“Spivak e Deleuze? O que está mesmo em questão nesta oposição?“ (RES)

Suposições de Anna Israel sobre essa questão

Tentando pensar de forma técnica

21 de fevereiro de 2020

  1. Spivak: Mulher / Indiana

  2. DELEUZE: homem / Francês

  3. Isso em si já diz muita coisa, principalmente no que diz respeito à ideia de autorização. Ao que Spivak está autorizada? Ao que Deleuze está autorizado?

  4. Evidentemente há uma diferença brutal em muitos aspectos de ambos:

  5. Escrita - forma de escrever de cada um:

  6. Spivak se relaciona com a escrita de maneira em que ela faz uma distinção de significado e significante, isto é, o conteúdo e a forma são coisas separadas para ela. Ela se interessa pelo conteúdo do que está dizendo, e menos pela forma como diz. Ou ainda, fazendo uma crítica audaciosa: acho que Spivak se importa sim com a forma de sua escrita, se importa sim com o significante, mas acho que o que sustenta a construção de sua forma é um ressentimento, sinto que o que está por trás do modo como ela escreve, isto é, extremamente hermético e duro, é uma utilização de um recurso estereotipado do intelectual ocidental acadêmico. Em outras palavras, o que estou colocando aqui é que a forma de Spivak é colonizada, a forma de Spivak é um modo como Spivak inventou para ser aceita, reconhecida, é um modo que uma mulher indiana teve que inventar para poder “estar no jogo”. Nesse sentido, me pergunto: o que há mesmo de indiano e de feminino (?) na forma em que Spivak escreve? É uma acusação bastante difícil e cruel, mas fica muito claro para mim principalmente em comparação com Deleuze (que honestamente, é uma comparação totalmente, realmente injusta - quase impossível).

  7. No caso da escrita de Deleuze: não há nenhum tipo de pagação de pau a nenhum tipo de escrita ou a nenhum tipo de ideia estereotipada ou não estereotipada de intelectualidade. É um escrita quase anti-escrita. Não há distinção mais alguma entre significado e significante. O significante na escrita de Deleuze é a própria coisa que ele está querendo dizer (enquanto no caso de Spivak, tenho que confessar que noto que acontece o oposto: o significante faz o desfavor ao significado). Essa diferença está no cerne de uma máxima de Deleuze, “arte não comunica nada!” Deleuze claramente não tem interesse por uma ideia de comunicação e isso fica evidente no modo como escreve - não quer comunicar, não quer dizer nada a ninguém, não quer se afirmar, quer investigar, quer perguntar, quer inventar, mergulhar, se entrelaçar, se lambuzar, errar, amar, gozar na escrita. Nesse caso, acho que Deleuze está mais próximo ao que me interessa investigar como “a Mulher” - uma entidade ainda em descobrimento -, enquanto Spivak me parece querer responder na mesma moeda estereotipada do que é (ou foi) uma ideia de “homem”, viril, potente, afirmativo, correto, contundente. (Ainda que essas opiniões devam muito à minha leitura de Spivak, prefiro assumir um posicionamento Deleuziano aqui de deriva em relação a minha própria ideia de estudo e de posição, de ideia, de mulher!)

  8. Spivak é uma crítica cultural contemporânea - Spivak não cria conceitos, Spivak observa. A tarefa do crítico não é inventar necessariamente algo, mas é observar uma coisa, um tempo, um objeto em questão - e falar sobre este. (Nesse caso, nosso ideia de crítico já é muito limitada. Geralmente, pensamos que o crítico é aquele que fala mal de algo, quando na verdade um crítico deveria ser aquele que observa de maneira mais imparcial possível e diz o que vê).

  9. Deleuze é um filósofo - isto é, seu ofício é inventar conceitos, Deleuze cria conceitos para poder pensar - claro que dentro disso, também é um crítico, pois para pensar, para conseguir emergir dentro da mídia pensamento, ele tem que ser capaz também de observar. Mas sua finalidade não é dizer o que vê, talvez, diferente de Spivak, o ofício de Deleuze seja justamente o de ser capaz de dizer o que não tem capacidade de ver - e por isso precisa inventar conceitos, conceitos como uma lente para ver mais profundamente nos lugares difíceis de enxergar

  10. Spivak: está claramente defendendo uma causa, tem uma posição muito clara

  11. Deleuze: apesar de que sinto que Deleuze tenha uma posição clara, sou incapaz de detectar qual é, ele se contradiz constantemente, ele tem um aspecto de trickster na construção de seu posicionamento

  12. Spivak: uma mulher muito séria - se permite muito pouco qualquer tipo de exagero, e se por uma questão de figura de linguagem exagera, faz questão de pontuar que é um recurso de linguagem

  13. Deleuze: um homem com muito humor - extremamente ficcional. Há momentos que você não sabe se o que ele está escrevendo é ciência ou ficção.

