REFLEXÕES SOBRE O DESENHO DE SEXTA DE RES: 

Usener XII - 1o Estudo para uma Gravura Autorretrato

 

07 de abril de 2017

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Res, Usener XII - Estudo para uma gravura autorretrato, 7 de abril de 2017

A conclusão que hoje me toma muito fortemente é a de que Rubens sabe exatamente o que ele quer, e assim me dou conta de que isso não conclui nada,, só inicia um pensamento de algo que parece ser um código secreto diante de mim todos os dias - o que é saber o que você quer? Qual o objeto desse querer, que estamos chamando de desenho, mas que também parece se ancorar no desenho como um alicerce para existir. O desenho é um dado material desse querer, mas o desenho também me parece como um nó, um laço em uma grande corda que está sendo tecida para segurar outra coisa, algo que me escapa da visão, mas que não deixa de estar lá, visível diante de mim. Me pergunto que futuro é esse pelo qual o desenho pertence, se esse futuro é possível para nós seres humanos ou se será um futuro que para sempre será futuro, ou, o por vir, um tempo que teremos que criar em nós para acessar, um futuro de nós, o futuro de mim agora, que existe em mim sempre um passo à frente de mim, o meu saber que nada tem a ver comigo, o que se sabe em mim, quem sabe seja esse o futuro pelo qual o desenho pertence. E quem sabe seja esse o saber que sabe o que quer, não do desenho, mas de Rubens. O saber que sabe de RES usa RES para construir o seu desejo, então o desejo passa a ser um desejo do "saber", e não um desejo de RES.

Por isso não se trata necessariamente de esperar um momento da vida em que o desenho se fará compreensível, ficar esperando esse tempo futuro onde eu possa melhor assimilar o desenho, mas o de construir maciçamente esse tempo agora - esse tempo nunca vai chegar se esperarmos por ele, pelo contrário, esse tempo é o que nos espera constantemente, dia e noite, para que o encontremos em nós. Esse "tempo futuro que pertence o desenho" não se trata de um dia que vai chegar, mas um dia que eu vou construir para poder vivê-lo, vou me construir, me esculpir para poder um dia ser assaltada por esse futuro de mim e poder sustenta-lo - entendo esse momento de gozo profundo, quem sabe, um gato que os grandes mestres dão na morte: invertem, subvertem a gramática de tal maneira, que vivem nesse mundo em um tempo atípico, suspendem a ideia de início e fim, onde o discurso é para alguns só código, mas para outros, a única possibilidade de se ter uma conversa , em suspensão – é mesmo puro gozo!

E quem saba aí esteja uma pista da previsão de Rubens do futuro da arte, já que cada desenho é um veículo para que ele adentre um tempo que sempre estará por vir, e dessa forma, o "passado" da arte não é necessariamente obsoleto, já que ele está sempre para acontecer, está sempre em seu futuro; o próprio Giacometti é para o futuro, ainda que esse futuro seja agora no desenho de RES.

 

Depois da sessão de desenho de Res do dia 07 de junho de 2017

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

 

Em Santos, RES falou sobre estar à deriva, e como é lindo poder simplesmente estar em movimento, e ter os instrumentos para estar em movimento. Hoje, o assistindo desenhar, uma ficha caiu para mim: suas decisões no desenho não têm nada a ver com simples "decisões do desenho". Essas decisões provêm de muitas outras decisões feitas ao longo de sua vida; a cada decisão, Rubens tornou-se mais instrumentalizado para poder navegar por esse papel Branco até chegar ao Porto do Valongo. Não acredito que o desenho virou isso. É mesmo muito bonito ver seu grau de serenidade diante dos imprevistos do trajeto, e como um imprevisto é senão uma indicação de um caminho que tem que ser seguido, um desvio, o imprevisto é um desvio que leva Rubens para o lugar que o desenho quer levá-lo. O desenho é quem o leva para ele, e não RES quem leva o desenho para algum lugar. O desenho não existe, e ele conduz Rubens, e RES está bem apto para escutá-lo e para girar o seu timão.

Eutanásia

Depois da sessão de RES de 27 de outubro de 2017

Coesão estética. O que poderia ser um uso adequado desse termo? A sessão de desenho da última sexta parece ter gerado uma abertura para uma possível nova compreensão desse termo. Algo em movimento, na fusão ou na vontade de se fundir com a contradição, de retornar a ser contradição, no retorno de poder gerenciar displays para a linguagem de estar vivo. 

Me ocorre muitas vezes que RES é um homem muito perigoso – e abre novas fronteiras para novos espaços para o perigo poder atuar. 

Colocamos o "ser perigoso" como algo pejorativo, "perigoso", reprimimos o "ser perigoso" de nós, e acredito que aí é onde mora mesmo o perigo. Falamos muito de gratidão, e vejo no modo como RES opera no mundo, um gesto de agradecimento à vida: não permite que o "ser perigoso" seja reprimido, seja jogado fora, seja colocado de lado, afinal, como disse Nietzsche, "e se o nosso pior for também o nosso melhor"? E por que somos tão tímidos em buscar diferentes lugares para articular o nosso perigo, o nosso demônio? Creio que aí está mais um dado interessante sobre RES ser um artista para tempos futuros, quando inclusive, quem sabe, essa palavra "artista" nem mais exista. RES é então um homem do futuro, assim como o homem hoje está pensando em novos displays possíveis para poder viver no espaço, novas linhas de produção, novos tecidos para roupas, novas profissões, uma nova estrutura de solução, um novo espaço de solução que será necessário para o espaço. O homem no espaço não pode se fiar nas soluções da Terra, tem que pensar novas soluções para o espaço. RES não se permite ser leviano com sua condição, com a quantidade de energia que passa por ele, com sua contradição, RES está constantemente construindo recursos, novos espaços possíveis que possam abarcar a contradição ­– com um problema no espaço, não podemos nos fiar nas soluções da Terra. Essa me parece uma metáfora perfeita para a sua obra: não podemos mais nos fiar nos moldes que fizeram de nós, não podemos responder às demandas da nossa arquitetura psíquica como nos foi ensinado, podemos responder de outros modos, podem inventar novos arranjos dentro de uma arquitetura já dada. RES lutou diariamente para não se deixar ser domesticado para se adequar a um tempo, mas pelo contrário, se ficcionou, inventou novos arranjos de si, para assim conhecer tempos vindouros. RES entendeu que pode inventar uma linha de produção no espaço, isto é, entendeu que o display da sua violência, do seu perigo, não precisa ser como o de um estuprador de criancinha - quer ser ainda mais criativo que este, quer inventar displays, novos espaços possíveis para seu perigo. 

RES articula-se então em uma agressiva luta contra qualquer tipo de entrave que a vida lhe apresenta, já que compreende o entrave não enquanto problema, mas enquanto oportunidade para invenção, para descoberta, para descoberta de um novo homem. Sua obra não se trata mais de criar um objeto de arte, mas de inventar dispositivos para a vida, inventar novas formas de estar vivo, de estar constantemente inventando novos displays para a vida. 

Importante detalhe: não é, porém, que Rubens se utiliza de "displays da arte" como um espaço de descarga de sua violência, não se utiliza da arte como uma descarga de energia, mas o próprio assassinato está na abertura para se manobrar de tal forma em torno de diferentes lugares, a violência está na inventividade, a violência está em não aceitar as formas como elas nos são dadas. Já passou da fase de usar arte para poder ser violento, agora, a destruição dos lugares comuns da arte (ou, de si mesmo) é o display que encontrou para sua violência. O display da escultura ou desenho de sexta não é o desenho de sexta, mas o display são as manobras para poder fugir de um lugar já nomeado. 

O display já não é mais o objeto. Ou o objeto não é o objeto que achamos estar vendo. O display / o objeto é o intervalo que o antecipa e que o constrói, e que está lá, e vemos, ainda que não conseguimos nomear. É aquela coisa que nos comove, em um papel modelado com cola e água. É a própria incompreensão da comoção em algo tão material, é o transcendente passando diretamente para algo imanente.

O display? É o espaço infinito de possibilidades que antecipa o objeto – é o pré-objeto, o segundo antes de chegar à forma é todo o infinito do segundo que antecede o objeto final que está contido no objeto. E faz dele assim, algo em movimento, algo inacabado. 

Tentando ver o desenho Derviche de RES

 

Anna Israel

Santos, 26/08/2017

Res, Derviche, 14 de agosto de 2018, Coleção Mirela Cabral

Como um objeto pode conter uma visão de mundo? O que de fato isso significa? Ou melhor, como uma visão de mundo pode se transformar em um objeto? Vejo esse objeto de RES, o Derviche, e não vejo um objeto, um desenho, uma escultura dentro de uma cúpula, inclusive, não vejo uma cúpula. Então o que existe diante de mim? O que estou vendo? Quando RES opta por esse recuo dentro do espaço, esse espaço vazio dentro da estrutura de acrílico, quando opta pela cúpula não ser quadrada, me parece que essa escolha permite que essa estrutura deixe de ser o que entendemos por uma cúpula, e passa a ser uma visão de mundo, passa a ser um espaço, um espaço psíquico, um espaço de interlocução com o seu desejo, consigo mesmo.

A escolha em fazer essa cúpula de acrílico retangular imediatamente faz com que ela deixe de ser uma cúpula para o desenho, sendo então parte constituinte da construção de uma visão de mundo de Rubens. Isto é, a cúpula não é mais cúpula, mas é um abrigo, é uma questão de vida ou morte não para o objeto que está dentro dela, mas para o próprio Rubens, que é, também, o objeto. Rubens não vê mais objeto, não vê mais cúpula, não vê mais nada como é projetado pelo tempo para ele. Ele deixa com que a coisa se projete nele, e ao deixar as coisas o penetrarem, ele se torna um receptor, também, coisa nenhuma. Pois não é ele que vê, não é ele que nomeia, mas as coisas que se utilizam dele para poderem existir no mundo.

Fico pensando sobre querer copiá-lo, copiar seus procedimentos, inferir suas manobras e me dou conta de que não há como forjar um espaço psíquico, não há como forjar um acesso, não há como forjar o recuo vazio da cúpula de acrílico. Um objeto como esse não se trata mais de plástica, não se trata mais de "arte", mas são escolhas na vida de um sujeito que vão o moldando para que essas escolhas sejam o motor de decisões futuras, as nossas escolhas são as bases de nossas respostas para a vida. Nossas escolhas respondem por nós. Por isso, acredito que Rubens opera tão rápido, por isso é tão rápido para RES olhar a cúpula e entender que ela precisa de um recuo, pois não é RES que decide isso, não se trata de uma decisão plástica, mas foram as escolhas que RES fez em sua vida que entenderam ser necessário o recuo. 

Hoje, vendo essas imagens, sinto tremenda vontade em continuar olhando para elas, as pensando, refletindo sobre o que eu estou vendo nem que essa reflexão seja através de minha comoção, nem que a reflexão esteja no display de um tilt em mim, uma compreensão de que o que estou vendo não é um objeto de arte, e sim uma extensão de seu braço, uma extensão de sua alma, uma cápsula que contém sua atmosfera, o cheiro do ar que exala para fora de seu nariz, depois de percorrer por todo seu corpo. Esse desenho fede à atmosfera, ao cheiro que RES sente dentro de sua prisão. Nesse desenho posso sentir um pouquinho esse cheiro. Acho especialmente interessante essa manobra onde o desenho deixa de estar dentro de uma cúpula no momento em que Rubens a faz retangular, um prisma. Assim como Matisse acaba com a ideia de pintura enquanto objeto fechado quando pinta o atelier vermelho, a pintura, a tela, aquela superfície quadrada é "somente" uma plataforma para ele tomar decisões frente às quais sua vida está em jogo, a superfície retangular de Matisse é o display onde ele pode ser um assassino sem ser preso, ele já está preso – as decisões me parecem parecidas, não são mais plásticas, não são mais intelectuais, acredito que só são decisões vitais, decisões fundamentais para que a vida possa continuar em movimento, decisões fundamentais para desobstruir um sangue empossado do tempo, cada um em seu tempo, cada um com seu display.

Para um grande artista, as decisões que chamamos de "plásticas" são tão naturais e essenciais que o que entendemos por plástica ganha inclusive uma dimensão muito mais profunda, muito mais vital. Não acredito que um "nível plástico" possa ser elevado. O que se eleva é o grau de comprometimento com a vida de um sujeito, e isso movimenta suas articulações no mundo, isso é o que chamamos de um altíssimo nível plástico – já não tem mais a ver com plástica. 

