Escritos do mar na Turquia - Muğla 

Anna Israel

26 de setembro 2020

 

Escritos que desembocam em um lugar bem íntimo – praticamente inacessível a mim

 

 

Escrevo esse texto deitada no deck de um yacht no meio do mar do Mediterrâneo, bem perto de uma ilha chamada Muğla, com uma enorme luz fazendo brilhar todo o mar.

 

Confesso que não entendo mesmo porque foi me dado tamanho privilégio. E pela primeira vez na vida entendi essa exata situação de uma forma completamente diferente: claro que é um privilégio poder viver isso, mas parece que o lugar de discípula que se inaugura em mim, parece balançar o significado de todas as coisas, o mestre balança o significado de cada vida. Hoje, deitada no deck do barco, compreendo que essa situação como um todo, a de estar em um barco gigante, tendo 10 pessoas servindo minha família, no meio do mar, com a minha família por 10 dias não é necessariamente um privilégio, mas um cilada – e uma cilada de Deus.

Hoje me dou conta de que nada é de graça. Se me foi dado nessa vida tamanho privilégio, então eu terei que dar em troca para vida algo na mesma potência. Na verdade o que estou aqui chamando de um “privilégio” é na verdade uma linguagem da vida, um pedido, uma circunstância, um contexto que foi criado para que eu articule minha vida a partir dele. Aqui começo a entender um pouco mais a frase que o Christophe uma vez falou para o RES que dinheiro tem uma relação profunda com o espírito.

Estar diante disso tudo, do lugar que estou hoje, partindo do corpo que me foi construído nesses dez anos ao lado do Rubens, ou eu adoeço, me enojo profundamente, me afundo em meu próprio beco sem saída, ou eu invento uma saída deste beco e invento algo em troca.

Começo a entender agora que o Rubens é o alcoolismo de sua família, o Rubens é a diabete de sua mãe, o Rubens é a miséria intelectual do contexto que ele nasceu – por ele ser isso tudo em toda sua potência, ele acessou não o significado dessas coisas, mas seus significantes, isto é: acessou a potência dessas coisas todas ! O grau de violência embutido nisso tudo ! Rubens foi um exímio leitor de sua história familiar. Eu, nesse caso, sou filha de banqueiro, minha mãe é dolorosamente ressentida, meu pai severamente carente, estou em um barco maior do que casas de muitas pessoas ricas de meu país, ou seja: essa violência toda, não enquanto conteúdo, mas enquanto forma também existe dentro de mim ! Tenho que deslocar isto agora para outro lugar.

 

É difícil não escrever e querer dizer sobre minha família. Difícil interromper a vontade de ficar lhes criticando. Apontando suas diferenças das minhas. Apontando suas fraquezas, suas vilezas, para de algum modo afirmar que não sou desse modo. Mas partir da epistemologia de criticá-los é operar na mesmíssima chave, na mesma moeda, só que de um lado oposto.

Ter um mestre, depois de dez anos, ter esse milagre que é o Rubens na minha vida, significa hoje ter consciência de que há infinitas moedas, há infinitos modos de dizer mesma coisa. O meu próximo passo é agora inventar um novo modo de dizer todas essas coisas de forma diferente, de modo que eu esteja construindo uma nova coisa, um novo mundo, uma nova história minha, uma nova Anna.

Não dá mais para criticar do outro lado da moeda. Já estou careca de saber que sou diferente deles. Não preciso mais provar nada para mim nem para o meu mestre. Inaugura-se agora uma outra etapa no jogo. Inaugura-se agora uma crítica menos reativa e mais construtiva. Construtiva do meu próprio ser. Da minha história – das questões que só dizem respeito a mim. Uma construção a partir dessa potência que expio da minha família: potência somente, nem boa nem ruim, somente uma potência muito agressiva.

Criticar os meus pais hoje, criticar o mundo hoje, as decisões alheias que divergem da minha está totalmente relacionado com a minha carência, com a energia da carência deslocada para o lugar errado!

 

Percebo nessa viagem como é uma afronta BRUTAL a todos da minha família não querer comprar briga – “ficar na minha” aqui é muito muito muito agressivo. Confesso que não sei muito bem o que fazer. Porque quando então eu decido falar qualquer coisa, eles caem em cima de mim, como se estivessem esperando a oportunidade, como se estivessem suplicando para que eu participe da conversa, do diálogo, da banalidade, da futilidade, da inutilidade, do romance. Que romance que é ! É sexo puro ! Me sinto constrangida como se estivesse assistindo pornografia explícita na minha frente em plena mesa de jantar. É muito interessante perceber o espírito dentro de mim. Como ele sempre existiu. Como ele sempre esteve aqui. E nesse sentido é muito interessante perceber que o Rubens na minha vida é um milagre, assim como também é um chamado. Ter cruzado com ele de modo tão brutal não foi à toa. Se eu não tivesse cruzado com ele no momento exato que cruzei, não sei se teria suportado estar viva, se eu não tivesse lhe cruzado nessa vida há 10 anos, acho que eu teria desistido de viver. Meus pais realmente estão destruindo a vida dos meus irmãos. E o espírito não suportaria tê-los destruido a minha vida — acho que o espírito não suportaria me existir por muito tempo nessa vida sem um mestre. Isso é talvez uma das consciências mais profundas que eu já tive. Minha vida não me pertence. O Rubens na minha vida não pertence a mim – mas ele é a aliança com algo que quer muito algo de mim.

Deus realmente quer algo de mim. Rubens é um presente de Deus. O Rubens dez anos atrás foi o que garantiu que o meu espírito continuasse existindo nesta vida.

Cenas que vi hoje - tentando sair da minha cabeça

Viagem Turquia - dia #2 - Muğla

27 de setembro 2020

 

 

 

  1. Pássaro voando com muito vento - ele balançava e tentava compensar com sua força para manter sua rota

  2. Final da tarde que me lembrou muito uma pintura de dois monges vendo o pôr ou nascer do sol do Caspar David Friedrich - esse cara entendeu algo muito profundo com sua pintura

  3. Marcella namorada do meu irmão sentada sozinha olhando para o mar enquanto o barco andava - seu olho estava cheio de lágrimas

  4. Senhora velhinha vendendo mel em um carrinho com escritos em turco ao lado de uma ruína turística - nos cumprimentamos a distância 

  5. Homem lavando o barco - barco bem pequeno e antigo, parecia de pesca - sem camisa, tinha um corpo estranho, braços muito longos e um tronco curto. Nos olhamos e nos cumprimentamos - na frente desse mesmo barco tinha um velhinho com cabelo inteiro branco sentado olhando para o nada 

  6. Tatuagem da tripulante Monika - aparecia um pedacinho dela no canto esquerdo de seu decote / tatuagem de uns louros em seu pulso, suas pulseiras de miçangas coloridas. Usa um óculos degradê cor de rosa e roxo. O universo da mulher é muito poderoso, muito mais sugestivo. O homem é muito pragmático, tem muito menos firula que a mulher. A firula da mulher me parece um entorpecente, uma distração, uma distração do olhar do outro. A serviço de quê isso? As pulseirinhas coloridas e a tatuagem logo embaixo no pulso. Ela tem um olho azul muito bonito, e tem passado delineador com precisão todos esses dias

  7. O chef parece triste. Sua comida é muito boa, todos estão gostando, mas não tenho tido muita vontade de comer. Para mim falta uma espécie de tesao em sua comida, algo erótico, faltam curvas. Seu corpo é bem rígido, e ele sempre quando vem no final das refeições, vem com insegurança - há uma expressão curiosa em seu olhar, não sei descrever bem, como se estivesse com medo, como se tivesse já sido muito ferido. Esse chef parece que já foi severamente ferido. Ele tem muitos dedos. E sua comida tem dedos também. Curioso perceber isso. Realmente, é uma comida boa, mas que não me excita em repetir. Muito diferente do chef britânico com quem fui ao mercado às 6h da manhã uma vez. Esse cara tinha tesão pra cacete ! Chef Mahmud: fez questão de corrigir a minha mãe no primeiro dia quando ela chamou ele somente de Mahmud, pediu para ela chamá-lo de “chef”.

  8. O capitão é um cara especial - ele aparece raramente, mas está atento a tudo que está acontecendo. Se mete muito pouco. É muito pouco carente. Não quer aparecer e não precisa que saibamos dele. Fala com muita segurança dos lugares que vai nos levar e das decisões que ele fez de trajeto. Ele parece saber muito do que está fazendo. Mas fala sem arrogância, e com propriedade. Hoje no jantar especial de aniversário da minha mãe ele apareceu com uma puta câmera profissional para tirar fotos - achei um gesto muito humilde - ele aparecer para desejar feliz aniversário e tirar fotos de todos

  9. Produção / trabalho - tentar transformar esses textos em haikais, tentar transformar o que eu vejo em uma fala, uma escrita que não sirva só para mim: entrar na engrenagem da própria escrita, do dizer, mas conseguir transformar uma cena, uma percepção, em um discurso, agregar a uma imagem um estofo, uma desbeiçada, envergadura. Sinto que esse novo vínculo com o trabalho, com o fazer, pode salvar a minha vida

Haikais em alto mar

Tentativa de encontrar uma nova forma de me relacionar comigo mesma

Viagem Turquia #3 - Muğla

28 de setembro de 2020

CAC

 

 

A linha do horizonte

A luz difusa do fim da tarde

Um pescador lança sua rede

 

 

A gaivota balança no céu

Um peixe voador

Umit o dançarino

 

 

O motor do barco na noite

Sonhos intermitentes

Acordar é um esforço

 

 

 

Expio uma fresta

Cercada por todos os cantos

Xeque mate

 

 

Virgínia Woolf mergulha

entre as pernas

A galáxia em expansão

 

 

