seduzir esse restinho, esse cadinho de vida. Me sinto em um sonho, mas estou acordada, mas talvez seja isso mesmo um sonho, é um sonho podermos fazer o que queremos fazer, é muito proibido podermos ter prazer com nós mesmos. Sinto o terror e o vazio da noite na atmosfera da minha casa. Percebo que é exatamente esse terror que Rubens é capaz de ficcionar, de invocar em plena luz do dia. Não temos tempo mais para queixa. Não temos mesmo tempo mais para criar expectativas. Todo segundo é o meu último segundo de vida, todo batimento do meu coração está em risco de ser o derradeiro. Por isso que a vida é a coisa mais valiosa que existe, principalmente a vida consciente de que está a todo segundo em risco – é isso o que o homem da opus[1] constrói e é isso porque sua obra é tão valiosa: ela só existe pois realmente é a sua última possibilidade para existir, ela só existe pois aquele que a coloca no mundo está dando seu depoimento final, está resolvendo tudo que tem para resolver, a todo segundo – a todo segundo está batendo o pé pelo “vinho da Sicília” e não há vendedor no mundo que vá o convencer o contrário. O vinho da Sicília foi a porta que pertenciam àquele encontro para ser entrada. E o porteiro da lei não foi capaz de convencê-las do contrário.

  2. Não sei a extensão da previsão que há em RES, ou melhor, entendi. A previsão de RES é na verdade algo muito mas muito mais sofisticado do que eu poderia imaginar. A questão é que quando se está realmente em estado de consumação de seu último segundo de vida, o tempo todo, finalmente a vida se abre para você. O cálculo de RES não é mais um simples cálculo desse mundo, mas um cálculo que já o ultrapassa. Nesse sentido, RES se deixa mesmo ser atravessado para fazer só o que o instante o diz que há de ser feito, para que depois as coisas se arranjem como elas têm que ser arranjadas. A previsão de RES é um nível de cálculo desse mundo que chega até um ponto para que a própria vida possa calcular o resto. Ele faz sua parte para que a vida possa seguir fazendo a dela. É muita paciência. É muita crença. Uma hora, o que há de acontecer vai acontecer. Foi isso o que ele fez ontem. Ou melhor, foi isso que ele fez nos últimos 52 anos para que ontem o que tinha que ser feito fosse feito através dele. E nós, discípulos, somos diariamente afetados por esse milagre, por essa voz de comando que realmente o atravessa e nos conduz para o nosso derradeiro instante. Por isso que a resistência é realmente uma merda. A vontade de autonomia é desgraçada. A ansiedade pode ser fatal. Tenho ao meu lado um homem atravessado. Tenho ao meu lado a força da natureza sussurrando em meu ouvido, soprando o milagre em minha frente.

 

[1] Termo de Carl Gustav Jung

Reflexões sobre o artista e o coletivo

 

 

Acho que isso que os grandes homens chamam de arte é sempre algo coletivo, é sempre algo feito pensando no coletivo. Não que o pensamento seja no coletivo em um sentido literal, ou que arte tenha necessariamente uma vontade assistencialista, não é isso. Mas acho que o homem que está mesmo na empreitada de fazer arte sabe que o que está fazendo toca em lugares muito profundos e misteriosos da humanidade, mesmo que através dele somente, mesmo que a princípio ele esteja sozinho, como o caso de Van Gogh, por exemplo, mas a fatura que está estampada em uma pintura de Van Gogh é um serviço conquistado para muito além de um homem somente. Nesse sentido, consigo entender mais o Gell, quando ele diz que arte é algo feito por uma comunidade, que arte é um trabalho que cria elos muito profundos em uma sociedade.


Acho que o grande artista quando está mesmo fazendo arte está fazendo imediatamente algo para além dele somente, está fazendo uma espécie de ritual da chuva, para irrigar a terra para ter uma boa colheita e a população não passar fome. Todo grande artista está de algum modo irrigando uma terra para que possamos nos alimentar de alguma forma, no alimentar da própria vida. A vida, ou o espírito, é o nosso alimento que está diariamente correndo o risco de seca, e o artista é aquele que está diariamente irrigando o solo do espírito. É isso o que vejo em seus desenhos, Rubens, vejo uma sementinha da vida sendo sempre semeada, para que ela não pare de crescer, e o tempo sempre elege um homem para cumprir essa função. E eu realmente me sinto muito humilde diante do privilégio que me foi concedido em te assistir e contribuir da forma que eu puder nessa missão.

