Texto do dia 30 de dezembro

de 2018

Laranjeiras

 

 

 

Fiquei pensando hoje sobre o que de fato seria a minha natureza, o que mesmo eu vim fazer nesse mundo? Por que mesmo nasci nessa família? O que é meu, que é só meu? 

Fui à praia bem cedo na manhã, ela ainda estava vazia, e com isso a sua conotação “turística” era quase nenhuma, muito pelo contrário, vi a praia como se eu fosse uma estrangeira na terra, fiquei absolutamente maravilhada. Fui então lentamente me aproximando do mar, desse organismo tão estranho, tão desconhecido - apesar de lidarmos com ele de forma tão corriqueira -, e ele me chamou para entrar. Fiquei um tempo boiando olhando para o céu, este que também me recebeu radiante, limpo, sem nenhuma nuvem sequer filtrando o sol. E bem em cima de mim estava a lua, na metade, me senti saudada por ela, como quem vai sempre ao mesmo café e tem lá aquela mesma pessoa que te serve e te vê, e sabe seu nome, e repara seus gestos, e já te viu chorando, já sorriu para você até que um dia você finalmente olha de fato para aquela pessoa e a percebe. Hoje senti que foi essa a minha relação com a lua, onde ela sempre está lá me servindo e só hoje olhei para ela e a percebi.

 

Ao percebê-la, me dei conta que o meu desejo não tem nada a ver com “entrar para a história da arte”, ou “ser uma grande artista”, “ser uma grande artista mulher brasileira”. Não é e nunca foi isso o que realmente quis. E a verdade é que de algum modo eu sempre soube que não era isso, sempre soube que havia qualquer coisa de errado na construção lógica ou temporal dessa frase. Quem sabe seja até por isso que até hoje eu sentia algo levemente errado com a minha relação com a minha produção plástica propriamente. Sempre senti uma pulga atrás da orelha, como se estivesse faltando alguma peça nessa equação. 

Bingo! 

A lua me soprou a resposta: o que desejo mesmo, do fundo da minha alma, o que é meu e só meu é a necessidade vital por ser um ser humano melhor, é o desejo profundo por não viver essa vida em vão, o desejo de não me relacionar com meu corpo somente como um instrumento de sobrevivência, ao invés do meu precioso tesouro que possuo, ao invés da chave do meu próprio tesouro mais precioso; o que desejo nessa vida é fazer as minhas passagens, é enfrentar a carência, enfrentar o sintoma de cara limpa. 

O objeto de arte, evidentemente, entra aí como um artifício, como um instrumento, uma ferramenta que age a favor dessa construção, uma arma importantíssima dessa batalha. Acho que esse é o significado do objeto para um “jovem artista”, se puder chamá-lo como tal. O objeto é um possível caminho para um desvio do sintoma, um deslocamento da carência, ele tem que ser como um lugar da manobra, o espaço do “gato”, como Rubens por tanto tempo investigou, a produção para um jovem tem que ser o gato, e por isso, obviamente, tem que ter calor, tem que ter tesão, libido, tem que ter vínculo real, tem que ter urgência para existir; é necessário que a produção se torne uma questão de vida ou morte, só aí ela estará enfim instaurada no espaço do “gato”. 

Há, porém, após o gato, um outro espaço, um espaço muito mais profundo: o “pós-gato”. (Indagação: Quem sabe, provavelmente algumas culturas “primitivas” devem partir do espaço do “pós-gato”, isto é, já partem de um espaço deslocado, por isso que se torna tão difícil para enxergarmos de fato sua produção, pois já partem de um espaço, de uma sintaxe, de uma linguagem que configura-se em um espaço completamente distinto que o nosso, ocidentais.)

O artista mesmo, ou o sobrevivente, como quis Warburg, é esse que atravessa o espaço do gato, é esse que faz a manobra do sintoma e imerge no espaço do pós gato. De tanto trabalho de deslocamento do sintoma, uma hora o sintoma vira, e ele se torna a própria coisa do trabalho, o sintoma se torna a própria pulsão do trabalho, o sintoma passa por uma transfusão genética. Uma hora, toda potência mística, toda potência da trieb do sintoma se torna a própria luz que irradia do objeto, e assim faz com que o objeto possua sua própria vida, possua seu próprio sintoma que é justamente o que o mantém vivo, é o que o mantém respirando, é o que faz dele um sobrevivente, é o que faz dele demoníaco, obra do daimon, pois é assim justamente uma obra então do sinthoma, uma obra daquilo que sustenta o próprio ser (indagação: se para Lacan, o sinthoma é o que sustenta a vida, então o sinthoma é também a própria pulsão de vida, faz parte da genética da faísca que nos mantém vivos) - impossível aqui não pensar nas pinturas negras de Goya que ilustram isso imediatamente, tanto enquanto conteúdo, assim quanto forma. São obras do sintoma em redenção, do sintoma fora de uma sintaxe, do sintoma podendo finalmente falar outra língua. E a forma da gramática do sintoma ocidental é altamente poderosa, por isso que são poucos os que conseguem fazer a manobra, e para aqueles que conseguem, para aqueles que conseguem cruzar o oceano do sintoma, enfrentar os ciclopes da carência é enfim chegarem na ilha do sinthoma vivos, resta-lhes a eternidade, a sobrevivência, a nachleben, a “história”.

 

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Acredito que de tanto se relacionar com o objeto, de tanto pedir algo para ele diariamente, de tanto trocar com ele, ouvi-lo, falar com ele, entender o que ele quer, entender o que se quer dele, um dia finalmente o objeto responderá. E quando o objeto de fato enfim responder (e isso pode levar uma vida inteira), sua relação com o objeto pode passar a ser de pura gratidão. Artistas como RES, Agnes Martin, Cy Twombly, por exemplo, chegaram em um nível de produção de si mesmo, junto com o objeto plástico, que a maturidade plástica, a relação deles nessa maturidade é de pura gratidão - e assim podemos chamá-los de “espirituais”. É um lugar de produção ou de relação com o fazer onde eles não pedem mais nada para o trabalho, não esperam mais nada do trabalho, simplesmente agradecem. O ato de fazer se torna assim um ato de agradecer. Eis o lugar do sinthoma. 