Penso que a decisão por essa cúpula dessa forma, nessa conjuntura me faz compreender - a cada dia vou fortalecendo mais um pouquinho a tessitura dessa compreensão -  que RES não mais é um artista, e que não está interessado por arte, mas que está interessado quem sabe pela vida. Há algo seríssimo e muito profundo na escolha de não fazer a cúpula quadrada, da cúpula não ser o display do objeto, mas da cúpula fazer parte dele. A própria ideia de display para RES já é outra. O display para RES não é algo que vai dar valor ao trabalho, deixá-lo "digno", dar brilho ao trabalho para o mundo, como a arte contemporânea entende o display. Quem sabe o Derviche só exista para que exista essa cúpula, esse espaço, essa prisão. Um é inerente ao outro. RES não arranjou um display para colocar o seu Derviche, não concebo esse movimento dessa forma, para que ele possa estar bem "emoldurado". Mas RES inventou uma tecnologia para poder devolver ao Derviche o seu sítio de habitação ­– sua prisão. Só a prisão, somente aprisionado esse objeto pode repousar em sua liberdade. Fora da prisão ele está descontextualizado, fora de sua prisão ele não existe. Somente podemos existir através da impossibilidade de existir, só posso existir através da minha carne, do que me trava a existência, do que resiste, me impede. O interdito é o caminho. Já que RES despertou esse chamado, já que acendeu a chama do Derviche para o mundo, concluiu o seu trabalho dando a ele o seu único cômodo possível. Um pouco como nos rituais de umbanda, que oferecem aos santos o que eles mais gostam, um modo de fazê-los se sentirem em casa, um modo de lhes dar prazer, de deixá-los felizes. Esse objeto laranja que envolve o Derviche não se trata de uma cúpula, se trata de uma pele, um corpo. Precisa cuidar bem do que chamou, do que invocou, isso que invocou agora torna-se parte de sua responsabilidade, isso que invocou agora é um novo agente de suas escolhas.

O Prático

 

Reflexões sobre a obra de Rubens Espírito Santo

 

 

 

 

Percebo-me pensando sobre a língua e o que a antecede, a construção antecedente à língua que a constrói e como que concomitantemente a língua nos constrói. 

Entendi com clareza que R.E.S., ou isso que chamamos de "um grande artista" não fala a mesma língua que os demais. E isso não significa que necessariamente as palavras sejam outras, que os verbos sejam conjugados de maneira excêntrica, que a sintaxe seja ordenada de forma mais "livre", mas toda a estrutura da língua é outra, e isso significa: toda a sua estrutura de apreensão da vida é outra. Assim como para um alemão pode não fazer sentido o "jeitinho brasileiro", para um grande artista a orla de compreensão, apreensão, resposta à vida dada por um ser ordinário, comum não faz sentido algum. Nossa língua é um DNA de quem somos, e mais, somos hoje prisioneiros dessa língua, se ela nos possibilita tais frases a serem articuladas então isso significa que essa articulação faz parte do nosso sangue, de nossa epistemologia, de nossa história, somos completos prisioneiros da língua, e também, somos nós que a inventamos, e ela nos inventa.

Da mesma forma que a estrutura do japonês é outra, da mesma forma que o japonês ou o grego são intraduzíveis – não por não termos as mesmas palavras que eles, mas porque o nosso ser está estruturado de forma diferente, o que é intraduzível não é uma palavra, mas é a vida que passa por aquele que a profere. 

 

Acho bastante significativo a nossa língua permitir a construção de uma frase como "a vida não faz sentido". Acredito que a sintaxe disponível na nossa língua para tal elaboração já diz muito sobre a nossa doença e sobre as nossas dores. Claro que, Freud mesmo diria, a angústia que constrói a neurose e não o contrário, então faço um paralelo nessa problemática ainda para complicar mais um pouco: a dor é que constrói a língua, a angústia que inventa a língua, ainda que a língua nos aprisione. Logicamente, poderia então concluir que "nós nos aprisionamos?"

Me pergunto se para um esotérico, se para alguém como Madame Blavatsky teria alguma lógica a afirmação: a vida não tem o menor sentido. Sinto, que, de algum modo, tal afirmação expõe uma arrogância, uma prepotência do homem, uma prepotência ancestral, ontológica do homem em achar que está no comando. Acompanhando R.E.S., percebo que essa elaboração realmente não faz mais sentido para ele, mas não de forma demagógica, ou porque ele construiu uma obra, ou porque tem muitos alunos, muitos empreendimentos, e porque por isso não tem "tempo" para deixar tal coisa ser pensada. Não acho que seja por aí. Mas todas essas coisas provêm de uma vida estruturada justamente em torno de uma profunda consciência de insignificância, de humildade (apesar de todos esses termos serem definições de uma jovem que está construindo uma vida para ser dobrada, então provavelmente esses termos não sejam os melhores do seu ponto de vista), estão circunscritas por um saber de que não está no controle – a vida é o sentido, é o único sentido que temos, estamos querendo constantemente atribuir sentidos mundanos à vida, atribuir sentidos vulgares e muito menores à vida. Me parece que se trata de uma questão lógica: realmente, dentro do tipo de sentido com o qual queremos entupir a vida, ela não terá, pois ela é muito maior que esse tipo de sentido, querer atribuir à vida um sentido vulgar fará com que a vida, desse modo, não tenha mesmo sentido. O sentido parece estar murmurando em nossos ouvidos dia e noite, basta acordar, basta inclusive estar dormindo, o mundo pode estar em guerra que o sentido da vida continuará murmurando. E mais, não hesito em pensar que as guerras fazem parte desse sentido, dessa lógica, dessa teia. 

 

Me parece mais que é uma questão de encontrar, de ouvir as pistas de sentido que a vida nos oferece. Retroceder. Nós é que somos arrogantes, o sentido da vida está em uma estrutura gramatical que é muito maior que a nossa e por não a acessarmos, já concluímos que não há. 

A língua que falamos hoje está correndo por esse afluente do sem sentido, está correndo por um afluente de uma construção que teme profundamente olhar para o outro, para o nosso vazio, nosso suposto "vazio de sentido" e ver nele o "brilho do que é verdadeiro", como diria Beuys. É justamente nesse vazio que se encontra todo o sentido em latência, é nesse vazio que murmura o sentido. 

 

Acredito que se tornar um artista seja entrar nessa linguagem, seja subverter as leis de uma língua imposta por um país, uma sociedade, um tempo, e com os recursos dessa língua, transfigurá-la, para que ela dialogue, para que ela se ajuste em uma língua que é muito mais sutil, na língua do sentido. O "sentido da vida", poderia dizer, é a sua própria língua, é uma língua em si, possui seus códigos, suas leis, sua sintaxe, gramática... o lindo disso é que o vocabulário dessa língua, as palavras dessa língua são ordinárias, o vocabulário pode ser a subjetividade de cada ser humano, pode ser o display que seja: gastronomia, pintura, texto, malabarismo, engraxate, camponês, pouco importa, não há o display correto, inclusive, o display está constantemente querendo ser inventado. O display está todo por fazer, a humanidade estará sempre por fazer.

 

Mas esse sentido, essa língua a qual me refiro não se aloja no vetor dialético do sim e não, do ter ou não ter algo, da sanidade e da loucura. Esse sentido não se trata de uma oposição a algo, R.E.S. não faz uma oposição a um sistema, a um tempo, mas dentro desse tempo, dentro dos recursos que esse tempo oferece os transforma em outra coisa, devolve à ontologia do tempo o próprio tempo fugitivo, o presente que nos escapa, as possibilidades em latência, invisíveis aos olhos obstruídos por verdades que construímos e que nos foram impostas.

 

O que então me parece realmente grave, é que os sentidos da vida foram todos impostos a nós, o rumo da vida parece só ser um, o rumo da vida parece já estar preestabelecido, as profissões já foram tachadas, a ordem é só uma, as relações seguem um script, a fala, o pensamento, o comportamento, a educação, todos já estão pautados por um roteiro desse tempo. Intuo, porém, que criamos todas essas verdades pois não suportamos um grotesco vazio, não suportamos não suportamos a deriva, não suportamos não estar no controle, então inventamos um falso controle através de nomes, rumos, profissões, conhecimento, receitas, scripts, enfim, um modelo de sociedade e de vida, um fim muito específico para a existência. (É mesmo desesperador). 

A questão que realmente me fascina, e que acredito ter muito a ver com ter volume de vida, quem sabe é que aquele que tem volume de vida é aquele que suportou destruir, arrebentar, assassinar todos esses supostos "sentidos" impostos por uma sociedade, um país, um tempo, uma classe social, e permanecer em um vazio de sentido, que não significa ser um sem sentido, não corre por esse afluente epistemológico; mas significa suportar um vazio e trabalhar em direção a poder ser apresentado pela vida o seu sentido. E assim, tecer os elos perdidos, em latência desse profundo sentido, sem autoria, deixar com que a vida se crie através de nós, ser mesmo um agente da vida. Ou seja, ter volume de vida seria então para aquele que está mesmo vazio, para aquele que tem espaço de manobra. Ironicamente, volume de vida só tem quem está vazio, para assim ter espaço para manobrar a vida no mundo. Um mundo que na verdade, secamente, com uma luz tão forte que é insuportável, é vazio desse sentido que estamos constantemente dar para ele. O mundo é cru. É de uma crueza insuportável. Mas só é possível inventar dentro dessa crueza insuportável. Negociar com o insuportável dessa crueza até que a crueza comece a se transformar em outra coisa - quem sabe essa outra coisa seja uma invenção. Por isso digo que Rubens é um assassino. Um assassino de todo um sentido da vida que lhe é constantemente imposto, e, para não ser leviana, que seu próprio corpo quer constantemente o impor, já que de algum modo, nosso corpo precisa se proteger de si mesmo. Mas o artista negocia com forças maiores para que o corpo possa finalmente voltar a conviver com si próprio. E só através desse assassinato, e de um arsenal de ferramentas, Rubens faz nascer o novo, a partir do não ter nada, ter algo. Por isso que não tem limites, e que pode tudo. Pois é justamente ao não ter nada, que se pode ter tudo. 

 

Rubens é o prático que manobra a vida que o atravessa no mundo. Negocia um espaço no mundo para essa vida.

O que é ver as esculturinhas de RES?

 

Anna Israel, 04 de dezembro de 2017

E colecionar RES é para mim um modo de me encontrar com um futuro muito distante de mim, um futuro impossível para mim, um lugar inimaginável - seu trabalho é um lugar, um lugar em que me encontro com algo realmente sagrado nessa vida. Me encontro com os tempos todos acontecendo ao mesmo tempo, me encontro com o macaco de mim e com o robô de mim, é como um portal de teletransporte que me transporta para tempos inimagináveis da minha própria espécie. Realmente, não posso acreditar que posso não só presenciar, mas viver tal coisa nessa vida, viver essa experiência, estar diante desse objeto e sentir sua implicação em mim, estar diante de um objeto e saber que ele não é um objeto, é um lugar, é um tempo, é algo que concomitantemente está nele e também não está nele. Quem sabe seja esse o símbolo que interessava ao Warburg – algo que não representa alguma coisa, mas alguma coisa que carrega muitas coisas e são poucos aqueles que estão disponíveis (e não "aptos") para ver, ainda que o que esteja vendo essa coisa não são os olhos.
Não sei com qual órgão do meu corpo que eu vejo o seu trabalho, quem sabe seja essa a beleza: o meu corpo inteiro se torna o órgão que vê.

Ensaio sobre último desenho de RES dedicado ao Fedro de Platão

Tentativa em V partes de expor o que pude ver desse acontecimento

 

05.março.2017

 

 

 

PARTE I

(ou uma breve introdução visando um início de

organização dos lugares das coisas)

 

Fiquei pensando sobre o pouco que entendi do que a Manu falou, sobre o seu desenho ter a mesma força que o “Ma Loute”, de Bruno Dumont. Mas eu discordo, particularmente acho que esse desenho não tem nada a ver com o filme do Bruno Dumont, claro que posso estar sendo leviana, e até mesmo arrogante, mas o Bruno Dumont sonha com o seu desenho, ele sonha que isso seja possível, mas não sei se realmente acredita que ele mesmo possa fazê-lo. Acho importante essa incisiva observação neste texto, pois acho urgente sabermos separar as coisas, não de forma maniqueísta, mas de forma mesmo que possamos entender como uma coisa pode alicerçar a outra, e como uma coisa realmente dialoga com a outra. Acho importantíssimo sabermos discernir uma coisa de outra, para podermos inclusive não somente ver melhor as coisas, como entender, o lugar de cada coisa, e como o fato de cada coisa ter e saber de seu próprio lugar é imprescindível para que algo possa acontecer.

Eu acho seu filme brilhante, acho “Ma Loute” brilhante, mas principalmente sobre um ponto de vista crítico. Acho que ele faz uma belíssima crítica de arte, do nosso tempo, da epistemologia miserável que nos apropria como um limo gosmento e perverso. Acho o filme de bruno Dumont uma previsão para tempos vindouros, uma aposta para um novo ser humano, mas acho que essas questões são só o início das questões no desenho de RES. Não há como não relacionar de imediato esse desenho, em particular, com o cinema do Tarkovsky – e é aí onde “saber ver” ganha uma dimensão que acho particularmente urgente. É mesmo um amuleto, um talismã, um objeto que RES traz para o mundo da presença, para este mundo que podemos ver, Rubens trouxe um objeto impossível para o possível, mesmo que ele nunca deixe de ser impossível, já que sempre será maior do que nós. Mas ser maior que nós é a grande beleza do objeto, e perceber espasmos de compreensão de algo maior do que eu faz com que eu mesma perceba que eu sou maior do que eu, que em algum lugar secreto de nós, esse desenho dialoga, esse desenho conhece e nós conhecemos, ainda que desconheçamos este conhecido; ele grunhe dentro de nós e desperta uma nova compreensão do que somos, ou, do que é em nós, do que existe de fato, que sou eu, para além de mim: a mais preciosa partícula de vida – apesar de supostamente insignificante nos dias atuais –, e que, sem ela, não existimos. Ela é humilde o suficiente para não necessitar ser notada ou ser "a grande estrela" do espetáculo o tempo todo, mas ela está lá, em seu quartinho minúsculo, escondido, no sótão de nossa morada, já que ela não precisa de nenhum quarto maior, não precisa possuir grande espaço, pois o espaço todo já lhe pertence.