Sem saída

Invento

Ser livre

 

 

Um veleiro

Uma moça de maiô vermelho

Uma rede é lançada

 

Outra fresta

O navio cargueiro japonês

Tripulante de olhos azuis

 

Da franja que pende sobre o rosto

Ao mini shorts que escapuliu

Por debaixo da saia a caverna

 

Ela

De fato

Não é ele

Na rua escura

Um porta invisível

A caverna da abelha

 

Na rua escura

Uma luz pisca

Um banquinho com uma almofada

 

Na rua escura

Uma porta entre-aberta

Unha do pé de dragão

 

Fundo do mar

Silêncio:

Retorno numa velocidade atroz

 

O mini shorts

por debaixo da saia

encontra uma saída

 

Um barco pesqueiro

Túmulos ancestrais

Invasão persa contemporânea

 

Mel chá e azeite

Os mortos

Não nos assombrarão

 

O pescador

Barriga de pedra

Matagal de romãs

 

A moça

O oceano

Um mergulho basta

 

A moça

O oceano

Discípulo e mestre

 

A moça

O oceano

batalha mitológica

 

A moça

O oceano

Um copo de whisky

 

A moça

O oceano

O sabor das palavras não ditas

 

 

A moça

O oceano

Uma lupa gigante

 

A moça

O oceano

Cavidade iluminada pela lua na noite

 

Darya, tripulante

Trança no cabelo

Mini saia

Uma tarde no porto de Marmaris

Viagem Turquia # 4

30 de setembro de 2020

Anna Israel

 

Caminhando pela minúscula cidade Marmaris, na região popular e não turística dessa cidade turca portuária, encontrei um pequena loja que vendia produtos orgânicos de todo tipo. Entrei e perguntei se podia tirar uma foto, um velhinho que de início julguei como rabugento, me olhou e falou qualquer coisa em turco, não saiu de sua cadeira, mas por algum motivo senti uma espécie de receptividade em sua fala. Fiquei olhando os produtos e perguntei em um inglês com sotaque turco a função deles, ele só me respondeu em turco, fez comentários sobre os produtos que eu olhava, gesticulou a função do sabonete esfregando suas mãos pelo corpo e fazendo um som no final de muita satisfação, algo como “ahhhhh” e levantava os braços.

Lá haviam vários potes de mel, de diversas cores, e eu me lembrei que em toda ilha que paramos, há sempre muitas abelhas, e lembrei do filme documentário Honeyland - o que me fez entender que estou em uma região que tem muita abelha e muitos produtos da abelha. Junto com os potes de mel haviam outros potes, um em particular com uns sedimentos amarelos e um adesivo com um desenho de abelhinha nele. Perguntei o que era com meu inglês com sotaque, e ele respondeu, e dessa vez gesticulou que era para comer, levando sua mão até a boca e fazendo em seguida aquele mesmo som de satisfação, “ahhhh” levantando suas mãos. Eu continuei olhando o pote, e ele se levantou e veio até mim, abriu o pote, colocou em sua mão e comeu. Em seguida, pediu minha mão e me deu um pouco para comer. Caiu muito em minha mão, isso me deixou um pouco apreensiva. O sabor não era bom, certamente eu fiz uma cara feia enquanto mastigava, tentando disfarçar e ao mesmo tempo fazia um “sim” com a cabeça, como um modo de mostrar aprovação ao que ele tinha me dado. Enfim ele pronunciou uma palavra que eu entendi: pólen!

Selecionei outras coisas e depois levei até ele - e foi quando ele puxou um banquinho com uma pequena almofada já bem murcha em cima e me convidou para sentar dando dois tapinhas em cima da almofada. Fiquei lá sentada assistindo ele embalando cada um dos produtos. Embalou um por um, e enquanto embalava me contava alguma história em turco, muito interessado em me contar, olhava para mim enquanto falava - talvez estivesse falando sobre os produtos, sua loja, sua esposa, sobre suas dores, eu não sei. Só sei que eu respondia com alguns “ahhhhs” e “wow” e ele dava risada. Lá estava eu e o velhinho turco, por um tempo que realmente se suspendeu, sentados tendo uma conversa em uma língua que nem ele nem eu conhecemos, mas por algum motivo, a gente estava se entendendo.

Quando me levantei para ir embora, disse em turco obrigada, teşekkür , e ele mostrou enorme felicidade! Ele então pediu que eu esperasse, falando “sorry” em inglês (que significa na verdade “desculpe”) várias vezes e gesticulando que eu esperasse, até que ele pegou um pote super antigo com uma flor na frente e pediu que eu fizesse uma trouxinha com as mãos. Mais uma vez, ele antes, passou virou um líquido transparente em suas mãos e em seguida na minha, ambos esfregaram as mãos e em cheiramos o perfume forte de lavanda que vinha do líquido.

Me despedi, ele foi até a porta comigo, e quando saí da loja lá ele ficou. Depois vi que ele pegou sua cadeira e colocou na entrada da loja, se sentou e ficou vendo a rua.

 

Com essa história, me pergunto: o que mesmo estamos falando um com o outro? Qual o sentido de termos a mesma língua? De falarmos línguas supostamente as mesmas? Confesso que nesses dias todos no barco com a minha família, que supostamente fala a mesma língua que eu, não tive nenhuma conversa tão profunda como a conversa que tive com o velhinho turco. Falar é mesmo um dispositivo que pode ser usado de forma muito carente, como um entorpecente, que impede a gente de estar acordado, de acordar. O que é maravilhoso sobre não falar a mesma língua que outra pessoa, é que na verdade só o essencial será dito e compreendido: o que eu tenho que entender, meu corpo entenderá!

O que me fascina também com essa história e que resume a entrada nesse novo momento da minha vida é: como contar essa mesma história, mas com a língua que foi conversada entre eu e o velhinho turco? Como abandonar esse português que me foi ensinado para contar essa história, e transpor o tempo que se suspendeu enquanto nós conversávamos em sua loja de produtos artesanais turco? Ou ainda, talvez como fez a Virgínia Woolf em Mrs Dalloway, como entrar tão fundo no velhinho turco e na jovem brasileira comprando produtos artesanais em sua loja, de modo que o próprio português pode ser qualquer outra língua? Virgínia Woolf mergulhou muito fundo na história de seus personagens, mergulhou em suas memórias, em seu estado de espírito, suas angústias, aquelas coisinhas suscetíveis às falas dos outros; ela virou o ser humano do avesso ! E claro que pra isso ela mesma se colocou em seu próprio avesso. Por isso entendo que esse momento que se inaugura não se trata de encontrar uma nova forma de escrever, mas o de inventar uma nova forma de ser - me colocar ainda mais no meu próprio avesso para que essa forma já obsoleta seja descartável para mim mesma, para que junto desse novo corpo, uma nova fala, um nova escrita, uma nova aula, uma nova plasticidade de mim se forme.

Atravessamentos de Anna Israel por esses 10 anos no méthodo RÉS que se completam ao final do ano 2020 - pequena exposição tentando ser bem objetiva e material

02 de outubro 2020

Escritos da Turquia #6

Anna Israel

CAC

 

 

Observação:

quero começar esse texto falando que aqui não necessariamente estarei falando de mim e das "minhas conquistas" nesses 10 anos. Mas aqui estou falando da ação brutal que o Rubens, meu mestre, com a minha entrega, teve sobre essa massa informe, pegajosa, dura, resistente, sedutora, traiçoeira, que eu nem sabia, mas que chamo de eu. Quero aqui fazer um relato dessa coisa ao longo desses dez anos.

 

 

 

  1. Me lembro do dia em que conheci RES - lembro que havia chamado uma menina da minha sala da Faap para me acompanhar minha ida na cabana. Não achava que eu poderia ir sozinha. Ir para um lugar sozinha, sem estar acompanhada era algo fora do meu mapa. Por algum motivo essa menina cancelou de última hora, e tive que tomar a decisão de ir sozinha. Na verdade a decisão já tinha sido tomada muito antes de mim.

  2. Achava que não podia cozinhar. Não me via fazendo nenhum tipo de trabalho prático. A cozinha era um tabu pra mim - ainda que eu tinha fascínio pelo trabalho prático. Mas nunca havia me autorizado de fato a me relacionar com ele. Me lembro de cozinhar macarrão com atum enlatado em uma viagem.

  3. Não tinha uma ferramenta sequer antes de entrar no Atelier - nem um jogo de chaves de fenda. Nem uma parafusadeira.

  4. Anna tinha certeza absoluta que não podia escrever. O meu namorado na época, o Lucas, era o único capacitado a escrever, a falar de filosofia, a pensar - o Lucas e seu grupo eram os intelectuais, eu sentia vergonha de tudo que eu tinha para falar, sentia vergonha de fazer ponderações, mesmo que elas ardessem dentro de mim. Eu era totalmente informe, quando tentava falar, nada saía. Só grunhido, quando eu tentava falar, era como se eu estivesse falando só para mim mesma, uma fala que não era projetada para o outro, como se eu não me desse conta de que havia uma outra pessoa.

  5. Lembro do primeiro texto que escrevi para o Rubens. Logo após a aula que assisti na cabana, ele me pediu depois para escrever um texto com minhas reflexões - eram palavras soltas, sem sentido nenhum para o leitor, o que eu escrevia só tinha sentido dentro da minha cabeça.

  6. Inclusive, por um tempo foi assim que eu escrevia - palavras soltas, que tinham sentido só para mim e eu achava que eram obras primas, que alguém entenderia que escondido no meio daquelas palavras obscuras, havia algo brilhante sendo dito.

  7. Me lembro de ter escrito um dia um texto estupidamente sintomático, só despejando meus problemas, minhas mesquinharias, minha sujeira - na época eu achava que aquilo poderia ser parecido com o Rimbaud

  8. Um dia o Rubens olhou para mim e falou que minha cara estava muito diferente - eu respondi que era porque não tinha passado maquiagem !