 

E é isso o que eu desejo - desejo encontrar o sintoma em outra forma dele, com outra cara, cara a cara comigo. Desejo atravessar a minha sintaxe sintomática e me encontrar no avesso de mim. 

Desejo um dia poder servir a lua de volta. 

É isso o que vim fazer nessa vida.

 

 

Vivo para a construção de um corpo que um dia saberá agradecer.

Texto crítico sobre a tradução de RES do poema de Sor Juana Inês de la Cruz

 

17 de novembro de 2018

 

...penso que esse poema RES traduz a Anna do futuro.

 

COVARDE!

Não existe uma Anna do futuro!

A Anna do futuro está aqui agora!

O que eu chamo de uma Anna do futuro será o que eu mesma farei de mim no presente.

Cansei de esperar por uma Anna, não espero mais! 

A Anna do futuro sou eu!

A Anna do futuro é essa que foi hoje ao Metropolitan sozinha para ver uma única tela - fui mesmo para ser assaltada! Para ser assaltada por quem haveria de me assaltar! Fui ao Met buscando ser violada. Depois de ficar caminhando pelo Metropolitan como quem não quer nada, fui estuprada em plena luz do dia por uma pequena pintura do Matisse. Era exatamente isso que buscava! Esse estado de fúria interna. Esse estado de ebulição.

Olho em volta de mim para ver se estão me vendo gozando na frente de todos.

Me sinto quase que constrangida por demonstrar tamanho prazer fora de quatro paredes - e ao mesmo tempo, sinto o tesão de estar gozando e só saber quem também estiver gozando junto de mim! 

Aquilo não é somente uma pintura, tinta sobre tela, aquilo é uma imagem em absoluto movimento, me suplicando para me movimentar junto dela. Há uma mensagem secreta no Matisse, que eu ingênua já lia mas nunca havia percebido que estava lendo, sempre senti a mensagem secreta correndo pelo meu sangue mas nunca havia compreendido que era aquilo a pintura do Matisse!, não havia compreendido que é justamente esse o assunto do Matisse: sua pintura é um suplício por movimento, sua pintura é um suplício por ousadia, por transgressão, por audácia, sua pintura é um suplício pelo erro, pelo comprometimento, sua pintura é um suplício pelo erotismo com a vida! Toda a intelectualidade de Matisse está na luminosidade de seu vermelho na tela, toda sua intelectualidade está justamente na manobra de deixar incrustada entre os veios da trama de seu linho o seu suplício por um ser humano em encarnação de si!

E assim entendi que fui até o Matisse para poder me sentar à mesa com Rubens em NY, e sentar à mesa com Rubens em NY seria então poder me sentar à mesa comigo mesma.

Por isso, não tem Anna do futuro coisa nenhuma! Se a Anna hoje diz para ela mesma que as traduções dos poemas de Sor Juana Inês de la Cruz por Res é um poema da Anna do futuro, então eu estava mesmo sendo ingênua e inocente e pior, estava sendo covarde!, estava me eximindo da culpa de não estar encarnada em mim. Quem diz sobre uma Anna do futuro é uma Anna da acídia, que é o maior pecado que um pode cometer nessa vida. Faço deste texto então um confessionário pois cometi esse pecado de adiar a mim mesma e justificar que me seria em um tempo futuro. Pago o que tiver que ser pago por isso, para não ter mais que adiar a mim mesma.

Não há Anna do futuro.

Não vou mais tirar o meu corpo da reta da bala.

Eis aqui o mundo ordinário que tenho que renunciar — o de achar que posso me adiar, o mundo em que eu acho que há tempo para as coisas, o mundo da falta de urgência.

Eu não tenho mais tempo para esperar por mim, tenho que me encarnar agora, tenho que me comprometer diante das pessoas e dizer que vinha me adiando — suplico ao meu mestre que doa o que tiver que doer mas para por favor, que ele não me deixe me adiar. Para que eu resgate a Anna de todos os tempos em mim nesse exato momento que é o único momento que tenho.

Se isso que eu chamo de Anna do futuro não estiver em mim aqui e agora então eu estou morta.

 

 

LIRAS 213

Letras sobre o espelho

Fragmentos de Juana Inês de la Cruz

Traduzidos e recriados violentamente por Res

Em 16 de novembro de 2018

 

 

Penhascos longínquos e brutais

Testemunhas silenciosas da dor intraduzível que sinto

— por serem invioláveis —

Eu pude confiar-lhes meus segredos mais íntimos

De minhas dores “o terrível “ não fala e voz nenhuma levanta-se no insensível

Imploro urrar minha falta, ainda que minha insuficiência não tenha medida, pois é tão largo meu fracasso que deitada em meu leito de procusto: Atropelada!

Com a corda no pescoço e a espada contra o peito

Não invejo nenhum destino que não seja o meu

Que a impotência que me corrói

Invalide em mim tudo que seja ordinário e me ponha em liturgia diária

De sacramento em sacramento me assento.

Não penso se há glórias nisto

Porque estou deste mundo tão distante, ainda que doces sejam as memórias, do meu passado ...

Estendo-me além de sua esfera conhecida: a coisa toda esta tão fora de minha jurisdição, que somente alcanço o inalcançável em trégua de pretender-me o que quer que seja: violentada, me faço em pedaços, e agarro o inferno insuportável dos céus em meus braços.

O caminho da renúncia de uma vida ordinária

 

20 de novembro de 2018

Anna Israel

...Insisto!

Só existe uma Anna!

Quero deixar claro que dizer que existem muitas Annas é um disfarce para me poupar de levar a culpa, para me desonerar da responsabilidade.

Só existe uma Anna e ela se articulará de muitos modos em 2019 para não poder culpar ninguém mais a não ser ela mesma.

Eis a vida ordinária que eu tenho que renunciar — a de achar que posso escolher, a de achar que posso ser qualquer outra coisa além de mim. Isso em si é uma fantasia, pois não há nada além de mim que eu possa ser. Qualquer outra coisa é a morte. Por isso, se escolher pela vida ordinária estarei escolhendo por estar morta.

A vida ordinária é uma vida sem cálculo, uma vida sem pensamento, uma vida sem estratégia, uma vida sem ficção, sem a articulação da ficção a serviço do meu contexto, a serviço do meu segredo, a serviço de minha missão. Ou ainda, a serviço não, mas como interface de minha missão: a ficção é a interface entre o meu sagrado e o meu profano.

