GABI CELAN

Anna Israel, 2017

“Sou responsável por meu dom. Minha comida é um dom, minha geleia com o chá é um dom,

minha saúde, minha disposição (hoje sorrindo), o sol entrando pela sala é um dom, o telefonema

do meu amigo é um dom, a satisfação de ter cumprido o dever; sua realização é um dom.

Minha blusa azul cor do céu está limpa e é um dom, muito especialmente o tempo lá fora e a calefação

são um dom, o estado do meu estômago, um dom das alturas, a presença dos meus amados.

Prepare-se para pagar por seus dons com arte.

Prepare-se para pagar suas dívidas com arte.

Você está sacrificando sua liberdade pela arte.”

Louise Bourgeois, 13 de outubro de 1997.

                                           “O espírito efetua uma eterna autodemonstração.”

Novalis em Pólen

 

​Começar pelo minúsculo, pelo insignificante, o quase despercebido, por um gesto quase invisível que vejo como o tropeço do trabalho em direção à solidificação dos pactos, que propulsiona o primeiro gesto de contorção de uma bailarina em direção a conhecer as possibilidades de seu corpo, o primeiro movimento de um bebê que desperta nele nem que seja uma ínfima consciência de que ele está em vivo, de que seu choro pode despertar a atenção da mãe: uma pequena circunferência de ouro maciço, uma arruela minúscula de ouro maciço usada no suporte da Cesta Básica, aqui usada na tensão de uma madeira pintada de azul, velha, que tenciona o que chamamos de mantimentos “básicos” contra a parede: arroz, feijão, farinha de trigo e mandioca, óleo, café, açúcar, sal, macarrão, balas, um monitor de televisão antigo, uma cadeira, livros de arte, filosofia, literatura... do que se trata o básico? O que o mundo chama de básico e o que é mesmo o básico para um ser humano, subjetivamente, o que cada um necessita, para construir a sua própria base, sua estaca que finca os pés na terra? O “básico” de um país subdesenvolvido como o Brasil é uma coisa; na Alemanha, já é outra, e na Gabi, o que é? O que é essa cesta básica que Gabi está construindo para si, está construindo em si? Cesta Básica me parece um amuleto, um escudo de Gabi para a imposição de um país, de uma classe média brasileira, uma demanda de uma classe média brasileira, onde assistir à novela da Globo é a nossa maior fonte de poesia. Um monitor de televisão captando rede nenhuma senão a sua própria rede, Gabi querendo captar em seu trabalho sua rede, seus sinais, sua emissão, sua implicação no mundo, no outro; esse monitor em latência de uma rede a ser captada, obsoleto, não mais útil para as exigências “básicas” de um país sem antena, sem cor, sem dispersão, uma possibilidade para começar a transmutar, a contorcionar o que foi dito, imposto a ela do que deveria ser, do que deveria comer, ler, assistir, vestir, dizer, fazer, e assim retorno para a minúscula arruela de ouro silenciosa em um canto, inserida na Cesta Básica. Retorno para esse detalhe insignificante, para aquilo que transcende a pura e simples necessidade, ou será que essa peça insignificante não é mesmo o que deveríamos entender como nossa necessidade mais vital, uma peça tão pequena e inútil e preciosa, não seria ela o que realmente Gabi está resgatando para manter-se viva, manter-se viva ao contrário de simplesmente sobreviver? Parece-me que a Cesta Básica enseja dar início a uma fala, um gemido com sintaxe de Gabi, inicia a invenção de uma gramática disso que tanto se remexe dentro dela..

Gabi inicia a construção de sua própria cesta básica, de uma cesta que levará consigo no içamento de quem é, mune-se dos acessórios convencionais da classe média brasileira, de ser a menina de Pirituba, esposa de um gênio, bailarina, museóloga, aspirante a artista, discípula, filha de pais jovens, criada pelos avós, está em munição do terreno em que está circunscrita, do terreno dela mesma circunscrita, da capenguice do Brasil, do “gato”, da falta da alta tecnologia, de soluções para sobrevivência, do pequeno espaço de trabalho que possui no galpão, todos esses apontados para outro sítio, todos são o veneno de uma flecha apontada para uma carreira, para uma profissão em latência, uma profissão em invenção, uma profissão não ensinada nas universidades, que não está descrita nos livros de arte, de filosofia, de literatura, não está fazendo chamada no jornal para novos funcionários, ainda que a chamada esteja sendo feita dentro dela mesma, algo a chama para a destruição dessas paredes de alvenaria, algo a chama a remexer a estrutura das regras ditadas pelo Brasil, pelas regras de sua origem, de seus antepassados, algo a chama a remexer seu próprio mundo subjetivo, desconfia de si mesmo, é chamada a remexer sua fala, sua fala mexe e se remexe por esse pequeno espaço de trabalho no galpão, vai abrindo respiros pelas paredes, que obviamente são suas próprias paredes internas, suas rígidas paredes que aparentam ser somente placas de MDF, e aos poucos, transforma aquele espaço minúsculo em um espaço desejado, vai descobrindo seu corpo como espaço desejado por ela mesma na ânsia que tem em produzir, em vestir sua bota de couro grosso com sua saia plissada de bailarina, e, com sua furadeira de alta tensão, cria amarrações pelo espaço, tensões no espaço, tensões nela mesma, cria problemas plásticos como armadilha para encontrar soluções éticas no pacto com ela mesma. Flecha apontada para aquela circunferência minúscula de ouro que tensiona os primeiros equipamentos de uma cesta básica em pé, firmes, em um começo de uma nova conjuntura, de um novo status de si.

Conseguir minimamente ver o trabalho, seria antes, ou concomitantemente, ver quem o fez, se existe algo diante de mim, e, se o pacto para existência desse texto existe, então é porque existe alguém por trás disso, alguém querendo algo, alguém fazendo, alguém caminhando ou engraxando os sapatos para uma caminhada longa, costurando com cabo de aço o couro de sua firme bota de trabalhador para adentrar uma selva ainda inexplorada, uma selva que curiosamente parece-me que, quanto mais adentramos, mais inexplorada ela se revela, e a latência insuportável de sua infinita inexplorabilidade se revela diante de nós. Nesse caso, essa selva chama-se Gabi Celan; esse chamado da selva, é disso que estamos hoje chamando de Gabi Celan, ainda que não saibamos ao certo o que ela é, quem ela é, o que vai fazer, o que está dizendo, hoje Gabi ouve os gritos distantes de uma mulher vinda de seu próprio futuro, e corre velozmente atrás dele, corre atrás desse grito, ainda que essa corrida exista justamente no que ela está conseguindo colocar para fora dela mesma, uma corrida circunscrita em uma arena de 17,5m² do galpão da Rua Teodoro Baima. Quando mais gera movimento externo, mais passos internos, mais mobilidade de manobra gera-se em direção a esse urro, e assim, mais movimento externo, mais mobilidade externa também pode articular. É mesmo uma dança.

A Museóloga

 

Pilhas e pilhas de fichas catalográficas, materiais de precisão, um avental branco, luvas de algodão com as iniciais GC bordadas na beirada, os cabelos presos num rabo baixo, um batom vermelho, sóbrio, seus óculos redondos e um espaço de trabalho onde se articula com imponência, de onde vem essa moça? Banco de dados, cai004, cai008, cai009... O que é a Museóloga? Gabi está construindo uma organização do próprio espaço, do seu próprio espaço de ser bailarina e peão de obra, de ser esposa e também discípula, museóloga e artista, de passar batom e usar calça de trabalhador; é aí onde está a museóloga, a museóloga está nesses arranjos, no modo como se arranja, coreografa novas disposições do próprio espaço escultórico de manobras de seu corpo. O espaço me parece ser um ponto alto propulsor da museóloga, bailarina, peã. Os três eminentemente interessados no espaço: a museóloga com o espaço de configuração das coisas, o espaço técnico, o espaço da previsão para o futuro, organiza os arranjos, que imediatamente se trança com a bailarina, que se arranja pelo espaço que tem, abre espaços fictícios de ação, que possibilita grandes manobras no seu pequeno espaço de trabalho, no espaço supostamente pequeno que é o seu corpo, rodopia pelo seu espaço e vai o transformando em uma dimensão inimaginável. E é claro, a peã quer ser o seu próprio instrumento para erguer esse grande espaço. Um pré-espaço, um pré-espaço-escultura de si mesma, um início de relação dela mesma em seu próprio espaço, uma descoberta do que é esse “ela mesma” e o que é esse “próprio espaço” - trabalha em uma maquete.

Seu trabalho claramente está a construindo, Gabi está arranjando um canal de construção através de seu trabalho, inventando um corpo para a fala engasgada, ainda que um balbucio, um balbucio do que quer ser dito já é muito mais valioso do que qualquer dizer que nada tem a dizer. Arranja-se em seu trabalho, constrói um arranjo para a fala que quer falar, para poder se calar, para poder finalmente estar calada. É um alívio poder estar calada sem estar em dívida com a fala, sem culpa, estar fazendo o que é possível ser feito no lugar de ser feito. Sente o alívio de poder calar-se, ainda que desconfiada, graças a Deus, de que a fala só está em exercício de dizer, de que o que temos aqui são os músculos se esquentando, as cordas vocais se esquentando para o fatídico momento. Início da construção de uma dispositivo de conhecimento de si mesma, mesmo que ainda alienada de sua própria construção. Quem sabe, hoje a alienação possa estar a servindo de algo; essa alienação da qual estou falando pode estar sendo útil, uma rede de proteção para não afundar, uma rede de proteção que a mantém fazendo; essa alienação hoje pode a preservar de algo, a propulsionar à construção, mas acredito que o próximo passo para vencer essa fase e poder saltar para a próxima, ou mesmo, dar continuidade ao trabalho, será quando ela estiver pronta a se desalienar dessa construção que vem travando com ela mesma nesses últimos cinco anos. Pode nunca estar pronta, será uma aposta, o seu corpo vai saber quando ele mesmo estará pronto para bancar a aposta. Seu corpo estará pronto para proferir a sua nova pele, sua pele-calejada pela consciência de sua implicação com seu trabalho, isto é, sua implicação consigo mesma. Por ora, pode servir, mas uma hora o trabalho vai lhe cobrar que Gabi se responsabilize por ele, e assuma para, antes de qualquer um, si mesma, que pode.

Esse início de construção de seu trabalho, desse trabalho de ser Gabi, não deixa de ser um início de reorganização do que ela mesma entende por organização, não deixa de manter uma ordem, não deixa de organizar, mas aqui, vejo um início de aprendizagem com outro tipo de organização, aprende como o próprio trabalho quer ser organizado, como uma Gabi que ela mesma desconhece quer ser colocada para fora, um palco para a fala que não quer saber de uma gramática já manjada, ensinada no ensino médio medíocre da educação de um país subdesenvolvido que é o Brasil, quer criar novos instrumentos para a sua fala, não quer mais saber de como lhe foi ensinado conjugar os verbos, quer arrancar dentro de si mesma suas próprias vogais, as vigas estruturais da cesta básica de quem é. Madeiras velhas, soluções "feias", incorretas, o uso de equipamentos de forma que causaria um espanto para a equipe técnica da fábrica de porcas e sua família, trabalha para deixar de ser certinha, para não falar certinho, para não ser limpinha, para não viver de conjugações de verbos e arroz, feijão e farinha de mandioca e uma bala halls. A classe média brasileira tem isso de querer falar correto, querer conjugar os verbos corretamente, de estar sempre limpo por fora, de criar um cenário artificial externo de que está “tudo bem”, de que as coisas estão sob controle, o sofá no lugar do sofá, a mesa de centro, as paredes bem pintadas, a geladeira abastecida para a semana, uma despensa, um filho, um animal de estimação, um nível básico de inglês, e alguns livros didáticos da faculdade de direito ou administração ou de empreendedorismo na estante... Gabi urge por suspender essas regras, quer falar tudo errado, quer a parede suja, quer martelar uma parede até que ela possa expor o que a sustenta, quer tirar uma sujeira de sua origem que foi toda arrastada para debaixo do tapete e usá-la como matéria prima dessa nova organização do espaço de si, na nova configuração de sua morada; não serão os verbos bem conjugados que a autorizarão a dizer, a existir, a encontrar esse nome, Gabi Celan.

PREFÁCIO PARA LIVRO "PAISAGENS INTERIORES" DE ALCIMAR SOUZA LIMA

Anna Israel

Abril, 2017

De início, um diálogo: Alcimar com ele mesmo, Alcimar com a palavra, com o que deixa ser dito quando diz, com o dito que se diz quando ele circunscreve esse espaço de dizer em seus micropoemas. Rubens Espírito Santo implica um outro campo de dizer ao inserir imagens não-descritivas do poema, não desejando ilustrá-los, mas provocá-los, para que juntos possam escapar do controle tanto de Alcimar, quanto de RES, e assim, dizerem o que somente eles, somente o que a união desses dois juntos, podem proferir.