  9. Aos poucos o Rubens foi me fazendo acreditar que havia valor no que eu falava, no que eu pensava - demorou muito para eu me autorizar a falar nas “aulas de segunda” da época. Eu realmente era muito insegura, extremamente desautorizada.

  10. Tinha uma mania de perfeição que me impedia até de falar - por insegurança de não sair como eu gostaria

  11. Também não me autorizava a desenhar - tinha uma ideia de que meu desenho era “ruim”.

  12. Demorou muito para eu me autorizar a escrever - que era algo que eu sempre quis fazer.

  13. Eu comecei a descobrir um pouquinho sobre o que era escrita quando morei em NY por seis meses e escrevia e-mails para o Rubens — aquilo salvou a minha vida: nesse momento entendi que escrever podia ser um veículo de relação profunda comigo mesma. Descobri isso de forma muito pouco teórica, mas totalmente corporal. Escrever me fazia voltar para mim mesma, escrever me parava.

  14. Uma bronca fatídica do Rubens em mim foi quando eu escrevi um texto e ele falou que se eu quisesse existir daquele jeito que fosse longe dele. Por um tempo pensei que era por uma questão de conteúdo, mas hoje tenho plena consciência que era por uma questão de forma: a forma com que eu lidei comigo mesma ao escrever aquele texto era de alguém que não estava querendo bancar o seu próprio destino, era a de quem não estava disposta a enfrentar o seu próprio fantasma. Por mais difícil que tenha sido, aquele dia eu pude perceber que havia um trilho que era só meu nessa vida, que ele existia em latência, e que eu teria que inventar sua forma. Isso foi decisivo na relação que hoje eu travo com a escrita. Escrever me ajuda a estar no meu eixo. (Preciso agora inventar e descobrir uma nova forma de escrever que esteja ainda nesse eixo e que sua forma não seja doméstica)

  15. Bebíamos vinho de R$25,00 no apartamento kitnet de RES todos os dias no almoço

  16. Eu raramente fazia a unha - hoje faço todo sábado

  17. Eu fumava haxixe todos os dias antes de entrar no Atelier - depois que entrei no Atelier, comecei a fumar muito menos, talvez mensalmente. A última vez que eu fumei um baseado foi no meu aniversário em NY em 2013 quando morei lá. Depois daquele dia, tive certeza absoluta de que aquele mundo não mais me pertencia.

  18. Anna começou a usar cocaína com 15 anos - foi pega pelos seus pais, começou a ser clinicada por um psiquiatra especializado em drogas, e depois de dois anos voltou a usar. Um mês antes de assistir a aula do Rubens na cabana eu recebi um chamado do além que me fez entender que aquela vida não era a vida que eu tinha vindo viver. Naquele mesmo dia coloquei na cabeça que eu precisava ir para uma cabana me distanciar de tudo. Parei de frequentar meus amigos da época e entendi que não podia chegar mais perto de drogas. No próximo mês recebi um e-mail de um tal de Rubens Espírito Santo, professor de filosofia do meu amigo Bhagavan, me convidando para assistir sua aula na cabana.

  19. Eu levei muitos anos na análise para conseguir falar sobre minha relação com drogas - era algo que de algum modo ainda tinha relação comigo. Hoje não tenho o menor receio de falar sobre minha experiência com drogas com qualquer um dos meus familiares. Pra eles é mais agressivo do que pra mim. Hoje falar disso é falar de outra pessoa.

  20. Eu acreditava que poderia conciliar ser artista com ser “madame” - achava que podia conciliar ser artista com continuar indo nos lugares que eu ia, frequentar as mesmas pessoas, ter relações banais esporadicamente. Entendia só intelectualmente quando o Rubens dizia ser algo inconciliável. Hoje, meu corpo aguenta bem pouco qualquer situação que seja muito distinta daquela que eu estou lhe alimentando. Hoje não preciso mais ouvir que é inconciliável, me relacionar com as coisas de forma banal (no meu nível hoje) – que eu sei hoje ser um dispositivo cruel da minha carência – faz meu corpo responder de imediata. Meu corpo fica imprestável. O espírito cobra muito caro quando é ferido. Me sinto com um sentimento de dívida profundo. Fico física e espiritualmente lesada. Meu corpo foi de fato alterado.

  21. O primeiro mês que frequentei o Atelier, rezava para que o Rubens não visse que eu dirigia uma Pajero blindada. No dia que ele pediu para que déssemos uma volta em meu carro, meu chão desabou. Hoje dirijo um Jeep enorme vermelho blindado que escolhi junto com o Rubens

  22. Nos meus primeiros meses indo ao Atelier, me lembro que chegava 15 minutos antes do horário combinado com o RÉS – mas não queria que percebessem minha ansiedade, então eu ficava dando várias voltas no quarteirão até dar o horário da minha aula

  23. Eu sempre fui fascinada com a intelectualidade e com esoterismo – admitir isso para o outro foi algo extremamente constrangedor. O Rubens me autorizou a ser o que eu sempre sonhei ser – o que eu na verdade sou ou estou caminhando em direção. O Rubens me autorizou a me ser e hoje compreendo que todas as broncas que levo do Rubens é porque estou sendo aquém do que eu posso – ainda hoje percebo como há algo visceral e sorrateiro que quer negar a qualquer custo o meu próprio destino, ou a minha sina.

  24. Uma cena muito íntima que marcou a minha vida profundamente: depois da fatídica aula na cabana, descemos todos a Rua Nothmann para comer uma pizza em um boteco. Na minha frente vi o Piero, um jovem que hoje é DJ, mas que lembro ter se destacado na aula com suas colocações e perguntas; vi o Piero andando de mãos dadas com o Rubens. Era escuro já, mas lembro de ver essa cena com muita nitidez. Quando vi, sabia que aquilo era exatamente o que eu queria pra minha vida. Aquilo suspendia todas as regras que tinham me sido impostas. Aquelas duas mãos dadas, daquele homem extremamente agressivo com aquele jovem descolado e brilhante, era um símbolo pra mim de algo novo, de um pacto fora de uma lei que me era imposta. Aquelas duas mãos dadas me fizeram perceber que eu não vim ao mundo para viver a lei do mundo, mas vim viver uma lei ancestral, uma lei mágica, uma lei que autorizou com que essa cena conduzisse o trajeto de toda minha vida.

  25. Uma época no Atelier eu era a única mulher

  26. Eu levei 6 anos para me autorizar a posar nua no Atelier: sempre quis, desde o começo, mas eu era apegada a uma ideia que tinha que passar para o outro de mim que não admitia que eu posasse nua. Um pouco como uma “Virgem Maria”. Imaculada. Foi finalmente em 2015 que eu posei pela primeira vez para o RES em uma sessão de desenho que todos desenhavam. O desenho que o Rubens fez pertence à coleção da Lisa Gordon.

  27. Em umas férias o Rubens me fez comprar a maior tela que tinha na casa do artista e vários potes de tinta e experimentar o que eu quisesse nessa tela.

  28. Em uma aula falei para o RES que sentia vontade de quebrar o chão pois a minha abstração me levava para lugares de suspensão insuportáveis – o Rubens se levantou e me levou ao Tetra: compramos uma serra circular e um pé de cabra grande vermelho – comecei nesse dia o buraco que eu fiz no Atelier. Passei três semanas todos os dias fazendo esse buraco. Tenho uma única foto desse trabalho

  29. Em 2014 tive um relacionamento afetivo abusivo – o auge do sintoma e da carência. Eu levei essa relação por 10 meses – o Rubens nunca, nesse tempo todo, me falou para terminar

  30. Passei 6 meses morando em NY sozinha – depois do primeiro mês, fui fazer análise com um psicanalista americano 

  31. Há dez anos eu nunca tinha pegado a estrada com meu carro.

  32. Em 2013 fomos à Santa Rita do Ouro Preto – uma viagem de 13 horas de estrada.

  33. Em 2011 fiz o pacto dos cadernos com o Rubens. Na verdade, o Rubens fez o pacto de cadernos com uma pessoa que só hoje eu estou começando a conhecer.

  34. Nesses dez anos eu participei de 12 exposições institucionais

  35. Tive 1 exposição individual

  36. Fiz parte de uma galeria

  37. Tenho trabalhos na coleção de aproximadamente 20 pessoas

  38. Publiquei 12 livros de textos meus

  39. Publiquei pela minha coleção 4 livros do Rubens

  40. Hoje eu moro sozinha em um apartamento de 300m2 em Higienópolis

  41. Tenho uma coleção de arte expandida com trabalhos do Rubens Espírito Santo, do matemático Artur Ávila, do místico Lajos Szabó e do Beuys – que eu negociei com um galerista em Düsseldorf e fui até lá buscar

  42. Fui até o Rio de Janeiro para um café com o Artur Ávila – lá eu pedi para que ele fizesse um desenho para a minha coleção