Tudo está sempre a serviço de algo — começo agora o afunilamento das coisas a serviço de uma única coisa, que é a minha missão. E descartarei o que for inútil. (Aqui começa a segunda etapa da dor que a Lila comentou que só se agravaria).

 

 

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Sei que será ainda mais doloroso.

Sinto estar traindo toda a minha família.

Sinto constantemente que estou os abandonando.

Há um profundo sentimento de culpa nesse posicionamento.

Mas eu sei intimamente que não os estou traindo de fato.

A vida não pode ser assim tão literal.

Estou então respondendo ao motivo pelo qual eles me geraram nesse mundo.

Se vim deles, vim para traí-los e assim redimi-los. É um jogo muito ambíguo: no exercício de traí-los, estarei os redimindo e assim estarei apta para receber enfim meus pares nesse mundo. Estarei disponível para os encontros oportunos.

Preciso começar então o trabalho de dar nome aos bois, o trabalho de enxergar as velhinhas nos museus, de não me ludibriar pelas velhinhas que vêm me contar histórias, enxergar as fantasias que me conto.

 

 

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Talvez a maior fantasia seja mesmo essa que venho me contando há muito tempo: que existem muitas Annas. A maior fantasia é que eu posso culpar “outras de mim” por algo.

A grande fantasia é eu achar que não estou segurando as rédeas da minha vida, que outras pessoas estão segurando por mim. Começo agora a entender a dimensão de minha carência. Ela me ludibriou todo esse tempo para que eu achasse que existem muitas Annas, para que eu pudesse culpar qualquer outra coisa, para que eu pudesse inclusive culpar a carência! Mas a carência também sou eu e se eu não for capaz de lutar contra mim mesma então ninguém será! A única culpada por sucumbir a minha própria carência sou eu! O oposto disso é fantasia!

 

Minha carência não pode me dar nada pois a carência é carência! Minha carência é vulgar, ordinária!, é o meu senso comum.

Não posso esperar nada do outro pois esperar qualquer coisa do outro é carência!

A carência é um limo pegajoso que se envolve em mim e me faz ver as coisas todas distorcidas. Minha carência não irá me dar nada!

Preciso ser capaz de vê-la mais agindo sobre mim, preciso ser capaz de entender que ela não me dá nada, que ela só me tira tudo.

A carência é um bicho muito muito perigoso. E eu sou então também esse bicho muito perigoso. Eu sou também todo mal que existe em mim. Todo mal que existe em mim não é nenhum outro senão eu mesma! Toda vileza que existe em mim sou eu! Toda podridão sou eu! Toda mesquinharia sou eu e mais ninguém! E todo sagrado também sou eu! Tenho que arcar com isso! Tenho que arcar com isso e confrontar diariamente ninguém mais senão eu mesma!

 

 

Sobre a diferença da Anna quando está com o Rubens e uma outra Anna - há outra Anna?

 

20 de novembro de 2018

Anna Israel

 

 

 

Só existe mesmo uma Anna, e qualquer outra Anna que me refiro é uma resposta à falta de cálculo que ainda tenho ao me relacionar comigo mesma!

A Anna que calcula é essa que fica enfurecida quando vê que ainda se sabota em algo tão sério que é ser precisa em relação a ela. Também é loucura da minha parte achar que posso ser displicente em relação à precisão - é loucura da minha parte achar que posso me concentrar aonde tem ruído, é loucura da minha parte achar que posso burlar o meu corpo, achar que estou no comando, achar que basta eu querer que vou estar encarnada de mim! É loucura da minha parte qualquer possibilidade de pensamento de que sou livre. Hoje só posso dizer que sou uma prisioneira, essa é a fala possível das minhas entranhas - nem minha é, essa fala me diz muito antes de mim. Por isso, para eu estar encarnada, é necessário acima de qualquer coisa, muito cálculo.

A encarnação pede muito mais que só querer, a encarnação pedem algo em troca, pede sacrifício, pede muito espaço, muita atenção, pede entrega, pede a minha vida em troca, pede horas do meu dia dedicado a escrever e apagar e escrever e apagar - e não apagar pois estava ruim, mas apagar porque ainda era um engano, ainda era um engodo, apagar porque não estava pagando dívida nenhuma com o que havia escrito. A escrita tem que estar pagando por algo, a escrita tem que dar alguma coisa em troca para poder ser qualquer coisa, a escrita é uma negociação profunda. Não se trata de responder uma pergunta, não se trata de escrever um texto para preencher um vazio, a pergunta aqui não são itens enunciados que vou discorrer, mas a enunciação tem que ser a minha própria vida - o texto só pode ser o meu vazio sendo ainda mais dilatado, só pode ser o álcool sendo jogado em minha ferida, o texto tem que arder, o texto tem que me comprometer, o texto tem que me constranger.

Eis então: RES é capaz de me invocar em mim muito mais do que eu mesma. 

RES já passou mais tempo comigo sozinho do que eu mesma já passei de tempo sozinha comigo.

E para não parecer lamúria, há uma explicação muito coerente para isso: seu corpo é marcado pelo constrangimento, seu corpo já está marcado por ele ir na fila dos judeus que estão pedindo um falso passaporte e pedir um passaporte que afirme que ele é mesmo judeu, seu corpo está marcado por tudo que ele é, o corpo de RES é ele mesmo em ato de enunciação, seu corpo é marcado pelo sacrifício diário em nome da sua tragédia. E assim é capaz de abrir esse buraco em meu tempo - abre um buraco em meu corpo, me suspende de qualquer questão que esteja naquele exato momento comprometendo a minha vida, qualquer questão que esteja me ludibriando, me suspende e me deixa caindo no meu próprio abismo sustentado ainda pelo seu corpo, e assim, qualquer cinco minutos já é uma eternidade - e qualquer eternidade também parecem só cinco minutos -, qualquer cinco minutos diante do seu corpo já me provoca violentamente para que eu esteja na minha precisão.

Ser precisa aqui significa: estar em alinhamento comigo mesma no ato de intercâmbio com o mundo.