Algumas reflexões sobre pedagogia no Méthodo RES

Por Anna Israel, fevereiro 2019

 

Gostaria de frisar que aqui apresento questões depois de 9 anos no Atelier do Centro, tanto enquanto discípula, assim como parceira na construção do Méthodo

 

 

 

  1. Começar já com esse item: o discípulo é um parceiro na construção do méthodo e na construção do mestre. Aqui já rompemos com uma ideia centralizadora de poder, onde o professor é o agente ativo e o aluno passivo – rompimento da ideia de um palco ou pedestal para aquele que ensina, e o outro lado para aqueles que escutam. No Atelier, todos “sentam à mesma mesa”. Já posso a partir disso também criar muitos subitens: escuta / agente / poder / rompimento – são todos esses conceitos desenvolvidos diariamente na prática no méthodo (ou melhor, não há dizer “na prática no méthodo”, pois o méthodo em si é a própria prática de algo). Voltando ao foco desse item: não existe professor sem aluno – isto é, o aluno ensina o professor sobre o que ele mesmo é, o aluno no méthodo é fundamental, pois o méthodo não é um sistema de regras fechado, enrijecido, cristalizado, muito pelo contrário, o méthodo é uma tecnologia em constante transformação, uma tecnologia quântica, que se autocorrige, que pode seguir um caminho completamente imprevisível (ou aparentemente imprevisível). O méthodo em si se aprende com o sujeito, seja professor, seja aluno, o méthodo é o organismo vivo que ensina ambos a lidarem com ele, é um fio de Ariadne de retorno de nós mesmos.

  2. Preocupação com hierarquia, ou fim dessa ideia ingênua de “horizontalidade”. Sem uma voz de comando não há trabalho sério – precisamos entender isso não de forma despótica, mas como um próprio mecanismo de funcionamento do nosso organismo fisiológico e mesmo psíquico. Uma voz de comando é extremamente necessária. Sempre há uma voz de comando, sempre há hierarquia, então não vamos fingir que não há. Resolvendo essa questão, as coisas ficam mais claras, mãos transparentes, sem segredo e sem entrelinhas. Somos um país que tem muito medo ou vergonha de falar de coisas óbvias, falar das coisas que são constrangedoras e por isso vivemos em uma constante fantasia.

  3. É importante também delimitar os níveis em que cada um está, para também gerar competição, e a competição aqui não é mesquinha, mas é uma estratégia para se gerar ambição.

  4. O méthodo possui diversas camadas – ele serve tanto para o mestre quanto para um jovem de 15 anos, ele se molda em relação ao sujeito, ele entende as demandas reais do sujeito, ele é orgânico, antidespótico, antiautoritário. O sujeito é quem vai apresentar ao “méthodo” o modo como o méthodo lidará com ele. Sistema dinâmico irregular. Infinitas variantes. Não há um caminho certo, mas isso não significa que há desvairia – um não é o oposto de outro – no meio do caminho entre a norma e a loucura há o méthodo.

  5. Há sim um caminho espiritual. E há sim a possibilidade de se atravessar o fantasma, diria ainda que atravessar o fantasma seria inventar uma nova cultura de si mesmo, seria entrar finalmente na sintaxe do fantasma, seria ser imbuído da potência do fantasma. Há um caminho para isso. Podemos sim ser melhores do que somos, podemos sim fazer passagens, lavar a roupa suja de décadas e décadas de antepassados impregnadas à nossa pele.

  6. O méthodo não é imediatista - é estratégico, tem fôlego.

  7. Escuta: muito importante. Há vários níveis e tipos de escuta (para citar as mais primárias e mesmo assim esquecidas nos dias atuais):

  8. Escuta do outro: sendo ele aquele que se apresenta para fora de você, e não o outro que pensamos ser o outro, não a nossa ideia do outro.