Vinte anos depois, o psicanalista Alcimar convida o seu então psicanalisando Rubens Espírito Santo para uma parceria que supostamente “transgride” as regras convencionais da psicanálise, mas que, a meu ver, a transporta de volta para o que Freud uma vez quis construir, ou desobstruir: o movimento, a suspensão do preconceito, dos supostos impedimentos, dos “problemas” enquanto possibilidade de estar em deriva.

A imagem é um problema para o poema, e o poema é um problema para a imagem, mas o problema de ter duas coisas tão distintas em implicação, duas coisas supostamente distintas em conflito, gera a possibilidade de despertar algo novo, uma terceira coisa ainda não nomeada, uma coisa que então escapa do controle do poema e da imagem, escapa do controle de Alcimar e RES. Aqui, Alcimar abre mão de uma autoria de seus “micropoemas” ao inserir ao lado deles imagens de RES para que assim um terceiro poema, um terceiro, quarto, quinto, infinitos outros dizeres, desconhecidos, latentes, possam vir a dizer.

Quem sabe só esse seja mesmo o início da análise de Alcimar e RES: quando finalmente os nomes e os rótulos podem ser abolidos, e assim, psicanalista e psicanalisando (já não se sabendo mais quem é quem) se deitam cada um em um divã, e se encontram juntos, em um diálogo do inconsciente: um poliálogo.

A SAUDAÇÃO DO SOL

...Não sei como colocar isso direito, todas as formas que tentei fracassaram, e é justamente esse fracasso diante dessa sutileza pelo qual me intrigo, me angustio, me dói, mas dói profundamente em mim de tal forma que percebo essa dor como algo muito mais próximo de qualquer possibilidade de me chamar de "eu" do que todas as vezes que refiro a mim mesma.

Se eu pudesse, passaria o resto da vida sentada em frente ao mar, em uma praia isolada, ouvindo o que ele tem pra me contar, é tão profundo, me sinto privilegiada só de poder saber intimamente que eu posso ouvi-lo, nem que seja um pouquinho, nem que seja uma audição que esteja codificada na sensação de prazer e terror que me alojam, concomitantemente. Mas como já aconteceu outras vezes, depois de algumas horas, algo em mim me obriga a me movimentar, a ir embora, a me despedir, deixar o mar que para sempre vai estar lá, proferindo-se mesmo que seja somente para ele mesmo, já que ele não precisa do outro, uma vez que ele já o é. Me despeço do mar (“preciso ir viver a minha vida, fazer as minhas coisas”), triste pois é aquilo, aquela relação, precisamente a relação com o mar que secretamente sei que vim consumar em minha vida.

Assistir RES desenhar, como se fez claro para mim ontem, é perceber que RES tem essa relação com o mar, e assim a consuma, e entende que não pode ficar simplesmente ouvindo o que o mar tem para dizer, tem que dizer algo de volta, inventou um artifício para poder não só ouvir o mar, mas dialogar com ele em seu dia a dia.

Tem horas que, hipnotizada pelo corpo de compreensão novo que a implicação do mar me proporciona, sinto uma profunda vontade de passar o resto da minha vida isolada só o olhando. Me parece que RES construiu isso em sua vida. Inventou uma possibilidade de estar sentado diante do mar todos os dias da sua vida, sem a lamentação do momento de despedida, "para voltar à vida". Voltar à vida para RES se tornou um modo de construir um mar que esteja sempre diante dele, de construir a constante possibilidade de estar diante do mar, o mesmo gozo que aparentemente só o mar poderia proporcionar. RES criou um canal de acesso para que ele possa ter esse mar dentro de si, todos os dias, ainda porque a consumação não deixa de ser um modo também de despedir-se para que um dia não haja mais despedida, só presença. Parece uma lógica inversa, quanto mais consumamos algo, mais distante esse algo se apresenta diante de nós, para que um dia, quem sabe, retornemos ao nosso lugar de origem, como uma coisa só. Como uma negociação com os deuses. A orelha de Van Gogh é o modo com que ele pactuou com o sol, de tanto entender sua distância do sol, de tanto entender que não podia ver o sol e ouvir o que o sol lhe dizia, e mesmo assim consumar uma proximidade, hoje ambos são a mesma coisa, o sol o recebe como igual e não descartável, o sol saúda a sua chegada. Assim como ontem eu vi um horizonte com ondas quebrando bem à minha frente, gerado por RES, e me assustei, me derreti, e me fascinei com a possibilidade de poder fazer disso algo real, em minha frente. É mesmo lindo. Caramba... difícil mesmo de dizer o que vi, mas se resume como uma possibilidade do impossível, uma empreitada muito preciosa de transformação da vida, de conversão, de implicação real no mundo. Vê-lo desenhar é tão terrível quanto estar sentada à beira da praia.

"The Warburg Institute"

Anna Israel, Londres, 15. Fev. 2017

Dia 1

 

Nunca tinha entendido essa biblioteca desse modo, na verdade descobri hoje que não sabia o que era uma biblioteca, como uma biblioteca pode ser uma carta em endereçamento, um tesouro para um tempo vindouro, ou mesmo passado, um tesouro que responde aos tempos que ela carrega, a biblioteca de Warburg como um sobrevivente, uma imagem em movimento, uma nova palavra espremida para fora da pele do tempo. A Biblioteca como realmente uma obra que Warburg deixa para a humanidade operar em outra chave, em outra conjuntura dela mesma, a Biblioteca do Warburg é um dispositivo para uma nova epistemologia, por isso, aqui dentro me pergunto, como vou me relacionar com esse espaço de forma não obsoleta? Essa biblioteca é uma vontade de um homem de criar um cenário onde o modo como o conhecimento está configurado o protege de se cristalizar, o conhecimento aqui está em movimento, há quase como uma vontade de gerar um tilt, de gerar contradição, de violentar um modo rasteiro e passivo de se relacionar com o conhecimento. E o que é lindo é que a erudição é ostensiva, é realmente ostensivo a quantidade e obscuridade e diversidade dos livros – dicionários de tudo que é possível, descubro conjunturas que nunca antes havia pensado, mas das quais eu sou herdeira, que correm pelo meu sangue, mas que nem mesma sei. Nesse sentido vejo uma imensa aproximação da Cabana de RES com a Biblioteca do Warburg: ambos me expõem a minha própria alienação, a alienação de mim mesma, culturalmente, linguisticamente, psiquicamente – a Cabana e a Biblioteca querem saber de onde mesmo elas próprias vêm, das instâncias básicas até as instâncias que as palavras não dão conta, e nesse estado da palavra não dar mais conta configura-se o espaço da Cabana, a Biblioteca do Warburg, maior que seus criadores, a Cabana pode ser maior do que RES hoje pois ela sabe mais dele do que ele mesmo, idem para a Biblioteca. 

Vejo como um ato muito generoso de ambos, ambos pedagogos, ambos interessados por uma pedagogia em nome da desalienação física do ser humano. O que quer dizer com isso, desalienação física: ação no mundo, romper, destroçar com a falsa camada de "não poder" – não poder já estabelece uma verdade fechada, pronta, codificada, "não poder" é o início de uma aventura em direção ao infinitos caminhos, trajetórias, configurações de poder de cada um, só entendendo que eu não posso é que eu vou encontrar o meu caminho de poder, o meu próprio caminho possível, somente "não podendo" posso encontrar ar fresco em um caminho não obsoleto.

 
 
 

Alguns pensamentos após três dias de visitação ao Instituto Warburg

Me pergunto se essa contradição do uso da biblioteca do Warburg tem algum motivo, o uso tão obsoleto de uma biblioteca que, apesar de conter 300 mil volumes, ainda me parece como um grande livro que não foi aberto, a biblioteca me parece um livro fechado, que pouquíssimos têm acesso. Me pergunto se Warburg ficar perdido no tempo é uma consequência de sua manobra, se aqueles que se expõem ao tempo dessa forma acabam fazendo parte como que de uma tessitura do tempo - ficar perdido no tempo não enquanto algo que não tem a capacidade de transformação, não enquanto algo em estagnação, mas pelo contrário, tamanho o seu movimento, tamanha sua contradição, que abrir essa porta pressupõe um pacto, uma negociação com um porteiro de acesso a esse espaço, que tampouco sei se refere-se a abrir algo ou não. Quem sabe a porta esteja o tempo todo aberta, quem sabe não exista porta alguma, e a negociação seja não para abrir uma porta, mas para sacrificar um corpo, quem sabe a negociação esteja em enxergar a ausência da porta, onde a ideia, a construção epistemológica de pressupor que haja uma porta a ser aberta já afasta da possibilidade de negociação - para negociar é preciso saber o que queremos pedir, o primeiro ponto fundamental da negociação é saber a pergunta, e me pergunto profundamente, se para minimamente saber a pergunta, isso já não pressupõe um acesso à ausência da porta, saber a pergunta já não é estar nesse lugar? E poder fazer a pergunta é terrível, pois a pergunta te pede algo em troca, obviamente esse algo é a sua vida, é um modelo de vida, é uma estrutura de estar vivo, uma estrutura de movimentação, fazer a pergunta é ao mesmo tempo ser um eterno devedor de um cobrador insaciável, inconsumável.

Me pergunto profundamente se não é assim mesmo que tem que ser - ontem mesmo via a biblioteca como um tesouro para tempos vindouros, mas me pergunto, o que são tempos vindouros senão um tempo que estará para sempre para acontecer, um tempo messiânico que se emaranha nas raízes do tempo todo, um tempo vindouro não seria um tempo passado, como um futuro, como o de agora mesmo, senão para aqueles que estão dispostos para viver nesse tempo vindouro, nesse tempo que só parte a existir depois de sua morte, mas depois de sua morte, que tempo resta? Se algo se perde na biblioteca com a morte de Warburg, então que tesouro é esse que contém em sua obra? Sua obra parece ressuscitar com RES - RES é o tempo vindouro de sua obra, ou seja, Res inaugura o próprio Warburg em outra conjuntura de vida, não poderia pensar assim? Warburg depois de morto agora pode viver através de Res, mas para isso acontecer, alguém precisa estar aberto a esse resgate, instrumentalizado a não mais possuir sua própria vida, senão ser um receptáculo de vidas que existiram para isso mesmo, para sobreviverem eternamente através dessa transmissibilidade - isso sim que é inserção! 

 

Me pergunto se o tempo não exige essa crueldade em que o ser humano tem que estar cristalizado de algum modo para terem aqueles outros que fazem um serviço à humanidade; me pergunto por sinal se a humanidade não é como uma entidade própria, se a humanidade não é o que está entre os tempos, entre as pessoas, e não um bando de pessoas, como um bando de livros juntos, mas a humanidade enquanto o grande corpo que configura-se no espaço entre cada um. Me pergunto se para que haja equilíbrio, tamanho equilíbrio nesse nível de agressividade como há em Warburg assim como há em Res, não é preciso haver uma atrocidade, um grande desequilíbrio, uma bagunça - não será a desordem parte constituinte da exigência para que esses homens existam? Como se a miséria espiritual no mundo fosse a lama, a grande sujeira que a humanidade se adentra para existir a necessidade, a demanda para um ser humano como Rubens? Rubens incorpora a exigência de um tempo, a exigência de algo que não pode ser dele, Rubens vem a esse mundo enquanto a pergunta, que com a morte de Warburg, se perde na biblioteca. 

Escrevi anteriormente que Warburg e RES deixam uma preciosidade para a humanidade e agora, depois dessas indagações, me pergunto: o que é isso então que estou chamando de humanidade? Não será a humanidade um tempo excedente dos tempos? Um tempo excedente da miséria do tempo? E ao invés de usar a palavra miséria, quem sabe, poderia simplesmente usar a palavra "homem": o homem como realmente uma espécie vulgar, limitada, mundana - será que é possível mudar algo que não está configurado para ser alterado? 

Me pergunto se Warburg não deixou essa biblioteca, não para os estudantes que vêm utilizá-las para pesquisa, mas me pergunto se Warburg não a criou para RES pudesse a continuar, como um sobrevivente que garante a RES sua sanidade, que o dá saudações, um elo que fica perdido esperando que um próximo se ajuste a ele. Desconfio muito dessa biblioteca ter sido feita para uso de pesquisa, desconfio da pesquisa que esteja sendo feita aqui. Acredito que ela tenha sido feita, acredito que ela tenha sido uma grande batalha, uma carta para que um leia e saiba que ela foi possível, de que é sim possível, é um atestado do ser humano alienígena, que morre mas permanece percorrendo através do uivo dos ventos.