Rubens é esse cara, sua presença já coloca a vida de qualquer um em comprometimento. Ele agarra a vida do outro com suas mãos e lhe pergunta quanto que o outro é capaz de dar pela sua vida. Isso em fração de segundos - quase todos saem correndo, sem perceberem que deixaram suas vidas para trás. Já outros, como no meu caso, negocio diariamente com Rubens um pedacinho da minha vida. E quando dou pouco pelo meu desejo, RES me espreme até meu sangue derramar e assim eu obter o que realmente quero, assim eu finalmente balbuciar a minha dor. Esse é o pacto. Esse é o pacto que antecede o meu encontro com Res - esse é o pacto que armou o nosso encontro nessa vida, nessa circunstância. Esse é o pacto e o preço por tamanha intimidade.

Meditações 


Retiro espiritual de Anna Israel
Santo Antônio do Pinhal - Pico Agudo
10 / nov / 2018 


Quando escrevo para a tragédia, (o que não controlo controlando em mim – descontrole controlado) não estou comunicando nada, mas quando escrevo para o inalcançável em mim estou diretamente entrando nessa passagem que lentamente vou descobrindo ser eu. Escrever desta maneira ou tendo o foco no sem lei, acabo por poder enfim navegar no meu próprio sangue. Antes eu achava que queria assim, provar algo sobre mim para mim mesma, ainda que fora de mim, sabia que existia um alvo - certamente poderia fazer sentido no começo. Queria muito dizer quem era eu, que eu era íntima da tragédia que me perseguia, que eu era a mulher em carne viva, ferida aberta em que o destino jogava álcool puro. Eu sempre soube qual era meu álcool puro, sei, hoje, muito bem qual é meu combustível. Certamente eu tentei dizer isto. Mas hoje, uma vez que eu e a tragédia somos um, o que entendo sobre isso é que, ao dizer algo nestas condições suspensas de lei humana, o agente desse dizer se inventa imediatamente, se altera completamente, aquele que nela diz a tragédia só pode hoje ser uma mulher “intransitiva“, isto é, em conexão direta com aquilo que em mim queima, portanto: mulher em relação divina — mulher em espaço inviolável. A existência da tragédia – do Armagedom íntimo – é hoje inseparável dessa mulher, ela serve à tragédia, e assim ela se inventa imediatamente em mim, e eu me invento violentamente para o mundo - sou para a tragédia. Mas ainda não é isso – não fui precisa.

O próprio sagrado vive dentro de mim. 

Dizer o sagrado dentro da minha intimidade é minha vocação, ainda que eu esperneie de medo. 

Dizer a neblina do topo da montanha é na verdade ser portadora da sua voz através do meu corpo – da nossa voz que sai de mim. 
Te invoco minha criatura redentora para poder adentrar a minha solidão.
Te invoco em meus textos para poder estar comigo.

Te invoco antes de dormir para me proteger dos fantasmas. 
Você se invoca imediatamente em meu corpo, de assalto, sem que eu ao menos perceba, quando estou diante de você, e assim me comovo – sempre você transborda as lágrimas de meus olhos de comoção por sentir você derrubando minha porta à distância.

A economia psíquica da vida

Anna Israel, 2 de outubro de 2018

 

 

1. A vida tem uma economia psíquica própria  

2. a vida é uma entidade própria - o tempo é uma entidade viva, e assim, ele precisa de uma tecnologia específica, uma engenharia precisa para que algo possa ser articulado, para que não haja ruído nas decisões do arquiteto. As passagens, obviamente acontecem no interno do sujeito, e são dolorosas, extremamente dolorosas, a travessia de uma passagem é uma tempestade em alto mar, uma tempestade em um barquinho, com um único tripulante, ele se questiona o tempo todo se vai sobreviver, não arreda pé, leva muitos caldos, tenta diversas alternativas para que seu barquinho não afunde, e assim, finalmente, passada a tempestade, com barquinho todo fudido, com o tripulante cheio de cicatrizes, em carne viva, sangrando, goza em estar vivo e sobrevivente da tempestade em um mar  finalmente sereno, do outro lado da travessia - a negociação com os porteiros não é nada simples - Kafka foi um gênio - os porteiros te tiram tudo para ver até onde você aguenta, para te deixar calejado para poder assim entrar uma porta não somente para gozar desse novo espaço, mas para estar calejado para a próxima porta. O porteiro na verdade, apesar de terrível, apesar de ter me deixado quase maluca, quer me preparar, me calejar para o que vem depois. Quem sabe, passada essa dor, me sinto mais forte para enfrentar tempestades ainda mais agressivas - agora estou mais forte para não morrer na negociação com o próximo porteiro.

A força do tripulante é extremamente necessária para que o mar possa enfim estar sereno. O que quero dizer com isso é que as passagens de um sujeito não são somente de um único indivíduo, não são somente internas, são passagem também externas. Uma passagem muito poderosa é vital para o próprio tempo. Sinto que os deuses do tempo, os deuses da nachleben de alguma forma me protegem, me dão forças, me sopram respostas necessárias para que algo possa ser de fato atravessado. Não para mim. Mas para algo muito maior do que eu. Para o funcionamento de uma engrenagem muito mais poderosa. As passagens de um sujeito são lubrificantes nas articulações da máquina da naschleben. Por isso, acredito que as passagens são uma troca poderosíssima entre as energias endossomáticas e exossomáticas. Uma passagem concluída é a comunhão feliz entre essas duas forças, é elas estarem ajustadas no interior da máquina do arquiteto.

 

3. Quero agradecer profundamente todos os integrantes do Atelier do Centro - sinto que todos me emprestam um pouquinho da própria força do desejo para que coisas muito sérias sejam ajustadas.

 

4. Rubens, obrigada por me proteger, obrigada por colocar tantas coisas em cheque em nome de coisas maiores que você. Estou a cada dia afinando minha audição, a cada dia estou aprendendo a te ouvir melhor. Isto é, ouvir não tem nada a ver com o que imaginamos ser ouvir, ouvir significa estar realmente entregue, ouvir significa estar disponível para que algo possa ser ouvido e compreendido, ouvir é deixar o próprio corpo ouvir e assim me dizer o que ouviu. Assim como o mestre se transfigura muitas vezes, o mestre coloca a própria posição de mestre em risco em nome do discurso, em nome da fala, da fala poderosa. O mestre empresta seu corpo para que algo fale por ele. O discípulo tem que estar disponível para ouvir. Hoje, eu posso finalmente, do mais profundo da minha alma, dizer que eu sou uma discípula. E dizer que Rubens é o meu mestre.