Nesse sentido, compreendo a aproximação do desenho com o filme de Dumont, mas me arrisco em dizer que acho impossível um diretor francês fazer filme no nível desse desenho – os tempos são outros, a organização é outra, as configurações estão se reajustando, estão em movimento, as configurações estão em um momento de suspensão, seus elos estão suspensos, soltos, e em latência para serem reajustados. Bruno Dumont está fazendo um grande favor para o seu país, o grande pai do cinema, e esse favor diz respeito a destruir toda uma visão de mundo, mas Rubens faz um favor com a sua obra que não acredito que seja mais um favor ao seu país, não sei se sua obra tem país, acho mais que esse desenho também não é um favor, mas realmente uma obrigação. Rubens não tem saída, se o desenho fosse só desenho ou se ele fosse pelo seu país, já poderia ter terminado duas horas antes, mas o tempo e o caminho que ele, o desenho, ordenou que RES o levasse, faz com que eu abra mão de tudo que poderia vir a pensar sobre ele, já não diz respeito a esse tempo, muito menos a um país, acho que diz mesmo respeito ao mar, ao grande oceano que intervala as massas de terra, intervala os supostos "países", os supostos "nomes". O desenho não tem nome, ele é o que nomeia, ainda que “não idioma”, num idioma que nos custa a nossa existência identificada.

 

E voltando a deixar clara a minha visão sobre Bruno Dumont: não acho que o fato de seu filme não estar à altura do desenho de Rubens o desmereça, pelo contrário, acho vital a necessidade de existência de seu filme, mas seu filme não deixa de ser um filme deste tempo, uma previsão para tempos futuros, um mundo futuro menos doente, mas o desenho de RES não prevê um futuro para esse mundo, ele dialoga com um tempo mítico, ele proclama o impossível dos tempos. E o “Ma Loute” de Dumont é mesmo um sonho do seu desenho, é um desejo de que algo como o seu desenho seja possível, e quem sabe a existência de seu cinema seja imprescindível para gerar força em Rubens para a batalha de sexta, para que Rubens não deixe de acreditar no que é seu – já que outros homens estão cuidando da terra, Rubens deve comungar com as estrelas.

PARTE II

 

O que quero dizer quando digo que o Rubens não espera nada do desenho:

O desenho é quem espera por Rubens.

Que é também muito diferente de dizer que o desenho espera "de" Rubens. Quando digo que o desenho espera por Rubens, digo que há algo que sempre pode ir mais, esperando para que nós o encontremos, o desenho, já existe, já existe em algum lugar perdido de um mundo que não podemos ver, assim como o Rubens que vem a tornar-se após o desenho, também encontra-se em aguardo, em espera, em algum espaço. Há uma espera de nós em algum lugar, algo espera por nós, quem sabe a vida mesmo espere por nós, a nossa própria vida nos espera por ser resgatada. O desenho espera por RES, o desenho, espera esse encontro, onde RES deixa de ser RES e o desenho deixa de ser desenho para que ambos possam voltar a ser o que o tempo exige que sejam. Rubens, percebo, ouve esse chamado, ouve essa suave voz do chamado, como um canto de sereias, que embriagava os marinheiros na Odisseia; Rubens embarca-se em uma jornada sem se prender a pilastras com cordas tensionadas, Rubens distenciona as cordas justamente para assim poder instaurar a tensão real: a tensão de ter as cordas soltas, a tensão de não mais estar sob tensão, a tensão de não mais usar artifícios de tensão, de não mais usar artifícios para existir, para fazer, para se queixar; a tensão de um bicho solto, que suspende todas as regras para buscar a sua salvação, para buscar a si mesmo em uma jornada que pode não ter retorno – o desenho é o amuleto dessa jornada, é o que possibilita que seus pés continuem fincados ao chão, o desenho o conduz, ainda que o desenho ainda não exista, a coisa não existente do desenho é o que faz o próprio desenho, é o que sussurra ensurdecedoramente no ouvido de Res pra que ele não pare, para que ele continue seguindo o caminho no escuro da floresta, onde seus parceiros já lhe deixaram só, onde está só ele, e a coisa não existente o guiando.

RES ouve o que Homero chamou de “canto das sereias” e vai até elas, e a tal ponto descobre que as sereias não são mesmo sereias, Rubens descobre a real identidade das sereias, e negocia com elas o valor de despi-las, despir a fantasia através do seu desenho, e lentamente, arrancar de si mesmo mais uma camada de pele de sua própria fantasia no mundo. A cada conquista, ou a cada destruição, mais intenso é o cheiro do sangue de sua carne viva sendo exposta, a cada conquista menos identificado Rubens se torna de si mesmo, e ao mesmo tempo, mais próximo está de sua impossível identidade.

 

O desenho espera para que RES o inaugure no mundo, em três horas de sessão, de uma batalha; abre uma fenda no tempo para que o desenho se desenvolva, revolva-o da forma como ele bem quer vir a existir. E enquanto RES espera por algo, o desenho não vai existir, RES, pelo contrário, é aquele que tem que ir atrás, tem que desflorar as florestas virgens supostamente invisíveis diante de nós e resgatar o desenho para esse mundo. É uma batalha muito sutil, e muito violenta entre muitos mundos, entre as infinitas camadas de espaços invisíveis.

 

PARTE III

 

 

A grande desgraça do desenho (e particularmente muito difícil de entender nesse miserável tempo em que vivemos) é que ele usa RES, e RES se deixa ser usado por ele, não existe mais RES, não existe mais Rubens Espírito Santo nem para ele mesmo, não existe essa identidade, ela é entregue ao devir que veio cumprir nessa Terra, ou que, para tentar ser mais material, entrega-se a ser mesmo somente uma criatura, parte integrante dessa tragédia: deixa de ser insignificante ao voltar a ser somente um ínfimo da realidade: qual outro significante além desse? O modo como RES salva-se de sua insignificância é entregando-se mesmo à ela, para que o ser insignificante ganhe tal forma, tal força, tamanha dimensão de lucidez de desidentificação, que volta a ser somente um sopro de vida que veio articular-se por ele. Ou mesmo esse "por ele" nesse contexto não faça mais sentido, pensar dessa forma já é cindir as coisas. Ele mesmo é esse sopro de vida, nós somos um sopro de vida de coisa que veio à existência, rompeu com a latência dessa existência de nós mesmos para existir, então por que há a cisão, meu Deus? Talvez a cisão seja o que faça a coisa ter charme, é o que gera a graça, é o que insufla a vida de beleza, se soubéssemos da vida o tempo todo não haveria vida para se maravilhar, a vida seria um tédio permanente ou um gozo permanente, e assim, deixaria de ser também qualquer uma dessas coisas. Quem sabe a maravilha da vida seja mesmo que ela será sempre maior do que nós para que nós nos seduzemos por ela. A desgraça está em não termos mesmo escolha, está em nos darmos conta de que a consciência é um campo de concentração do qual nós somos prisioneiros, prisioneiros de uma vida que espera por nós, nós não podemos esperar nada da vida, ela é quem nos espera. Sendo assim, o desenho de RES, Dedicado ao Fedro de Platão é a desgraça da vida, sendo a desgraça a maior maravilha que temos, a de ser uma antecedência de nós. O desenho é um grande senhor que impede que RES deseje, não há mais desejo no desenho, existem ordens, existe o próprio caminho de condução que ele mesmo ordena RES a seguir. Não se trata mais de plástica, não se trata mais de arte, de desenho, de nada do que podemos nomear, já que o desenho é o que nos nomeia, e desesperados, tememos ouvir a enunciação, a proclamação de nós mesmos que essa criatura declama. E mesmo que quiséssemos, estar diante desse desenho já é o suficiente para que se inicie um eco em nosso ouvido desse nome sendo proferido. Estar diante do desenho, mesmo que por um segundo, já é tempo suficiente que ele precisa para infiltrar-se no mais minúsculo poro de nossa pele e fazer de nosso corpo sua morada; (por isso que colecionar é algo tão sofisticado, uma vez que a grande obra de arte coleciona a nós constantemente, nos assalta de nós, e ter pertencimento mesmo de uma obra, é entrar em negociação com esse assalto), este, acredito, é o poder de uma obra de arte, despertar e acumular a dívida da vida que nos espera.

 

PARTE IV

 

 

Existe um momento onde claramente a matéria parece ceder a RES, ceder à sua vontade, mas me pergunto, que vontade é essa? O que mesmo esse momento, o que acontece nesse momento? O que significa a matéria ceder? Acredito que tenha a ver com um pacto, uma grande negociação, onde RES precisa provar à matéria quem é que está a implicando, e para provar isso, não se pode haver desejo algum, ele não pode esperar nada da matéria, ela não pode sentir qualquer resquício do desejo de Rubens, o que RES tem que fazer, é despossuir-se por completo de seu desejo, despactualizar-se com toda a sua erudição, e vir a negociar com a matéria enquanto também matéria. A matéria tem que sentir que Rubens é um igual, tem que saber que sua implicação é impessoal, que Rubens é somente o mensageiro de uma implicação, é somente um veículo de tal implicação. Neste momento, a matéria cede, e RES parte a articular-se nela, pode então realmente enlaçar-se nela, onde a matéria e Rubens, só aí, voltam a tornarem-se um, um corpo somente, nesse momento instaura-se o diálogo, mas para haver diálogo, é preciso uma exaustiva construção de confiança entre ambos, onde fica claro que um não deseja nada do outro, os dois precisam vir a existir juntos, como coisa só.

 

PARTE V

 

 

Sobre a pós batalha de vida e morte – falar sobre a luta pela vida de RES no desenho, o que está em jogo é sua sanidade.

Mas do que se trata isso? Que sanidade é essa, como não dizer o oposto? Por que um homem que passa três horas desenhando diz estar lutando pela sua sanidade? Gostaria de focar nessa palavra, sanidade. No desenho Rubens luta por uma sanidade, sanidade de sair de uma alienação dele mesmo, ou, poderíamos pensar sanidade também enquanto um estado de estar mesmo a serviço de algo, de deixar-se agir como as ondas do mar que são movimentadas pela Lua, ou mesmo a Terra em relação à Lua, o giro da Lua em torno da Terra é feito por conta de uma inteligência da mente da Terra, a Terra em si tem uma mente, a Terra em si pensa, e isso destrói imediatamente qualquer vulgar ideia de que nós pensamos, do que é “pensar”, e algo parece ficar mais claro em relação ao momento em que se percebe “sendo pensado”. Acredito que lutar pela sua sanidade seria na verdade lutar para deixar de pensar, e ser pensado, ser pensado pela mente do planeta, se deixar ser um instrumento, um órgão de um corpo muito maior do que ele. Acredito que isso refere-se a uma sanidade que RES busca em desenhar. Onde o oposto de sanidade aqui não seria a loucura, aqui o oposto de sanidade seria a autonomia. RES deixa com que a mente da Terra conduza as suas ações, e assim, só assim, pode voltar a ser são.

Parece uma grande contradição mas de algum lugar que desconheço profundamente em mim, sei que não é, sei que essa sanidade se trata de um abandono profundo, de um abandono, finalmente um abandono de si, é uma luta feroz contra a matéria de si mesmo, que quer resistir, tão erudita quer estar no controle, quer ser maior, quer se sentir significante, é uma grande batalha em direção à sua própria insignificância: eis aqui a vitória da batalha de RES, eis a sanidade que Rubens busca nessa saga: a insignificância. E quando a matéria cede à vontade do artista, o que estamos dizendo é que o artista cede à vontade do tempo, cede à vontade do que algo quer dele enquanto homem.

Reflexões de Anna Israel sobre a Cabana Garrapata de RES em Barcelona

15 de Fevereiro de 2017

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

1a parte


 

De onde nasce uma palavra? Por que o medo tão grande em escrever, a mergulhar na trama sem forma do pensamento, da angústia, e deparar-me com as limitações evidentes de mim mesma existindo para fora da cabeça? Escrever sobre a cabana é um modo de enfrentar os lugares inóspitos de mim e dizer algo que não posso dizer, e então, esse dizer me sufoca, encontro nessa saga aquilo que mais temo encontrar: minhas próprias limitações – encontro nessa saga aquilo que tanto me oprime, minha fragilidade, e assim, desse modo, nesse encontro começo a poder ver com um pouco mais de claridade a cabana, uma palavra que se suporta para fora de seu sufocamento, uma palavra sangrenta em carne viva, a fragilidade de Rubens em manifestação, um judeu encarando um nazista e afirmando que é judeu. Uma palavra que precisa existir, que utiliza Rubens enquanto o seu transmissor, seu agente, agencia-se através de R.E.S., ou mesmo, R.E.S. se doa à existência da mesma, e doar-se a esse algo tem a ver com enlaçar-se, emaranhar-se na sua própria lama, atirar-se no abismo da insuficiência. A entrega a esse abismo da insuficiência é o ponto de partida para que algo possa começar a ter um motivo para existir – as soluções só começam a aparecer quando o problema se torna insustentável, e entregar-se a esse insustentável não deixa de ser uma aposta, não deixa de ser um suicídio, onde o homem deixa de ser o grande protagonista de sua vida, e entende que só pode ser um mero escravo da vida que lhe atravessa.