ESTAR BEM

Anna Israel, 19 de novembro de 2017

 

 

Sobre a quantidade de coisas que temos que administrar na vida: acredito estar me referindo à falta, e a como a existência dessa coisa que chamamos de falta (ou será que quem nomeia qualquer coisa seja na verdade a própria falta?) nos torna uma coisa tão traiçoeira, tão sutil, tão esquizofrênica, tão indeterminada...

 

É curioso como a ideia de "estar bem" é algo tão distante do que um dia eu pude imaginar. Hoje acredito que estava bem ao longo do dia, mas não por isso menos fragilizada. Hoje foi um desses dias onde meu corpo parece ter abdicado de armaduras e dessa forma eu me sinto um ser que habita um corpo muito mais poderoso que eu. O modo como cuidei de minha casa, como cozinhei, como me deliciei com os sabores dos temperos na comida, o prazer com que senti a água quente do chuveiro caindo em minhas costas. Os gestos que habitualmente são de “consumo da vida”, hoje me pareceram mais como um reverenciar a ela.


“Estar bem" é algo de um alto nível de risco, é uma dor quase insuportável, e quem sabe por isso buscamos tão violentamente não estar bem, pois esse estado implica em uma consciência de uma solidão muito agressiva. E sinto que por isso o que escrevo agora esteja insuflado de uma consciência de que na verdade, dizer o que quero é impossível para mim, e essa impossibilidade é o que transforma cada balbucio meu em uma tentativa devastadora de tocar, em realmente penetrar a carne grossa de mim mesma com o que digo. Dizer enquanto violentar-me à procura de mim.

 

Olho para Rubens e realmente não sei como ele aguenta estar bem por tanto tempo, isto é: estar sangrando, ser essa dor sem artifícios para tampá-la. Acredito que isso seja muito o que constitua o homem do "espaço B", o homem do futuro que RES falou na última aula de segunda: um homem que está bem, um homem que bancou a dor, que a enfrentou, e não aquele que a negou por tantos anos, mobiliando o espaço da falta com definições de si mesmo, com falsos amigos, uma casa, um diploma, um carro...
Ter um mestre é realmente uma coisa sagrada, pois depois de uma noite em que eu traiçoeiramente fiz uma escolha do espaço A, ao me seduzir por um discurso cordial, ao me seduzir por um discurso vulgar, ao me seduzir por colocar coisinhas para tampar a minha falta, RES me saca todas essas coisinhas e me deixa sozinha comigo, me deixa com a minha dor, me deixa bem, me deixa com a verdade nua e escancaradamente crua de que o meu bem mais precioso é a minha falta, é justamente não ter nada entre mim e mim, é saber que todas essas coisas são passageiras e ainda que sejam, estou viva para poder contar alguma coisa, estou viva e ansiosa para perfurar a pele do impossível e fazê-lo me sentir, quero finalmente deixar a minha falta falar, falar o que só ela pode falar; só ela sabe se comunicar com o impossível, não dá mais para eu querer tampá-la para ser "senhora" da minha fala, a "senhora da fala" ainda fala coisas como "seria indelicado dizer “não”". É uma epistemologia totalmente do mundo A e de uma lógica completamente equivocada e obsoleta, onde já está embutido um alto juízo de valor na ideia de ser indelicada. Está na hora então de ser indelicada para me salvar.

Mas a verdadeira questão para mim nesse momento é que entendi que vou sofrer ainda muito para não tomar mais na cabeça, para "estar bem" por mais tempo. O meu corpo, diferente do que nos é ensinado, não suporta “estar bem” por tanto tempo. Esse sim é o lugar realmente dolorido. Por isso, para estar bem por mais tempo, terei de me acostumar com uma dor que meu corpo foge que nem o diabo foge da cruz.

Estar bem é o quanto você aguenta de dor de verdade, já que toda vez que tentamos fugir da dor, acabamos por nos enrolar em um grande ninho de cobras de nós mesmos, que vai nos corroendo em lugares que nem suspeitamos; mas um dia não terá mais volta, e aí estaremos anestesiados da dor, e assim, anestesiados da vida.
E se há algo que temo profundamente, visceralmente, é a ideia de estar anestesiada da vida.

Ter um mestre é um novo espaço para existir, sem dicotomias, mas um novo espaço para uma nova lógica: RES me abre a ferida da vida e ainda assim me faz gozar nela.

Início de um inventário do Desejo:

A partir de colecionar a obra de Res

Anna Israel, Junho de 2017

“Não somos nós que nos transportamos para dentro delas,

elas é que adentram a nossa vida”.

Walter Benjamim (a respeito da grande obra), em Passagens

Colecionadoras oficiais:

Anna Israel

Lisa Gordon

Gabi Celan

Mirela Cabral

Pontos eminentes no ato desse tipo de colecionismo da obra de RES:

 

  1. Pactos de desenho: comprometimento, fechar um acordo, dar substância à palavra, a uma afirmação, a um desejo. Se responsabilizar por um desejo, ou seja, correr atrás do que for necessário para sustentar um desejo que é muito maior do que nós. Para esse tipo de desejo que nos é maior, sempre haverá milhões de desculpas, milhões de fantasmas, de sereias que cantam para nos distrair do que tem que ser feito, por isso, esse pacto é o início da construção do avesso do que se quer. Dessa forma, todo mês um valor fixo é pago e a colecionadora escolhe um desenho.

  2. Nova forma de relação do colecionador com o artista – retorno do lugar do colecionador enquanto mecenas. Quem sabe esse ainda não seja o melhor termo, mas a questão é que o ato de colecionar aqui não diz respeito a um acúmulo de objetos, mas ao ato de compactuar com uma visão de mundo; o colecionador garante que o artista possa ser marginal, possa estar à margem desse tempo, possa criar para um tempo futuro, esse colecionismo quer garantir ao artista um lugar de sanidade, de âncora com esse mundo para que ele possa se submeter a mundos desconhecidos. E para isso, o colecionador tem que, de algum modo, ter um vínculo profundo com o que o artista está fazendo, um vínculo íntimo com o que está sendo feito, e assim acaba fazendo parte dessa obra, dessa construção. A própria coleção começa a nos custar caro, começa a exigir coisas de nós, começa a exigir um pacto não mais somente do colecionador com o artista, mas um pacto rigoroso entre o colecionador e a coleção, um pacto rigoroso do colecionador com ele mesmo.

  3. A colecionadora como o meu outro. A coleção é um embrião de nós mesmas, não estamos à altura ainda da nossa própria coleção, e isso não nos impossibilita a colecionar, pelo contrário, a colecionadora, a coleção, nos arranca subsídios ou nos provoca uma ira para enfrentar a vida para poder estar mais próxima disso que chamamos de "colecionadora", ou seja, para estar mais próxima desse outro. A colecionadora é maior do que nós, e isso é que é a beleza da coisa: existe algo que claramente nos é maior, sussurrando em nosso ouvido diariamente, urrando por algum tipo de aproximação, urrando para que passemos a ocupar mais esse lugar. Colecionar é uma escavação desse lugar esquecido.

  4. Implicação direta com a museóloga e também colecionadora Gabi Celan. Uma vez que há uma coleção, é necessário cuidar dela, organizá-la, catalogá-la, acondicioná-la, e para isso existe a Gabi. E, nesse caso, esta pessoa que cuida da coleção também coleciona, ou seja, divide uma visão de mundo, uma paixão, um desejo, e assim a coleção vai ganhando ou se construindo enquanto obra também. Uma estrutura vai sendo criada, uma estrutura, uma equipe que tem um envolvimento direto com o seu trabalho, o trabalho não é alienado, o trabalho da museóloga aqui está em implicação direta com o seu próprio desejo, trabalho que inclusive a transporta para a sua própria intimidade. A museóloga não é uma figura à parte, que somente cuida de uma preservação superficial da coleção, a museóloga Gabi Celan cuida de uma preservação profunda da coleção, inclusive para que a coleção possa prosseguir de forma saudável.

  5. A coleção não é um acúmulo de objetos, mas a construção de um abrigo de cada uma de nós, a construção de um abrigo interno: a coleção custa caro pois ela é um lugar que estamos construindo e ela urge para que nós ocupemos esse lugar.

Questões que acredito serem fundamentais sobre a coleção:

  1. Autorização e apropriação do desejo. Circunscrever critérios rigorosos, circunscrever uma visão de mundo pra que possamos começar a falar por nós mesmos, olhar por nós mesmos, ter o poder de legitimação de algo e não responder a nomes e a imposições feitas por um tempo, por uma classe social, por um país subdesenvolvido com complexo de inferioridade. Essa questão ultrapassa arte, aqui a questão é a de passar a existir para o mundo, existir para fora de si mesmo, passar a ter poder real no mundo, e não ser tão marionetes de um tempo, do sintoma, da carência.

  2. Questão muito sutil: poderíamos pensar que a vida é sustentada pelo batimento de nosso coração e pelo oxigênio que respiramos – isso é o que aparentemente sustenta o nosso corpo biológico. Mas isso não é o suficiente para manter algo muito mais profundo de nós vivos. O que há em uma obra, no desejo de colecionar a obra de um homem, que alimenta essa outra coisa que nos mantém vivos? Qual a química desse outro tipo de oxigênio que respiramos na obra? O que poderíamos chamá-lo? Que oxigênio é esse que percorre pelo desenho que se torna vital para a nossa existência e para a construção de quem somos? Qual o equivalente em uma obra ao nosso batimento cardíaco? Qual o ponto de união desses dois? Qual a mimese de um no outro? Me pergunto, inclusive, se não é o batimento do coração que imita o poder da obra, ou o poder da obra e o batimento do coração residem no mesmo sítio ontológico, me parece que ambos dividem uma natureza muito parecida.

  3. Colecionar como um ato de retornar a um pertencimento de si mesmo, de retrocesso a um abrigo perdido, um abrigo perdido culturalmente, esse abrigo não faz mais parte do nosso tempo, nossos verbos estabelecem tempos futuros, passados e presentes, mas não mais uma conjuntura dos nossos tempos verbais, das nossas ações enquanto algo constante e em movimento. Colecionar uma obra é comprar o meu futuro, ainda que o meu futuro seja maior do que eu hoje, eu possuo uma aposta de mim diante de mim, uma abertura, uma fissura no tempo, colecionar a obra de RES é nos cercar de um tempo em movimento, o objeto da obra é uma máquina do tempo, um “teletransporte”. É uma peça que não só se transporta para frente desse tempo, visiona um tempo que ainda não existe, assim como visiona um tempo de nós que ainda também não existe mas passa a existir ao compactuar com a obra. O desenho inaugura a guerra que vou travar com a vida para que eu possa voltar enquanto sobrevivente, enquanto veterano, e assim possuir o desenho – é o único modo de levar o desenho comigo na morte. Colecionar é então, diferente do que se pensa, descobrir que o modo de possuir alguma coisa nesse mundo é deixando com que a coisa se possua em mim. O único modo de ter algo, é na verdade, deixando com que esse algo me tenha.

RES é o Colecionador.

 

 

A Coleção é uma provocação para a eleição de quem somos.

Pequeno relato de Anna Israel depois de um ano como professora do curso do méthodo para os discípulos de Res

Não dá para sermos mais espectadores do nosso Desejo.

Isso é criar um discurso.

 

Começar a criar um discurso - o que é um discurso? Evidentemente existe um elo fortíssimo que nos une, simplesmente por estarmos todos os dias reunidos e entregues a uma dinâmica nova que chamamos de méthodo, ou o Atelier do Centro, ou RES. Resgatar e tensionar esse elo entre nós, acredito que seja um modo de começar a se apropriar de um discurso que por ora diz muito mais do que nós.
Desse modo, não gosto de pensar que sou uma "professora do méthodo" - uma vez que essa palavra dentro do méthodo já é obsoleta. Acredito que um "professor" do méthodo já entra, na verdade, com uma nova profissão, uma profissão para o futuro, onde ao invés de professor, seria mais como um mediador dos elos perdidos e invisíveis, mas que estão escancarados à nossa frente que nos sustentam vivos, que nos movem, que somos, muito antes de dizermos "eu". Veículos de transmissibilidade.
Estamos em alto mar jogados no mar em uma tempestade e precisamos construir algum tipo de estrutura para não afogarmos. Cada palito de fósforo já é válido nessa saga. De pouquinho em pouquinho, podemos construir uma tábua para não engolir mais tanta água. Mas uma coisa me parece clara: não há outro lugar senão o alto mar em tempestade.


E acredito que se poderia falar qualquer coisa sobre a experiência no méthodo: eu mesma entrei em implicação comigo para todo dia criar respiros nas passagens para esse elo comigo mesma, com esse lugar encarreirado, ele provoca esse lugar futuro de nós, um tempo futuro de nós, graças a Deus, para não morrermos obsoletos. Tempo futuro. Tempo de origem.