Nessa passagem foi-se intensificado um elo. Um elo da origem da relação mestre-discípulo. Onde ambos se tornam uma coisa só, onde ambos dividem o mesmo tabuleiro do jogo, são um contexto interrompido por dois corpos. A verdadeira relação mestre-discípulo é o extremo do erotismo - é realmente uma transgressão do interdito do corpo.

A batalha mitológica do desenho

 

 

Rubens falou hoje sobre a dificuldade que tem sido converter as coisas ultimamente. Claramente, a cada conversão, deve elevar a coisa para um grau que converter esse convertido deve ser algo desumano, altamente perigoso – já que o espaço da conversão é salvaguardado por guardiões muito perigosos e bem pouco amáveis. RES converter algo que está sob supervisão desses guardiões, deve ser mesmo algo de um suicida – de duas, uma: você morre ou você cai em um território com guardiões ainda mais tenebrosos. E o terrível é que é um caminho sem fim – o preço da vitória é a entrada em um espaço ainda mais rarefeito. Mas RES não tem mesmo opção, é isso ou a morte. Isto é, a melhor opção é a conquista, é sair vivo, mas essa opção o leva para um lugar que terá sempre mais chances de então ele perder.

As sessões de desenho são mesmo fases de uma grande batalha mitológica, de um herói que não tem opção alguma senão a de arranjar um modo de se matar antes que ele morra. É isso. Me parece que essa é a manobra que RES faz nos desenhos, esse é o ritual feito nas sessões, essa é a transgressão perigosíssima do interdito: Rubens só vence a sessão, pois se mata antes para que o desenho não o mate por completo – e só se matando é que ele é capaz de sobreviver a sessão, só se matando é que ele é capaz de desenhar, só se matando é que é capaz de fazer o desenho “virar’, e assim finalmente o acordar, o despertar, o ressuscitar – só que o acorda sempre em um novo lugar.

Mapeamento de alguns pontos fundamentais sobre a cabana Frei Otto de Res na FAMA em Itu

Anna israel

5 de setembro de 2018

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


 

 

 

finalmente chegar a uma forma, mas quase que ao contrário, a forma serve como engate, como dispositivo para que uma tecnologia, uma estrutura seja criada. Frei Otto quis desenvolver uma estrutura que fosse capaz de sustentar, por exemplo, a leveza e a impermanência de uma bolha de sabão flutuando no ar. RES me parece estar querendo constantemente com sua obra, e com suas 20 cabanas, criar uma estrutura possível que possa sustentar a contradição do homem – de forma não determinística –, criar uma estrutura capaz de sustentar o nosso estado de constante movimento, o estado de impermanência do homem, criar uma tecnologia para uma forma que abrigue o homem, porém não o aprisione, um respiro para um ser já aprisionado; uma estrutura possível para ser a morada de um ser humano. Nesse sentido, a estrutura-morada não se trata da Cabana enquanto objeto, enquanto algo que habitamos, mas a Cabana se torna o display para a estrutura na verdade do próprio homem: a Cabana em questão não é a obra supostamente finalizada, mas a obra é uma atmosfera; a obra me parece um dispositivo para que a Cabana de cada um seja construída.

 

através do dispositivo da Cabana, estavam trabalhando na verdade para eles mesmos, estavam construindo não a Cabana de Rubens Espírito Santo na Fábrica de Arte Marcos Amaro, mas iniciando a construção de suas próprias Cabanas. Aqui me parece que há uma política realmente direcionada para o outro, sem a ingênua ideia de um altruísmo, mas entendendo o outro como na verdade um modo de acessar a si mesmo.

2. Ao não estar interessado na forma, mas no desenvolvimento de uma tecnologia que possa sustentar uma forma, posso concluir aqui que há claramente uma superação de uma arte moderna que se apresenta, apesar de fingirmos que não, ainda não superada até os dias de hoje. A Cabana é o início de algo; é uma obra que não se finda em si mesma, não existe como sua própria finalidade. O que quero dizer com isso: há aqui um esgotamento da ideia da mídia, ou ainda, aqui o esgotamento da mídia não é a finalidade do trabalho de arte. Rubens, com a Cabana, claramente não está interessado com uma questão “autoral”; a ideia do “novo” não está circunscrita na “novidade da mídia,” mas o novo está justamente em entender que um procedimento, uma epistemologia, um approach com o fazer tem que ser outro – um tipo de approach foi esgotado com a arte moderna, inclusive foi esfaqueado por Duchamp, ainda que não tenhamos inferido sua obra com sucesso até hoje. Mas, com isso, vejo a Cabana como uma possível inauguração disso que chamamos do “contemporâneo”, isto é, o início de um caminho sem estar carregando um peso morto nas costas. A Cabana é fresca. A Cabana não tem rabo preso, tem sua “ficha limpa”. A mídia, no caso, instalação, pintura, escultura, fotografia, desenho, na Cabana é somente um recurso – a mídia é somente uma tecnologia para que algo seja possível, para que algo possa ser consumado, para que a obra de arte volte a ser consumada, e não consumida pela carência daquele que se coloca na posição de espectador e quer obter algo dela.
 

3. Consumir x consumar. É apresentado um dado bastante significativo sobre o modo estéril com que nos relacionamos hoje em dia com o objeto de arte. Não parece haver mais um envolvimento visceral com o objeto.