Se não houver sujeira, se não houver incomodo, se não houver profunda agonia, a palavra permanece em sua superficialidade, a serviço de nada, uma palavra vazia, uma imagem vazia, viver para sempre na superfície de si mesmo e com a equivocada ideia de que pode-se ser um inventor. Quem sabe não haja mesmo tal coisa, inventor é aquele que de tanto se expor ao seu intransponível, de tanto nadar em direção à sua miséria, transfigura-se em receptáculo e dispositivo para a invenção, o inventor é então somente um canal para que a invenção se dê através dele, e essa invenção se torna o oxigênio para poder respirar debaixo d'água, isto é, "invenção" é uma palavra vazia, o que acontece é o nascimento de algo, de uma solução para uma exigência vital. As coisas precisam de um motivo real para serem inventadas, para se encontrarem em sua trama inventiva, a palavra precisa de recursos reais para encontrar o seu motivo para sair de uma latência. Se não houver uma exigência para que algo se construa, não há possibilidade de invenção nenhuma. A cabana é uma junção de submeter-se ao mais trágico de si mesmo, expor-se ao seu sem saída, compactuar com a zona cinzenta de si e ao mesmo tempo fazer disso uma atividade, uma batalha, uma saga, um pacto com a faísca de vida que há em nós.

Com a obra de R.E.S. me fica evidente que a produção se torna a sua entrega à vida enquanto uma entidade própria, Rubens é um grande trabalhador que trabalha em nome de ser esse dispositivo para que sua palavra possa encontrar o canal de existência através dele, para fora dele.

Não há como fazer nada sem submeter-se às suas limitações, ao seu impossível; a cada limitação, a cada esmurro em uma porta de ferro, vão se criando marcas, e assim com o tempo rachaduras, e um dia, a porta se arromba – é assim que vejo R.E.S., e me pergunto: como um homem pode suportar sua própria porta arrombada sem se arrombar junto? Como ser um corpo vivo inteiro arrombando? O que me pergunto, muito intimamente é: como Rubens pode dar o testemunho e permanecer vivo, como uma obra pode conter tamanha contradição em ser ao mesmo tempo um suicídio e a a mais genuína forma de vida possível? 

Rubens, é um corpo arrombado intacto, em pé, a cabana é o espaço que criou para poder negociar com o Diabo, para manter o Diabo bem próximo dele, R.E.S. constrói uma cama, uma beliche, pra que o Diabo possa se deitar em baixo dele e sentir-se confortável, R.E.S. constrói uma morada para o Diabo, uma arapuca para mantê-lo por perto, e paga um alto preço por isso... Paga o preço de não haver mais contradição, onde a contradição é uma palavra para aqueles que não veem, para os que choram por uma insuficiência – hoje Rubens chora por uma suficiência, por ter os olhos demasiado abertos, para ele não há contradição, não há caos, o suposto caos é o equilíbrio, é a morada do Diabo, quem sabe seja por isso que tão poucos a suportam; para se suportar a contradição, é necessário criar um mundo que a sustente, é necessário uma configuração, uma estrutura óssea suficientemente forte para dar corpo à algo que é só movimento. 

2a parte 


 

A palavra não se inventa, a palavra é uma exigência, uma demanda, um grande bicho amorfo que hiberna no homem, que grunhe para adquirir forma, que grunhe pois, grunhir é por hora sua única forma de existir através do homem. R.E.S. não inventou sua palavra, mas a palavra é que o inventou, de tanto provocar esse bichão, tanto resistir à inércia, de tanto resistir à opressão da manifestação, como um guerreiro, entra em um mar, em uma tempestade em alto mar com seu grande equipamento de guerra e enfrenta a aridez da sua própria solidão, da consciência de sua incompletude, da consciência de suas limitações. A cabana, os desenhos, grandes, pequenos, textos, conversas, articulações, são todos o mesmo, são todos um universo de leis construído por R.E.S., uma só cabana, um só mundo dentro do mundo, mas não um mundo fechado, senão um mundo rizomático, um mundo com tentáculos, tentáculos conectados ao solo, que se alimenta da água que corre por baixo do solo, da terra, da água oprimida pelo frio da Catalunha, um frio que nada tem a ver mais com a temperatura, mas um frio de algo que está sendo deixado de ser feito, algo estancado, algo engasgado no tempo em que vivemos: a cabana assalta o catalão, assalta em 10 dias uma tradição já em ruínas que não nos serve mais para nada – a tradição cultural, erudita, genética, pouco importa, não podemos viver mais da história dos nossos antepassados, não podemos deixar o sangue dos nossos antepassados estancados em nossas veias, R.E.S. destrói as verdades, as falsas verdades que configuram um cenário de atrofia do homem nos dias de hoje – suspende os objetos de uma configuração predatória do homem, que o coloca imediatamente enquanto senhor, senhor de qualquer coisa, a Cabana des-hierarquiza o homem e devolve sua insignificância, ou seja, sua mais íntima identidade, e assim algo pode começar a ser construído.

Pequeno relato sobre a experiência de presenciar a encomenda:

Depois da sessão de desenho de sexta de Rubens Espírito Santo

 

24 de fevereiro de 2017


 

 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Vendo R.E.S. trabalhar, me dou conta, considerando a velocidade de seu pensamento prático, a velocidade com que ele adquire soluções, com que ele busca novos utensílios de guerra, novos instrumentos de batalha, instrumentos, armas que o salvam em uma batalha, as soluções vem, não como "soluções plásticas", mas como soluções que realmente o salvam de não ser derrotado, derrotado por ele mesmo, pela sua insuficiência, ele quer poder ser derrotado pela suficiência, pelo fracasso em construir uma obra que será maior que ele mesmo, o seu fracasso se torna, não em não ser capaz de produzir, mas o de produzir algo que é maior que ele. Ou então, voltando a considerar o próprio modo como age, me dou conta de que ele mesmo, com tantos assistentes, é um assistente, Rubens recebe ordens e as segue, é como uma antena que capta sinais, se instrumentalizou para poder colocar esses sinais no mundo, criou todos os artifícios necessários para que esses sinais existam para fora da latência. Esses sinais, ou, o seu desenho já existia antes dele, já existia antes de ser feito, mas Res gerou um espaço propício para que o desenho pudesse existir em outra ordem de existência, existir enquanto o que ele se apresenta diante de nós – é mesmo um ato generoso, o de fazer algo que já existe (mesmo que escape nossa visão), para esse mundo, matérico, como mesmo uma encomenda. O desenho é uma encomenda que passa por R.E.S. para existir, R.E.S. é o veículo de existência dessa encomenda, é o carteiro, que busca a encomenda em um lugar e o leva para outro, R.E.S. busca o desenho no kairós, em um espaço invisível que se encontra entre ele e o papel, e o traz para a natureza, e assim, irrompe as distinções entre esses mundos, entre os tempos, o desenho se torna justamente a fresta, a possibilidade de reunião desses dois mundo, que na verdade estão cindidos enquanto "dois" por uma crise espiritual do nosso tempo. Talvez esse possa ser um termo a se pensar, o artista enquanto o carteiro, que recolhe a carta em um banco de dados e de códigos e de leis próprias e a traz para outras leis, para outra esfera, outra galáxia, ainda que essas duas galáxias sejam a mesma, o carteiro faz o trabalho sujo de transfigurar uma coisa para outra, transformar um código amorfo em matéria, mas matéria também amorfa, ou seja, a coisa não deixa de ser o que ela já era, mas agora se apresenta encarnada no desenho diante de nós.


 

E então essa encomenda passa a existir dentro do universo plástico, cultural, temporal, social de R.E.S., assim como foi com Cézanne, ele foi o veículo de existência de sua pintura, e é aí onde ambos, R.E.S. e Cézanne se encontram, a primeira camada do desenho pode representar ou situar o artista em uma história cronológica, mas depois dessa camada, os desenhos dividem o mesmo sítio histórico anacrônico. A primeira camada do desenho é o artifício que sustenta o desenho que na verdade é o que situa-se entre o anteparo da pintura de Cézanne e o desenho de R.E.S. – entre esses dois encontram-se ambos. E como o Rafael Chvaicer muito precisamente falou, "R.E.S. fez algo que Duchamp gostaria de ter conseguido fazer: eliminar a mão do artista, através da mão do artista" – a mão de Rubens é somente um instrumento, como mesmo disse antes, um canal, um dispositivo de ação de algo que não é dele. A questão então é investigar qual o trabalho para poder se despossuir de tal forma, e só então nessa despossuição, poder estar em devolução de si mesmo. Benjamin em sua passagem sobre o colecionador diz que um colecionador pode ter muitos objetos, mas isso não significa que ele os possui. Rubens ao abrir mão de se ter, é possuído por ele mesmo – e sabe que ele mesmo não lhe pertence. 

Suposições acerca do que consiste a angústia

de RES em não perder para o papel

 

28 de agosto de 2017

 

 

“(...) e ainda, que se poderia sonhar com o que seria um ensino de alguém que não teria as chaves de seu próprio saber, que não o arrogaria. Ele daria lugar ao lugar, deixando as chaves a outro para desencravar a palavra”

 

Anne Dufourmantelle

 

 

“A isso que não se tem acesso pela experiência vivida, não se tem orelhas para ouvi-lo. Imaginemos que se trate de uma nova linguagem falando pela primeira vez de uma nova ordem de experiência. Neste caso, acontece um fenômeno extremamente simples: não se ouve nada que diz o autor e tem-se a ilusão de que ali, onde não se ouve nada, não existe nada.”

 

Nietzsche

 

 

 

 

O papel em questão não se trata de ser uma superfície branca, o papel que Rubens odeia perder ou que não pode perder, é um papel designado pela vida a ele que ele já negociou de antemão, é um papel para o qual ele deve, com o que está em dívida, e tem de pagar. Perder para o papel seria ser leviano ou preguiçoso ou infiel à sua própria palavra – Rubens cava diariamente o próprio túmulo, cria problemas para justamente não poder fugir deles, faz afirmações para poder prová-las, a palavra não é uma palavra para Rubens, como é comumente, mas a palavra se tornou ou retornou a ser sua própria carne, sua vida, a palavra proferida por RES não é RES que profere, mas é a palavra que se profere através de RES, é a vida que RES carrega que encontrou na palavra um modo de existir enquanto display, enquanto coisa, e assim a palavra deixa de ser palavra e retorna para sua origem de ser pulsão, volição, espírito. RES ficciona a vida de tal forma que em um determinado momento sua vida já se confundiu com essa ficção, não há mais como discernir a ficção da realidade, Rubens tem uma dívida com a ficção que inventou: de tanto ficcionar, a ficção se tornou sua própria realidade, sua condição de existência, a ficção se tornou quem é, a ficção movimentou sua estrutura óssea, alterou a cadeia de seu DNA, e agora não tem mais volta.

Muitos comentários permearam a falta de cansaço de RES em relação aos demais na sessão de desenho. Não consigo enxergar dessa forma, não acredito que RES estivesse necessariamente menos cansado do que qualquer um naquela sessão de desenho, na verdade penso que muito provavelmente RES era o mais cansado de lá, mas ele inventa esse espaço ficcional nele mesmo, subverte o uso comum que fazemos do cansaço, e o transforma em motor de arranque do desenho, assume o cansaço e o utiliza para desenhar – assim como Artaud que entrou nas vísceras do "não ter nada para dizer" como ponto de partida para sua obra, Rubens entrou nas vísceras do seu corpo cansado no final da tarde da sexta feira, para poder utilizar o ácido do suco do cansaço para se movimentar, como matéria prima, como partida. Entra em outra ordem de seu cansaço, em um espaço secreto do cansaço, entra na intimidade do cansaço, talvez para mergulhar no espaço de suas regras e não ser mais conduzido por elas, para estar em diálogo com as regras, e talvez para levar o rigor do cansaço, a autoridade do cansaço para ser a autoridade do gesto no desenho, o rigor de sua implicação com aquela superfície resistente ao ponto em que o desenho possa conter as regras do cansaço, ao ponto em que o extremo de um aprisionamento possa vir a ser um tropeço na liberdade de si mesmo. 

É como tudo em sua vida: RES perverte as leis comuns das coisas, e de tanto pervertê-las, com o tempo, as outras possibilidades latentes das coisas vão surgindo. De tanto insistir no cansaço, de tanto suportar não fazer imediatamente o que o seu corpo está condicionado a fazer com essa informação do cansaço, o cansaço abre-se e revela-se um agente químico poderosíssimo para muitas outras coisas além da resposta do sono, do repouso. Nosso corpo é um organismo precioso, possui infinitos tipos de inteligência que acessamos muito pouco, e Rubens quer invocar justamente isso, abrir mão das respostas com as quais estamos condicionados a dar ao nosso corpo, e assim deixar com que o corpo possa operar em um tilt, e assim ver qual a resposta que o corpo dará a essa provocação. Como um tabuleiro, onde as peças estão sempre organizadas de uma forma, Rubens já parte subvertendo uma organização para ver como pode prosseguir o jogo de outro ponto de vista. Subverte um tipo de display do seu corpo, subverte um tipo de display do seu tempo, para invocar outras possibilidades de respostas em latência, para devolver à vida uma riqueza esquecida. 