  9. Escuta do corpo: ser capaz de conhecer minimamente seu corpo, entender quando algo funciona e quando algo não funciona. Ouvir quando o corpo está sendo prejudicado, ouvir quando o corpo está pedindo socorro, ouvir quando o corpo precisa parar, quando o corpo precisa de recursos.

  10. Escuta do sintoma: ser capaz de minimamente ouvir quando uma ação é minha ou é da minha mãe, quando é do meu pai, do meu país, da minha insuficiência – ser capaz de escutar as diferentes línguas que falam dentro de mim para eleger a língua que quero falar.

  11. Escuta das demandas externas e escuta das demandas internas — saber diferenciar uma da outra.

  12. Escuta do que o outro está realmente pedindo ou dizendo — o outro diz algo mas o dizer é ainda somente o display para outra coisa que está querendo ser dita. Em pedagogia, esse tipo de escuta é extremamente importante – mas só somos capazes de escutar o que o outro está mesmo pedindo se formos capazes de escutar ou eleger o que nós mesmos estamos pedindo de nós.

  13. Claramente há algo insustentável nos tempos atuais – o ser humano não tem mais motivação, o ser humano não tem motivo para viver – há um problema sério aí – e me parece que para lidar com isso o homem está criando artifícios para ocupar o seu tempo de vida, o homem está ocupando um espaço vazio ao invés de consumando um tempo de vida, ao invés de consumando o próprio vazio consigo mesmo — a pedagogia tem que ser uma arma violenta para atacar esse mal – a pedagogia tem que lidar com questões reais do homem, principalmente do homem que em breve perderá muitos de seus empregos por robôs. O artifício para ocupar o tempo do homem, ou, o “emprego para sobrevivência” chegará a um fim – se não formos muito rigorosos em entender o tempo em que nos espera, ficaremos pra trás de nós mesmos, essas questões que se apresentam hoje só se agravarão no futuro. O próprio futuro está colocando o homem contra a parede e pedindo para que ele resgate o espírito.

  14. Ser capaz de falar de coisas pessoais, ser capaz de ter distanciamento e falar dos podres – falar do podre é o início para se limpar do podre – assumir o podre, assumir o mal cheiro. Assumir o mal cheiro é colocá-lo para fora e ao colocá-lo para fora um espaço está sendo vago para questões impessoais, para vínculos com o ofício.

  15. Tríade: o pré-gato — o gato — pós-gato // realmente adentrar o estágio do gato e suportar esse lugar por anos já é estar em um nível muito alto – investir em destrinchar melhor o que é o gato. O gato é o “drible na pequena área”, como disse RES – sendo a pequena área toda a nossa condição em relação ao nosso país, nossa herança genética, nossos traumas, driblar essas questões que sobraram para nós driblarmos em um espaço de tempo muito pequeno que é uma vida – como driblar essas questões? Como atravessá-las? Qual a estratégia? Atravessá-las para onde? O que sustenta esse atravessamento? Qual o artifício? Qual o bote que usaremos nessa travessia? Qual o bote que cada um terá que criar? Alguns podem construir um bote, e outros podem construir um navio – mas quais mesmo têm os recursos para não naufragar nas tempestades dessa travessia?

  16. Organização — se algo for vazar, tenha o lugar certo para vazar — dar nome aos bois, não se enganar, ser duro consigo mesmo, ser cruel consigo mesmo.

  17. Capital — criar um próprio capital. Ganhar dinheiro não relacionado a ter um dinheirinho para sobreviver, mas ganhar dinheiro significa uma troca de riquezas. Ganhar dinheiro significa realmente valer algo, significa ter valor, construir um corpo, estar incorporado de uma moeda – fazer um bico não é ganhar dinheiro. Ganhar dinheiro é construir um corpo externo que enfrente o mundo. Ganhar dinheiro é construir um barco que tenha recursos para não naufragar na travessia.