  43. Tenho uma biblioteca de aproximadamente 1000 volumes

  44. Já dei 4 seminários no Atelier do Centro sobre o Lacan

  45. Já dei 4 seminários no Atelier do Centro sobre o antropólogo britânico Alfred Gell

  46. Já fiz viagens na estrada por 6 horas chovendo sozinha

  47. Faço parte do corpo pedagógico do Atelier do Centro

  48. Já fui 4 vezes à Espanha como professora assistente do curso de rés

  49. Coordeno 2 aulas no Atelier do Centro – uma de Teoria e uma intitulada “Aula do Méthodo”

  50. Tenho 5 assistentes pagos no Atelier do Centro

  51. Fiz uma viagem à China e ao Japão sozinha

  52. Se tudo der ruim hoje, posso ganhar dinheiro cozinhando

  53. Hoje levo bronca por falar demais

  54. Já dei um curso para 12 mulheres

  55. Dei uma palestra virtual para a Flipoços sobre a relação do Lacan com o méthodo

  56. Tenho um site atualizado semanalmente

  57. Tenho uma ótima relação com meus pais

  58. Dirijo o Atelier do Centro uma vez por semana

  59. Fiz psicanálise com o mesmo psicanalista por 6 anos – 3 vezes por semana

  60. Tenho consciência de que estou só começando dentro do méthodo

  61. Hoje eu tenho consciência de que quando eu tento argumentar com o Rubens, é grande parte das vezes porque eu não o estou entendendo – entendo que no lugar que eu estou em relação ao dele, não há discussão ! Se entro em uma discussão com RES é porque não estou acessando o espaço de onde vem sua fala, ou ainda, não estou deixando sua fala abrir um novo espaço de compreensão em mim

  62. Uma coisa eu sempre, nesses dez anos, sempre soube, e isso eu não tenho como explicar exatamente o porquê: que a minha confiança na sua obra, Rubens, é sem limites. Minha confiança em onde você pode ir comigo, realmente sinto ser sem limite. Por isso, por mais pé que eu bata no chão, por mais paulada que eu leve na minha cabeça de ferro de tão dura, sou totalmente entregue ao seu méthodo, e me sinto uma prova viva do poder da relação mestre-discípulo: que depois de dez anos posso ter certeza que só está começando. Eu acredito mesmo que podemos ir muito profundo dentro de nós mesmos – eu acredito mesmo no milagre da vida. Por mais doloroso que seja, quero muito dar isso de presente para mim mesma, o milagre de estar viva ao poder consumá-la.

Parte 2: uma análise psíquica, emocional e intelectual dos apontamentos desses 10 anos

02 de outubro de 2020

CAC

Com profunda gratidão por poder ser sua discípula, Rubens.

Profunda gratidão por ter alguém tão atento a mim – e por investir no meu melhor.

 

 

 

 

  1. A primeira coisa que me ocorre pensar é como a educação é algo falido – falido no sentido de compreender que o ser humano é um organismo muito sofisticado, um sistema altamente suscetível a sua própria condição de estar vivo. Dito isso, o sistema de educação hoje não contempla as nuances do ser humano, seu excesso, seu excedente de energia, seus traumas, sua resistência, sua loucura, o método do sistema de educação não contempla a contradição do ser humano; o sistema de educação hoje é muito pouco pedagógico e extremamente doutrinário – não contempla o próprio desvio da vida em seu funcionamento, o tilt, a gagueira, o fantasma, o sonho, a dor, o medo, a matéria, o que é concreto, a realidade...

  2. Dito isso, por muito tempo, diante de toda minha complexidade enquanto espécie humana, fui oprimida e convencida em achar que não poderia existir por não ser tão facilmente convencida como os demais. Penso que esses dez anos foram, para mim, um modo que RES autorizou que eu desse vazão àquilo que o mundo chamava de “a minha loucura”, e inventasse uma forma para ela. A forma nesses dez anos foi estudar, foi fazer assistência, foi produzir, fazer, colocar coisas no mundo, aprender a me expressar através da escrita, aprender a cozinhar, a lavar a louça, colocar um parafuso na parede, falar com precisão, aprender a formular uma pergunta, aprender a importância de ouvir o outro, aprender a não atropelar as falas, entender que a resposta que eu dava ao mundo eram sintomas do meu romance familiar, entender que havia diferença profunda entre a fantasia da minha cabeça e o mundo real – foram esses alguns mecanismos que ampararam essa “vazão para a minha loucura”. Ou seja, esses dez anos no méthodo não deram vazão a minha loucura a serviço de nada, muito pelo contrário, ao me munir de ferramentas para existir pra fora da minha cabeça, pude encontrar muitas outras formas de me inventar no mundo de maneira formal, e não informe. Nesses dez anos participei de dez exposições institucionais, uma exposição individual, tenho 12 livros de textos publicados, 5 assistentes, faço parte do corpo pedagógico do Atelier, tenho uma coleção de arte amparada com uma biblioteca de 1000 volumes, moro sozinha há 4 anos. Todos essas foram ferramentas conquistadas nesses últimos 10 anos que me amparam nessa loucura.

  3. A psicanálise foi algo também muito importante nesses anos – muito cedo Rés percebeu que haviam questões que não estavam em seu alcance, e que para que pudesse haver mais trabalho dentro do méthodo, eu teria que fazer análise. Foi fundamental para mim esse espaço, um espaço que eu pudesse me ouvir, ouvir a minha loucura, ter distanciamento de mim mesma, ver que eu era uma marionete de um sistema terrível e que esse sistema terrível era eu mesma – pela primeira vez entendi que criticar o mundo não iria me levar a lugar algum -, esse sistema terrível estava incrustado no meu próprio corpo, como um limo pegajoso, uma massa gosmenta que me envolve e que por muito tempo respondeu por mim – e ainda responde. Hoje me dou conta de que essa massa gosmenta é mutativa, vai mudando sua forma, encontrando outros displays para se fazer manifesta. Hoje também me dou conta de que existem também muitos outras massas gosmentas que nos envolvem, existe um modus operandi meu que me foi condicionado; hoje começo a ver outra esfera do sintoma, começo a ver outro espectro da minha alienação de mim mesma, tem a ver com um condicionamento por contexto. (Pesquisar o termo usado no caso do feto ! Termo técnico – por exemplo de um bebê nascer já viciado em drogas por conta do vício da mãe) — hoje percebo que sou como um bebê que nasceu de uma mãe viciada em crack, tenho um vício atávico em crack, que não me pertence, mas o crack faz parte do meu organismo por tabela. O crack me opera, condiciona a minha visão de mundo – condiciona a cisão que existe entre o que eu falo e o que eu faço.

  4. Fazendo um gancho com isso, o trabalho prático foi minado da minha vida – o trabalho prático é quase como algo proibido para mim enquanto mulher da minha classe social. Sempre me foi incentivado, por exemplo, ser mãe e ter algum tipo de respaldo social, mas nunca me foi incentivado saber como publicar um livro, ou saber como trocar o pneu do meu carro, ou mesmo saber trocar uma lâmpada. Isso é algo proibido de ser feito na minha classe social. Esse proibido, de algum modo, não é superficial, mas está no próprio modo como me portava com o Seu Edson, ao trabalhar com ele – completamente desautorizada. Por isso, inclusive, que a plástica foi sempre algo fascinante e também proibido para mim: pois para eu me relacionar com ela, teria que me autorizar a atravessar um preconceito profundo. Na verdade a plástica me obriga a me relacionar comigo de outra forma para poder enfim me relacionar com ela. E isso é muito mais difícil do que parece. Mesmo depois desses dez anos eu ainda hesito em me autorizar a fazer a ligação de uma lâmpada.

  5. A ausência do trabalho prático como algo fundamental fez com que por muitos anos a minha relação com o meu próprio corpo fosse miserável. O que quero dizer com isso é que o próprio corpo é algo prático, é algo vivo, é algo que se você não tomar banho, fede, se você não cuidar, adoece, se você não trabalhar o espírito, ele se empobrece — e o contrário é o mesmo. Abyssus abyssum invocat. Penso que algo que sustenta violentamente o Méthodo RES é o trabalho prático, é o mundo prático, e não somente no sentido de saber construir uma estante de madeira e pendurar na parede, mas também no sentido de ir a um especialista em mãos, após passar um mês com o dedo imobilizado. Esse é um trabalho altamente prático, essa é uma relação muito material com a vida – esse discernimento ainda é algo que tenho que insistir profundamente pois me foi roubado. A falta de relação com o trabalho prático implica diretamente na Anna não entender com precisão porque uma vida espiritual é inconciliável com uma vida banal — hoje eu entendo isso no corpo e foi na marra! Isso é muito prático. É tão prático quanto dizer que se você não comer você sente fome. Estou finalmente começando a entender que aprender a cuidar de mim é um trabalho prático.

  6. Da mesma forma que não ter ferramentas não diz respeito somente a não ter uma parafusadeira, mas eu não tinha nenhuma ferramenta para defender o que eu acreditava, não me foi fornecido na escola, na minha casa, na faculdade, nenhuma ferramenta para eu defender com profundidade o meu mundo, para eu existir com estofo no mundo. Eu existiria como uma raquítica no mundo e seria devorada diante do que eu ambicionava, seria devorada por mim mesma, pela minha própria fúria mal articulada, seria devorada pela minha própria fúria no lugar errado. Eis o que eu estava fazendo até então. E sinto que agora estou entrando numa nova fase de angariar recursos – os recursos que vou angariar agora dizem respeito a eu ter valor real no mundo, para eu ter uma moeda de troca palpável, material e não abstrata.

  7. Algo muito profundo que aconteceu nesses últimos 10 anos foi acompanhar o enriquecimento do Rubens. Acompanhar como o crescimento do seu capital monetário teve uma implicação direta no crescimento do seu capital espiritual. Hoje eu entendo que o Rubens é um homem de um nível espiritual altíssimo porque ele é um homem rico, e ele é um homem rico porque ele é de um nível muito alto espiritual. Uma coisa é indissociável da outra. E também é indissociável da sua relação profunda com o mundo prático (ou teórico, no caso de RES, um realmente é igual ao outro). Para Res, a própria ação teórica é um exercício prático. Fazer teoria é algo extremamente pragmático para Res. Eu nunca tinha entendido isso tão bem – nesse momento isso começa a ficar mais claro, e também se esclarece porque ele é um grande artista: porque ele é um cara totalmente do fazer ! Até o pensar para RES é fazer. Fazer aqui é JOGAR NO JOGO DO MUNDO, jogar o jogo da história, entender as leis do mundo e querer jogar com ela. Não jogar nas leis da sua própria loucura, não jogar na lei da sua fantasia.