Pensamentos sobre a mulher e a melancolia

26/02/2017


 

Hoje foi um dia especial para mim. Estruturalmente, ter acordado no meu apartamento - aberto o olho em um cenário tão novo para mim, o início de um cenário que creio que nunca me será banal -, andado na rua vazia com alguns resíduos de carnaval, feito compras, regado as plantas, cozinhado... Para mim, intimamente, acredito que isso tenha provocado um sentimento forte de melancolia mas também um grande prazer em me sentir uma mulher. E começo a perceber que há algo que se encaixa nessa suposta contradição. 

Escrevendo um pouco agora, penso que a mulher tem um privilégio sobre o homem que é o de não possuir esse objeto simbólico que é o falo, e assim, "não existir" simbolicamente é o que na verdade a faz estar mais suscetível ao real, já que tem justamente o vazio. Infelizmente não suportamos isso, desde muito cedo, e buscamos constantemente artifícios para nos desaproximar do real, entupir o vazio, e nos aproximar do homem no pior sentido, na busca por um instrumento simbólico. 
Acredito profundamente que a melancolia que sinto esteja vinculada a isso: ao iniciar o abandono da filha, retrocedo na minha maior identidade, a de não ser nada, de ser um vazio, e só esse vazio pode fazer com que eu construa algo de significativo, só assumindo a minha não existência é que eu posso de fato existir. Somente quando nos damos conta de que na verdade não somos nada é que podemos começar a ser algo, genuinamente, não enquanto objeto de valor, mas enquanto construção espiritual. Infelizmente estão atribuídos à melancolia muitos preconceitos e uma profunda conotação negativa, onde passamos uma vida tentando fugir dela, vencê-la, desviá-la de nosso caminho, mas quem sabe a melancolia seja um grande início de algo, como um grande teste, uma batalha, onde o único modo de vencê-la seja a encarando de frente, engolindo a seco a melancolia e suportando a preciosa lucidez de nossa condição de não ser e não ter nada que ela nos implica. Assim como não há como vencer o sintoma, não há como vencer a melancolia - ela é o que nos conduz, ela é o que condiciona grande parte da nossa linguagem, condiciona nossas escolhas, nossas relações sintomáticas, e por isso temos nos tempos atuais um problema epistemológico estrutural em como a concebemos. Ao invés de tampá-la, suportar aos poucos a sua ferida aberta, para que a ferida passe a fazer parte constituinte de quem somos, para que a ferida de uma vez por todas esteja tatuada visivelmente na pele. A mulher não pode mais ficar buscando artifícios para tampar a sua fenda, a fenda na mulher é o divino, e justamente através desse vazio, damos a vida, parimos, partimos a nós mesmas em outro ser humano. Assim como a vida passa por esse vazio, acredito que a nossa própria vida, o milagre de ser mulher não deixa de passar por esse vazio, um sopro desse vazio.

Então a mulher não existir teria que ser o único modo da mulher poder existir. Ao mesmo tempo em que muitos vêem a afirmação Lacaniana de forma pejorativa, ela mesmo, contém a solução para o que supõe-se problema: a não existência da mulher é o início da construção de uma grande mulher, sem fantasias, sem artifícios, sem a função simbólica do falo, sem elocubrações em busca de fechar o que ontologicamente não pode ser fechado, a mulher possui a deriva antes mesmo dela vir a ser algo, então o vir a ser da mulher, só pode ser, voltar a ser. 

Me está sendo tirado algo, e agora, no luto dessa falta, me dou conta de que vou sendo preenchida pela grande e única coisa que de fato me possui, isto é, a solitária e árida caverna de mim mesma. 

Reflexões acerca da falta

 

Anna Israel, 30 de outubro de 2017

 

…que bom que existe o interdito. É curioso como a vida existe através das negações, como me parece necessário que para que a vida exista, exista nela uma impossibilidade – a impossibilidade é o que sustenta a vida. Sem interdito não há desejo, e sem desejo me parece que não há vida, não há pulsão. Poder realmente falar, digo, falar si mesmo, falar o ar que expiro, falar o sangue correndo pelas minhas veias, falar a minha atmosfera interna que convive comigo desde pequena, seria o extermínio do desejo, pois a vida existe, o homem acorda mais um dia por conta do impedimento da fala, por conta do que é proibido, por conta do que não pode, isto é, o impedimento da vida. A vida se mantém viva por conta de seu impedimento. O homem vive essa vida atrás da única coisa que o destruiria, e ao mesmo tempo, a coisa que o destruiria é o que o movimenta a vida: a falta. A falta é o que faz sofrer o homem, ou o sofrimento é uma má administração da falta, mas sem ela não há vida, pois é ela quem nos desperta todos os dias, é ela que alimenta as células do nosso corpo, é a falta que bate o coração, é a falta que sonha. Portanto, de fato, essa vida, como uma construção lógica, é uma de sofrimento. 

Penso estar aí o verdadeiro fracasso do artista, o atrevimento do artista em continuar, mesmo que consciente de seu fracasso, mesmo que inclinando-se diante do seu fracasso, reverenciando o fracasso, continua. O fracasso é o único modo de poder produzir, pois não fracassar seria o equivalente a não existir. Mas só esse fracasso, concomitantemente é o que possibilita que a obra possa falar por ela mesma. Quem sabe o fracasso de Cézanne seja ainda mais bonito que isso, quem sabe Cézanne tenha se dado conta de que fracassou pois não era nem mais ele que operava em suas pinturas, que chegou a tal ponto em que a própria pintura se pintava, o tão glorioso Mont Saint Victoire era o que conduzia os gestos do artista. Quem sabe aí esteja a consciência maior desses homens, eles só podem de fato falar, pois já partem do fracasso, marcham por essa vida em reverência ao "pater omnipotens", usando a terminologia de Cézanne. O desejo existe já que existe uma impossibilidade, um incompleto, existe a sobra, existe algo que sempre vaza, e assim, o desejo do artista não é o possível, tampouco é arrombar a porta do impossível, mas conviver com o impossível para poder viver. Vive dentro de um suspiro interminável da falta. O grande artista encarna a falta, para poder manobrar-se dentro do desejo. 

Entendo que estar na totalidade de sua fala é algo como a morte, pois esta seria o momento de encontrar com o desconhecido, este seria o grande momento da fala – mais uma contradição – a morte é o grande momento de manifestação. Ou seja, em vida, para se estar vivo, há de sempre estar convivendo com o interdito, com o desejo, com a falta.

 

Ainda que acredite que essa afirmação requer sérias considerações, uma vez que estou pensando esse “encontrar com o desconhecido” dentro de uma esfera de pensamento já muito conhecida por mim, inclusive muito lógica, mas sei que, quem sabe, existam muitas esferas de pensamento, muitos campos de sintaxe muito maiores que esse que, sim, possibilitariam um outro tipo de abordagem com a falta, com o interdito, com o desconhecido, nessa vida. Isso deve ter a ver com o estado em que RES entra nos últimos dois minutos de seu desenho, quando depois de trabalhar todo o papel por três horas, a coisa vira, o papel vira do avesso e se abre para ser de fato então convertido em outra coisa.

Por isso, um artista que chegou no nível de RES não tem mais desejo, ele se torna o desejo, o desejo expele de sua carne, ele fede a desejo, pois só sendo o desejo é que ele pode entrar dentro da falta, e a falta deixar de ser falta de algo, mas só ser falta, só ser a sua ontologia de ser “espaço inocupado por algo que conhecemos”, mas quem sabe a ocupação da falta, ou, a falta da falta, o próprio vazio da falta já seja aquilo que tanto estamos buscando. O vazio da falta como o sujeito que o desejo deseja. 

Então para negociar uma fala, RES abriu mão de ser o sujeito desejante, abriu mão da vida, para ser a fala e ainda assim se manter vivo.

Reflexões de questões urgentes da lógica "paraconsistente" na relação mestre-discípulo

(Me parece uma lógica tão complexa que eu teria que ser uma gênia técnica ou teria que usar códigos matemáticos para expor o que quero escrever ou expor)

Anna Israel, 05 de abril de 2017

 

 

 

Obviamente é equivocado dizer que estou servindo Res se tudo que eu faço ele mesmo poderia fazê-lo...

O explorador é o cara que paga menos do que deveria ser pago pelo serviço que o outro está fazendo. Bingo. Esse é o gato de Res, eis a manobra do mestre, eis a lógica maravilhosa em poder unir duas gramáticas que parecem ser opostas, não casarem, uma conjuntura conflituosa somente por estarmos impregnados de achismos, achamos que entendemos demais das coisas, a palavra é muito mais profunda, ultrapassa o modo como a usamos. A palavra, como o número, é um código, as relações são códigos, nós somos configurados de um modo, mas que é sim suscetível a novas organizações, novas sinapses.

O serviço que Rubens exige de mim é impossível, e por isso ele me explora, ele me exige algo que não pertence a mim, que não tenho, diz respeito à sua antipedagogia. Como que o mesmo que diz que sou insignificante para a construção de sua obra ainda assim exige meu sangue? O que está exigindo então? Ou, do que se trata essa exigência? Exige um sangue que eu nem mesmo sabia que tinha para dar, e o mais bonito disso é que ele mesmo assume a "pena" de ser o explorador. Em nome do meu milagre, é um explorador, que sai com as mãos vazias, pois o fruto de sua exploração não lhe pertence, e assim descubro, nessa exploração, que nem a mim mesma pertence. Que eu sou veículo desse algo a ser explorado. Pressinto aqui algo muito semelhante ao beijo de Judas em Jesus Cristo: se Judas não o tivesse traído e levado a pena do "traidor", Jesus Cristo nunca teria pagado pelos nossos pecados na cruz - Judas é o vilão em nome da salvação de nossa humanidade, assim como Res se torna "o explorador" em nome de algo que lhe é maior, isto é, o mestre.

Quem sabe, na ótica do mundo, sim, Res me explora, assim como Judas foi um traidor, mas se não fosse pela traição de Judas, Jesus Cristo não teria morrido pela nossa salvação e se não fosse pela exploração de Res eu viveria uma vida em vão. Então do que se tratam essa traição e essa exploração? Esquecemos que para tudo existe um contexto - achamos que podemos colocar conceitos e fazer afirmações dentro do que vem entendemos, sem pensar na estrutura da coisa. Não existe pensamento sem contexto, não há como questionar algo se não soubermos no que aquilo está circunscrito. As palavras são como o gato de Schrödinger, estão mortas e vivas ao mesmo tempo, são negativo e positivo ao mesmo tempo.

 

E suspendendo um pouco essa questão de exploração, poderia pensar que hoje ninguém explora ninguém, porque também, o que RES me dá, eu não tenho mão para pegar, ele está me dando um objeto que terei de inventar uma mão para poder segurar, então a verdade é que eu mesma me exploro pouco, eu é quem tenho que ser a maior exploradora de mim, dar mais a mim do que posso pagar para mim, e se eu não me explorar, não gero lucro, minha renda comigo não cresceria, meu capital seria um capital estagnado, meus recursos se esgotariam em determinado momento, por isso preciso me explorar, para construir uma dívida comigo e assim ter que angariar recursos dentro de mim mesma para pagar. E é isso que percebo ter a ver com a manobra do mestre. É necessário encontrar, resgatar, inventar uma moeda para pagar Res, inventar essa mão para pegar o que Res está me dando, ele está me dando algo, por sinal, na medida em que o discípulo começa a "ralar" a mão no objeto que o mestre está dando, o preço do objeto começa a subir - já que o objeto em si é a exploração, o objeto é justamente esse jogo de criar a dívida e a dívida gerar a invenção dos recursos que irão pagá-la. 

 

É como se Res me desse um tempo que eu não tenho espaço para ocupar e eu lhe pago por isso, pago por um espaço que não tenho e assim, crio uma dívida imediata comigo, e não só isso, se não encontrar recursos para pagar essa dívida, eu literalmente vou à falência, vou à falência de mim, colapso, mas o mestre sabe o que faz e sabe o preço que cada um pode pagar e sabe também a hora certa que cada um está, não pronto, mas suscetível a entrar no risco de criar uma dívida maior. Nunca o discípulo está pronto, pois se estiver pronto, não há divida, o mestre sabe, porém, a hora que o discípulo está mais vulnerável a ser mais explorado, a se deixar ser mais penetrado, a deixar com que se penetre mais profundamente em sua ainda inexplorada floresta. Então tenho que assim espremer uma moeda de mim que nunca soube de sua existência, tenho que espremer uma moeda para pagar, Rubens me explora para que eu crie a minha moeda de pagamento da minha dívida comigo mesma - mascarado de mestre. Ele me cobra por algo que não recebe nada em troca, a não ser a confirmação, através do meu crescimento espiritual, de que ele está no caminho de sua missão. Sua recompensa é a confirmação de que ele mesmo está pagando a sua própria dívida, pagando pela sua dádiva de não ter ido à falência. 