  14. Spivak: aborda a ideia da fala de forma política - mas enquanto um afluente da própria concepção do que é política

  15. Deleuze: aborda também a ideia da fala - mas Deleuze mergulha na coisa que antecede a nossa ideia de fala - também faz uma abordagem política, mas sua abordagem política faz com que a política retorne a um lugar que tenha relação com o espírito. A fala para o Deleuze comporta o silêncio. Para Spivak o silêncio é eminentemente uma omissão. Já Deleuze (de novo em sua máxima, podemos inferir que) uma ideia literal que temos de fala - ou comunicação - é uma enorme forma de omissão.

  16. Fala - falo

  17. Pergunta que me é invocada com isso tudo

  18. Mais uma vez, o que é mesmo então uma fala que contemple:

  19. Ser mulher (ou inventar o que é isso através dessa fala)

  20. Ser brasileira (idem ao item anterior!)

  21. Estar em abertura

  22. Estar em silêncio

  23. Capacidade de destruição criativa

  24. Ser permeável ao que é diferente de mim sem hesitação

  25. Ser permeável ao que é superior a mim sem insegurança

Pensamentos a partir dos estudos de Spivak

17 de fevereiro de 2020

Ideologia: vivemos sob uma ideia, uma visão de mundo que não tem nada a ver com o que realmente acreditamos. Existe uma visão de mundo introjetada nos países sub-desenvolvidos, assim como na mulher, assim como no assalariado, assim como inclusive na própria classe dominante - a classe dominante precisa viver sobre uma ideologia para sobreviver inclusive seu próprio nível de exploração — como por exemplo ir à praia em um condomínio fechado e enquanto você está tomando sol e tomando uma caipirinha há homens de camisa e chapéu de palha varrendo as folhas secas que caíram das árvores. A ideologia que está encrustada em nós é o que permite que aceitamos sem questionar uma cena como essa. No caso dos países sub-desenvolvidos, ou no caso da mulher, há um modo de pensar que foi introjetado em nós para pensarmos que temos que viver uma vida somente a serviço de uma sobrevivência básica, ter uma casinha, um carro, fazer uma universidade, ter um diploma, ter um mínimo de reconhecimento, enfim, cada classe social tem as suas próprias regras do que se espera - mas a questão mesmo que está por trás disso é terrível: temos que pensar desse modo para que uma máquina muito mais poderosa que nós continue girando, para que essa máquina funcione. Não conseguimos unir prática e teoria não por uma incapacidade nossa, não conseguimos viver no risco a serviço de um desejo profundo não porque só somos mesquinhos, mas porque há um sistema inteiro que gasta milhões para que seja assim, não questionar o sistema faz parte do plano do sistema. Não questionar a condição que vivemos faz parte de uma ideologia imposta à nós. Isso serve para qualquer caso, seja para o pobre ou para o rico: ser pobre e viver uma vida somente na chave da sobrevivência assim como ser rico e não se responsabilizar por ser rico, ser rico e achar que isso basta para viver, para ser alguma coisa.

Ponto importante: uma ideologia não é uma coisa ruim, mas vivemos a partir de uma ideologia capitalista que pode ser muito perigosa. RES também cria uma ideologia, mas pautada por regras completamente diferentes. Por isso, inclusive que o Atelier do Centro é um lugar tão perigoso, pois ele desafia um sistema na prática, inventou um sistema paralelo de troca, de trabalho, hierárquico, ou seja, vertical, em que ele não tem mais poder às custas da miséria de seus alunos ou funcionários, pelo contrário, ele incentiva a anti-alienação daqueles em volta dele justamente para que a máquina possa girar.