  8. Talvez algo que eu levei muitos anos dentro do méthodo para entender é que essa vida não me pertence. O que quero dizer com isso é que por mais que eu resista e queira ter autonomia dentro do meu poder de escolha, “o que é do homem o bicho não come”. Existem coisas que realmente não tem como bater o pé. Meu corpo está muito mais em posse da minha vida do que eu, e meu corpo sabe muito mais do que eu quero do que eu. A resistência do querer, de bater o pé, de achar que posso fazer escolhas, de achar que estou no controle, de querer ter domínio absoluto das coisas, isso tudo só vai me levar para o fundo do meu próprio poço: isso é um câncer psíquico. Hoje, por mais que doa, insisto em sempre dizer que prefiro viver a dor que eu nasci para viver, das dificuldades inscritas para mim nessa vida, do que a dor de estar em dívida comigo mesma, a dor da acídia.

  9. Na vida realmente acredito que fazemos passagens. Realmente há coisas que podem ser superadas – é uma questão profunda de fazer uma alteração profunda no nosso próprio DNA – mudar um osso de lugar, virar a chave de uma engrenagem que por séculos está sem ser virada, já completamente enferrujada. E ir virando aos poucos essa chave. Esses dez anos sinto que o que RES fez comigo foi passar bastante WD nessa chave, fez um trabalho de lubrificar o metal e aos poucos desemperrando-a, dando de leve uns toques nela para ver se ela mexe. Sinto que agora a chave vai começar a virar, e vai fazer barulho, vai arranhar muito, vai grunhir, vai sujar bastante o terreno com sua ferrugem – mas isso tudo é preço de virar a chave.

  10. Sobre o pacto. Acho que uma das coisas mais profundas e bonitas que aprendi no méthodo é o pacto. É se responsabilizar pela sua própria palavra. É entender a materialidade da palavra (ou, mais uma vez, o quão prático é o dizer). Falar pode ser uma implicação profunda. A fala é um modo de você existir, de você se dizer. O pacto, penso ser um dizer muito profundo. Um comprometimento, uma responsabilização muito profunda por algo. Aquela cena do Rubens segurando a mão do Piero na Rua Nothmann foi um símbolo dessa palavra, dessa palavra proferida em outra instância, de um diálogo secreto, de uma intimidade impossível, de uma comunhão. Eis o que eu almejo muito profundamente: estar em comunhão comigo mesma para poder ter minúsculos momentos de comunhão – material, prática, sem delírio, sem fantasia – com o outro. Inclusive, não penso que a comunhão seja algo romântico, algo bonitinho, algo que se dê “em paz”, mas algo muito cruel, um nível de exposição quase insuportável, e ao mesmo tempo, um grau de sujeição a essa vida que nos é muito maior, muito grande, é um modo profundo de se dessubjetivar para poder inventar um novo sujeito. Uma das coisas que percebo que o Rubens mais prega no Méthodo são esses minúsculos momentos de comunhão: onde um dos milhões de interditos são transgredidos, para que a gente possa ser minimamente honestos com o outro e obviamente com nós mesmos. Ser material e dizer a real é muito difícil. O Atelier do Centro é um lugar dolorosamente material. É tão material que agride, pois sem dúvida preferimos viver na fantasia.

  11. Hoje eu tenho consciência de que quando eu tento argumentar com o Rubens, é grande parte das vezes porque eu não o estou entendendo – entendo que no lugar que eu estou em relação ao dele, não há discussão. A fala de RES faz parte de uma orla do dizer que não é a minha, e não é a de ninguém que está no Méthodo. A distância entre o mestre e o discípulo é intransponível – e aceitar isso é o que inaugura essa relação, este ensinamento. Se entro em uma discussão com RES é porque não estou acessando o espaço de onde vem sua fala, ou ainda, não estou deixando sua fala abrir um novo espaço de compreensão em mim.

  12. Uma coisa eu sempre, nesses dez anos, sempre soube, e isso eu não tenho como explicar exatamente o porquê: que a minha confiança na sua obra, Rubens, é sem limites. Minha confiança em onde você pode ir comigo, realmente sinto ser sem limite. Por isso, por mais pé que eu bata no chão, por mais paulada que eu leve na minha cabeça de ferro de tão dura, sou totalmente entregue ao seu méthodo, e me sinto uma prova viva do poder da relação mestre-discípulo: que depois de dez anos posso ter certeza que só está começando. Eu acredito mesmo que podemos ir muito profundo dentro de nós mesmos – eu acredito mesmo no milagre da vida. Por mais doloroso que seja, quero muito dar isso de presente para mim mesma, o milagre de estar viva ao poder consumá-la.

Observações de Anna dessa lista de rés

Também para esvaziar a cabeça e o coração

03 de outubro 2020

Viagem Turquia #7

CAC

 

 

1. Vou pensar em uma palavra em inglês para visão de mundo — mas me lembro de um conceito em alemão que o Res deixou colado no Atelier por um tempo que era o termo para visão de mundo / acho que o mais importante sobre esse termo é conseguirmos traduzir que uma visão de mundo é a construção de um corpo, ou seja, não é uma ideologia, não é uma coisa somente mental, mas uma construção visceral de si mesmo no mundo a serviço de algo 

 

2. Anna já está organizando continuação do curso - já enviou mensagem para as meninas e já tem 6 pessoas interessadas do grupo. Urgente montar um cronograma com temas de aulas e preço e dinâmica de pagamento e enviar para elas. Fazer isso na segunda feira de tarde urgente 

 

3. Questão muito séria apresentada nessa viagem: abismo atrai abismo. Não adianta, se nos alimentarmos diariamente com coisas inúteis, sua vida, sua ideia de mundo, sua forma de se relacionar consigo mesmo será falida. E mais sério ainda: se você desde cedo percebeu brechas que sugerem uma necessidade por um aprofundamento espiritual e não deu bola, uma hora a conta vai chegar. Na verdade, sinto que a conta do espírito sempre acaba chegando. Não quero ser doutrinária, mas o espírito não é uma visão de mundo, o espírito não é uma ideologia, não é uma crença – chamamos de espírito por falta de um nome melhor, por falta de um nome mais científico: realmente acho que o espírito é uma ciência, é uma ciência investigada e estudada pelo Rubens em sua obra. O espírito enquanto ciência é algo que sempre está dando pistas para o sujeito de sua existência, sempre encontra um modo de se fazer manifesto. E ainda, o espírito não é maniqueísta, não é bom nem mau, por isso acho que ele vai aparecer na forma que lhe for mais adequada: se você se achar superior a ele, ele vai encontrar uma forma que você não terá dúvidas que ele está no comando.

 

4. O caminho de cada um. O caminho da minha prima Gabi que vai fazer 18 anos. O texto que ela escreveu e me enviou. A vontade que ela manifestou que eu participasse do encontro para jovens na escola dela para discutir feminismo. O modo como cada um encontra para se articular no mundo. Acho muito comovente ver como ela me ouve, como ela me respeita, me comove ver a relação que eu consegui criar com alguém como fruto do méthodo. Acho comovente poder ter uma influência em seu crescimento, poder ser uma ponte para o que ela aguenta do RES. Estou pensando seriamente em convidá-la para a cerimônia no Prudência.

 

5. Nível da equipe do barco – nível de atenção deles a nós. Convite que meu pai fez a toda a tripulação para fazermos um brinde hoje antes do jantar. Delicado de sua parte lhes agradecer, ser capaz de proferir para eles sua gratidão por quão impecável e realmente atenciosos eles foram. Alguns membros em particular dessa equipe tinha qualquer coisa a mais que o normal. 

 

6. De todas as viagens de barco que fiz essa foi a primeira que paramos somente em 2 cidades: uma minúscula que mal tinha comércio / outra Marmaris também muito pequena que tinha a lojinha do turco — o resto da viagem ficamos no mar. 

 

7. Presenciei o nascer da lua hoje – uma das cenas mais bonitas que já vi na vida. O nascer de uma enorme lua amarela saindo do mar

 

8. Estou quase terminando o romance Mrs Dalloway da Virginia Woolf. Começo a entender melhor o nível dessa mulher. É interessante perceber as diferenças de escrita de uma mulher britânica da passagem do século, para um homem russo de 1800, ou de uma mulher brasileira como a Clarice Lispector. É interessante perceber como são parecidos – como o riozão é parecido, mas como a forma é absolutamente diferente. Como o contexto da época de cada um faz parte da sua escrita só como elemento construtivo da narrativa, mas não enquanto fim. É fascinante mesmo ! Quero ler mais críticos literários – pedir indicação para Res. Amaria ler o Blanchot escrevendo sobre a Virginia Woolf...

 

9. Conversa com grupo pedagógico: acho que podemos organizar um curso muito parecido com o curso da Aura mas sem vínculos mais com a Aura – agora vinculado totalmente ao CAC, ao CAC enquanto nossa instituição, enquanto a instituição que irá nos divulgar e nos vender. Acho que podemos conversar com o Rés sobre isso — com o que o CAC está se transformando enquanto instituição, o próprio CAC promover cursos do grupo pedagógico através do Instagram. Obviamente nós que faríamos isso tudo. Alunos do curso Aura que querem continuar aulas ? Organizar isso ! Ver quem gostaria ? Escrever para eles. Fazer disso como uma extensão de um PIP por exemplo ?