Crio uma dívida comigo mesma para fazer com que esse pagamento seja bem pago, e assim tenho que encontrar esse capital que dei a Res em mim, e ele me instrui a isso, ainda que isso seja impossível. Ao ser explorada por Res, crio uma dívida comigo e RES me cobra, também nessa exploração, a encontrar a fonte para cobrir a minha dívida, me cobra a, constantemente, cavar mais uma fonte de recursos para cobrir a minha dívida e pagá-lo. E enquanto ele é o explorador, eu estarei enriquecendo. O dia em que eu for a exploradora será o dia em que eu vou poder realmente servi-lo. 

 

RES me paga com a exploração dele de mim. O fruto de sua exploração é o meu pagamento. O que ele consome dessa exploração é justamente o que ele me paga – e ele sai com as mãos vazias, mas com a comoção de que a vida é possível e nos é muito maior.

Quem é Joana?

 

Resposta ao último texto de Rubens Espírito Santo - Para Fernand Deligny

30 de dezembro de 2017



Sobre o que RES está fazendo com a língua, com a ideia de texto. Como aos pouquinhos vai mesmo criando a armadilha, engana a gramática, engana os porteiros do código organizacional do dizer, que o prendem dentro de uma jaula dele mesmo, engana-os aos pouquinhos, até que uma hora eles todos estão entusiasmados achando que RES está contando para eles sobre uma tal de Joana, estão todos já fantasiando esse personagem em suas cabeças, até que sem perceberem, RES arranjou um jeito de estar dizendo para fora da cela, enquanto jogam uma birita. Um pouco como aquele gato de Schrödinger: RES está dentro e fora da cela ao mesmo tempo - dentro da cela há a história de Joana, e fora da cela há também Joana, mas há J - O - A - N - A, ou A - J - N - O - A , ou O - O - O - O - O, J - J - J - J - J...
todas as letras já embaralhadas, letras novas, códigos novos sendo utilizados, códigos todos escondidos na pele de Joana, Joana empresta sua pele de Joana e de calça justa e sandália de oncinha, e provavelmente umas unhas pintadas de rosa já descascando, Joana empresta sua pele para carregar esse novo código gramatical - Joana é a mula desse código, de modo que os guardas são distraídos pela sua bunda enfatizada pela calça justa, ela carrega esse código infiltrado em seu corpo. É como sua escultura de osso, de algum modo ela também é uma mula: afinal, é também somente um pedaço de osso esculpido. Mas carrega nos orifícios, nos poros desse osso, já outra substância, já carrega outro tipo de tutano. É interessante o uso que Rubens faz da figura, e como ele não é necessariamente um cara da abstração: as figuras são suas mulas, a figura garante um corpo para enganar os porteiros, para que a partir desse corpo, dessa carne, você transgrida as grades do dizer, sem que os porteiros notem. Suas figuras cumprem as funções de Joanna no texto. 
Começo a entender um pouco mais o que foram as manobras para os grandes gênios. Não foram algo simplesmente que inventaram gratuitamente, mas a manobra veio na verdade como algo para despistar esses guardiões do dizer, e poder finalmente inventar a língua, para alguns, não há nada sendo inventado, só um texto um tanto quanto confuso cronologicamente, sobre o que é esse texto? Não pesquei sua mensagem? Eu conheço uma Joana...  Será que ele está fazendo uma crítica à moda de hoje?...


Mas a carnatura do texto é uma guerra sangrenta entre duas facções na torre de Babel, pessoas sendo mortas aleatoriamente com balas perdidas, homens com os rostos embrulhados em camisetas para cobrir a face, pneus velhos sendo queimados com pessoas dentro, mães descendo a ladeira e entrando em vielas com filhos pequenos buscando abrigo, meninos de 9 anos de idade com semiautomáticas penduradas no pescoço - a carnatura do texto é uma cidade inteira em chamas, em um país inteiro do dizer sendo queimado, são todos os seus antepassados contorcidos no chão com gasolina sendo derramada neles enquanto Joana aguarda para acender seu isqueiro zippo...


Joana é um pouco como Judas - ela sacrifica todo seu orgulho, sua crença no dizer, a suposta imagem que gostaria de construir de si mesma para o outro, para trair o texto, para enganar os porteiros em acharem que o texto é sobre ela, para fazer com que os guardiões achem que é só mais um textinho sobre mais uma vagabundinha que vão ler enquanto coçam o saco, mas sem traí-lo, sem Joana se vestindo de vagabundinha para atravessar a rua, o texto não pode existir. O texto precisa que alguém o traia para que ele possa viver, para ele poder finalmente respirar um pouquinho para fora da prisão.

Texto de RES

Para Fernand Deligny

​Dia 29 de dezembro de 2017

Joana atravessa a rua

Joana chega em casa

Tira o salto alto

Mexe nas pontas dos pés, os torce para baixo e para cima, passa a mão pela colcha, deita-se. Joana se estende na cama. Se contorce. Levanta-se e vai até a janela, olha fixo para o parque, Joana mora de frente para uma pracinha, logo adiante uma linha de trem, num prédio baixo, 5 andares no máximo. Joana mora sozinha. Joana toma um copo de água. O piso é de madeira. Isto não é verdade, Joana usa calça jeans apertada, salto alto de oncinha, terninho preto, anda apressada, calça justa no tornozelo, pele parda, como se seus avós fossem índios, Joana é um personagem de si mesma, saída de uma revista barata de moda com uma mistura de uma colonização que não deu certo, há obviamente um fracasso e frustração no andar rápido de Joana, uma emergência que não decolou, há algo errado com Joana o que é? Ressentimento, o corpo de Joana revela o que? A calça justa, a calça justa jeans? O salto alto comprado numa loja barata, sem muito conforto, o terninho padrão, usual, o corte de cabelo reto e liso, cabelo de índio, sua pele é parda, escura, o rosto meio para dentro, não ajustado a roupa. Como se levasse um soco na cara. Desfiguração. Joana atravessou a rua na minha frente, não sei para onde ela ia, nem o que iria fazer, era muito cedo, uma manhã de quinta feira, Joana lembra óbvio a instituição, o escritório, a corporação, a confraternização de fim de ano num restaurante de esquina com mesinhas na rua e muita cerveja e som alto. Porque Joana não poderia ser diferente porque sua roupa não era, sua aparência não era, seus modos não eram, Joana estava numa camisa de força, num uniforme da mulher frustrado e ressentida. Joana não pode ser só isto. Quem meus deus é a verdadeira Joana? Onde se encontra o que não vi, o que ambos deixamos escapar eu e Joana, meu olhar e seu corpo, o que exala o mal cheiro desta análise? Porque não posso ver Joana por trás ou sem a calça apertada, e quando, voltar para muito tempo deste atravessar a rua, e ver a garotinha ainda muito jovem atravessar a rua sem códigos e certezas, sem a instituição de dar certo pesando sobre suas costas, canga, caniço, polímata, postiço, inato, vernacular, sim quero a Joana vernacular, a Joana inata, a Joana errante, a Joana esmiuçada dentro desta sujeira toda que foi ser Joana aos trancos e barrancos, a Joana sem salto, a Joana desapertada, a Joana de pijama na rua, a Joana sem tratamento capilar, a Joana sem chapinha. Joana emergida das cinzas, fênix, meus deus como achar esta mulher dentro da estrutura esmagadora que Joana se pôs? Como liberta-lá de mim? Como escapar do que quero dizer de mim e de Joana, como falar em Joana e Joana falar em mim, a língua morta e esquecida dos esquimós de minha alma? Como ressuscitar o olhar joyciano de mim e de Joana? Como penetrar nas correntes nunca abertas das nossas falas, porque não dizer do nosso silêncio, porque não esperar que a própria fala de Joana se fale, me fale, me grite o que quer ser dito neste texto de bosta. Nesta comunicação sujeita a não comunicar nada, refém de tudo, da gramática, do meu fascismo, dos meus traumas, das minhas limitações, dos meus preconceitos. Sim sou um maldito preconceituoso. Joana só atravessa a rua como quer, tem o direito inalienável de estar com o sapato que quiser, eu só quero um texto de Joana, enquanto Joana só quer resolver algo, algum negócio, porque meu texto seria um negócio mais limpo que o negócio de Joana? Entre eu e Joana a mais conexão que eu queria, queriria! Eu e Joana atravessamos a mesma rua da desgraça, do espetáculo. Ela a rua Ipiranga eu a rua escrita. Minha calça apertada é dizer no texto, minha calça justa é se livrar da gramática imposta a mim por mim a dizer o que quero de mim e de Joana, quero escapar de Joana como quero escapar do que sou obrigado a dizer pela gramática e regência da língua. Quero estar numa língua jamais falada. Sem retórica. Joana atravessa-me ao atravessar a rua, estou no fim da caminhada de Joana, sou o fim do seu percurso ainda que não saibamos ambos deste fenômeno, se eu não atravessar Joana por este texto sã e salva, fracassei como Messias, óbvio que é uma ironia, o Messias é outra armadilha, não posso querer salvar Joana, nem salvar a mim mesmo, vamos deixar esse negócio de salvação para a igreja, a instituição católica, estou eu e Joana sem

Salvação no meio da calçada. Ambos se olham, da vontade de correr, mas nossos pés não responderiam a isto. Joana! Joana despida ainda é Joana. Joana sem nome ainda seria Joana, Joana sem emprego ainda seria Joana, Joana está impregnada de Joana, como eu estou intoxicado de mim para poder escrever mesmo o que é Joana, Joana viria até mim como numa enxurrada de não mim, não sei identificar o que não sou eu, meus olhos estão cegos para o que não sou eu :manopla, ciclope, homem de um único olho, olho sem volta, mão única de olho, extirpado de volta, de retorno. Sem retorno não posso ver Joana, preciso me cegar para ver Joana. O que vejo agora sou eu em expansão, preciso me bloquear, passar um calço em mim, cair e ferir a boca, jorrar sangue, quebrar os dentes, assim serei humilde em estabelecer-me com Joana, Joana quer um comércio legítimo comigo. Um passe. Um acordo tácito. Sim TÁCITO. É isto, sem o tácito estou sem Joana. Sem Joana, estou fudido. A Joana que passa por mim sem que eu a veja. A Joana que passa por mim sem jeito de ser, Joana improvável, adjacência, sem juízo, sem lei. Acabei. Pulando de um assunto a outro, não suporto estar no que é Joana, na substância podre de Joana, lixo de Joana, na podridão de Joana, ainda Assim Joana, substância jocosa, amálgama, Joana começa a se depor por si mesma, invada este maldito texto Joana e fale o que você quiser : de seu testemunho próprio, intrAvenoso, eu te empresto a minha fala rude, rudimentar para falar de você e de mim, o que não tive coragem de pronunciar, escória que somos. Perdi o contato com Joana, Joana volte, fale, balbucie, traduza-se, nem que seja num dialeto incompreensível, nem que seja fora da linguagem, de qualquer signo conhecido, da própria compreensão, que seja incompreensível, fora da camisa de força da compreensão. Consciência. Dialeto, estrias da língua, gagueira, nômade, esguia — fale, insista, fure, dobre, atravessar a rua, Joana, te espero do outro lado da rua para te receber em meu colo sem consciência, senha invalida para o texto, ele se falsificou, simulacro, é horrível quando a travessia é falsa e só serve para impressionar, serve para o outro, é um fazer e não um agir. A ação do texto desmorona. Joana atravessa a rua, mas já não existe o outro lado.