De tanto e por tanto tempo ter inventado esse espaço ficcional de subversão do display das respostas às coisas, agora ele tem uma dívida com sua invenção, tem uma dívida com seu ser, com seu outro, com seu poder, não há mais volta, despertou latências de si e agora paga alto por elas. É sempre muito mais agradável pensarmos que não podemos, a questão é que RES ao longo de sua vida afirmou que podia em praça pública e assim criou uma dívida com esse poder. O poder é um ávido cobrador. 

 

E assim cansado, um escravo desenha um furgãozinho em um papel, humildemente, depois de uma longa semana, para que o furgão possa finalmente o conduzir para o caminho que ele há de ir nessa sexta feira. Circunscreve um espaço para que o acontecimento possa surgir. Eis o lugar onde Rubens quer chegar. Temos uma ideia de chegada que diz respeito a um fim, a um destino, a um término, enquanto para Rubens, a ideia de chegada é enfim o começo, a chegada é quando o corpo, cansado de tanto ser provocado, vira-se aquela outra coisa que será para sempre desconhecida para aqueles que vão para casa simplesmente descansar; a chegada é quando Rubens sente um novo corpo apropriando-se dele e rasgando sua antiga pele para fora, o desenho só começa nesse estágio, e para se chegar a esse estágio, é necessário um reservatório de fôlego, um fôlego construído por anos de uma vida, por décadas de gerações.

 

De tanto ficcionar, de tanto criar artifícios, técnicas, instrumentos, mecanismos de viver essa vida de forma simplesmente diferente, uma hora, o motivo por trás da ficção, a volição ficcional o ficciona, invoca-se em RES, uma hora Rubens deixa de ser o sujeito da ação de ficcionar e se torna o objeto que sofre a ação da própria ficção que ele despertou, nele mesmo. É como um bicho que estava hibernando, e Rubens o acordou, e agora o bicho quer algo de RES.

Ele se torna uma ficção, ele se transforma naquilo que o leva a desejar ficcionar, se transforma naquilo que deseja a invenção. De tanto inventar um mundo, em um determinado momento, Rubens é recebido diante de nós por outro mundo, não o que ele estava inventando mas o próprio mundo que situa o desejo da invenção.

 

No abismo, ou você navega ou naufraga. Nesse lugar em que RES se encontra, no risco em que se colocou, perder então para o papel seria o equivalente à morte, já que o papel é o único corpo em que hoje pode contar para existir. A cada sessão de sexta abandona seu corpo por alguns momentos e confia ao papel, nessa jornada que passa pelo papel, o seu corpo por vir. Por algumas horas Rubens se abandona, se joga em um abismo para poder se resgatar então em um desenho que ainda não existe, e nesse salto, no vazio do abismo, resgata o desenho, e este é também esse novo corpo para se manter vivo. Mas aquele que salta tem que estar instrumentalizado para sentir o momento em que a faísca finalmente vira chama dentro de si, e a chama o chama, o convoca, elege enfim aquele que vai ser o veículo de seu calor.

TENTANDO LER O ÚLTIMO TEXTO DE RES, Preleções de um devir imediato

 

21 / nov / 17

...talvez nós sejamos a prova de que o robô pode vir a ser mesmo algo muito perigoso.

Lembro de quando era pequena e me intrigava com a loucura que é poder estar viva e se fazer perguntas sobre isso, angustiada com a possibilidade de poder me perguntar sobre mim, sobre eu mesma ter esse recurso, de me autoinvestigar, sobre o problema que isso constitui – ter consciência da vida, consciência do vivo, consciência de que vivo em mim, do vivo em mim que sou.

Quem sabe o homem não tenha sido feito para isso, mas tem um nível de inteligência, de informação, de dados e processamento desses dados (usando uma linguagem da informática) realmente assustadora, e esse nível de inteligência que podemos chamar de corpo, é o que justamente nos mantém vivos, é o que gerencia a vida. O corpo em si é uma inteligência que desconhecemos, e não possuímos, é uma inteligência que nos possui, somos nós que pertencemos a essa inteligência que é o corpo, muito mais do que ela nos pertence – acho essa inversão fundamental para início de história.

 

Mas apesar disso, me parece que esse alto nível de inteligência, ou esse corpo, também se desviou de suas funções, há aí um agente, um agenciamento dessa inteligência que vaza para muitas outras esferas – quem sabe, como se algo tivesse escapado de um projeto, ou mesmo, como um tilt em uma máquina, onde ela começa a articular, a manusear os seus dados de outra forma, seu processamento se torna outro. Assim como hoje os cientistas temem o nível de inteligência e processamento de uma máquina e no que isso pode acarretar, acredito que é igualmente temível o nível de inteligência e processamento que o corpo pode inferir dele mesmo e assim deixar vazar, através da loucura ou então através de uma genialidade à frente de nosso tempo. Uma genialidade à frente do nosso tempo seria o mesmo que dizer um gerenciamento e processamento do banco de dados de si mesmo completamente inusitado, uma forma nova de ser, uma resposta nova de um corpo vivo.

 

Acredito que isso tenha muito a ver com essa figura que há muitos séculos denominamos como o "louco" – a inteligência de sua máquina deu tilt nele, o corpo se processou de uma forma que resultou nisso que chamamos de "loucura", como se houvesse uma leitura e resposta da leitura dos dados que tenha levado a isso. 

Por outro lado, não seria a ânsia por se autoconhecer profundamente uma outra forma de tilt? Esse tipo de processamento do homem, esse desejo do homem por se investigar, por ser o seu próprio projeto, esse desejo do homem de ser o sítio de sua escavação, não seria esse um outro tipo de tilt de sua inteligência? Um tilt na organização, nas sinapses, no agrupamento dos dados de seu corpo? Quando me deparo com a leitura de um texto de RES, esse último texto de RES em particular, sou possuída por essas questões: quem é o sujeito e o agente da violação? O que é violado? Me parece, à primeira vista, que a coisa a ser violada é muito mais complexa do que imaginamos.

A princípio, gostaria de pensar somente a estrutura, ou a intenção textual, a relação com a palavra:

 

  1. No caso em que utilizo a palavra, como agora, eu a consumo como se ela fosse um produto, utilizando-a para um fim que é a construção de um sentido, de um significado, a utilizo de forma predatória (poderia dizer), dependo dela para tentar construir um sentido, para construir um pensamento; a ordeno sintaticamente, sigo as regras de sua sintaxe, obedeço suas leis em nome de uma possível construção de sentido. Já no caso do texto de RES, a utilização da palavra e a construção da sintaxe é completamente diferente: não há necessariamente uma construção de sentido, ele não está imbuído de um saber que, por sua vez, quer expressar através da palavra, ou melhor, há sim a construção de um sentido, há sim um saber que quer se dizer, mas RES e esse saber não são sujeitos distintos, é o saber que quer se dizer, e não RES que quer dizer o saber; o saber é o eu lírico textual. Me parece que RES sabe que só a palavra pode expressar qualquer coisa, ele depende da palavra, não a usa, mas lhe suplica por algo, e justamente, quer construir com seu texto, não a articulação de um pensamento, com uma sintaxe, com a construção de uma frase que tenha sentido, mas RES quer construir uma única palavra, como se cada palavra em seu texto fosse uma letra inventada para a construção dessa outra palavra que é o texto. Literalmente viola o código linguístico da língua portuguesa, o código gramatical e sintático, e transforma uma palavra em um ideograma, e ao lado de outra e de mais outra, constrói uma grande palavra que é o seu texto, que é o próprio sentido se dizendo, o sentido se arranjando para fora, o sentido se arranjando em um outro display, o sentido construindo um habitat para fora de RES; RES se doa para o sentido poder existir para fora dele, para o sentido construir outra inteligência igualmente complexa para fora de sua antiga morada – o texto de RES é uma morada nova que o sentido constrói para ele através da inteligência de RES. RES perverteu toda nossa língua. Ainda assim, a sua a sua sintaxe não está à deriva (como poderíamos julgar a sintaxe de um “louco”), por isso, não é que não haja sintaxe, mas há uma nova esfera de sintaxe. Então, ler um texto de RES é como ler em japonês. Para ler seu texto teremos que ser outro homem, outro ser humano. Ler seu texto hoje é um problema pois é como ser um macaco diante de um monolito, diante de uma máquina de teletransporte: podemos até vê-la, mas não sabemos decifrar seus códigos. 

  2. Há aqui uma revolução com a forma como ordena o código sintático da língua portuguesa. Inventa uma forma gramatical completamente nova para dizer – cria uma estrutura nova para o dizer, isto é, devolve à palavra a possibilidade de estar em uma deriva gramatical, uma pulsão gramatical, onde ela mesma se arranja para construir o sentido do dizer, e não só isso, assim a palavra mesmo constrói as novas leis das quais ela necessita para dizer. Importante ressalva: uma deriva gramatical, assim como um sistema dinâmico irregular, não se trata de uma deriva sem sintaxe, mas é justamente uma sintaxe cujas variantes que a envolvem são milhares; eu diria, inclusive, que são infinitas, pois as variantes que conduzem a essa deriva gramatical são de tempos passados assim como tempos por vir, as variantes que conduzem a essa deriva gramatical são também um resgate de um futuro que ainda não existe, mas que, de algum modo, está implicado nesse momento de dizer do texto. 

  3. Deriva gramatical de um tempo não histórico: o que está implicado como variante nessa deriva é tudo que está à nossa volta mas que não damos atenção – é o mendigo dormindo no meio da calçada que temos que passar por cima, é o modo como a moça ajeita a saia ao se levantar da cadeira, é a bolsa da mulher sempre cheia de coisas, é o período da manhã, da tarde, da noite, é o que é supostamente correto e o que é supostamente errado, é a incapacidade de dizer não, a vergonha, é merda, a dor de barriga, o mal cheiro, o desejo pela mãe, o desejo pelo irmão, pelo pai, pelo cachorro, pela crosta de sujeira dos homens que dormem na esquina do edifício Eiffel e de todas as esquinas de São Paulo, é o meu próprio pé que, se eu não tomar banho e andar sem sapato, vai criar uma crosta idêntica àquele outro. O tempo não histórico é tudo que sobra do que nós queremos nominar como história, o tempo não histórico talvez como o que há de secreto para ser contado do homem, é o índio que para sempre existirá em nós, é todo o não civilizado de nós, é aquela coisa que deixamos de lado toda vez que queremos contar, toda vez que queremos dizer, toda vez que queremos "construir algo".

  4. O tempo não histórico vai vazar – e já está vazando: estamos dando importância demais para a história que alguns grandes homens contam, mas há uma não história que não está sendo contada e que está vazando. Quem sabe seja nesse vazamento que vamos encontrar a arte, é nesse vazamento do não histórico que encontramos RES – por isso, inclusive, me permito pensar que Warburg já previa RES, pois a história de Warburg é a história que não é contada, é a história que se encontra nas frestas da história, é o que é descartado da história, é a faxineira com um brinco simples e batom rosa que vejo espanando a poeira dos cantos do apartamento do judeu rico no apartamento ao lado.

  5. Lembrança de quando meu irmão Toco começou a estudar mandarim, e sobre uma colocação muito interessante que ele fez quando eu perguntei da dificuldade do estudo: diferente das línguas ocidentais, que têm uma estrutura gramatical, apesar de ter nuances diferentes, muito parecida uma da outra – a forma como a língua se estrutura, como um todo, é muito similar. Já o mandarim, ele teria que abrir mão de todo um lugar conhecido da fala para aprender aquela língua, isto é, ele teria que adentrar uma cultura de si mesmo completamente inabitada para poder entrar na língua chinesa. Aproximação disso com a estruturação gramatical do texto de RES. Ele teve que entrar em uma cultura completamente inóspita de si mesmo para poder articular a palavra de outro lugar. No Ocidente, orientamos o sentido colocando verbos, adjetivos, pronomes, provérbios, substantivos, enfim, construindo o sentido com uma palavra ao lado da outra. No caso de RES, é como se ele subvertesse os verbos e os verbos fizessem a função dos substantivos, ou ainda, como se esses códigos deixassem de exercer suas funções habituais, e se complementassem de uma forma completamente diferente. Por isso, para um, pode não haver sentido, da mesma forma como não faz sentido um "simples" ideograma chinês poder conter um poema, ou uma construção inteira de sentido residir em algumas linhas que se estruturam enquanto uma espécie de forma quadrada.

  6. Somos jovens demais para compreender as manobras de RES –não que sejamos jovens em termos de idade, mas esse tempo é jovem demais para entrar no que RES faz. O que está fazendo é algo que estruturalmente está muito à frente desse tempo, muito à frente do que temos hoje, do que existe, muito à frente de como nos relacionamos. Mesmo quando somos profundos, somos muito superficiais com o nível de complexidade de sua obra. É um homem que será compreendido em mil anos, pois muita mudança haverá de ocorrer caso sua obra seja assimilada. E isso é lindo, pois sua obra já presume ou já prevê uma outra espécie de existência, sua obra já prevê outro homem, é como se sua obra fosse uma cápsula do tempo que nos sugerisse como o homem um dia irá pensar e se comportar. Pois se sua obra é possível então, esse homem, esse tempo, são possíveis; sua obra é uma premonição, um anúncio do homem do futuro.