Uma visão de mundo (ou uma ideologia?) de verdade, que se aplique na prática, que esteja vinculada a realidade, que não seja somente uma fala sem ação, é algo quase impossível de se criar! Requer uma força que vai contra todo o funcionamento político, econômico e social e psíquico de um tempo. Uma visão de mundo é algo muito mais sério e muito mais complexo que eu já pude imaginar. Ninguém no Atelier hoje, a não ser RES, tem uma visão de mundo - podemos seguir um cara brilhante, trabalhar muito para mudar, trabalhar muito para mover um ossinho de lugar, mas enquanto existir trabalho é porque essa visão de mundo está ainda em processo de construção. No caso de RES, não há mais trabalho para por exemplo, estudar, escrever um texto, optar por algo a seu favor do que algo a favor do sintoma. No caso de RES, hoje, ele se move a partir das leis do mundo paralelo que ele inventou. Note: anti-hippie, não alienado, não de esquerda, uma ideologia que está fora do constructo binário ideológico da direita-esquerda. Uma ideologia enquanto resposta à essa problemática. Uma resposta à Marx (extremamente precipitado e leviano da minha parte escrever isso, mas veio), uma resposta ao plano de consistência de Deleuze.

“A mulher não existe” (Lacan) “O Brasil não existe” (AI) - são frases muito parecias, gostaria de explicar a relação que percebo nessas duas frases, inclusive para que ninguém pense que eu não acredito no Brasil e que o Lacan desprezava a mulher. Da mesma forma que a mulher não pode existir enquanto uma resposta à falta de falo, ou ainda, a mulher querer existir buscando preencher seu vazio com um milhão de coisas, um milhão de respostas para sua pergunta impossível, um bando de adereços, verdades, afirmações, a mulher tem que descobrir o que é ser mulher para existir! A mulher não pode mais existir enquanto uma resposta à colonização fálica em sua psiquê, a mulher não pode mais existir enquanto uma resposta ao complexo de castração. A mulher tem que escavar a caverna de sua própria buceta. A mulher não tem como de fato existir se for através da tentativa de suprir a falta do falo! Assim como o Brasil, é igualzinho (!!!), não podemos mais existir enquanto resposta ou projeção do falo americano ou europeu, do sucesso europeu, das soluções dadas por um país de primeiro mundo. Teremos que descobrir as soluções de um país de terceiro mundo, por isso que o narcotráfico é tão poderoso - ele não “paga pau” para ninguém. O Brasil ainda não existe pois ainda não vivemos o risco de tentar descobrir o que é ser brasileiro mesmo. O que é inventar um caminho ainda não inventado? O que é desenhar na areia inexplorada brasileira? O que é o plano de carreira para um país subdesenvolvido? A questão é que como não temos tradição teremos que partir do risco total para inventar enfim alguma coisinha! E o que é interessante é que uma decisão de risco obriga que toda uma nova estrutura, que toda uma nova engenharia seja inventado para sustentar tal decisão de risco. O risco leva ao risco - o risco te pede soluções novas. Não adianta querer estar no risco pensando em soluções antigas. O risco inventa um novo corpo em cada um. A questão é que eu acho que a vontade de estar no risco não pode ser o fim, o fim tem que ser outra coisa, o “riozão” do desejo não é o risco, o “riozão” do desejo aqui talvez seja mesmo descobrir o que eu vim fazer nesse mundo, descobrir o que eu sou mesmo capaz, investigar até onde eu posso ir, investigar até onde meu corpo aguenta, investigar rotas de fuga de mim mesmo. RES e o narcotráfico são mesmo dois exemplos geniais do que é a invenção do Brasil, e de forma análoga, do que é a invenção da mulher.

Pergunta que me sobra ao ler as primeiras 50 páginas da Spivak: um país como o Brasil por exemplo, subdesenvolvido, claramente é explorado pois possui uma riqueza absurda - em termos de commodities, temos muito poder, mas um poder que nos é explorado, não temos tecnologia ainda, não criamos recursos ainda (tanto psíquicos, quanto ideológicos) para tomar posse da riqueza do nosso país. Me parece que o brasileiro teria que se apropriar do que é seu, como justamente faz o narcotráfico, o brasileiro tem que entender que ele tem poder, mas que os grandes impérios não permite que tenhamos acesso - pois supostamente, segundo a lógica da Spivak ou do marxismo, poderia comprometer um sistema capitalista (da mais valia, por exemplo). Há um projeto para que o brasileiro não se aproprie de seu potencial para não comprometer um sistema (aqui estou ciente de que estou sendo muito simplista). Até aí, consigo entender a lógica... Mas o que eu não consigo entender é porque exatamente e no que exatamente é a mulher explorada? Porque há um projeto para que a mulher não se faça a pergunta do que é mesmo ser mulher? Porque há um projeto para que não haja um investimento na investigação do nosso vazio? Porque o próprio feminismo tende a ser machista? Por que a mulher vive às custas de um homem? Por que a mulher ainda sabe tão pouco de si mesma e de seu potencial? Por que a mulher investe tanto em sua loucura? O que nos foi colonizado? Qual é a terra da mulher que estão ocupando? Ou que estão ocultando de nós? O que estão explorando de nós mulheres e que não sabemos? Qual é a riqueza oculta da mulher para ela mesma que não querem que vejamos? Há algo muito misterioso para mim aí. Porque a exploração de gênero? A exploração de gênero está a serviço do quê? Seria da capacidade reprodutiva da mulher? Seria uma exploração da figura materna, que cuida da casa, que cuida da família, para que o homem possa estar no poder, para que o homem possa ter a certeza de que sua espécie irá se reproduzir, a partir de sua mulher? Seria a mulher, em uma posição de poder, uma ameaça da reprodução da espécie do homem? Não pode ser só isso! Me parece que há coisas muito mais profundas sobre a mulher que estão sendo mantidas em sigilo de nós. Urgente pensar mais sobre isso - ler Madame Blavatsky ? Onde posso encontrar pistas para isso?