  18. Diferença fundamental entre o méthodo e “terapia”: não há uma questão moral no método, ou seja, as questões são tratadas aqui de forma sem moralidade, sem automatismo, e com uma vontade profunda de des-alienação. O que quero dizer é que não se trata de seguir à risca “normas”, e entender que fazer uma coisa não é melhor que fazer outra coisa; mas entender porque uma coisa funciona e outra não, isto é, onde a relação de uma pessoa com a escrita está entrando? Onde a relação de uma pessoa com o álcool pode entrar? As questões do méthodo são muito pouco determinísticas e por isso muitas vezes podem soar contraditórias para quem as ler de forma leviana. A questão é que a pedagogia na vida de um sujeito tem que entrar de forma orgânica – tem que haver sentido na vida do sujeito. E cada um é diferente do outro. Uma coisa que funciona para um pode não funcionar para o outro — mas considero de extrema importância esmiuçar as diferenças do méthodo para uma “terapia” – assim como a diferença de arte para “arte terapêutica” — não há nada de terapêutico no méthodo, muito pelo contrário, acredito que o méthodo busca “criar novos traumas para enfrentar traumas antigos” – sendo os novos traumas a obra. O trabalho de arte tem que ser a construção de um novo trauma.

  19. No méthodo não há “apaziguamento” das coisas, muito pelo contrário, há guerra – o méthodo é uma ferramenta para poder ir para guerra.

  20. Qual a diferença do méthodo e do Atelier do Centro? O méthodo é uma ferramenta para se operar dentro do Atelier do Centro – mas o Atelier do Centro não é um espaço na Rua Epitácio Pessoa, na verdade o Atelier do Centro tem que estar dentro do sujeito, portanto o méthodo é uma ferramenta para se operar dentro do sujeito. O Atelier é um rasgo, uma fratura, uma fratura fundamental no sujeito. O méthodo só serve para aquele que está fraturado, para aquele que está sangrando, para aquele que não tem mais saída.

O computador quântico, o C.A.C e o quanto ainda somos obsoletos

 

Anna Israel

1 de abril de 2019

 

 

Hoje na parte da manhã mencionei que a opção do grupo pedagógico por ter um almoço entre eles para discutir a “vitrine” de cada um era uma decisão obsoleta. Gostaria muito então de justificar a minha afirmação, levando em conta principalmente um modo de se relacionar com a realidade que está sendo colocado em cheque com a entrada do computador quântico – isto é, o abandono de um funcionamento binário da máquina, o abandono de um modo determinístico e maniqueísta de se articular. Sim ou não. Certo ou errado. Jovem ou velho. 0 ou 1. Ligado ou desligado. Bom ou ruim. Bem ou mau. Ter um lugar ou não ter um lugar. O que está sendo colocado em cheque, e que eu acredito ser grande motivo de uma crise geral do homem, é um tipo de pensamento que enquadra o problema de um lado e a solução do outro lado – que divide o problema da solução como coisas opostas. Na conversa de sábado entre os discípulos Anna, Gabi, Gabriel e Luca, discutimos possíveis articulações para começar a esboçar modos de solucionar um problema, e assim concordamos em nos reunir mais uma vez para articular esse problema de maneira mais prática. Chegamos em um consenso da reunião ser um almoço entre nós na segunda feira, não almoçando, desta forma, com o mestre e os demais no Atelier.

A questão epistemológica problemática dessa decisão, a de nos reunirmos excluídos do Atelier e do Mestre (em uma provável vontade de ter um tipo de autonomia, ou ainda, de estressar um lugar de ser os “mais velhos” e, portanto, aqueles que têm o dever de resolver longe de todos os seus problemas), é que o próprio display da discussão do problema em si tem que ser um modo de começar a buscar saídas. O modo como estávamos articulando a situação foi teleológico e predatório, onde nós seríamos o predador e a presa era a solução em que íamos encontrar e, portanto, nesse modelo, não haveria mesmo solução nenhuma, só uma insistência no problema – uma insistência no problema que é muito mais profundo que pensamos, uma insistência na doença que está nos estagnando, na doença que quer se cristalizar dentro de nós.