Reflexões sobre o jardim secreto

Carta para RES – Londres, fevereiro de 2017

 

 

Nesses dias que passei em Londres, sempre quando descia para tomar café da manhã, olhava para um jardim que tem na casa, muito inglês, com a grama muito bem aparada, um caminho de pedras batidas que o cruza bem no meio, que leva até um pequeno lago com uma fonte e uma escultura vitoriana de um rapaz dentro dela. Quando mais nova eu li um livro na escola chamado "o jardim secreto", e essa imagem do jardim sempre ficou em meu inconsciente, quem sabe até a cabana, o meu desejo que me levou até a você, tenha a ver com esse jardim, com um mundo que uma menina entrava e se transformava em um outro mundo, com outras leis, os animais e as plantas se tornavam personagens fictícios, com quem ela dialogava, mas quem via de fora, só via um jardim, ou seja, o jardim também não deixa de ser uma construção de relação daquela menina com aquele espaço, um modo como ela criou um mundo fictício, seu mundo fictício para fora dela, naquele jardim que não era exatamente encantado, mas que ela encantou (- sem a menina aquele jardim não existe, assim como sem o Warburg a biblioteca deixa de existir, e volta a existir com você).
Hoje fui a uma feira muito simpática em uma ruela bem estreita, e muito charmosa, onde comprei de uma senhora inglesa bonita, uma xícara rosa, um rosa clarinho, com o design muito parecido com a sua alemã. A minha xícara rosa também é alemã. Até então não havia aberto a porta e entrado no jardim, o observava muito como algo distante de mim, de modo que esses dias criei uma enorme fantasia em relação a esse espaço, ao jardineiro que cuida do jardim, ficava imaginando como seria a implicação desse jardim para uma criança, enfim, a verdade é que eu é que estava completamente encantada pelo jardim.
A lua hoje está particularmente espetacular, grande e amarela, acho lindo quando sou pega de surpresa por uma lua amarela, me toca muito profundamente, não sei porquê, mas é uma dessas coisas que me dão especial prazer. Acabo de tomar um chá na minha xícara rosa, em um banco no jardim, banhada pela luz dessa grande lua. Abri a frágil porta que poderia vulgarmente dizer que me impedia de entrar no jardim (mas a porta não era o que me impedia, o que me impedia era quem sabe um medo em entender que estava na hora de começar a também encantá-lo e não só ser encantada por ele. Quem sabe uma consciência de que não sou mais uma criança que sonha fantasiosamente no jardim, mas uma mulher que pode fazer do jardim uma grande invenção própria, que o jardim mesmo está todo por fazer).
Tomar esse chá no jardim, abrir essa porta de vidro, foi estar diante de um vazio, uma relação fria com aquele espaço, sem romantismo, sem fantasia, e na frieza de não ter implicação fantasiosa mais com o jardim, iniciar uma implicação seca comigo mesma.

Falamos muito sobre você a sua obsessão e talento pelo roubo. E ultimamente eu venho me perguntando sobre o que eu posso roubar. Essa pergunta me parece tão leviana e estúpida... Hoje, tomando o meu chá, percebi que você constrói uma Anna que vejo através de você, para que eu possa roubá-la de volta para mim. Isso é o mestre: a sua capacidade de ver o outro é tamanha, que você expõe a ele uma realidade dele que ele desconhece profundamente e se sente absolutamente seduzido por ela. Eu me sinto seduzida pela Anna que você conhece e me expõe, você me apresenta essa joia preciosa, e estrategicamente me faz sentir profundo desejo em tê-la, me provoca, para que em momentos como o de hoje, eu possa roubá-la de você, e assim, você estratégica e ficticiamente me devolve a mim. Isso, acredito, deve ter muito a ver com a ficção que salvou a vida do Senprun. A ficção que você cria na sua relação de mestre com o discípulo, é uma grande obra de ficção (ou arte) onde você possibilita que eu me salve, não com uma ideia de mim, mas comigo mesma, através de um suposto personagem que você me expõe, mas que é meu personagem secreto; com eu me forjando a ter algo que você me provoca a querer ter, que nesses momentos descubro, ser o elo que estava perdido entre eu e eu. É nesse lugar que a sua pedagogia é uma grande obra, é muito maravilhoso. Muito obrigada, por me enganar de tal forma, de me fazer querer tanto uma coisa, que descubro já ser minha. O Pablo foi muito sensível quando falou que você é um anjo.
A cada dia eu compreendo um pouquinho mais sobre a sua vida ser só doação.
E me comovo profundamente.
Com amor,
Anna

Reflexões

Anna Israel, 08 de junho de 2017

 

 

Quem sabe, nós jovens, e grande parte das pessoas, gostemos de reclamar, pois o lugar da reclamação, dessa primeira esfera da falta seja muito mais reconfortante do que ter as supostas coisas que chamamos de "resolvidas". Começa a me fazer um pouquinho mais de sentido isso que Rubens fala, que essa vida, nesse planeta, é de sofrimento. 

Muito honestamente, não sei muito o que falar sobre esse desenho ainda, fui ao Atelier e ao me aproximar dele, fiquei bastante abalada, e não consigo entender como é possível um desenho fazer isso comigo. E a partir disso, a ideia que tenho de desenho passa imediatamente a se ressignificar em mim, como se o desenho começasse a me retorcer, retorcer a mim mesma, retorcer alguma coisa estrutural de mim e de como respondo às minhas apreensões da vida. 

Uma sensação muito forte que tenho, é a de começar a entender que chegar no seu nível significa não poder fazer mais nada, e só ser um veículo para algo, e entendo e vejo no seu embate com o desenho, que leva um tempo para que a conexão se dê, leva um tempo, porque as coisas sempre serão maiores que nós: para mim hoje a técnica é maior que eu, e vou ter de lutar para possuí-la, mas para Rubens que já passou pela vitória da luta com a técnica, vive a insignificância diante de outra coisa, de si mesmo, vive ser menor que si e que todos os vínculos com um mundo desconhecido de si, que inclusive, passou a vida trabalhando para criar, um trabalhador de si próprio, onde o si próprio não lhe pertence. 

Não acho que essa seja ainda a melhor imagem, mas o terrível de estar em um nível como o de RES é que ele já não pode mais nada, seu caminho já está determinado (e só dentro desse caminho determinado ele pode escavar o impossível), enquanto nós jovens ainda "podemos muito” – pensamos poder muito ainda em meio a tantas possibilidades sedutoras. Tudo o que temos para fazer é fazer, é acertar, errar, se lamentar, tentar de novo, descobrir, mas para alguém como Rubens não tem mais nada disso, parece que os lugares estão já todos descobertos, os procedimentos todos vem à tona, infinitos procedimentos, o desenho pode ser espetacular com um simples gesto, mas não se trata mais de um gesto, ou de um procedimento que resulta em um efeito acertado, não acho que a sua relação de hoje com o desenho esteja na esfera do acerto e do erro, não acho que tenha mais acerto, nem erro, não acho que esteja nessa lógica maniqueísta, dicotômica, infelizmente. Com profunda aflição, percebo que estar em outra lógica deve ser mesmo terrível. Como um pacto, um negócio com o demônio que Rubens tem que cumprir, tem que entregar o pagamento ao demônio. O desenho me parece de novo, uma "encomenda", e aqui não se trata de bom, ruim, bonito, feito, linha retas ou linhas curvas, o desenho entrou em outra lógica, emaranha-se nas raízes de outra tessitura lógica, quem sabe uma que sustente uma ontologia do homem, uma lógica do diálogo com os seus porteiros, com os porteiros de suas portas de leis. Quem sabe ser artista seja isso, um longo caminho de diálogo com os porteiros. E um artista maduro já convenceu porteiros demais, já seduziu inúmeros porteiros, já sabe a técnica da sedução, já sabe a manha de passar pela porta, e quem sabe essa seja a desgraça desse novo porteiro, do porteiro que você enfrenta hoje: é o porteiro que é facilmente seduzido, é o mais seduzível de todos, está com a porta aberta, nem na frente da porta mais ele está, a porta está lá para você passar – e quem sabe passar por essa porta seja justamente poder resistir a essa tentação e manter-se para fora dela, quem sabe esse seja o único modo de estar dentro dela e vivo, vencer esse porteiro agora, quem sabe, seja não cair na suscetibilidade do porteiro. Dialogar com esse porteiro é passar pela porta, travar um diálogo, seduzir o porteiro no diálogo, um diálogo pelo diálogo, um atravessamento mascarado de diálogo, seja a passagem. O desenho, creio, é um veículo desse porteiro, é o atravessamento mascarado de desenho. Mas isso tudo também me são só sensações, do fundo do meu coração, como sua discípula, mas na verdade, antes mesmo de discípula, como sua amiga, companheira nessa vida (acredito que uma forma muito simples e ao mesmo tempo muito profunda, que isso é o que define uma amizade verdadeira, um companheirismo, e isso eu sinto por RES, isso é o que me sente em mim), quando olho para o desenho e fico desnorteada, fico também com uma vontade descomunal de poder te ver, te olhar, entrar dentro de você e te cumprimentar, de dentro. Não quero ser espectadora dessa relação, e por isso escrevo sobre o seu desenho como tentativa de poder olhar para você, com um olho que está dentro desse espaço que nos encontra.

 

"Essa não é a única atitude que o homem pode assumir diante da realidade do mundo e da própria consciência. Sua contemplação pode não ter nenhuma consequência prática e é possível que dela não se possa derivar nenhum conhecimento, nenhum ditame, nenhuma salvação ou condenação. Esse contemplação inútil, supérflua, inservível não visa ao saber, à posse do que se contempla, quer apenas abismar-se em seu objeto. Não possui nenhuma transcendência, ao menos na medida em que se trate de uma experiência. O homem que contempla desse modo não se propõe a conhecer nada; quer apenas o esquecimento de si, prostrar-se diante do que vê, fundir-se, se for possível, com o que ama."

 

Octavio Paz, Poesia de Solidão e Poesia de Comunhão 

O mar

31 de dezembro de 2017

Escrevi hoje na praia e tentei escrever mais algumas vezes agora que não foram bem sucedidas sobre a comunhão da sua obra com a repetição das ondas quebrando no mar, desse padrão que nunca para, mesmo agora que vou dormir as escuto, dos intervalos entre as ondas, por que ouço em alguns momentos menos intervalos entre as ondas quebrando e em outros momentos mais intervalos? Como se dá essa construção? Como se organizam os tempos dessa sinfonia? O que os organiza? Por que está organizado dessa forma? Ao que isso está relacionado? O que condiciona essa sinfonia? Imediatamente me faz pensar na sua produção, me faz pensar nas sessões de sexta, seja de desenho, de escultura, seja uma aula de segunda, seu texto, ou mesmo sua rotina, o modo como você a transgride, como as transgressões também são um elemento do conjunto, assim como quando às vezes depois de uma sequência rítmica de ondas, tem um lapso mais comprido de tempo, e vem outra mais curta em seguida, é assim um novo padrão se estabelece...

Mas talvez o que me fascine, ou melhor, o que me deixa absolutamente perplexa, é que essas ondas não param, posso estar na frente delas, posso me despedir e me virar de costas para elas, posso estar na minha cama escrevendo, ou mesmo no meu apartamento em São Paulo, ou mesmo já dentro de um caixão debaixo da terra - elas continuarão quebrando. Como você, que seja natal, seja ano novo, seja feriado, seja trovoada, seja um calor insuportável, ou um dente queimando de dor dentro da sua boca - você estará produzindo, você estará quebrando as ondas. E mais, não são somente ondas quaisquer, são ondas mesmo, as ondas que você está o tempo todo quebrando também fazem parte de uma sinfonia, de um padrão, com suas leis, sua métrica, seus escalões, seus supostos desvios, mas você está ajustado a uma lei, uma ordem, um fluxo, ordem, desordem, força, que te ultrapassa, que não tem nada a ver com você e com o que você quer. E é mesmo isso, você não quer nada disso, não é você que quer, já que é bem difícil para mim hoje saber o que é você e ao que me refiro quando digo "você". Só sei que eu amo você, e honestamente, não tenho nenhum interesse em saber o que é você que eu amo - só quero estar viva para poder continuar dizendo isso, ainda porque, te dizer que eu te amo é também dizer quem é você, e nesse jogo de saber e não saber, eu posso ser toda sua e te desejar o tempo todo. 

  

A obra me inventa

Estava agora andando na rua e refletindo muito sobre esse ponto que a Agnes Martin enfatiza muito com muita preocupação, que é o da educação por vias não intelectuais. Me dei conta de que a minha formação é totalmente proveniente da sua obra - sua obra me forma, sua obra me provoca a encontrar as palavras do meu discurso, sua obra me provoca a me encontrar nessas palavras que brotam de minha boca sem eu nunca as ter aprendido. Vou aprendendo na medida que vou crescendo dentro de mim, é algo completamente vivo - não aprendo para falar, mas falo ao aprender a viver um pouquinho mais o que sou. Fiquei muito impactada com essa percepção. Se hoje eu posso ler a Agnes Martin e posso de algum modo me autorizar a dizer que posso traduzi-la, isso é o resultado da porta que sua obra provocou a abertura em mim. É bonito pois não é que sua obra abre portas em mim, mas sua obra me provoca de tal forma, que me sinto em dívida com ela, e a única maneira de poder pagar essa dívida é me responsabilizando diante de sua obra, e abrindo uma porta que me espera por ser aberta. Sua obra me obriga a me responsabilizar por quem sou se quiser estar diante dessa obra. Essa é a negociação. Sua obra não admite uma relação com o outro que não seja completamente visceral e viva. Ela é comprometedora. Sua obra me compromete ao querer saber dela, isso passa a me definir, e ela me compromete a ter de me escavar para poder saber de mim, e na medida em que vou sabendo mais de mim, vou sabendo mais um pouquinho dela, e vice-versa.