Esse tipo de texto requer outro tipo de relação minha com a escrita, é muito interessante. É como se eu tivesse que ancorar toda minha capacidade de abstração no chão, esse tipo de texto é bem pesado para mim, me pesa, me ancora, me tira de um estado de suspensão. É muito seco.

 

PARTE II

Qual é esse espaço no meio do tempo, no meio do tempo constante que vivemos, espaço disponível, sedento para ser ocupado por nós? Vivemos em tamanho automatismo que não conseguimos entrar dentro do tempo da nossa própria vida para existir: o momento oportuno não existe! Não existe uma hora certa, a hora certa está em nossa frente, mas não conseguimos entrar na nossa própria hora certa de agora para existir. Há uma desapropriação absurda do nosso espaço de existência, desse espacinho na ponta no nosso nariz que espera para ser ocupado. A máquina do mundo (como quis Drummond) se abre para nós, mas nós sem ao menos avaliarmos o que estamos perdendo, seguimos vagarosos, de mãos pensas. Somos incapazes de enxerga-lá. Somos incapazes de ver qualquer coisa que não sejam nossos probleminhas, nossos machucadinhos. Desviamos diariamente da luz que vaza dela iluminando um possível outro caminho. Meu Deus, qual é o trabalho necessário que estamos deixando de fazer para poder ver essa luz? Para estar disponível à essa luz que está batendo em nosso rosto? Parece que estamos sempre indisponíveis a essa sensação, estamos indisponíveis à epifania. E quando a epifania vem, também estamos pouco instrumentalizados a lidar com ela. É mesmo um trabalho de uma vida, eu sei, eu sei que há ansiedade, e não é fácil mesmo! É mesmo um trabalho diário, árduo, suado, dolorido, massacrante de tentar entrar em retrocesso de nós mesmos, de voltar para um lugar que nunca nos permitiram estar, de voltar para um lugar proibido, originário de nós mesmos. Sinto vergonha da nossa espécie. Tem horas que fico constrangida pela com nossa loucura, timidez, carência, nossa tagarelice, nossa vontade de reconhecimento, nossa expectativa de sucesso. Fico constrangida com o quão dodói somos, o que mesmo aconteceu com a gente? O que mesmo aconteceu com nossa espécie para sermos tão dodóis? Onde mesmo que fomos tão feridos? Porque tanta carência, meu Deus? Se vim para essa vida, se estou no Méthodo, se tive a graça de ter cruzado com um mestre e de ter em algum momento nessa relação descoberto que sou discípula, então realmente a minha obra nessa vida terá que ser me redimir de tamanho constrangimento. Há uma diferença muito grande em ter um mestre e de descobrir que você é discípulo. Por muitos anos, uma pessoa pode ter um mestre, muitos e muitos anos ter a luz quente que irradia do mestre batendo em sua face. Mas não necessariamente se é discípulo. Ser discípulo é construir não uma saída, mas construir por anos o seu próprio beco sem saída, por muitos anos se deixar tornar-se ciente, ciente de si mesmo, ciente de sua situação miserável, de sua sujeira, de suas dores, carências, e do desejo, do abismo do que se quer e do que está sendo feito mesmo para conquistar o que se quer. Será mesmo que queremos o que dizemos querer? O que é mesmo desejar algo senão ser capaz de possuir esse algo? Não seria o desejo intrínseco à obtenção do desejo? Não seria o desejo exatamente o oposto da falta? Não seria o desejo intrínseco à posse do que se quer?