Pensando no funcionamento do computador quântico, sua diferença fundamental para o computador binário é que enquanto o binário se articula com duas possibilidades de resposta (ligado ou desligado), o quântico pode estar ligado e desligado ao mesmo tempo – o que me faz entender que a função “ligado” e a função “desligado” deixa de ser o tempo todo o que pensamos sobre ela. O computador quântico trabalha com todas as possibilidades para a resolução de um problema de uma só vez, enquanto o binário funciona com uma possibilidade versus outra possibilidade.

Fazendo uma inferência disso: ao nos taxarmos enquanto o “grupo dos mais velhos” estamos cometendo um grande equívoco epistemológico levando em conta o tempo do futuro, levando em conta o Méthodo, pois isso estaria imediatamente fazendo uma distinção de um grupo para o outro e interrompendo o que eu considero espetacular da obra de RES com o C.A.C que é justamente a sua qualidade quântica, sua qualidade de trabalhar com milhares de variantes ao mesmo tempo, sua qualidade de lidar com contradição, sua qualidade de observar não uma coisa nem outra coisa, mas o intervalo entre elas. Tanto os “ultra jovens” quanto os “mais velhos” TÊM QUE operar juntos para que essa nova máquina funcione, os “mais velhos” não podem se excluir para resolver um problema, muito pelo contrário, temos que envolver todos, pois todos estão diretamente implicados no problema, todos fazem parte do problema, temos que construir uma capacidade de previsão, inclusive, desse problema se repetir. Ser capaz de articular o problema como questão universal e pensar o problema como investigação plástica, em si já é a solução. E não ser capaz de apreender isso é o que justamente também está sendo tóxico, é a doença se espalhando pelo corpo.

A articulação do beco sem saída hoje já tem que ser a saída. 

Talvez seja esse o contemporâneo: como vamos articular o problema de forma estética? Como vamos articular e ainda mais complicar o problema? Como vamos mergulhar às raias do absurdo do problema e não deixar que sejamos levianos com o problema? Como vamos dilatar tanto o problema a ponto que sua dilatação se torne sua solução? Como transformar a obsessão pelo problema a própria solução do problema?

O modo de pensar que de um lado existe o problema e do outro lado existe a solução é um modo de articular a coisa completamente ultrapassada – é binário, e, portanto, obsoleto. Nesse sentido, Duchamp foi mesmo um puta de um visionário e previu o futuro quântico quando disse que “não há solução pois não há problema”. Podemos então também partir desse pressuposto para entendermos que é arrogante darmos tanto valor ao que estamos chamando de problema. Acho que a estética da vida do artista do futuro é entender que tudo é um problema, e que todo problema é também toda solução.

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Depois do filme "Jeannette, l’Enfance de Jeanne d’Arc"de Bruno Dumont

 

Anna Israel, 03.03.2019

 

Talvez uma questão muito importante que fica explícita no filme Jeannette de Bruno Dumont é que a forma e o conteúdo de um trabalho de arte são absolutamente indissociáveis. Não há conteúdo poderoso sem uma forma poderosa, assim também como não há forma poderosa sem um conteúdo poderoso. A impressão que me fica, depois de assistir seu último filme, é que ele se perdeu na vontade de inventar uma forma poderosa, se perdeu no questionamento do que pode ser cinema, e acabou esquecendo a pergunta que antecede “o que pode ser cinema”, que é, “por que estou fazendo cinema?” Dumont acaba fazendo um musical contemporâneo francês, com crianças e um cenário que remete a palcos de um teatro pela falta de movimento da câmera e os personagens que “entram na cena”, trilha sonora heavy metal dançadas por freiras, mas que está a serviço de nada – é um filme experimental só pelo experimental.

Fica claro assistindo esse filme que arte tem que ter um motivo muito poderoso para existir, caso o contrário não é arte, caso o contrário é experimentação vazia, arte requer um motivo “fora desse mundo” para existir, requer querer ir para Marte, de verdade, para se fazer arte. Arte é uma vontade de inventar uma nave espacial e viajar pelo universo e descobrir planetas ainda não descobertos, sem sair da terra. E nesse caso, Dumont sem dúvida fracassou. Fracassou pois, em seu filme, fica evidente que seus motivos para fazer cinema, ao menos a partir desse filme, são mundanos, são formais, esse filme reduz o cinema enquanto mídia, e não enquanto veículo poderoso do dizer. A discussão formal em arte é uma discussão muito delicada e bem pouco óbvia – apesar de muitos acharem que a discussão formal se esgota na forma, entendo a discussão formal como um índice que parte da forma para atingir lugares muito mais profundos que extrapolam a forma, mas que nem por isso não estão na forma.