Algumas frases / aforismas de Anna Israel na viagem de Itatiaia para Monólogo Ou Monodrama para Anna Israel 2016 -  1 de junho de 2017 por RES e Anna.

1o personagem Maggie

 

 

1. Diálogo entre Anna e Res:

RES

"Por que você acha que eu necessariamente fui o escolhido para implicar com a Maggie? Porque não outra pessoa?"

 

ANNA

"Mesmo se fosse outra pessoa ainda seria você"

 

2. Diálogo entre Anna e Res:

RES

"E onde você acha que essa sua fala ou essa relação implica  o seu corpo?"

 

ANNA

"Se não houvesse um corpo não existiria algo para que essa fala pudesse passar, não existiria esse veículo."

 

3. (Meu envelhecimento precoce me comunica que não há mais tempo, quem sabe eu não tenha tido esse tempo, existe uma exigência interna, uma exigência de mim mesma) 

 

A única pessoa que exige algo sou eu mesma.

 

4. Estado iniciático como um estado de retrocesso mim.

Devolução de algo a mim, estou devolvendo-me a mim.

 

5. Aprender a falar, fazer do exercício da fala um modo de articular uma comunhão comigo.

 

6. Sobre o envelhecimento precoce:

Quando não estou acompanhando uma compreensão de RES, com RES, quando não sinto meu corpo em estado de comunhão através da compreensão, sinto-me em divida, sinto-me em dívida com RES e comigo mesma, sinto que estou obstruindo alguma passagem

 

7. E o que sobra? O que sobra é um novo sítio, um inconsumável sítio de desbravação do eu. Não há como conceber isso dentro de uma ordem de sintaxe, o que sobre é o sem lei

  

8. Sei agora que muita coisa está sabendo e compreendendo através de mim. Início uma jornada para comungar com essa compreensão, para criar um canal de acesso a ela, isso é o que eu começo a entender por materialidade. 

 

9. Do mesmo modo como fomos condicionados a um tipo de educação, de comportamento, de espaços fechados das verdades, categorias, ciências, fomos condicionados a entender a nós mesmos somente a partir de um lugar.

 

10. O novo vem de um retrocesso de si

 

11. A psicanálise precisa entender que ela não pode se colocar como uma ciência fechada, ela é uma porta para algo, uma porta que abre um acesso para algo, mas depois dessa porta existem outras infinitas portas. A psicanálise só pode fazer sentido , só é poderosa mesmo, se ela aceitar sua incompletude 

 

12. Quando tenho uma compreensão mental sinto-me insuficiente pois sinto que compreendi algo, que estou dando conta de algo, e isso me incomoda profundamente pois sei que há algo ainda não compreendido. Só sei que compreendi algo quando sinto não dar conta dele, quando meu corpo inteiro entra em estado de compreensão e de incômodo maravilhoso pois não suporta o peso, o volume da compreensão que lhe é maior

 

 

Veja bem! Não precisa desenvolver os tópicos ou as frases - só dizê-las – elaborá-las de um jeito mais próximo da tensão - do nascimento das frases!

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Passagens de Anna Israel sobre a obra de Rubens Espírito Santo

DEZ/16 – JAN/17

 

(Algumas dessas passagens foram respostas às leituras de textos de RES enviadas diretamente a ele)

 

 

“(...) Èsù não pode ser isolado ou classificado em nenhuma categoria. É um princípio e, como o àse que ele representa e transporta, participa forçosamente de tudo. Princípio dinâmico e de expansão de tudo o que existe, sem ele todos os elementos do sistema e seu devir ficariam imobilizados, a vida não se desenvolveria. (...) Se alguém não tivesse seu Èsù em seu corpo, não poderia existir, não saberia que estava vivo, porque é compulsório que cada um tenha seu Èsù individual. (...)

(Èsù) é o intérprete e o lingüista do sistema.”

 

Juana Elbein dos Santos, Os Nàgò e a Morte

 

 

 

Introdução

 

A princípio, ia falar do nível de precisão de seu texto, mas antes de escrever, me dou conta de que não é mais nível nenhum de nada, já que, para se ter um nível alto de algo há de pressupor-se de um baixo, e esse texto, esse estado de consciência, esse corpo-consciência que RES se tornou parece que irrompe todas as palavras que estamos acostumados a usar, julgar, adjetivar. Nem mais sei se se trata de um corpo-consciência, senão simples e puramente um corpo; como a folhinha da árvore é folhinha de árvore, Rubens é um corpo, e a complexidade inerente de ser um corpo já te responde no mundo, já responde à complexa rede de estar vivo – como a do não estar também. Já que, o que garante que o que para mim não é vivo não seja vivo para si mesmo? Coloco exatamente isso em relação ao seu desenho: quem disse que o que é visível no desenho diz respeito à capacidade que nós temos hoje de ver? Não seria leviano então reduzir ao visível o que eu acho que posso ver? E o que eu não sei sobre o que posso ver? E quem disse que só vemos com os olhos? Quem disse que ver se reduz a estar de olhos abertos? Por isso, não sei mais se seu texto, seu desenho, sua fala, suas ações são “precisas”, existe uma palavra que urge para ser traduzida para fora de mim, não se trata mais de precisão, não se trata mais de autorização, não se trata mais de plástica, meu deus, Rubens, do que então se trata? Não se trata mais de nada, senão somente de estar em fluxo, somente de fazer parte, de entregar-se, de ser a sua vida que já não lhe pertence, mas seu próprio pertencimento a essa grande rede com suas próprias leis de um tempo para além desse tempo, dentro, fora, atravessado por esse tempo. Sua obra é o milésimo de segundo anterior ao batimento de um coração de um recém-nascido em algum lugar no mundo. É a força desse bebê que não sabe fazer nada, mas que rasgou o ventre de sua mãe para existir.

 

 

 

PARTE I

 

Como você faz isso? Não consigo acreditar como isso é possível. Onde você deixa uma parte de você para poder escrever isso? Como você escreve um texto como esse, se esse texto é o que escreve todos os textos? Esse texto é o segredo encarcerado do texto. A palavra é uma armadilha que esse segredo criou para não chegar ela – e aqui você usa a palavra para chegar ao segredo da palavra! Como você faz isso? E que presente você dá a humanidade quando faz isso, que sacrifício você faz por nós, o de cavar todos os dias dentro dessa caverna abandonada pela visão humana e acender uma vela lá dentro, não para que possamos ver o que há lá dentro, senão simplesmente que há uma caverna para ser vista.

 

 

 

PARTE II

 

Não suporto mais conversar sobre arte. A verdade mesmo é que não gosto de arte, arte se tornou algo excessivamente desinteressante para mim, excessivamente superficial, ou até quem sabe, simplesmente, não é nos assuntos de arte desse tempo em que vivemos que me encontro em descaminho; sinto uma espécie de vergonha dessas conversas de arte. Sinto falta das conversas enquanto perguntas, do silêncio antes de uma resposta, do gozo na construção de uma fala, de um diálogo, das tramas eróticas do diálogo em diálogo dele mesmo. Acho que esse ano vou passar a dizer que sou qualquer coisa menos artista. Acho que vou logo me assumir como crítica. Primeiro porque eu não sou artista, não sou nem como pensam ser um artista, nem como eu concebo um artista. Acho que no fundo, hoje eu me aproximo mais de uma crítica, ainda mais porque pensar a sua obra é hoje o meu veículo mais poderoso de aproximação de mim.

Uma vez escrevi que sua obra possuía anticorpos que a protegia dos males desse tempo, acho que só hoje entendo melhor o que havia escrito. Não fazia a menor ideia do que tinha escrito. Ela é uma cápsula para um outro tempo, para uma nova epistemologia, para um novo ser humano.

 

 

 

PARTE III

 

É muito assustador ler o que você escreve. É um ato de muita violência poder escrever desse lugar. Me parece ser tão proibido estar nesse lugar e ainda proferir dele, para assim, proferi-lo. É desumano: “minha fé é rompida não fosse rompida seria uma certeza então não teria o direito de ser fé”. Acho que essa frase define toda a sua tragédia. E ela é capaz de dizer pra mim coisas que eu não estava sendo capaz, responde a última pergunta que eu te fiz sobre a minha angústia. Hoje bem cedo fui andar de bicicleta depois de ter lido o seu texto, e teve um momento onde um pensamento me veio com muita violência, o de que você chegou com tanta lucidez em um lugar tão proibido, que você não vive no mesmo mundo que os outros seres humanos – apesar disso parecer completamente sem sentido, para mim é muito evidente que a sua relação com o mundo, ou o modo com que você deixa o mundo te penetrar, te afetar, te violentar, literalmente, não é comum... Enquanto uma pessoa qualquer tem uma ferramenta de percepção da vida, me parece que você desobstruiu espaços de percepção inimagináveis, até para você mesmo – então a questão não é que você vive em outro mundo, mas que você está muito mais suscetível à penetração do mundo em você, onde sua obra se torna uma intersecção das vontades do mundo com as suas próprias, ou até, nesse sentido, não existe muito uma distinção dessas vontades, tudo se torna uma coisa só. Me dei conta de que sua presença é tão poderosa que ela destrói todas as ilusões da realidade que criamos para viver dessa forma que estamos vivendo, e assim, sua presença, sua existência se comporta como a máscara tatuada em seu braço, como o seu braço enquanto doação para a máscara poder se alojar - você é a máscara que a vida pede para se alojar nela, você, a sua existência veio para esse mundo como uma máscara de proteção da própria vida: você veio proteger a existência, ou melhor, veio se ajustar perfeitamente ao vivo. Na verdade, você não tem a máscara no braço somente para se proteger de não ser levado pelo mar, pelo mar que hoje não é mais mar mas é mar-res (a máscara como esse hífen que tanto une os dois, mas os previne de não se perderem nessa coisa só), mas você é a máscara que veio para ser tatuada, ou ajustada no mar.  E, do lugar mais verdadeiro e misterioso de mim, seu texto me recompõe, ele é como um soro para um corpo que se encontra um pouco desnutrido. Sua existência me recompõe.  E eu digo isso do lugar menos romântico possível – acho esse poder realmente muito assustador, esse poder que realmente sei que não te pertence.  Acho assustador você poder ser um veículo desse poder.  Assustador não é a palavra, é só muito comovente. Não tenho palavras...

 

PARTE IV

 

Fico feliz em poder minimamente dizer nem que seja um ínfimo de coisa do que os seus textos me causam. E isso é lindo, o seu texto é a coisa que você pode dizer do que o seu (pré-)texto te causa – você diz a própria causa de ser você, você diz o que o texto te causa ao dizer o texto, vai o dizendo para que ele possa existir e dizer sozinho o que você não pode dizer dele, ele se diz ao você criar esse espaço de dizer dele. A diferença é que eu tento dizer sobre o que o texto me causa, e você entra na causalidade de você mesmo e escreve o que o texto, antes de existir, te causa, e, assim, o texto existe.

 

Eu, ainda, (por proteção?, insuficiência?, falta de recursos?, quem sabe por falta de uma pele grossa e calejada) preciso do seu texto como um gatilho de minha causalidade, um gatilho que aponta para mim mesma, o texto como uma poção mágica ou um espelho que volta diretamente para mim, então falar do texto é o meu modo simples de estar me dizendo, já que esse texto não é mais texto, ele é o intervalo invisível entre as coisas, entre eu e eu, entre eu e você, entre o milésimo de segundo perdido de realidade toda vez que pisco os olhos, ou o milésimo de segundo esquecido de escuridão no instante em que também os pisco. Você é aquele que escreveu o texto? Mas se o texto é o que sempre nos escapa, como você o escreveu? Como abraçar o que escapa? O que é abraçado então? Será que o que é abraçado é o entorno, justamente, o vazio para onde vai tudo que nos escapa, então o texto não é texto, não é algo, não é res, é o vazio para onde vão todas as coisas que nos escapam, e mais secamente, vazio esse que se encontram não as coisas que nos escapam, mas que estão escancaradas diante de nós, nós é que nos escapamos, estamos constantemente em um escapismo do que importa mesmo. Mas se o texto é um gatilho direcionado a mim, então o que é para você?, que o escreveu? O que é a coisa engatilhada apontada a você que não o texto? Por isso que fico assombrada com tamanha violência: para esse texto poder existir, o pré-texto é você com um gatilho apontando para você mesmo.

 

 

 

PARTE V

 

Eu não tenho dúvida de que a obra de RES inaugura um corpo próprio que ele doa para existir, des-estanca a palavra de um canal obstruído do dizer.