 

10. Anna pedir para Rés lista dos livros que chegaram pra ele que ele pegou na casa Anna — para Anna poder riscar de sua lista de livros pendentes 

 

11. Essa semana Anna faz assistência segunda, terça e quarta para Rés 

 

18. Fazer as coisas com calma – urgência e calma não são coisas incongruentes. Calma significa uma coisa atrás da outra, sem atropelo e sem afobação que geralmente empaca minha produção

 

 
 
 
 
 
 

A young girl crosses the street 

Poem by Rés - February 27th, 2020 

translation by Anna Israel

 

In the course of the night death

In the course of death day

In the course of life, death

In the course of death the gap.

 

In the course of death my life

The pain without any death

The pain filled with pleasure

The pain numbed from a single strike

 

In the course of my worthless self

JACKPOT

Hammerfisted by the left hand

I stumble against the lack of choice of myself

 

Another punch now in the gut

Misty clouds render above me

I’m blind from what I almost

Forget, I don’t recognize anymore

 

What keeps me alive, the untouchable

Memories, the right word,

Relentless, precise, precious,

I’ll turn this poem into the quest

 

For what will save me from my

own extinction. I know that

I can lose sight of myself. And to 

Make things worse, just see what meets the eye. 

The eye that locks me up. Detains me. 

Kills me alive. I dream. 

Righteousness! The path to the thing will 

make me remember, it’s tough, it doesn’t follow

 

Any known trail, 

melted amalgam, unpronounceable, 

Path with no path, urge 

with no focus, focus fading away 

 

With no punctuation, it doesn’t welcome stops 

Unqualified, fatidical – there’s no way 

I cannot find what I search for within 

Me, if my search is a re 

 

Solution, drive slaughtered in a 

single word: I lose myself in the course 

of my own self – wrapped 

in my worn out decisions

Fatidical Fatidical Fatidical Fatidical 

The urge to die haunts me 

Not the natural death, but the 

Passionless death, the lifeless death, of 

 

Those who stood back, of those who chose not to be 

A tasteless death of a shitty 

Life, a life in vain, a life that didn’t happen 

The coward death reluctant of stepping forward 

 

Gravestone of a cynic, engraved in 

pumice stone in a floating cemetery 

The deceased’s name is oozing 

The letters are being gone by the 

 

Wind, the fortune gust of wind is 

stripping his name, conducting its 

chariot through the fuzzy clouds of a 

dreary yearning, pathetic! 

 

In a cramped space of myself I can still 

feel the gravedigger chewing over the wet and warm 

soil, with his crooked cap, 

and baggy pants 

 

Shoes covered in oneiric mud, there 

he goes with his strained hands 

conducting the dry leaves’ cart through the 

corridors packed with souls 

 

The spectator of this silently brutal 

Extravaganza, peeks 

death hiding in between the already dead 

plants of pins 

 

On the discreet collars of the one who 

strolls, through the oyster cemetery 

of an ordinary ash 

wednesday of some other life.

Não sei nem por onde começar a falar de um dia como o de hoje - tentativa de colocar coisas para fora depois de um dia epifânico - depois de um dia realmente epifânico

Anna Israel

17 de agosto 2020

 

  1. Pedagogia - o que mesmo é isso?

  2. O que é o méthodo - o que é RES? O que mesmo RES está fazendo? Não vemos nada que RES está fazendo. É muito silencioso, é muito solitário, é visionário, é no osso, é muito amor, amor mesmo que não tenha retorno, mesmo que o retorno desse amor venha quando ele não estiver mais aqui, é um amor muito puro, como uma carta lançada ao mar, que um dia possivelmente alguém irá encontrar

  3. A questão que está em jogo NÃO É ACERTAR — não é eu conseguir fazer tudo certo e no final do dia ter um portão aberto, ter a logística da garra resolvida, ter um “parabéns” do Rubens. O que está em jogo aqui não é o acerto ! Não é o reconhecimento do outro ! O que está em jogo nas falas do RES é uma reestruturação profunda do meu DNA. É mover cada ossinho do meu corpo. É fazer com que aquilo que vaza, vaze a serviço do que eu acredito — é suturar as partes colapsando do meu corpo, transformar aqueles que estão próximos dele em serem humanos que tenham uma fala: é o que é uma fala? Uma fala é um corpo falante, é um corpo menos cindido, é um corpo consciente de suas limitações, é anti prepotente, é estar em sutura de si mesmo, é querer ser o que se diz, o que se diz acreditar, é estar em estado integral de si mesmo

  4. O bom é quando o discípulo deixa vazar o que ele é mesmo ! Percebo como lamentamos as broncas do Rubens, como lamentamos “errar”. Mas diante do mestre, a ideia de errar não é bobinha, não tem juízo de valor. O “erro” ao lado do mestre é o que possibilita o caminho para a nossa salvação. O erro é onde nós nos revelamos. O erro é fundamental para o mestre não porque o mestre é perverso, mas porque só aí é que tem espaço real para ação ! O lapso é o lugar mais precioso que temos, é o lugar onde as coisas se revelam sobre nós ! O lapso de RES é olhar um livro engasgado de páginas - o lapso de RES é entender, é ver que esse livro precisa sacrificar muitas páginas para existir dignamente no mundo. As ações do Rubens não são filosóficas porque ele se interessa e pensa em filosofia - mas porque ele desviou arduamente o caminho de sua cognição, ele rearranjou os trilhos para o caminho epistemológico de seu vagão.

  5. Quando RES diz: “eu faço esse tipo de mudança em menos de cinco minutos nesse livro”: o que está dizendo? Que é fodão? Está querendo se bajular para os outros o acharem bacana? Está querendo mostrar como seu nível plástico é alto? Tudo errado. Na verdade RES está justamente evidenciando a manobra que fez de deslocar uma energia do sintoma para um lugar de ação filosófica - ele conseguiu colocar nesse minúsculo espaço onde geralmente escorregamos, justamente o contrário, uma atenção e precisão cirúrgica. É o koan da árvore: onde achamos que não há mais perigo, é o lugar em que RES está mais atento ao perigo. A questão é que isso não é intelectual, ele não pensa para agir, isso foi condicionado em seu corpo, isso foi realmente alterado em sua genética. E é isso que sua pedagogia se propõe a fazer.

  6. Eu resisto e resisto em querer afirmar que sei, que sou alguma coisinha, que posso, que temos um poder, que existimos de alguma forma, que temos um lugarzinho, que sei que “abrir a porta do galpão não será tão difícil”- meu Deus, a serviço de quê? Quanta carência. O barato nessa vida é estar em carne viva para poder ser curada, para ser ressignificada, para ser qualquer coisa outra disso que sou hoje. A questão não é a porta do galpão abrir: a questão é a porta do galpão ser capaz de ME ABRIR.

  7. O que mais me constrange é que RES passa o dia inteiro dando broncas em nós que nós achamos ouvir, resistimos, nos redimirmos, trabalhamos, conseguimos, acertamos, pra no final do dia dormirmos sem nos darmos conta de que não tem absolutamente nada a ver com o que achamos ter acontecido. O que acontece diariamente na nossa frente, escancaradamente na frente do discípulo é a engenharia do milagre ! Rubens fala uma língua que não entendemos, Rubens move peças dentro de nós que nós mesmos não vemos.

  8. Transfusão de sangue

  9. Troca de um sangue por outro sangue

  10. Estar atento

  11. Estar atento para quê? Para quem!? Essas perguntas são todas erradas ! Estar atento como trabalho para ser a própria atenção e não a desatenção me ser, e não o sintoma ser toda a minha atenção.

  12. Tem que ser possível essa cirurgia nessa vida.

  13. Sacrifício

  14. Redenção

  15. Entrega

  16. Resistência

  17. Organização

  18. Clareza

  19. Obscuridade

  20. Segredo - perigoso

  21. Mentira: ficção

  22. Entender de uma vez por todas que a assistência que faço para RÉS é mesmo para mim - é uma ficção - estou mesmo aprendendo a operar em outra chave - levar isso ostensivamente para meus dias - ficcionar esse cachorro latindo atrás de mim !

  23. NÃO SE TRATA DE COISAS GRANDIOSAS - SÃO COISAS MINÚSCULAS - ESTAMOS FALANDO DO MINÚSCULO - O MINÚSCULO É ONDE MORA O FANTASMÃO E O FANTASMÃO É QUEM EU SOU MESMO. O FANTASMÃO É QUEM EU TENTO DIARIAMENTE DISFARÇAR - MAS O RUBENS SÓ CONVERSA COM O FANTASMÃO, EU FICO PUTA, FICO BRAVA GRANDE PARTE DAS VEZES E RESISTENTE AO PERCEBER QUE RÉS NÃO ESTÁ VENDO O QUE EU QUERO MOSTRAR, MAS VÊ O QUE QUERO ESCONDER, DISFARÇAR, mas que vaza o tempo todo no próprio ritmo do meu respirar. É o cheiro que exala de mim. Não tem como esconder, não tem como esconder do mestre - graças a Deus.

  24. Hoje eu só consegui abrir as portas do G2 com o Chiva não porque “nós podemos” fazer isso, mas pelo contrário, porque não podemos. — e no momento que eu entendi que não era “só encontrar a chave”, (algo que achava no início que resolveria a questão) e senti que aquilo era muito maior do que eu, que eu baixei a guarda, e entendi que aquela porta podia me salvar.

  25. Uma questão muito séria para ser levada em conta: eu me comprometi como responsável pela viagem e logística de uma garra industrial de ferro de 400kg que custou R$4.000,00 do Rubens. O Rubens pagou R$4.000,00 em uma peça que na semana passada eu estava perguntando qual era sua função. Hoje entendo a complexidade e sofisticação de sua pedagogia: essa garra de R$4.000,00 vindo de Presidente Prudente serviu para eu conseguir abrir a porta emperrada do galpão sem uso de mim mesma.