O que quero dizer é que um filme com um conteúdo poderoso é capaz de inventar uma forma poderosa, no próprio ato de fazer o filme – uma forma revolucionária se inventa para poder sustentar um conteúdo poderoso, temos grande cineastas/artistas que provam o que estou falando, como Bergman, como Tarkovsky, Ozu, Kieslovsky - aqui a forma e o conteúdo não tem distinção, ambos se confundem, a forma se torna também o conteúdo do filme, o que não acredito ser o caso de Dumont. Esses artistas conseguiram revolucionar a forma do cinema como uma demanda do próprio conteúdo que estavam abordando, ou ainda, revolucionaram a forma do cinema por conta de uma volição maior que eles que é justamente essa: por que estou fazendo cinema? Ou ainda, por que estou vivo? Essa pergunta essencial foi capaz de movimentar a forma de seus filmes para que elas fossem capazes de servirem como o próprio espaço do que eles queriam dizer, como a própria atmosfera do dito. Uma forma poderosa em cinema não se resume em como o filme será montado, ou na violação de uma narrativa convencional, ou na escolha por diálogos em forma de musical como artifício crítico, mas a forma poderosa em cinema tem a ver com o próprio modo com que o diretor é capaz de criar relações com seus atores, com a fatura da atmosfera do seu dizer maldito estampado no tempo e no espaço do filme. Claro que artifícios formais e técnicos são necessários para se pensar a forma, mas o terror do grande diretor é mesmo o que é capaz de alterar a forma de um grande filme.

Não quero desmerecer Bruno Dumont pelo seu cinema, muito pelo contrário, o estimo muito como diretor e pesquisador. Mas acho que o filme Jeannette, a infância de Joana D’Arc é de uma experimentação infantil comparado com seu próprio filme Ma Loute, também de ordem bastante experimental – o que evidencia inclusive o drama de um país que possui uma tradição tão forte em cinema (ou em arte) como a França.

Acho que nos dias atuais, apesar de parecer estranho, esse filme de Bruno Dumont corre poucos riscos, é um filme seguro, onde o grande público se achará leigo demais para compreender o filme e os mais “intelectualizados” acharão o filme genial por supostamente transgredir as leis convencionais do cinema. Mas convivendo com um artista que posso defender como genial e um homem que assume grandes riscos sem sair de uma superfície de 150 x 150 cm de papel, que é o Rubens, assumo então o papel de dizer que considero sem risco nenhum o último filme de Bruno Dumont.

Uma diferença fundamental do Bruno Dumont e de RES é que Bruno Dumont nesse último filme quis estar demais fora da lei – como um rebelde, há uma rebeldia em seu filme, há um senso meio ingênuo no modo como articulou seu desejo. Enquanto RES, pelo contrário, quer ao máximo, não estar fora da lei, mas o que ele tenta articular muito agressivamente é justamente o contrário, RES quer estar ao máximo dentro da lei, quer estar ao máximo dentro da gramática, investe todos seus esforços para criar esse disfarce, como construir seus “laranjas” para só assim dar um passinho para fora da lei, mas o fora mesmo, e não se perder completamente. Nesse caso, é o oposto de uma rebeldia, é uma consciência muito agressiva de que arte de verdade é algo perigoso e é algo para homens muito sérios, muito meticulosos, extremamente organizados, homens que vestem somente a camisa muito bem passada, que não aceitam um amassado sequer na camisa que vai vestir. Acho que está aí o esboço de uma epistemologia da arte do futuro: não querer estar fora da lei, mas investir ao máximo seus esforços para estar dentro dela, e assim poder negociar com o que está de fato fora.

 
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