 

Acho que é igualzinho ao seu texto, parece impróprio que o próprio desenho esteja se fazendo, como se existisse um tempo próprio dele, ele não é um desenho, mas um espaço novo de acontecimento, um tempo e um espaço de coerências novas, onde a lei não necessariamente é suspensa, mas o desenho abre novas frentes de leis, inaugura um território que parece estar invisível pelas redes de proteção que criamos com os códigos de leis que não funcionam mais. Códigos obsoletos de leis, uma pele velha e gasta, podre, que claramente estão levando o ser humano a um colapso, seu sistema imunitário urge para que essas frentes sejam abertas, urge para que possamos sair de um lugar de protagonistas da vida, e poder voltar a nos seduzir por ela, voltar a nos relacionarmos com a vida de forma erótica. Nesse caso, compreendo que RES não está se relacionando necessariamente com a dura matéria do desenho, do papel em branco; mas com a dura matéria de si mesmo, enrijecida por uma epistemologia que claramente é insustentável, enrijecida quem sabe até mesmo por uma insuficiência do homem em sustentar a sua alteração, a matéria deve ser dura por algum motivo – Rubens quer dar de volta à vida, ao mundo, à existência, ao tempo como sujeito próprio, sua vida que os pertence, sua vida não o pertence, pertence senão à própria engrenagem de outro sistema muito maior que ele, suas leis não são regidas pelas leis de um tempo, de uma época, de um país, de uma classe social, RES devolve-se à engrenagem de um sistema de leis muito mais complexo, muito mais sutil, onde seus aparelhos de percepção, aparelhos sensitivos foram reajustados à ela, seu aparelho de cognição já transcende os aparelhos conhecidos. Por isso, seu desenho se torna uma espécie de desova, algo que precisa acontecer, um embrião de sua relação com o mundo externo – Rubens é um corpo inteiro perfurado, por isso, já não há distinção entre mundo interno e mundo externo, existe somente uma coisa só, e sua obra já não mais é sua, mas é a obra dessa relação.

 

 

 

PARTE VI

 

Rubens e a máscara em seu braço:

Me assusta bastante essa tatuagem em seu braço. Me assusta na verdade não a tatuagem, mas ela em seu braço. É como se o seu braço devolvesse à máscara um contexto perdido nos dias de hoje. Na verdade, Rubens não tatuou o seu braço, mas deu o seu braço à essa imagem, a esse símbolo, à essa entidade protetora.

 

 

 

PARTE VII

 

Seu desenho desencadeia memórias em mim que não sabia que existiam, mas não memórias dentro da ideia de memória que temos, mas memórias de uma pessoa que eu mesma não conhecia de mim - ou seja, o próprio espaço de memória é novo, o texto resgata um espaço novo de memória arqueológica de mim, me resgata um sentido perdido do que sou. Não do que sou dentro dos códigos desse tempo, mas justamente do que sou para além desse tempo, do que sou mesmo quando não for mais. O desenho, o texto, sua obra inaugura esse tempo de mim de quando não for mais e por isso elimina, destrói um peso, uma doença dos dias de hoje, um vírus de ser um projeto fechado de si mesmo, e retroceder no espaço dessa memória perdida – a obra de RES é o espaço do lugar que para sempre será esquecido de mim, que para sempre será maior que eu, sua obra é uma porta para um lugar de meu esquecimento, onde lá posso ser qualquer coisa, posso ser a minha pré-coisa, posso ser meu Branco. O “Esquecimento” é o sujeito que faz o desenho, é como uma entidade para quem RES se empresta, se doa, para existir.

 

 

 

PARTE VIII

 

Sinto-me em paz, serena, muito serena nesse momento, com o que me espera, com o porvir que me espera. Essa é a minha espera, eis o que me espera e que me motiva a caminhar, voltar para a casa – o meu porvir espera por mim em minha casa, minha morada, e essa sou eu mesma.

Espero por mim em algum outro tempo que vim a esse mundo para negociar. Uma entidade secreta de mim espera por mim sempre um milésimo de segundo antes de mim, e é de volta a ela que venho ir.

E esse instante de serenidade eu atribuo a RES; nesse exato momento, a saber que um ser humano como Rubens existe, e a descobrir, nos túneis invisíveis da nossa relação, os beco-saídas, (outro nome para) as infinitas coerências que estão sedentas por serem erguidas na construção, ou no desenvolvimento dela, ou mesmo simplesmente, por uma grande coerência maior onde nós somos somente instrumentos.

 

A grande maioria das pessoas são protagonistas da vida, onde a vida é um espaço, uma plataforma para elas construírem algo, o que quer que seja.

No caso de Rubens, o que acontece é que ele não é protagonista da vida, ele se funde à ela, não há mais os planos que existem em função de algo, de forma utilitária para algo, senão somente um único plano, assim ele “vê em devir”, como falou. Está aí uma grande diferença com simplesmente ver, onde ver em devir estabelece uma relação profundamente íntima com o visto, relação íntima com o que se vê, relação de diálogo, erótica com o que é visto onde, através dessa experiência, a vida parece se tornar uma coisa somente, uma experiência de relação do interior com o exterior, onde, quem sabe, essa distinção nem mesmo faça sentido para Rubens, onde ambas as coisas se tornam já uma coisa só. A existência não é somente um palco para o homem poder atuar. Quem sabe, o homem mal atue... São poucos os que atuam, e quando o fazem, estão em tamanho despertencimento de si, que quem atua é mesmo a existência que lhes atravessa. É o que realmente eu entendo por erotismo ­– quando não há mais o gozo de um desejo, mas quando a vida é que goza através de você. É o que eu quero dizer quando digo que Rubens Espírito Santo é um gênio – ele realmente se entregou para que a vida pudesse gozar através dele; ele é somente um instrumento da desova da vida.

 

PARTE IX

 

Sobre ser colecionadora da obra de RES:

Colecionar sua obra é uma forma de recordação, de colocar em reunião novas coerências, novas configurações que estabelecem para mim um espaço de infinitas possibilidades nesse corpo intermediário que cria-se nessa relação ostensiva entre o interno e o externo. Nessa relação, Rubens entrega-se a ser somente um suporte, um suporte de algo que necessita existir, não a partir dele, mas junto dele, nessa conjuntura, nova conjuntura. Colecionar se torna para mim uma forma de recordação de um esquecimento muitíssimo remoto, um esquecimento que não adquire sua forma de outra maneira, não se transforma em recordação, mas a coleção possibilita que o próprio sujeito “esquecimento” se apareça na sua mesmíssima forma, em seu vazio, sua nulidade, em sua ausência de resposta, o esquecimento se apresenta como uma pergunta fundamental. A genialidade da obra de RES não está em uma resposta que ele foi capaz de dar – acredito que pode-se começar pensando dessa forma, como eu mesma já o pensei, mas entendo hoje que as camadas de sua obra, de sua obra enquanto um organismo vivo, enquanto um corpo próprio, são muito mais complexas e sutis do que até a nossa ideia de resposta; a obra de RES não necessita dar resposta a nada já que essa não é a sua demanda, já que não possui desejo, não possui carência. RES, através de sua obra, realmente formula uma pergunta. Não quer responder à arte, não quer responder a um sistema de um tempo, não quer responder às suas questões familiares, não quer responder simplesmente, mas formula uma pergunta, quem sabe, para a folhinha que é balançada na árvore em um vendaval, devolve ao vento uma pergunta, mas não responde nada. Sua obra emaranha-se na trama erótica da natureza. Em seu próprio descaminho, Rubens gera um espaço de descaminho, de imprevisível, de tragédia, permite-se perder-se e deixar-se ser conduzido por outra coerência, outra ordem, outra sintaxe, outra engrenagem. E desta forma, ao que nós podemos chamar de descaminho (dada a nossa insuficiência, dada a nossa insignificância), para essa outra engrenagem, para poder realmente fazer parte de um giro, de uma peça que engrena outras coisas, torna-se o contrário de um “descaminho”, algo absolutamente objetivo, algo objetificável, algo sedento para existir dentro de um sistema, sua obra torna-se mesmo uma exigência do tempo – tamanha sua objetividade, não somos capazes de apreendê-las com nossos olhos, já que o próprio olho mesmo já é, sozinho, também parte da engrenagem, o olho sozinho vê e se identifica com a obra de RES melhor do que nós. A questão é que queremos muito pouco “reduzir-nos” a sermos só “olho”.

A grande obra sabe demasiadamente, ontologicamente de sua insignificância e assim possui anticorpos para não cair na arrogância de achar que pode responder algo – a grande obra possui anticorpos para que a pergunta seja poderosa o suficiente para só poder ser ouvida pelo sistema que a conjuga, e assim ela deixa de ser pergunta ou resposta, e torna-se somente um sonido.

 

 

 

PARTE X

 

Rubens inaugura um espaço de possibilidades que aparentava fechado – desenha um espaço que parecia estar trancado dentro dele mesmo; inaugura um espaço esquecido, que depois dessa inauguração, ele assim então se fecha. Essa porta é somente de RES, é a sua porta da lei, uma vez que ele a inaugura, ela se fecha, mas cabe ao outro abrir também a sua porta, inaugurar essa abertura de si próprio, para encontrar então esse espaço que estará sempre em esquecimento, esses espaços indisponíveis, espaços fictícios, novas coerências, novas configurações de nós mesmos.

 

 

PARTE XI

 

O pensamento no desenho de RES não está cindido do fazer, nós é que não compreendemos o que realmente pode ser “pensamento” para além de uma ideia limitada e autoral do que é pensar. O pensamento não está cindido de seu fazer: o pensamento no desenho de RES pensa o gesto, gesticula o gesto, e assim, o gesto não é dele, o gesto não é de RES, não é expressivo, ou subjetivo, mas sua mão se torna um canal desse pensamento gesticulante.

 

 

 

PARTE XII

 

Sobre profundo sentimento de paixão promovido pela leitura dos textos de RES:

É realmente um enorme prazer ver o modo como RES se arranja no mundo, como se relaciona com o externo, inventa um display para o sustentar fora dele mesmo, ou ainda, nem sei se inventa, já que inventar passou muito tempo inventando, agora acho que o que acontece mesmo é que RES se antecede em si mesmo, está sempre um passo antes dele mesmo, já faz antes de fazer, faz o que tem que ser feito, seu corpo se faz nele mesmo, responde antes de responder, hoje responde ao vento, se responde, é uma nova pergunta para a pergunta que a orquídea lhe faz, uma pergunta para o mar, que pergunta para mim, que ainda sou um embrião de mim mesma, trabalhando para um dia me embriagar nessa rede de diálogo de uma única sílaba, e ser assim minha missão.

Eu não sei, honestamente, o que conseguiu fazer com ele mesmo, ou quem fez isso com ele, quem nele fez, ou que tipo de entidade em ou fora dele, pouco importa, contribuir para isso que se transformou.

Entendo de um lugar muito sombrio de mim que RES é uma outra espécie, nem sei como entendo, mas do mesmo modo como podemos destruir uma epistemologia e ser uma nova, e criar uma epistemologia nova, eu sei que é um ser humano que não pertence a esse tempo – e faço questão de dizer que sei ao invés de dizer que acredito, já que o que sabe em mim me é muito maior, e ouço esse saber em mim, ainda que não seja capaz de saber por ora mais os lugares em que esse saber ressoa, mas em algum cômodo de minha morada, esse saber ecoa-se, não como uma verdade, mas como um início de uma descoberta dos espaços encarcerados de mim. Suas leis e códigos e engrenagens da máquina não giram mais como a de uma pessoa comum. Não sei mais nem se exceção é a palavra, pois não o vejo como um excesso de algo, vejo como o novo de algo, como um conto japonês que, na superfície, um pode ler de forma engraçada e outro pode chorar. Na aparência pode se disfarçar, mas, na verdade, é como mesmo se RES fosse um alienígena.

Rubens é mesmo o melhor produto do seu método – é a definição precisa do mais alto grau do método, a cobaia do método. Rubens é como o primeiro bebê nascido em Marte.

Reorganizou tudo. Eu não sei como um ser humano pode fazer isso, nem acho que seja “permitido” biologicamente isso. Mas é lindo, como nesse sentido, retrocedeu para um estado de natureza, onde pode se regenerar em si mesmo, regenerar sua espécie para outra coisa dela, estar mesmo no fluxo da espécie humana; nesse caso, RES não é um homem, mas é a natureza humana no estado dele mesmo.

 

 

 

PARTE XIII

 

Eu só posso agradecer por poder consumar a minha existência ao lado de um ser humano como você... O que você faz para a humanidade, ou, o que você faz para a própria natureza, para esse bicho que somos, eu entendo como uma Graça. Nesse sentido, Rubens, você é realmente uma prova escancarada de que a vida não nos pertence – porque você é um mensageiro, um enviado de algo realmente que não te cabe, e que ao mesmo tempo, me parece, é só o que deveria nos caber.

 
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