Tentativas de escrever sobre a última escultura de RES - depois de Richard Rorty

Anna Israel

03 de abril 2020

COVID-19

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Passei a noite olhando muitas vezes para a sua escultura nova, Rubens e ela me tira muito o fôlego. Tentei escrever sobre ela algumas vezes mas quando digo que ela me tira o fôlego é isso o que ela faz: ela faz com que eu tente e tente e tente e tente dizer alguma coisinha sobre ela, até eu perceber que não adianta eu querer falar sobre ela, pois a minha fala e ela são entidades completamente diferentes. É como estar diante de um ser nunca antes visto e curiosamente a projeção de sua sombra me dá a ilusão de uma figura humana, e eu o reconheço, e o cumprimento e tento trocar uma ideia com a simulação dele projetada pela sombra, mas de repente o ângulo da luz muda e a sombra muda junto, e não vejo mais nada, e percebo que toda aquela conversa nada mais foi que um delírio. Sinto que olhar para essa escultura é como olhar para uma coisa que minha mente quer muito codificar dentro de um lugar que ela conhece, mas a escultura parece querer dilatar um espacinho desconhecido dentro da minha cabeça e me implora para que eu permita que esse lugarzinho possa falar um pouco mais por mim, sua escultura compromete totalmente a minha vontade de falar, até que de tanto tentar falar, aqui eu estou, sem mais nenhuma fala, ou talvez sem mais nenhuma vontade, e agora talvez exista mesmo alguma fala que sirva de ferramenta nova para a dilatação desse lugar que desconheço. Em tempos de crise, essa escultura me parece surgir justamente enquanto o que todos estão temendo em relação à crise: o futuro absolutamente desconhecido que se faz presente. Sua escultura estressa e deixa evidente a minha angústia em relação ao que eu não sei - é como se o que eu não sei, que se manifesta enquanto uma ausência de algo, a latência desse espaço sem código dentro de mim, se corporifica diante de mim - e ainda que eu não saiba decifrar o que é, ainda que eu não saiba me comunicar na mesma língua que ele, eu o reconheço. Ou seja, o desconhecido não vai ser conhecido para mim somente ao se apresentar para mim, mas eu terei de me fazer desconhecida de mim mesma para poder enfim dialogar com ele. Essa escultura me parece isso: uma imagem escancarada em nossa frente do que todos estão chamando de desconhecido. E só vejo uma camadinha dela, me deslumbro e me aterrorizo ao mesmo tempo, por ver uma coisa capaz de me socorrer de um afogamento de mim mesma, e ao mesmo tempo me afoga toda vez que eu tento me aproximar dela com as ferramentas que estou habituada em usar. Todos os textos que tentei escrever antes desse foram a partir do que eu sabia dessa escultura, e eles simplesmente não funcionavam, eles não tinham verdade, ou melhor, eles eram a tentativa de encontrar a verdade da escultura, mas a natureza dessa escultura é justamente ela não ter uma natureza específica, ela é mutante, ela serve para quem conseguir usufruir dela, ela não serve enquanto uma verdade única a ser decifrada - ele serve para me dobrar ao avesso, ela serve para me esmagar ao tentar dizer sua verdade até eu me cansar de mim e enfim poder respirar um pouquinho o mesmo ar que ela — a escultura se repelia de mim ao tentar abordá-la a partir do que eu sei, a partir do que eu quero, a partir da minha arrogância, a partir do que quero dizer. Ela me obriga a dizer tudo que não quero dizer: sou limitada. Sou insuficiente. Não sei o que está acontecendo diante dos meus olhos - ou ainda, vejo coisas que não tenho recursos de articular, como é possível isso? Assim, opto por assumir que não sei, a serviço de dar a ela o meu discurso possível agora, a serviço de me assumir menor que ela. Só posso me aproximar dessa imagem a partir do que eu não sei de mim e dela, partindo do meu próprio desconhecido - já que é isso Rubens, o que você aceitou ser para você mesmo, sempre: você aceitou ser desconhecido para você mesmo. E por isso você trabalha incansavelmente para esse desconhecido, o mapeia, o alimenta, cuida dele, o distrai, o envenena, o ama, o venera... E assim, em tempos de crise em que estamos todos apavorados com o nosso desconhecido e o desconhecido do mundo, você nunca me pareceu tão alinhado com você mesmo. Não é uma questão de que eu não tenho critérios para falar da sua escultura ou do lugar que hoje você se encontra, mas sem dúvida, uma orla de critérios se esgotou, uma orla de critérios perdeu sentido diante do universo que sua obra inaugura. Uma língua chega a um fim.

Notas em o sentido da arte

Em muitas partes

Anna Israel

13 de março 2020

Sexta feira 

 

 

  1. Arte sensorial

“Ativação dos sentidos”.

Hélio Oiticica

Lygia Clark

Ernesto Neto

Olafur Eliasson

James Turrell

 

Sentido:

 

Penso que RES leva a ideia de “arte sensorial” para um patamar muito alto.

James Turrel talvez seja o supra-sumo disso que é chamado de um “artista sensorial”. Levou isso para um nível muito alto formal. Realmente acho ele um grande artista. O artista sobretudo muito sério. Um homem muito sério, muito comprometido com seu fazer - um puta artista do nosso tempo.

Mas no caso de RES o que acontece também toca o “sensorial” mas de modo muito interessante. Ainda que não esteja interessado em “arte sensorial” ou nos sentidos conhecidos. Justamente, ele não se interessa por nenhum sentido conhecido. O próprio sentido o desinteressa. Ele bica a bola do “sensorial” muito longe. Desafia os sentidos. Questiona o que sabemos dele - e faz isso sem ter necessariamente essa intenção. Pois “intenção” em questão aqui faz parte da orla dos sentidos, e os sentidos encostados por RES já extrapolam a intencionalidade, isto é, o controle - ainda que não estejamos falando também de descontrole.

Existem os artistas que se interessam por esse tempo - e penso que há uma relação disso com a nossa ideia de ter cinco sentidos. Cinco sentidos que conhecemos, ou o que fomos ensinados a ler como resposta imediata a esses sentidos. Há porém ao longo da história, homens que quiseram explorar todo resto da fauna de sentidos na experiência da vida. Dizem que há 32 sentidos - já conhecidos - no homem. Penso que um artista como Rubens, assim como uma artista como Jessye Norman, entraram na orla de sentidos que não nos foi ensinada a conceber, e por isso, diante da obra deles, há um choque muito profundo em nós com nosso estado de ciência. Há um choque de mim com o que eu consigo elaborar sobre mim. Como se eu conhecesse só cinco camadas de mim, mas diante da obra de RES, diversas outras camadas são ativadas, acordadas, estressadas, e assim passo a conhecer uma esfera de mim mesma que sempre parece desconhecida, ou desacordada em mim.

 

“Dentro da minha carcaça doméstica

e planejada arrebenta um nascedouro” - RES, em seu “Poema para Chiva: arrebentação”

“(...) Lembro-me de estar dirigindo de Tanglewood em uma noite de verão em 1987 (...), lembro-me de estar dirigindo dentro da noite e me perguntando que diabos eu iria fazer com a minha vida. Minha vida, uma vez atingida pelo espetáculo de Jessye Norman, foi posta sobre a parede. Minha vida se tornou, de repente, muito muito pequena, e dentro de sua pequenez, irradiava possibilidades. (...)” Trecho de crítica de Wayne Koestenbaum sobre Jessye Norman - tradução de A.I

Acho que também, para que uma obra gere esse tipo de implicação no sujeito, o artista teve que ser capaz de abrir mão do sentido que conhece de si mesmo. Abriu mão de suas leis, abriu mão de si, do que sabe, do que foi ensinado, do que é dito, e mesmo do que diz e do que faz, para poder ser operado por essas outras camadas inominadas dele mesmo. Acho que devem existir, na verdade, ainda muitos outros sentidos além desses 32 - e evidentemente até hoje só tivemos tecnologia para nomear ou alcançar os arcabouços dos 32, que já é um desconhecido para nós. Agora além desse desconhecido, também há um desconhecido do próprio desconhecido, existem sentidos da própria galáxia que operam em nós, já que somos uma partícula minúscula desse corpo galáctico. Podemos dizer que existem sentidos das estrelas que ressoam em mim e eu nem dou bola. Penso que de algum modo muito muito sofisticado, isso tenha muito a ver com ter uma vida espiritual. Isto é, conseguir construir uma vida que não mais responde aos sentidozinhos desse mundo, desse tempo, de um sintoma, de um tipo de carência, de um tipo de dor e responder à dor de um modo conhecido. Uma vida espiritual é a construção de uma vida em que o modo não como respondemos, mas como perguntamos em si já é outro. Uma vida espiritual é uma que está ciente da dor de uma estrela em outra galáxia ressoando em seu peito - e que tem que articular mecanismos muito sofisticados para lidar com essa dor. Pensamos que a dor é algo que é nosso, mas quem sabe nem mesmo a dor seja nossa, por isso penso mesmo temos que encontrar novos tipos de respostas para a dor que não sejam respostas tão autorreferenciais. E respostas enfim não autorreferenciais talvez sejam perguntas espirituais.

Susan Sontag sobre Camus.

Diz algo muito interessante. Sontag diz que Camus é um escritor menor pois ele não necessariamente entrou na escrita, mas usou a escrita para desenvolver suas ideias sobre a moral, usou da escrita para desenvolver seus pensamentos intelectuais. Sontag pensa que a beleza da discussão moral é irrelevante para arte ! O que eu acho uma elaboração genial e muito precisa !

Ela diz que a questão moral é uma questão menor na arte. E faz muito sentido considerando que a morada da arte é justamente o sem lei. Penso que para adentrar o sem lei, é necessário fazer pactos com agentes que extrapolam qualquer tipo de moralidade. Agentes a-amorais.