  7. RES é a definição do que é subversivo. Subversivo: aquele que executa atos visando à transformação ou derrubada da ordem estabelecida; revolucionário. Subverte leis que são tão enraizadas em nós que nem imaginamos a possibilidade de subvertê-las. Enquanto tantas pessoas estão subvertendo leis complexas e profundas, ele subverte leis que estão estampadas em nossa cara, subverte a própria estrutura da lei, o código da lei, a sintaxe da lei, a pele da lei. Não subverte uma lei, o conteúdo de uma lei, mas subverte a própria ontologia da lei, sua natureza de ser. Subverte a lei que o mantém vivo, subverte a lei que o permite ser são, então como não é o oposto de São? Como consegue subverter a lei que o mantém são e, ainda assim, continuar são? Ao subverter essa lei, ele, muito inteligente, a subverte construindo outra em seu lugar, ainda que uma lei de um tempo não histórico.

Preleções de um devir imediato: insurreição

Rubens Espírito Santo, 21 de novembro de 2017

Gostaria de escrever para me expressar, expressar as coisas mais íntimas da minha alma, mas sei que é bobagem, o mais íntimo está nas coisas mais superficiais, o mais íntimo não é expressão de nada escondido, o mais íntimo está debaixo de nossos narizes. Simplesmente não vejo, não posso ver o que ofusca de tão perto, de tão trivial, de tão comezinho. Gostaria de falar com Deus, mas Deus fala comigo e não ouço nada, Deus grita nos meus ouvidos e eu penso que é a gritaria da rua. Não sou capaz de me imaginar dentro de uma capela agradecendo por estar vivo. Vivo : o que é, até.

Queria uma palavra que tivesse a força inédita de me traduzir, de me reconectar com as forças mais secretas da minha ossatura, sei que isto está escondido onde mais temo, sei que o esconderijo é aqui mesmo, isto é : embaixo, bem debaixo dos meus olhos, preciso resgatar o estado de comunhão com o mundo para poder ver, ver é um negócio incendiário, escrever é estar prestes a pegar fogo, a conjugar o verbo diabólico, a evocar o presente presentificado, aboletar, descascar, desabotoar, tirar debaixo da terra, descobrir, desocultar, — quereria a coisa viva, a construção que dissesse a coisa viva, que expusesse a ferida viva, o estado de dizer, o próprio impróprio estado de dizer, tirasse a queimadura do meu dizer de mim, a bolota inflamável de dentro do meu coração. Rebuliço de mim.

A. Vírgula sobre vírgula arrisco-me sem sair do lugar de vomitar a criatura derradeira,

B : estado de exceção, poço sem fundo nem beira, avassaladora coisa me invadindo onde não sei nada de mim.

C, seguido de z, inclusive ontem estava lá a ferida incapaz de cicatrizar —-um grande corte paterno inominável.

Minha mãe ainda vive em cada substância da letra. No caldo da palavra mãe me encharco de sangue, procuro em Vão a palavra que complemente o sangue vivo, jorra uma carência bruta e sem corpo definido, porque ela tem todas as formas da minha insuficiência.

Grito no vazio imenso do meu peito, um terreno sem topologia, sem agrimensor, sem textura de texto prossigo neste intento de me falar por trás e ao avesso, tarefa ingrata e indigesta de procurar o assentamento de mim num terreno que será para sempre uma invasão. Grileiro de um terreno que nunca me pertencerá de fato, por mais escritura que eu tenha para prova-lo meu, nem documentação, nem papelada, me dá o direito pleno de exercer posse ali, ali sou desterrado, ali minha jurisdição afunda, onde mais queria sou menos que eu, só poderei ser eu de fato onde sei que não estou, nem para mim nem para o outro, ali nômade, existo em estado, em estatura provisória, contrato, pacto, junção, união movediça entre corpo e sangue. Quente minha alma verte Fogo, esmurra a parede do latifúndio conscencioso de mim, a consciência de mim, parede, abro um

Buraquinho no que penso de mim e já posso ver, abro um buraquinho na minha pele dura, pele dura se chama inteligência, a máquina do futuro é burra, a parede cai com a burrice, a burrice tijolo de cárcere, lançamento de mim para uma cápsula em movimento, assim é o único jeito de mover o imóvel em mim, deixar a escrita estreita escrever o que ela mesma quer numa velocidade que me supera mais ágil que eu mais crível que eu mais ousada mais fraturada para poder adentrar meandros impossíveis para me liberar de mim até eu me ausentar para poder deixar a coisa acontecer, ela só se apresenta quando estou ausente, incompleto posso ser, não-aqui é meu único modo de estar aqui, aqui meu é ali, onde fui não foi onde quis, o meu querer me afastou de mim, o meu não querer me trouxe onde estou, desprevenido de mim, dei no eu destituído de vogais, só com restos e fragmentos de gramática, pedacinhos de semântica, pedacinhos de letras discerníreis. A trama de minhas atitudes me escapam, e escaparão para sempre, assim sendo deixo me fazer o que não sei de mim em atitudes que me ultrapassam, frase dura, arrependida, substância oca de uma frase, quero a frase inconsistente, mole, molenga, se desfazendo para realmente poder dizer, um pedaço de carne sagrAndo, um pecado de osso descarnado ou é isto minha fala ou ela não existe nem como tentativa refratária de fala, ou ela se abre ou morre antes mesmo de se dizer, um punhado de argumentos teria em minha defesa mas sei que não funcionaria para as autoridades, o meu lado funcional é sufocado pelo novo tempo, tenho o que mereço ainda que ainda não me de conta do seu preço, que Deus a tenha!

Resposta ao texto Picador de fumo de Res

29 de dezembro de 2017

Anna Israel

 

 

Gostei muito do texto último - como diz Agnes Martin, é um estado de estar onde a mente está livre dos problemas a mente limpa. Ela também diz que isso, que ela chama de inspiração, mas traduzindo, decidi chamar de "acesso", não é de exclusividade de quem faz, se não ninguém poderia responder de forma alguma a sua obra. Ela está convicta de que a obra do acesso é capaz de acender essa chama que está fraca nos outros. E quando você me pergunta se gostei do seu texto, o que eu mais genuinamente poderia te responder é que ele me ajuda a livrar um pouco a minha cabeça do que não importa e poder deixar com que o mar resgate lágrimas do meu olho, de repente sou assaltada por algo que importa, a magnitude dessa matéria densa em volta de mim. Seu texto é um amuleto para mim, inclusive ele me possibilita ver o mundo de forma muito diferente do que me é normal. Como foi aquele dia com a cena do picador de fumo - esse texto tem muito da cena do picador de fumo para mim, e o texto faz com que o meu dia esteja um pouquinho mais disponível a esse tipo de percepção minha dele.


Pensei muito sobre a relação disso com o símbolo.
Hoje conversei um pouco com um priminho meu no mar, ele tem 12 anos e estava falando revoltado sobre a insignificância do ano novo, dessa celebração, e do natal, e de datas, do fato de que não existe nada disso e que são construções nossas. Eu concordei com ele, mas também falei sobre como tentamos inventar coisas e atribuir significados simbólicos às coisas para lidarmos com o fato de que não sabemos nada... falei sobre como nada então tem sentido nenhum, podemos inventar sentido, ficcionar um sentido.


Fiquei pensando depois sobre isso que falei, sobre a ideia de símbolo que trouxe nessa elaboração, falando que nós criamos símbolos e sobre a ficção do sentido. Essa ficção de sentido não tem nada a ver com a sua ficção, me parece que você ficciona não a partir da falta de sentido, para suprir uma falta, mas você ficciona dentro do sentido mesmo, dentro da falta, dentro do ar rarefeito da falta. Tem qualquer coisa que me parece muito equivocada nesse pensamento que expus ao meu priminho (claro que ele é muito jovem, mas enquanto elaboração, fiquei pensando sobre diferentes níveis de elaboração), tem qualquer coisa de ocidental em pensar que nós inventamos símbolos, nós ficcionamos para criar sentido, principalmente no que diz respeito à palavra invenção, à relação das palavras invenção, ficção e símbolo. Como se houvessem dois planetas pensando o mundo a partir dessas palavras, o planetinha minúsculo do Danto é um deles, e a galáxia de Gell, outro.

O seu texto acontece algo que responde ao meu incômodo: a atmosfera que ele instaura, a sutileza com que ele relata a cena do picador de fumo, mesmo sem mencionar o picador de fumo, o modo como ele entra no acontecimento de estar vivo e se torna como que um resíduo da atmosfera do vivo, me faz perceber que não inventamos símbolo nenhum, mas o símbolo se inventa, ele mesmo, como um resíduo de nós, um resíduo de alguma coisa, o símbolo é vivo também. Nessas horas percebo que me falta estudo para pensar e dizer o que eu gostaria.


Colocando isso tudo de lado e tentando dizer de outra forma:
O seu texto invoca uma vida que estamos esquecendo de nos dar conta que está acontecendo no exato instante que o lemos. O texto me parece uma encomenda, uma manobra de doação, o texto existe para que possamos voltar a sentir a atmosfera que o texto proporciona para fora dele. O texto existe como algo muito grande, e ao ser percebido muito grande, ele se torna muito pequeno, ele vira pó, e assim volto a sentir a pulsão do que é grande mesmo.


Você consegue fazer com que o texto feda, mas na verdade o que está fedendo mesmo está fedendo o tempo todo, então o texto é um agente de algo que me faz perceber o fedor que está fedendo o tempo todo em mim.


Perfeito, essa é a palavra que queria: o texto é um agente da vida que está escapando o tempo todo. Não que a vida deixe de escapar com seu agenciamento, mas ele possibilita com que de repente, eu perceba que o ar não é um espaço vazio, mas é uma matéria densa como o mar, e está me esmagando o tempo todo.
Sua obra inaugura um modo de relacionamento humano muito para o futuro, que está guardado naquele instante do olhar entre você e o picador de fumo.

O picador de fumo
RES


Sentado, muito cedo na calçada da rua Bento Freitas, um homem sentado pica fumo: para ser bem mais preciso, ele pica bitucas de cigarro recolhidas num montinho perto dele, entre suas pernas; com o tabaco recolhido destas bitucas, ele forja um novo cigarro de papel muito espesso e cumprido. Sentado ele esculpe uma rota estranha para a vida, ali está alguém que suas escolhas escapam ao meu controle da vida — revendo a cena, é um homem muito moreno, pardo escuro, quase negro, tostado pelo sol direto em sua cara o tempo todo, descalço, há coisas perto dele, tento me aproximar, o que mais há ? Há um muro atrás dele. Atrás do muro um estacionamento, de concreto maciço, embaixo dele cimento, dos lados prédios de cimento, à frente dele asfalto, preto, negro, seus cabelos crescem desordenadamente, sua expresso me escapa, está distante de mim, não sei quem ele é, como poderia saber, não gostaria de transformar este homem num texto. O que fazer com este homem no meu caminho hoje cedo? Maldito texto que me assombra. Carniça. Pressinto o cheiro de carniça. Há carniça neste texto, ele não se sustenta assim, em ser texto invasivo sobre um homem que pica bitucas. Não pode ser isto um texto. Não pode ser isto eu, não pode ser isto o homem no chão picando cuidadosamente tabaco de restos de bituca. Eu recolho bitucas, quero mesmo é falar de mim como picador de fumo, minhas esculturas recolhem bitucas do sagrado, sou um mendigo recolhendo bitucas do sagrado quando esculpo miniaturas em osso

Abertura para uma nova concepção dos procedimentos pedagógicos de RES - depois do curso do Méthodo

Anna Israel, 01/03/2017

(Hoje tive enorme dificuldade em escrever, escrevi muito e joguei tudo fora, fiquei frustrada por um tempo, voltei a insistir até que esse texto me aconteceu. E o que eu fico me perguntando é: onde ele estava nestas últimas horas que tanto escrevi? Onde estava isso que havia visto? Por que eu levei quase três horas para destrancar esse pequeno código de percepção? É mesmo lindo como as coisas se constroem, como uma singela frase para mim em um momento da aula pode ter me gerado uma pulga atrás da orelha que só agora eu consegui, minimamente, encontrar. 

Estou fascinada com o que vi e percebi, e que só agora vejo o que vi se revelando para mim. 

Ainda que muito embrionária a percepção e elaboração, estou assustada com o grau físico e material de complexidade e sofisticação com que as coisas podem caminhar. Felizmente existe o impossível, pois se só dependêssemos do possível, a vida seria insuportável, ou melhor, a vida não existiria. A vida em si é o impossível.)