4. A cabana apresenta uma solução para uma relação obsoleta da “obra x espectador” com o sujeito. A cabana destrói o nome “espectador” daquele que se relaciona com ela, e dessa forma ela obriga que outro nome seja inventado, ainda que não saiba dizer que nome é esse, a relação de “obra x espectador” é defasada com a existência da Cabana
O próprio display do museu me parece obsoleto. Mas quais são as possibilidades para uma cultura ocidental de transcender o display obsoleto do museu? A Cabana me parece uma solução para essa questão onde, apesar do trabalho estar supostamente instalado em uma fundação de arte, ele provoca a própria concepção do que é uma fundação, provoca o acervo, provoca os demais artistas, intimando aquele que passa por ela a conhecê-la, e não a entendê-la. Ou seja, a Cabana se torna um outro não necessariamente excluído do sujeito, mas um outro do próprio sujeito que ele pode vir a conhecer. A Cabana, apresenta uma manobra muito interessante enquanto ruptura de uma ideia cindida de “arte ocidental” e “arte primitiva”. Não há quem negue que esta obra está inserida no contexto da estética ocidental, isto é, podemos inferir que Rubens assimilou a história da arte ocidental. Mas em termos de acontecimento, de display, da relação sujeito x objeto de arte, a Cabana me parece travar uma relação, ou implicar uma relação com o sujeito, muito próxima da relação sujeito-obra dos objetos de arte primitiva, onde o objeto de arte está a serviço de algo muito maior que ele, está a serviço de um acontecimento.

5. Ressignificação da ideia de “dentro e fora”. Rubens leva essa questão para um lugar bem pouco literal ou alegórico, onde a Cabana não se trata de um espaço que está dentro da fábrica, mas consegue transvestir a fábrica para que a fábrica passe agora a estar dentro da Cabana. Rubens sutilmente revela, através de manobras plásticas, espaços externos à suposta “Cabana”, fazendo com que, dessa maneira, fique ambíguo qual o espaço mesmo que nos referimos quando nos referimos à Cabana. É provocada essa relação de avesso com a fábrica e em última instância, de avesso com nós mesmos, expondo o sujeito à ele mesmo e às suas carências.
 

6. Construção por negatividade: hoje não há mais lugares possíveis para serem construídos, ao menos não na epistemologia do que é uma construção que havíamos no passado. Em um beco sem saída ou você morre ou você inventa uma saída. Segundo o filósofo Giorgio Agamben, a única saída para construirmos algo hoje é através da negatividade. Nesse caso, pequenos detalhes da fábrica, do espaço, da própria estrutura da Cabana são evidenciados não de forma construtiva, mas através de uma desconstrução de algo: apagando um elemento, outro elemento pode ser evidenciado. Há uma parede inteira composta com buracos que foram preenchidos com massa corrida, e bem no topo da parede, pedaços de madeira, madeira bruta e uma madeira pintada de preto. Como não há como competir com o construtivismo russo, através do display do construtivismo russo, RES, através de um pequeno foco de luz apontando para essa parede supostamente irrelevante, faz uma homenagem imediata aos seus mestres, àqueles que o conduziram pelo caminho da plástica quando jovem – aqui há uma construção através da negatividade.
 

7. Retorno de uma ideia de arquitetura enquanto a construção do espaço interno de um sujeito através da construção de sua habitação, onde sua habitação não é o espaço onde ele dorme, mas é o corpo que ele mora.

ALGUNS ASPECTOS SOBRE O DESENHO DE RES

Anna Israel, dia 10 de agosto de 2018

 

 

  1. Religiosidade

Seu aspecto religioso ­– acredito que seja um novo tipo de arte religiosa (ou ainda, um resgate disso, um retorno), uma religiosidade fresca, atualizado também ao seu tempo e aos costumes de um tempo (isto é, está inserido maciçamente em uma tradição). É religioso sem precisar fazer menção à religião, sem precisar apelar para algo alegórico ou conotativo ou mesmo denotativo, é religioso pois rompe com uma esfera conhecida da linguagem, da gramática, da sua implicação diante de mim, rompe a minha própria esfera do que sou eu diante dele. Somente a partir desse ponto sinto que posso começar a esboçar o porquê de ser religioso. Rubens não está hoje querendo ser Giotto, muito diferente disso, Rubens incorpora algo que Giotto incorporava e atualiza esse algo para o seu tempo e a serviço de um tempo futuro. O que acontece é que o desenho se torna um veículo de diálogo entre algo em mim e algo que ele salvaguarda, e faz a mediação entre esse diálogo, diálogo este que é visceralmente sentido pelo meu corpo, que me tira de um estado e me insere em outro, um outro mesmo, de repente não sei mais onde estou, mas não saber onde estou se torna o oposto de estar perdida, mas enfim encontrada; me submete a um novo estado de mim mesma, me anima de volta – de volta a algo que pressinto um dia vir a ser. Por isso o desenho me faz retornar a um futuro de mim, um retorno a um futuro pois, diante do desenho, o próprio tempo se altera, a cronologia das instâncias do tempo se entrelaçam, e resta somente uma coisa, uma suspensão, o meu próprio estado de estar animada, de estar viva, de sentir fisicamente o calor da vida correndo pelo meu corpo e me soltando uma grande gargalhada banhada por lágrimas por não saber ao certo o que está acontecendo, sinto isso, a própria contradição como entidade viva dentro de mim, entidade viva animada em uma folha de papel em branco ressoando em mim. Rubens acende a chama disso que chamamos a religiosidade. A religiosidade, quem sabe, é uma chama, aquele que não precisa de olhos para ver, e por isso que os céticos podem chamar-nos de “crentes”, não porque não sentem o calor da chama, mas porque temem se queimar se chegarem muito perto (quem sabe os céticos sejam aqueles que na verdade muito sentem a chama...).

 

2. Hoje, depois de alguns dias um pouco conturbados após a última sessão de desenho, posso dizer que o que há nos desenhos de Res é algo realmente VITAL (etimologia dessa palavra: relativo à vida, do latim, vitalis), é algo que realmente está relacionado ao vivo, ao oxigênio que respiro, ao calor circulando pelo meu corpo, ao gozo, a vontade de estar vivo, de fazer, de existir, de operar, de estar em diálogo com a matéria da vida que está aqui em mim, ao me unir a ela e deixar a minha marca no mundo, mesmo que seja um pequeno arranhãozinho, esse arranhãozinho é do tamanho do universo inteiro, pois é isso o que eu sinto diante de seu desenho, me sinto empoderada, empoderada e ao mesmo tempo insignificante, talvez somente me sinta empoderada pois finalmente me sinto insignificante.

3. O novo

4. O tempo presente de Bergson 

5. A mulher – a fatura está intimamente relacionada com a histeria – o artista que possui uma poderosa fatura é aquele que na verdade conseguiu entrar no universo histérico da mulher – mas com um display que é sua obra.