Um dia, o sujeito que possui um mestre, pode se descobrir discípulo. E se descobrir discípulo é se descobrir sem mais nenhuma saída. E não ter saída é a única saída para poder negociar uma entrada com o porteiro da máquina do mundo. 

Questões apresentadas após a leitura de Spivak

18 de fevereiro de 2020

  1. Mudança radical de ideia de leitura - não pagar pau para o que estou lendo, mas usar do próprio artifício de leitura para ler coisas em latência dentro de mim

  2. A leitura enquanto uma ferramenta, um instrumento

  3. Ler por quase 4 horas seguidas para no final ter uma epifania que não sei bem exatamente como aconteceu , inferência que meu cérebro fez dessas 4 horas dedicadas a estudar

  4. Ser aberto x Ser fechado

  5. Fala - o que mesmo é a fala que me interessa? O que mesmo quero entender como fala? Não sei se me interessa a fala enquanto resposta da não fala, como o outro lado da moeda, senão a fala como uma capacidade de estar em silêncio, de não ter a demanda de falar. Não quero pensar a fala enquanto algo proveniente de uma dor de cotovelo, assim como nunca me interessei pelo feminismo enquanto uma resposta ao machismo, enquanto uma resposta ao homem. Não quero pensar a fala enquanto uma resposta à ser mulher, e de um país sub-desenvolvido e subalterno — a fala não pode vim de um lugar de rancor, de ressentimento.

  6. Anti-afirmatividade

  7. Anti-autoritarismo

  8. Anti-fálico

  9. Uma fala fálica é uma fala que não se permite fazer perguntas, uma fala que é uma constante afirmação

  10. Uma fala anti-fálica, ou então o que estou interessada em pensar como uma Fala, é aquilo que é capaz de ouvir o outro, a Fala é a capacidade de sustentar uma pergunta o invés de buscar uma resposta

  11. Fala-Fracasso: o fracasso tem a ver com a pergunta. O anti-fracasso é a ansiedade por ter respostas

  12. Respostas: reconhecimento

  13. Carência

  14. Aprovação

  15. Insegurança

  16. Subalterno de si mesmo

  17. Expiação

  18. O fracasso é a grande fala de um homem. Note que o fracasso em questão aqui não é algo que faz oposição ao sucesso, o fracasso aqui é algo que faz oposição a todo um modo de conceber a vida, o fracasso aqui em questão diz respeito a um modo de lidar com o desejo - de um lado temos o vazio do desejo, temo a insuficiência, temos a angústia, temos a dor, do outro lado temos todos os artifícios para lidar com aquele outro lado, todos os artifícios de tampar o outro lado. O fracasso tem a ver com abrir mão da ideia de se relacionar com o desejo de forma binária - não tem um lado nem outro lado, o fracasso tem a ver com a humildade de se saber muito pequeno diante do universo — o Ray Dalio, um dos caras mais ricos do mundo, diz que sabe que na verdade é totalmente insignificante, e que isso é o que permite que ele esteja constantemente fazendo perguntas no seu negócio - isso é o que dá gás para suas perguntas.

  19. Mulher

  20. Dogma

  21. EUA — um império do nosso tempo — constantemente tem pessoas geniais de outros países dando aulas em suas universidades , enquanto o Brasil — país subdesenvolvido — ser tão fechado nesse quesito. O que esse comportamento do Brasil revela sobre mim? Sobre nós? Porque somos tão fechados? Porque somos tão fechados a entender a visão ou opinião de outras pessoas? Porque queremos impor tanto uma verdade? Me parece que esse autoritarismo tóxico é típico da natureza do país subdesenvolvido, é como uma ciclo vicioso - é uma postura psíquica de uma nação subalterna que está falsamente reivindicando na superfície por uma fala. A questão é que o FALO NÃO É A FALA. Não podemos depender mais da ideia de que o FALO É UMA FALA. Os EUA por exemplo, ao aceitar RECEBER estrangeiros se comporta de modo oposta ao FALO, se comporta de modo receptivo e não impositivo. Há questões de expiação psíquica na nossa nação - há frustrações muito antigas em nossa nação que faz com que a gente aja muito na defensiva. Mas penso que o que é mesmo uma fala não tem nada a ver com uma defensiva - muito pelo contrário, penso que uma fala é a “capacidade de uma pessoa de se deixar ser afetado” , citando Deleuze; afetado, mas não por isso explorado.