 

Sobre a sua condução da aula, mais uma vez, como acontecem nos desenhos, não sei mais se você a conduz ou se só a lança em um caminho de uma profunda e escura caverna. E vejo esse lançamento com tamanha elegância considerando o seu "ser culto": ser culto é poder confiar que cada elemento presente na liturgia é fundamental para que ela se desenrole, é fundamental para poder cercar a coisa: você não desmerece ou desconsidera qualquer objeto do espaço; se ele está hoje configurado de tal forma, então vai usá-lo ostensivamente para poder cercar o impossível. Somos onze sentados em volta de uma mesa, onze peças, onze figuras, onze milagres latentes, onze pequenas partículas de Deus sentados em volta de uma mesa: cada fala, cada pergunta, colocação, gesto, suspiro, resistência, cada olhar desviado se torna material para a condução dessa jornada acerca disso mesmo que acredito querer ser implicado – é como se a coisa estivesse nos provocando constantemente para ser implicada de volta, e nós buscamos artifícios de todos os tipos: livros caríssimos, bens de valor, aulas de filosofia, de ciência, de literatura; você, não. Você usa todo material que está em volta de você como o seu mais precioso dispositivo, e assim, realmente passo a visceralmente compreender as suas aulas, a sua presença no mundo enquanto um ritual. Isto é: você está sendo enforcado pela vida a todo segundo, e qualquer coisa em volta de você é a sua arma para poder se salvar e enlaçar, nem que seja um ínfimo espaço da vida possível. Eu, muitas vezes, colocava sua condução enquanto "deriva", mas hoje fui tocada por qualquer coisa que acaba de me despertar algo ainda mais sutil: sua condução é um ritual, e por isso você é mesmo o mestre, já que você abre mão de conduzir, abre mão de você mesmo, se limpa de todos os vínculos que te atrelam a uma identidade vulgar, para poder olhar o outro e maestrar as peças para que a missão possa se engatilhar, para que as peças possam finalmente se ajustar. Onze pessoas que não têm relação alguma entre elas, finalmente, através dessa conduta, tornam-se peças dessa expedição. Você inaugura um espaço de poder em cada um dos presentes, onde você, naquele momento, ao nos implicar diretamente na condução do ritual, ao ser o grande dispositivo de configuração do acercamento da coisa, ao fazer de cada um presente, sorrateiramente, imprescindível para a expedição, também, sem que ninguém perceba, devolve-nos o grande objeto em pauta: o diálogo impossível entre nós. 

 

Ao me entregar a ser peça de sua conduta, sob seu comando, despossuída de mim, posso vir a dialogar com os demais em torno da mesa o próprio idioma que está sendo cercado. 

E assim, percebo o teor da frase de RES em um determinado momento da aula, "essa aula é boa para você aprender os meus procedimentos". Isto é: se munir de todas as formas possíveis para poder pegar o bastão e suportar o gélido sopro do atravessamento. 

Sobre a pergunta

 

20 de agosto de 2017

 

 

 

Res, A caçada, 18 de agosto de 2017

Não dá para acreditar em sua produção.

Vejo essa sequência de fotos dos trabalhos feitos por RES na última semana e não vejo um artista, mas um cientista, ou nem isso, vejo a obra de um homem que tem coragem de fazer a pergunta: o que mesmo sou eu? A partir dessa pergunta, esmiuçá-la, dissecá-la, fazê-la de diversas formas, entender que o único modo de fazer legitimamente essa pergunta é colocando-se no risco de não mais ser alguma coisa, para poder ser nada, para poder então perguntar, para a pergunta poder ser feita através da sua ação no mundo. Me parece que RES abriu mão de ser autor dessa pergunta, não tem como essa pergunta ser feita se for o sujeito que diretamente a faz. Essa série de imagens me fez entender que não há como fazer essa pergunta do modo como achamos que se faz uma pergunta, a pergunta "o que sou eu?" tem que ser o próprio agente questionador e não o sujeito o agente da pergunta, senão não há a pergunta, há vontade de resposta. (Por que entendemos que é necessário responder à pergunta? Por que existe essa demanda temporal da sequência pergunta-resposta? O que seria uma pergunta que é somente uma pergunta?)

E desse modo, ao se permitir o abandono daquele que pergunta, ao abandonar querer fazer a pergunta para a pergunta se fazer através de RES, finalmente está criando a possibilidade de se perguntar “o que sou?”, e assim pode obter uma resposta; a resposta está, quem sabe, nos momentos de silêncio, de tanto fazer, de tanto repetir a pergunta exaustivamente com sua ação no mundo, os momentos em que RES está então vazio, os momentos supostamente em que RES não está fazendo, é o grande momento em que pode ouvir a resposta no vazio, e quem sabe o vazio da resposta seja tão insuportável que é necessário continuar produzindo, é necessário continuar a pergunta como um mecanismo de sanidade, como a única forma de suportar se saber Nada, como única forma de suportar o vazio da resposta. E o vazio da resposta, acredito, não é uma falta de resposta, mas uma resposta-vazio. Isto é, um código doloroso demais para suportarmos sem anteparos. RES faz a pergunta exaustivamente como alicerce para suportar os momentos em que é tomado pela resposta e não enlouquecer. A resposta é ininteligível, e o problema é justamente quando o ininteligível começa a se infiltrar em nós enquanto algo inteligível – de algum modo, intuo que isso tem a ver com a chance ou o jogo para o Bataille. Quando o ininteligível da resposta se apresenta enquanto algum tipo de relação lógica entre nós e o mundo. Quando a resposta impossível da pergunta começa a se apresentar enquanto pista na realidade, quando começa a dar tilt na máquina da realidade, e o real começa a se apresentar. E é por esse momento também que RES precisa produzir; nesse momento não pode perder para o papel – não perder para o papel é uma condição de existência.

SOBRE OS DESENHOS DE RES EM ESPUMA EXPANSIVA

Dia 17 de maio de 2017 

 

  

Res, Série Hurbinek nº I, 26 de abril de 2017, Coleção Lisa Gordon

Enquanto você (RES) falava com Pablo no Skype, fiquei sentada (ANNA) na poltrona verde olhando o seu último desenho, o maior, especificamente.

Confesso que o que discutimos brevemente no carro hoje sobre como que "formalmente" o seu trabalho é "melhor" que o do Henrique Oliveira, é algo que me perturba muito, especificamente pois eu sou uma pessoa que diante de algumas situações me entrego de tal forma que acabo me perdendo em minha comoção. Minha comoção acaba falando por mim, e ainda que a fala seja "bonita" ou "poderosa" quando volto ao meu estado mais "normal" acabo não sabendo o caminho percorrido entre eu o trabalho e a comoção. Obviamente existe um percurso, um trajeto implicativo, e mesmo que fosse puro fanatismo, muito honestamente, pouco importaria para mim, pois a comoção me permite um estado sempre tão novo de estar viva, que então eu pago o preço de ser chamada de fanática se em troca eu puder ter esses estados, se em troca de ser chamada de fanática eu puder abrir esses espaços de vida em mim. São como sobras de momentos onde todo julgamento se suspende, minha moral é suspensa, não sei mais se o sentimento é bom ou ruim, se a obra é bonita, feia, se gosto, não gosto, e obviamente por isso acabo perdendo a capacidade de articulação de um discurso, já que querendo ou não, ainda estou presa na lama, na âncora do maniqueísmo, do discurso polarizado, da epistemologia da não-dúvida. Quem sabe o seu desenho gere em mim um grande estado de dúvida, mas não uma dúvida entre duas coisas, entre dois opostos, mas o próprio estado do "entre" da dúvida, um estado que sabe que a única resposta está nele mesmo, e não na escolha de ir para um lado ou outro lado, mas o de suportar estar em um meio, e esse meio, ao mesmo tempo que parece ser absolutamente contra o meu corpo, parece também ser de uma ontologia muito próxima. Claro, que espetáculo (!), a própria contradição de ser igual e oposto já faz parte da natureza de semelhança de ambos. Eles se assemelham justamente por se contradizerem, se contradizem na semelhança. Meu deus, é muito bonito isso, é de uma lógica e de um modo de pensar que me seduz, e volto a dizer, me assusta, e o assustar se torna parte constituinte da sedução, e não negação dela. 

 

Mas voltando ao trabalho, ao desenho, passo um tempo olhando para ele, e quase que de forma cômica percebo ele me olhando, percebo que todas as minhas perguntas diante dele são cômicas, percebo que olhar para ele já me é difícil; o que mesmo estou olhando? O que acho estar olhando? E de repente me sinto vigiada, sinto-me diante de uma grande quadra de asfalto sendo vigiada por pessoas dentro de torres que nem mesmo posso ver-lhes o rosto.

 

Ainda que não saiba dizer todo esse percurso de implicação, volto para terra como um exercício de sanidade, já que quero dizer qualquer coisinha, nem que seja um simples balbucio, volto a ouvir a sua pergunta, "o que você está achando dos meus últimos desenhos em espuma?". É mesmo um terreno incerto, é dúvida, é lindo como a espuma é a sua incerteza, é um modo de você se forçar a sair do lugar que você já conhece, o vidro não foi suficiente resistência, a resistência do vidro provoca um tipo de solução, uma solução mental, uma solução física, uma solução de encontrar as ferramentas novas, de descobrir os produtos ideias para esse novo espaço, mas sinto que os desenhos como estão são a consequência de uma resistência que não me parece ter solução; a rigidez e vulnerabilidade, ainda que contraditórias resistências sofisticadas do vidro perdem para essa resistência: a resistência do dizer, da fala que é só sua, de uma fala que parece sempre restar, sobrar, uma fala que sobra mesmo que você dê tudo para ela existir, mesmo que você renuncie uma vida para criar um terreno fértil para ela, uma fala que mesmo com um Goethe já morto, ainda sobra para um próximo dizer. Nem Goethe, nem Hölderlin, nem Cezanne, Tarkovsky, Wittgenstein, nenhum deles deram conta dessa resistência, ainda que tentaram. Esses últimos desenhos me provam que você é o cara que busca a todo custo a resistência para poder acabar com ela, se movimentar pelo mundo, como truque, como truque ou como uma cerca para ver se alguma coisinha pode amolecer a coisa que parece resistir sempre, resistir inclusive a ela mesma. Há algo que resiste à essa resistência maior, e me parece que esse algo, é a vida. E por isso que vocês homens excepcionais são excepcionais, pois vocês só podem ter o que vocês querem, desafiando a vida, mas só a vida é o que permite, também, que você possa voltar para contar desse desafio. Então quem sabe, é a vida mesmo que nos desafia, é ela que quer algo de nós e não nós que queremos algo dela – a vida é um trickster, que subverte, que nos engana de todas as leis do jogo, que cria o problema para encontrarmos a solução. Ela te dá o enigma, te lança a charada para você decifrar. 

Obra para o futuro

 

23 de outubro de 2017

 

 

Sobre o artista do futuro e sobre a miséria do Brasil ser um lugar fantástico para se produzir algo: a miséria do Brasil, a miséria escancarada do nosso país (e quando digo miséria nem digo somente o homem dormindo na calçada a dez metros de distância do meu prédio, mas digo a própria elite brasileira como miserável, pegando um exemplo mais próximo de mim) muito cedo fez Rubens ter consciência de que não estamos mais no tempo de fazer sucesso individualmente – esse tempo talvez já passou, esse tempo é outro, fazer sucesso individualmente talvez na verdade nunca tenha existido, uma vez que toda estrutura de vida era outra, e nem temos ao certo como julgar esse "sucesso sozinho" já que o nosso tempo é esse. Mas considerando o que eu vejo hoje, compreendo que não temos mais esse tempo para se fazer sucesso sozinhos, o homem está suplicando por ajuda, vivemos um tempo onde, num país miserável como o Brasil, há uma Braskem para fazer pactos com um país como os Estados Unidos construindo coisas no espaço. Vivemos um tempo de parceria, de negociação profunda com o outro em nome de algo definitivamente muito maior que nós. É realmente espetacular a articulação da sua obra, onde em tempos em que a doença mais comum é o câncer, que quer ter autonomia das células todas do corpo e RES produz com dez assistentes, que são obrigados a abrirem mão de toda sua autonomia, inclusive, como ele próprio, ao tê-los como assistentes.
Há algo realmente muito visionário e muito profundo em como Rubens se articula no mundo, em como se inventa constantemente no mundo – em como inventa sua vida: não como um louco, sem seguir lei alguma, mas como alguém que já está lendo um texto que está para ser escrito, e assim faz parte de sua escritura.


Sem duvida, Rubens terá discípulos daqui a duzentos anos – porque mesmo se não fosse ele, também seria ele: Rubens faz parte de um tempo que está por vir, então Rubens, esqueçamos o nome, essa pessoa, iria existir de qualquer modo.

Apartamento 96

 

 

O que então RES desejou, "se não era uma casa?”. Não sei se RES não desejou uma casa, quem sabe a ideia de casa que desejou é que foi outra. Já que, hoje, poder transitar entre uma kitnet e um apartamento de Niemayer com 300 metros quadrados tem tão pouca diferença de valor para ele. Ele construiu uma casa muito maior que todas essas, uma casa inclusive autocorretiva, com a capacidade de estar constantemente derrubando as suas paredes e as reerguendo em lugares diferentes em seguida.


O terreno que comprou para construir sua casa é mesmo o terreno da sua vida, da sua missão, do seu destino, o terreno do seu porvir. Todo dia paga uma pequena parcela dessa dívida que criou com o seu destino no momento em que decidiu aceitá-lo e só desejar o que lhe pertence. Isso é mesmo algo difícil, aceitar o que realmente tem a ver conosco. Aceitar não ser inconsciente de si mesmo. Entender o que te faz bem e o que não te faz bem, e não mais ficar batendo com a cabeça em ponta de faca. RES desejou o que é dele, e claro, parece que isso é algo simples, mas o terrível trabalho, antes de qualquer coisa, é enfrentar entender o que se é, para então saber o que te pertence.