CITAÇÕES DE ALEXANDER MCQUEEN

Tradução por Anna Israel

13/agosto/2018

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“Você tem que conhecer as regras para poder quebrá-las. É para isso que estou aqui, para destruir as regras mas manter a tradição.”

 

“Eu passei um longo período aprendendo a construir roupas, que é algo muito importante de se fazer antes de você poder desconstruí-las.”

 

“Para mim, a metamorfose é um pouco como a cirurgia plástica, mas menos drástica. Eu tento ter o mesmo efeito com as minhas roupas. Mas em última análise eu faço isso para transformar mentalidades, muito mais que corpos. Eu tento e modifico a moda como um cientista, oferecendo o que é relevante para hoje e o que continuará sendo relevante amanhã.”

“Eu quero empoderar a mulher. Quero que as pessoas tenham medo das mulheres que visto.”

 

“É quase como colocar uma armadura em uma mulher. É um modo bastante psicológico de vestir”

 

“Minhas roupas são sobre o que passa pela mente das pessoas, sobre as coisas que as pessoas não querem admitir ou enfrentar. Meus desfiles tratam do que está enterrado na psique das pessoas.”

 

“Eu não penso como uma pessoa comum que anda pela rua. Eu penso de forma bem perversa.”

 

“Para mim, o que faço é uma expressão artística que é canalizada através de mim. Moda é só o veículo (o meio).”

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

                           Alexander McQueen, Widows of Culloden, 2006                          Alexander McQueen, outubro de 2009

Tentando refletir um pouco

Tentando refletir um pouco sobre a afirmação que deve ser estranho ser você: realmente, eu não sei por qual motivo ao certo, a chave de funcionamento do ser humano me parece muito parecido, isto é, estamos todos vivendo e respondendo às situações, respondendo a essa única experiência de estarmos vivos de um modo muito esquisito: falamos de assuntos, nos gabamos de conquistas, discutimos frivolidades, no fundo me parece que nosso comportamento e fala é só um modo chulo de estar constantemente afirmando, através de inúmeros gestos, que somos alguma coisa, quando na verdade não somos nada. O interessante de um cara como você, é que enquanto 99% da humanidade está buscando de algum modo uma afirmação de que são algo, você já parte do princípio que não é nada, e assim, não responde à vida afirmando o que você é, mas pelo contrário, vive a investigar tudo o que você pode ser. E esse é um dado muito interessante inclusive sobre seus desenhos, sobre a maturidade desse trabalho em específico: eles partem do fracasso, eles não “gastam um gesto” para chegar em um ponto onde outra coisa age por você; agora me parece que o que acontece é que você já parte do ponto onde você já não existe mais, e justamente por isso é que eles são aquele momento de virada do papel, pois eles não querem afirmar nada, não querem afirmar “algo que você é” para o mundo, senão questionar todas as coisas que você pode ser - ou ainda mais, eles são um atestado que você não é nada, e esse ser nada é o que faz do desenho tão precioso e tão difícil de capturar. Como você falou, é um desenho do muçulmano...

Pensei um pouco mais sobre isso depois que conversei com meu pai sobre o aniversário do Marcel em Laranjeiras. Ele me contou algo que realmente faz com que eu veja um pouquinho mais a profunda relação de homens bilionários, no caso você e o Jorge Paulo Lehman.


Eu pedi para ele me contar da festa, e que ele me falasse todos que estavam presentes. Até que ele fez um comentário interessante, “o Jorge Paulo acaba sempre ficando na mesa sozinho”. Intrigada com o comentário, eu pedi para que ele me explicasse o que queria dizer. A questão é que ninguém quer sentar com o JPL, pois é sempre “muito tenso” conversar com ele. Não tem conversa com o JP, é sempre só negócio, e segundo o meu pai, graaandes negócios - ele só pensa nisso, ou melhor, não é que ele “só pense nisso”, mas a configuração da máquina dele, assim como a sua, está perfeitamente ajustada e engrenada e sempre lubrificada, para girar visando abastecer um foco.


Por isso que eu acredito mesmo que um dia vão estudar seu cérebro, pois o objeto do JPL me parece mais claro, são os grandes negócios, mas o seu objeto, realmente, Rubens, fica muito mais difícil de nomear.


E aí que eu acho que a organização fez toda a diferença na sua vida e na do JPL, não há NADA no caminho de vocês, e é tão forte, que inclusive ninguém se atreve a entrar no caminho (ou sentar-se na mesa ao lado) do JPL, a cabeça está toda organizada para trabalhar aquele “grande negócio”. Deve ser por isso que a incompetência, por menor que seja, te incomode tanto, pois é um ruído em uma nota hiper afinada, deve ser como uma mancha de sujeira em uma água cristalina; deve destoar muito do funcionamento da sua máquina.

Relato de Anna Israel sobre o Acontecimento aula de segunda de 12 de março de 2018, ou Observações sobre o abalo

Anna Israel

13.03.2018

 

Escrever sobre a aula de ontem, sobre o que aconteceu, nem que seja articular o que resta da aula que se passa agora em mim, do pós aula, a aula ainda se fazendo presente. Quem sabe um início de relato da aula seja partindo dos resíduos da obra-aula em meu corpo, já que a aula de Rubens é um agente de movimento do outro, por mais escondido que se encontre esse outro, RES desperta o outro da aula (uma sombra) e alguma coisa outra em mim que me deixa em abalo.

Há um desconforto nas tentativas fracassadas em encontrar um significado preciso para esse estado ou mesmo uma resposta para tamanho desconcertamento, (desconcertamento, algo foi quebrado, fui destituída de algo concertado em mim, uma certeza foi devastada). Há uma vontade em tentar articular o porquê do meu abalo, o que eu ouvi sendo dito, qual frase foi dita, qual agressão foi feita, qual possibilidade me foi tirada; me pergunto profundamente, o abalo é uma resposta ao quê? O que exatamente foi abalado? Como foi abalado? Todas essas hipóteses, ou modos de pensar a questão me parecem não fazerem mais sentido, esse método de investigação não mais é eficiente para esse espaço de acontecimento.