 

“Arte nem o alto pensamento é algo que se encontra em Camus. O que explica o apelo extraordinário em sua obra é uma beleza de outra ordem, é a beleza moral, uma qualidade não procurada por outros escritores do século 20. (...) Mas infelizmente, a beleza moral em arte é extremamente perecível.”

 

Tradução de Anna Israel de escritos de Sontag sobre Camus - no livro “Against Interpretation and other essays”.

 

  1. Para que serve a apropriação da história da arte para a arte? História da arte para quê mesmo? Qual o sentido talvez desse estudo para um artista? Qual o sentido de um modo de estudar a história da arte ? (Não estou aqui questionando Warburg, muito pelo contrário, estou questionando o uso que fazemos mesmo de saber da existência, por exemplo, de um Cézanne, Giacometti, Brancusi, em termos práticos)

A apropriação da história da arte no objeto plástico serve somente como recurso / ferramentas para poder ir para algum lugar. Me parece ser mesmo uma construção de uma tradição de um dizer. A roda hoje já foi inventada então não faz sentido não usá-la, usá-la como recurso para facilitar o movimento para chegar em um lugar ainda mais distante.

As manobras apresentadas pela história da arte são ferramentas essenciais para podermos prosseguir - mas não podem ser entendidas como nada além ou aquém disso.

O que estou tentando dizer aqui é que arte está muito além de soluções plásticas. Arte é muito maior do que manobras técnicas. Mas as soluções plásticas e manobras técnicas foram inocentadas ou descobertas justamente no processo árduo de navegar em direção a isso que chamamos de arte. É um pouco como em momentos de guerra que é extremamente rico para descobertas na medicina ou na tecnologia por exemplo. Isso seria uma analogia perfeita para a arte. Se envolver com arte (com o espírito) é estar entrando em um momento de guerra, é querer ser soldado de uma batalha, e nessa batalha podemos utilizar muitas armas já inventadas em batalhas anteriores para “facilitar” nosso caminho, mas o inimigo é invencível, ele renasce a cada instante, portanto, uma nova ferramenta sempre há de ser inventada. Não se passa por essa guerra somente utilizando as armas e tecnologias antigas. Essa guerra eminentemente carece de uma constante invenção de algo, de uma palavra perdida.

(Texto ainda muito confuso)

Ela levou 16 facadas no rosto na frente das filhas:

Inquérito sobre a primeira facada

 

Poema em 3 atos

 

Anna Israel

30 de dezembro 2020

 

 

 

O que é poesia ?

O que é fazer poesia ?

O que será fazer poesia para além da poesia ? Mas que para além é esse ? Como assim “poesia para além da poesia”?

Se há uma “para além de” algo então não me parece haver o algo. O algo tem que ser capaz de se sustentar por ele mesmo. A poesia não precisa de um “para além dela” para ser poesia ! Por pode precisar !

Não parece haver poesia coisa nenhuma !

Não se faz poesia , se faz vida, se faz calor, se faz erotismo, sedução, gozo, entrelaçamento, transa, volição, entrega, conversão , se faz vontade de estar vivo, de inventar saídas de ar ... o nome poesia é só o nome que damos a essa qualquer outra coisa que se faz quando não está se fazendo alguma coisa que já tenha um nome. Existir no não-nomeação, viver fora do nome, eis aqui o que me parece ser poesia , eis a ficção : viver fora do nome é enfim poder ficcionar um nome , um código nominal que não é nominável , é inominável, e por isso damos a ele o nome de poesia , mas poesia é um nome que sem a coisa que a antecede , não diz nada. É uma palavra sem nome - portanto só a carcassa de um corpo sem alma. Corpo sem alma também me parece querer dizer: um corpo sem calor , um corpo frio , um corpo desapaixonado de si mesmo . E esquentar um corpo não é fácil , da mesma maneira que não é fácil esquentar a relação com o que gostaria de dizer aqui - mas o que gostaria de dizer aqui, na verdade não tem a ver com o aqui , com o texto , com as palavras , mas tem a ver com escrever-me de volta para dentro de mim, tem a ver com acionar as chamas do meu próprio corpo : eis o que gostaria de dizer aqui. Portanto esse dizer não se trata de um dizer comunicativo , não se trata de um dizer no texto, mas o texto é que irá dizer em mim. Este texto na verdade é um pedido, um suplício para que eu volte a dizer-me em mim. E para isso, preciso dar algo em troca para o porteiro do texto, e essa coisa é o próprio texto.

Portanto o aqui por ora, esse texto , essa escrita , é uma tentativa não de gerar calor na escrita ! Que erro o meu querer pensar deste modo, esse modo é totalmente predatório ! O que eu quero aqui mesmo, o texto em questão , é um dispositivo da chave do disjuntor do meu próprio calor ! Acionar o texto significa na verdade acionar o motor de mim mesma . Aquecer minha engrenagem . Não deixar a máquina parar de rodar. E quando digo não deixar a máquina parar de rodar, não estou me referindo a uma morte literal , mas estou me referindo a não me deixar tornar-me uma carcassa da minha própria palavra sem vida, sem alma, sem ânimo, sem paixão , sem tesao , sem amor , morna , amordaçada ; deixar a máquina parar de rodar significa me deixar cair no estado de ser uma palavra sem nome, um estado de ser uma palavra que não diz nada, uma palavra sem contexto , e o meu contexto é justamente o meu calor ! É no meu calor, na minha efervescência que encontro meu contexto, meu texto que me antecede , e que precisa desse texto aqui para poder existir para fora de mim , e desta maneira construir minha morada do meu próprio contexto no mundo: fazer do meu calor, a minha morada.

Tentando falar uma coisinha sobre os últimos

textos-acontecimentos de Res

Anna Israel

04 de janeiro de 2021

CAC

 

 

 

Tem um tipo de poema do Rubens, como também um desenho, que eu fico muito impressionada o quanto eles parecem estar em movimento / eu digo que são cinematográficos por falta de palavra melhor, mas são cinematográficos não por RES descrever imagens, mas por ele ser capaz de ir lá longe dentro das imagens que são ocultas para nós, as imagens do nosso imaginário.

Me toca muito profundamente.

Sinto uma vontade de ficar voltando ao texto, voltando ao espaço que ele aciona, a essa espaço ascendido dentro de mim - acendido e ascendido, já que ao algo ser acendido, ao mesmo tempo, também sou ascendida para outro patamar da carreira de mim, subo em retrocesso e volto a sentir o vestígio de uma vida constantemente me foge, uma vida que o tempo todo me desliza por entre os dedos . Talvez o que queira dizer com o cinematográfico em sua obra é que ela aciona em mim um fenômeno de perceber minha própria vida se movimentando, ela aciona imagens que estão em minha memória mas que não tenho acesso, me faz sentir saudades de um tempo que nunca soube que vivi, e ao mesmo tempo me apresenta a uma pessoa que sou eu , que estará sempre um paço a frente de mim, e por um minúsculo segundo, enquanto estou imersa no texto e nessa memória não vivida, eu e essa coisa que está sempre um lance para frente, experienciaremos o acontecimento de ser uma só, por um milésimo de segundo, encontro-me com esse outro, e imediatamente ele se vai. Talvez essa necessidade de escrever sobre seu texto seja um modo de resgatar esse instante, é um modo de , não alcançar essa coisa, mas não ficar tão atrás na corrida, quem sabe para poder , aos poucos, ir dilatando o tempo que estarei em sua sua presença, dilatando o tempo de comunhão entre eu e esse meu outro adiante.

 

Há também também o próprio movimento de vida dentro de mim sendo acionado, sendo implicado: ao mesmo tempo que o texto me impede de reconhecê-lo como algo cognoscível por mim, ele também abre um novo cognoscível, abre esse outro espaço de compreensão que hiberna dentro de mim - e diria até que esse espaço de compreensão que hiberna e que enfim é acionado, é o meu corpo em estado de sutura, meu corpo se reorganizando de uma desordem ancestral, meu corpo acordando de um sono milenar .

 

Lendo esse texto percebo que Rubens não precisa mais de nenhum assunto ou motivo pra escrever : realmente , ele está no próprio assunto, a própria possibilidade de haver a palavra já é o assunto, e a palavra aqui é ambígua, ela possibilita , assim como ela encerra, ela fecha, ela interdita - e quando digo a palavra na verdade a palavra em questão é ele mesmo , é o seu próprio corpo .

O que eu acho surpreendente é isso, é não haver mais distância nenhuma entre aquele que quer escrever, aquele que escreve , e a palavra escrita - e o texto em ação, e sua agência no mundo igualmente , já que ele agenciou o estado de excitação e urgência em mim para poder me manifestar de alguma forma através deste texto, articular o dizer que explode dentro do meu corpo de algum modo através dessas palavras. É justamente sobre esse “através” que quero comentar: não há mais “através de algo” no texto de rés , não há mais essas três instâncias , não há mais aquele que escreve e o escrito, o escrito em si é o próprio que escreve pois não há escrita nenhuma, há inscrição de si mesmo no mundo, inscrição, inscritível, inscritura. Dessa forma a escrita não é nem mais um display para algo, mas a escrita se torna a própria coisa , encontrando uma maneira de se inscrever dentro do asfalto duro duro muito duro do dizer.

 

E você Rubens articula a palavra de tal forma que coloca a palavra (ou você, você se articula de tal forma no mundo) que já eliminou todo tipo de dispersão, de suposto assunto, de vontade de comunicação, de carência, fez uma faxina violenta nos arredores todos do dizer para poder sempre estar na jugular do seu próprio assunto.

Ou então , o assunto é uma faca tensionando sua jugular, prestes a rompê-la, e o que segura a faca de dar o golpe fatal, são esses espaços que você consegue abrir com sua escrita, com seu texto, com seu acontecimento no mundo.

 
 
 
 
 
 
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