É interessante observá-lo dentro de seu novo apartamento; é como se comover com um belo poema: como é possível um espaço tão pequeno poder conter algo tão grande? É como se esse apartamento só fosse um novo display para RES. Como uma esculturinha sua. Ela não precisa de uma cúpula para existir, mas a cúpula se torna preciosa ao envolvê-la. Nesse sentido, traz dignidade àquele espaço, o transforma, o converte de um apartamento bonito, para a residência de um homem notável. Não é que RES reside no apartamento, mas o apartamento é que passa a residir em RES. Devolve a uma arquitetura um significado, um sentido perdido, um contexto. RES é o contexto que transforma o apartamento em algo precioso.

Considerações sobre um tempo em iminência

 

Anna Israel – 09 de outubro de 2016

 

 

 

Penso muito sobre RES hoje. Muito sobre o que faz, obviamente, ando pensando particularmente muito nisso, ainda com o texto crítico sobre seus desenhos últimos que tenho que escrever. Mas hoje em especial, tive um momento enquanto eu estudava que abriu uma clareira em relação a algo muito surpreendente que RES foi capaz de fazer comigo, e que eu considero gravíssimo, realmente grave de um nível que assuste qualquer possibilidade de elaboração precisa do que ele fez e faz – e me pergunto ainda, o que é preciso para fazer? Como isso foi feito? Nesse sentido, acho que o Freud abriu um caminho muito rico para RES continuar, claro que não como psicanalista, mas pouco importa o nome, mas mesmo como uma pessoa que implica em outra pessoa de verdade, que implica com consciência no outro, que possa implicar o outro para além da carência, que possa de fato se relacionar com o outro.

Acho que entendi um elemento muito impressionante em relação ao seu poder, ao grau de poder que tem, e que obviamente é muito maior que RES, acredito mesmo que esse poder, ele nasceu para exercer, como um poder-talento-missão. Acho que o que estou tentando dizer habita entre esses três.

 

RES me espremeu o suco de mim até não poder mais e tirou coisas realmente muito assustadoras. Coisas que eu nunca poderia imaginar existir em mim; coisas que o tempo me desautorizou a ver, não há mais espaço ou tradição para que eu pudesse vê-las sozinha. Isso é muito sério. Não é mais uma questão de não ter tido uma boa educação, de ser uma criança insegura, de ter um pai poderoso, e uma mãe "dona de casa", do meu país ser miserável – acredito mesmo que isso que eu nunca teria podido ver sozinha diz respeito a uma limitação, ou mais que isso, uma resistência, um bloqueio do nosso tempo, o tempo em que vivemos bloqueou mesmo o que importa do ser humano, o outro está encarcerado nas catacumbas mais sorrateiras de nós, preso, um prisioneiro que nem mais força tem, está desnutrido, desidratado, fraco, magro, esquálido...

Eu teria sido mais um desperdício de ser humano nesse planeta, mas eu não vim para ser desperdício, pelo contrário, eu vim para dar espaço a uma coisa muito mais poderosa que eu.

A questão que eu acho surpreendente é que de algum modo, sim, Rubens jogou comigo e teve muita paciência. E quando eu digo jogar, me refiro obviamente também a uma capacidade de dessubjetivação muito alta para poder opinar, tomar decisões, dialogar, conduzir – precisamente, conduzir. Se ele tivesse conduzido por suas emoções nunca teria conduzido nem sua própria vida. E claro que esse “jogo” requer considerações seríssimas: não estou falando de um jogo qualquer, um jogo perverso e malicioso, quando eu digo "jogo", é que Rubens compreendeu muito bem uma sintaxe, uma gramática psíquica do ser humano, e com ela me conduziu para as escadarias da minha própria catacumba, e lá encontrei algo que nunca poderia imaginar encontrar, encontrei eu antes mesmo de nascer, encontrei não uma pessoa, mas um outro espaço possível de mim, em mim.

 

Entendo, hoje, eu mesma um pouco mais sensata e paciente, que, faz sentido as pessoas o chamarem de manipulador e entenderem o Atelier como uma seita. Compreendo que faz sentido absoluto elas pensarem assim, já que são prisioneiras completas desse tempo. Dentro do tempo em que elas vivem é isso mesmo, elas só estão instrumentalizadas para ver dessa forma, elas não estão disponibilizadas dos seus próprios recursos para compreenderem de outra forma. Li hoje uma matéria escandalosa na folha, da esposa do novo prefeito de São Paulo. Eu não a julgo, apesar de sentir um constrangimento absoluto pelo grau que outro ser humano pode chegar de futilidade; essa mulher, essa Bia Doria, é uma vítima completa desse maldito e obscuro tempo em que vivemos. Não é nem mais sobre as barbaridades, ou burrices que ela fala, acho que o que está em jogo é o quão superficial pode se tornar a mente de um ser humano, não em relação a conceitos, mas em relação à própria vida, à própria investigação da vida, investigação de si mesmo.

 

Justamente, o Atelier é um lugar que é mesmo uma exigência do tempo. Quem sabe esse seja o fardo de RES, o preço que paga, o que ele veio fazer é justamente ser um instrumento do início de um novo tempo, onde as pessoas possam pensar um pouco melhor, inicio a um tempo onde nós não estaremos tão encarceirados em nós mesmos. Um tempo onde saberemos fazer perguntas melhores, não para outro, senão somente para nós mesmos.

O poder do Rubens o ultrapassa, não tem nada a ver com ele, fisicamente, não é de sua posse – o que ele fez comigo vai muito além dele, é muito mais poderoso do que só ele, ele me devolveu a vida, me devolveu a minha vida, que eu poderia ter vivido cem anos sem encontrar. Ele gerou uma abertura em mim para que eu mesma, sozinha, pudesse encontrar recursos em mim, encontrar a mim, o meu outro. Ele me ajudou a manter a luz acesa nas profundezas do escuro caminho entre os labirintos de minhas catacumbas. Ele possibilitou uma abertura e um encontro da Anna com o seu outro. Isso é muito profundo, muito muito sério isso, e é justamente isso que está perdido nos dias de hoje, simplesmente a compreensão de que há um outro, um outro de mim, e isso leva a perceber que a vida é muito mais poderosa e mais sutil e mais mágica que podemos imaginar. Descobrir que há um outro, viver o encontro com o seu outro altera a sua consciência da realidade, e assim, te possibilita a ter um farejo do real, não que o real se mostre, mas através desse encontro, a distinção entre a realidade e o real é escancarada, e isso escancara ainda mais a nossa insignificância nesse planeta, e a partir disso, a gloria que é estar vivo – a insignificância me permite ser um braço do desconhecido, e não mais querer ser "eu".

RES não tem esse poder porque quis, ou somente pois trabalhou para isso, há uma leve inversão: ele trabalhou para poder ter o terreno de operação – trabalhou para um dia cruzar com uma anna na vida, o trabalho foi o seu instrumento para que a coisa pudesse ser atuada, mas a coisa sempre existiu: ele é uma exigência do tempo, ele carrega algo que precisa existir. Nesse sentido, é um servo, um servidor. A exigência do tempo é essa, e ela usa RES para cumprir essa missão. Hoje o tempo pede, urge para que o outro seja salvo.

Depois de ler sobre o Zeitz Museum of Contemporary Art Africa

Anna Israel, 28 de outubro de 2017

Matéria no New York Times sobre o enorme museu na África de arte africana contemporânea, Zeitz Museum em Cape Town. Após ler a matéria, e ver as imagens me dou conta de que aquilo não era arte africana, de que temos um grave problema com o que chamamos de arte - o museu em si é a coleção privada de um milionário alemão, que foi feita na verdade por um curador sul africano. O que o suposto museu de arte contemporânea africana apresenta é algo que já foi colonizado completamente pela arte europeia, por uma ditadura estética que dita o que é arte.

Pergunto-me então o que significaria "arte africana", ou "arte brasileira," ou simplesmente poder produzir um objeto autêntico que não seja prisioneiro de uma ditadura estética do nosso tempo é que responde tacanhamente a uma narrativa da arte ocidental dos últimos 500 anos? O que seria um objeto de arte que conhece uma história, entra nela, a ingere, não é leviano em saber que é fruto de manobras ou acontecimentos históricos, mas não por isso se deixa ser sucumbido por uma ditadura dessa narrativa, não se deixa fazer uma inferência tacanha, ainda assim consegue manter a sua própria autenticidade, consegue encontrar o seu próprio furo para existir. O interessante é que esse furo não seria um "furo" de um lugar para o qual alguém não foi, de um lugar pelo qual os grandes homens não passaram devido a uma ignorância ou leviandade, mas o furo seria esse espaço único de cada ser humano, ainda não ocupado, esperando por ser ocupado. É como um espaço que já existe, mas precisa ser conquistado.

Uma narrativa muito específica se constituiu nessa história da arte que nos é contada, mas há muitas outras coisas que essa história não engloba, como por exemplo, como se manifesta o "objeto de arte" no Polo Norte? Qual seria a relação com o sagrado de um esquimó, de um mongol? Como se manifesta o objeto de arte em outras sociedades que escapam da nossa? 

Creio que, hoje, arte está em falência pois somos reféns de sermos simulacros de uma história da arte, fazemos simulacros de um suposto objeto de arte. Partir desse pressuposto do que "deveria ser um objeto de arte" já é um grande perigo sintomático para a humanidade, inclusive acredito fortemente que esse pensamento seja causa de tanta miséria do homem contemporâneo: ser escravo desse dever, dessa demanda, ser escravo de uma forma onipotente já preestabelecida de ser, de viver, de fazer. 

Parece que estamos "tentando fazer algo" mas pelo caminho errado, uma vez que esse algo que estamos buscando já parece estar codificado, já parece ter um nome, enquanto esse "algo que deveríamos estar buscando" seria um algo ainda não  construído, um algo a ser inventado, ficcionado, um algo que não existe mas que nos assombra diariamente, um algo que circula pelos nossos corpos, que nos levanta da cama, que nos faz apaixonar, um algo que nos gera vontade de matar...

A questão que fico, nesse momento, me perguntando é: como poder fazer arte, entrar no jogo da arte, na tradução da arte, sem me deixar ser uma colonizada de um tipo de epistemologia da arte do nosso tempo? Antigamente, quando a palavra arte não existia, o homem estava já fazendo isso, o homem sempre precisou fazer essa coisa, o homem sempre necessitou arranjar algum modo de fazer uma pergunta para os deuses sobre sua condição na Terra, até o homem mais primitivo já possuía essa necessidade, já possuía o poder de perguntar, a nossa condição nesse planeta é a de poder olhar para o céu e perguntar, eternamente. 

Hoje, com o advento dessa palavra "arte", me parece que chegamos em um ponto em que nos perdemos em uma narrativa que já não mais parece dar conta dessa pergunta. Uma narrativa da arte chegou a um fim, e quem sabe isso seja o início da arte contemporânea (na busca de uma palavra melhor), mas não o objeto contemporâneo que vemos por aí em museus, mas o início da arte contemporânea poderia ser a abolição da palavra arte, o início da arte contemporânea teria que ser uma epistemologia nova na ideia do que é fazer, não dá mais para ficar vivendo às sombras da mudança epistemológica que foi a arte moderna. Ela já se esgotou. 

Quem sabe isso seja o início de uma possibilidade de inventarmos algo novo, um novo modo de fazer uma pergunta aos deuses, um novo modo de acrescentar a uma história, não narrativa, mas sobrevivente do homem. 

Pergunto-me profundamente o que realmente inferir de grandes artistas de forma com que eu não me deixe cair em uma pergunta barata em relação a minha condição humana. Quem sabe eu tenha que começar a perguntar ou a inferir não só de artistas, mas de tribos indígenas, de místicos, de mulheres à margem, grandes heróis, grandes cientistas, chefs de cozinha... Entendo que sou produto de uma sociedade capitalista, e que faço parte do século XXI no Brasil, que sou da elite econômica do meu país, e moro em uma cidade grande, e que, quem sabe, seria incompatível para mim inferir de fato de uma tribo indígena. Mas então, qual seria a minha tribo a ser inferida? O Atelier do Centro, RES é mesmo revolucionário: ele inicia uma tradição de uma tribo no Brasil, no centro de São Paulo. Uma tribo que possa dialogar com os índios Hopis, com um homem que daqui a cinquenta anos estará morando em Marte, com outra estrutura de civilização. Será mesmo que isso me seria incompatível?

Voltando ao início, ao que me motivou a escrever: lamento ver que nesse enorme museu de arte africana, os artistas africanos estão querendo na verdade ser artistas americanos, ingleses, franceses. Os elementos africanos em seus trabalhos são todos alegóricos, a cor, materiais, o discurso; não há o diferente nesses trabalhos. Quando perguntaram ao curador se haviam artistas de toda África ele respondeu que havia lacunas, pois em muitos países não havia escolas de arte, portanto não havia artistas.
Eis um atestado do fim da arte. 

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