A questão é que muito pelo contrário, pressinto esse estado de abalo como justamente um pequeno estado do que sobra de um corpo que ainda acha que as coisas são possíveis. O estado de abalo como como a ressaca de um corpo violado, e por mais doloroso que seja, quem sabe seja o único modo que tenho hoje para entender a aula de ontem, entendê-la de forma completamente nova, o único modo de desentendê-la, quem sabe a aula invisível que na verdade aconteceu foi justamente na tessitura desse abalo. O abalo não é a consequência de um significado terrível compreendido por mim da aula, mas é a própria aula em estado de causalidade em mim, é a própria aula reorganizando minhas placas tectônicas.
 

Com isso, posso começar a entender inclusive um pouco mais do que se estava sendo articulado na aula de segunda, em relação ao que é mesmo uma obra de arte, e aos lugares de comunicação que pode-se chegar um artista. Parto do princípio do que uma “simples aula” pode gerar em um sujeito enquanto chave essencial para perceber o fracasso dos dias atuais, onde nada se é abalado, onde tudo se é contemplado e compreendido, onde a vida parece seguir uma estrada plácida e sem muitos buracos – sem que percebamos que a estrada limpinha e sem buracos, com o perfume dos jasmins está na verdade nos levando para um campo de concentração, essa estrada é ditadora, e qualquer tropeço já causa alarde.


Sinto como se as possibilidades me tivessem sido tiradas, apesar de não ser a falta delas o agente desse abalo, pelo contrário, o agente do abalo está mais próximo do que sobra na própria constituição da falta, do outro nome para essa coisa que eu por ora só entendo como falta, ou então, como impossibilidade.

 

Um grande pintor não dispõe do talento de pintor para se fazer pintura, um escritor não dispõe do talento de escrever para entrar na escrita, um mestre não dispõe do talento da oratória para penetrar o outro, todos esses grandes homens que construíram uma obra, dispuseram de algo impossível[1] para esquentar a matéria da pintura, da escrita ou da transmissibilidade. Há algo muito mais sedutor e muito mais terrível nas profundezas das águas escuras do possível – o perigo do possível é que sem percebermos ele se torna tirânico, se torna autoritário, se torna a lei, a ordem, a regra, o cotidiano, o comezinho, o mapa, o script, a mãe, o pai, a avó, o possível é o que nos coloca no caminho; mas o grande artista se inventa no seu próprio descaminho.

“Começar tudo do zero”, não por um charme, não enquanto ornamento, mas algo novo que me surge é que estamos o tempo todo no nosso zero, estamos o tempo todo no deserto árido da existência, impossibilitados de dizer, impossibilitados de fazer – e se não fosse essa impossibilidade, estaríamos asfixiados de verdade, talvez enfrentar essa impossibilidade seja a única chance de poesia que temos nessa vida, seja a única chance que temos de romper a cerca de um autoritarismo profundo incrustado em nossa carne de séculos que carregamos, em busca do perfeito. Não há entidade mais autoritária que a perfeição.


De volta ao abalo, a essa coisa que foi dita nos intervalos e junções de cada palavra articulada por RES – lá não havia um talento em oratória ou um virtuosismo em pedagogia. Lá havia a fissura mesmo sendo proferida através de cada anteparo usado pelas palavras para cercá-la. Creio que seja disso que Heidegger se refere em A Origem da Obra de Arte: a obra de arte não é o conjunto de objetos feitos por um sujeito, a obra é essa massa invisível que passa através deles, é o que os aquece, é essa comoção que nos penetra e que faz emergir uma coisa nova, aterrorizante. Rubens não tece palavras ou objetos ou desenhos como seu “corpo de obra”, mas tece o próprio inaudível.

Posso agora entender um pouco mais materialmente o que Agnes Martin disse sobre a obra precisar do outro para de fato existir. A obra, na verdade, é essa relação de atrito que, de tanto friccionar, gera calor, e ao ser abalado por esse calor, a obra está de fato se proclamando enquanto uma entidade, a obra está estimulando a doença. Esse é o poder de uma grande obra: ela é amoral, penetra até os ínfimos poros, queira percebamos ou não, ela te pega desprevenido, vai te penetrar em qualquer posição que estiver à mão, e quando menos perceber, estará sendo estuprado por ela. A grande obra não depende da disposição do sujeito para ser vista, já que é ela quem o vê, é ela inclusive quem inventa um possível aparelho de visão outro do sujeito para vê-la.

É mesmo um alto nível de comunicação...

 

Não há como RES apresentar a cada um sua própria fissura, pois isso seria autoritário, e a fissura, muito pelo contrário, é o descaminho, o tropeço, é o que sobra de um autoritarismo. Concluo então com a obra de RES, que o papel da grande obra de arte, daquela que nos parece perdida há muito tempo em nossa civilização, é a de gerar calor, gerar fissura, é a de gerar doença.

 

[1] Heidegger chamava isso de um outro diferente.

“(...) a obra de arte, além do caráter de coisa, é ainda algo de outro. Este algo de outro que está nela constitui o artístico. A obra de arte é, de certo, uma coisa fabricada, mas ela diz ainda algo de outro diferente do que a mera coisa propriamente é, άλλο αγορεύει [άλλο=outro, αγορεύει=diz].”

Heidegger, A origem da obra de arte, Edições 70

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Esboço de questões fundamentais que envolvem a Cabana Frei Otto enquanto objeto de arte contemporâneo.

 

 

  1. O “Frei Otto” da Cabana: homenagem a um arquiteto alemão que desenvolveu uma tecnologia específica para estruturar uma forma. Como a Cabana, Frei Otto não tinha interesse em desenvolver uma forma, isto é, sua pesquisa não se trata da fundação de um objeto finalizado, não se trata de um percurso para

1. Aspecto político da Cabana, isto é, a obra como um espaço-dispositivo que gerencia e governa a partir das próprias leis que aquele espaço instaura, a partir, inclusive, de uma carência espiritual que vivemos. Por isso, há aqui uma reunião essencial entre a política e o espírito. Sobre sua construção, por exemplo: 15 jovens passaram a semana inteira construindo a Cabana, em teoria enquanto “assistentes de um artista” (foi uma fala que ouvi mais de uma vez nesses últimos 4 dias). O que há de profundamente interessante na própria manobra da Cabana é que esses jovens,

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