  22. RES é um cara que conseguiu fazer uma manobra surpreendente nesse lugar — e me arrisco a dizer que a Spivak não conseguiu, que é a de se deixar ser afetado pelo mundo sem que o mundo o explore a seu favor. Mas nem por isso ele se defende de ser explorado. Ele não teme o cenário em que ele é subalterno. Não fala como uma resposta à uma posição subalterna. A fala de RES vem justamente de sua consciência de ser subalterno. Talvez essa seja a fala possível do subalterno. Talvez essa seja uma resposta para que as nações não falhem (precipitadamente intuindo) - a capacidade de falar na sua subalternidade perante à própria vida

  23. Eis aqui o fracasso!

  24. Enfim, a fala do subalterno.

Observações de AI

Depois de me envolver com a tentativa de tradução de textos de RES sobre o CAC para o inglês

Textos muito objetivos - zero poéticos

30 de dezembro de 2019

Talvez a primeira observação já possa começar com o próprio título: “Textos muito objetivos - zero poéticos”. Essa frase em si já não faz sentido considerando a natureza do texto de RES. Parece não haver mais uma fronteira ou distinção de um texto objetivo para um texto poético - do que se entende por poético, parece que a única intenção ou motivação de existir é a de justamente conseguir ser o mais objetivo possível, é a tentativa voraz de RES de ser absolutamente objetivo com a sua urgência por falar, por existir, sua urgência, não por falar, mas por dizer! Por isso, poderia mesmo dizer que RES não escreve textos poéticos, mas de tanta necessidade por objetividade, a poesia mesmo se metamorfoseia em seu texto, ela mesma,  em seu dizer, como ferramenta a serviço da própria objetividade. Poesia e objetividade trabalham juntas em seu texto, sem hierarquia, uma vez que a poesia nasce, não se constrói por RES. A poesia nasce do terreno tão árido de objetividade que ele desenvolve no seu texto - cava cava cava cava o terreno e depois de tanto cavar, a poesia parece que começa a aparecer sem até que ele perceba, a poesia começa a aparecer como uma companheira, a poesia aparece ao seu lado cavando junto esse terreno árido, a poesia cava junto de RES pela necessidade de dizer. Talvez isso seja uma grande diferença de uma escrita de alto nível para um escritor qualquer: um escritor quer escrever para ser poético, quer ser poético, enquanto com RES, a poesia surge como companheira de uma escavação do dizer. A vontade não é a de ser poético, mas de dizer! E de tanto cavar, de tanto cavar nesse terreno infinito, ao sol, suando, cansado, uma hora a poesia aparece e começa a cavar junto dele - e mais!, não só a poesia aparece, uma hora coisas inimagináveis começam a aparecer, uma língua outra começa a surgir como seu companheiro de escavação, uma hora novas palavras surgem para cavar também, uma hora a senhora sintaxe também está cavando, toda torcida como um Frankenstein, junto deles. É uma manobra fascinante!

Por isso, quero voltar a dizer: o título dessas observações é sem dúvida equivocado! Mas se tem uma coisa que aprendi seriamente traduzindo esses últimos textos é que se eu não me permitir errar, a coisa não vira, a coisa não acontece - dizer e depois aprender com o que disse, aprender com o meu próprio erro, talvez o equívoco do título tivesse sido só o tal do gatilho para que eu começasse a escrever, e foi! Mas o que estou tentando dizer é que poder incorporar esse tipo de situação me parece ser a epistemologia por trás do fazer-texto de RES, me parece ser a epistemologia por trás dessa língua que eu tentei traduzir do RES.

O texto de RES, por mais que seja somente uma lista com nomes e suas especialidades (nunca é “somente uma coisa” - é sempre um susto perceber que estou lidando com um ser que não é um que estamos acostumados a ver por aí, uma lista simples de RES nunca é uma lista simples, pois RES nunca quis fazer uma lista, fazer uma lista não é o objetivo de RES, me parece que o objetivo máximo de RES está sim relacionado com existir, com dizer, com atravessar esse muro impossível do dizer, então tudo lhe é uma oportunidade para inventar, para torcer, para investigar a forma, para manobrar o sentido, tudo vai ser diferente do que você espera da coisa. Se você abordar a obra de RES achando que vai ser o que você conhece, ou o que você está habituado, vai tropeçar depois em algum momento, ela é sempre uma “pegadinha” (ainda que eu não goste dessa palavra), a obra de RES em algum momento vai te enquadrar contra a parede e te mostrar o quão comezinho você é, o quão ordinário e presunçoso é, o quão preconceituoso é - o quão sabichão é! Foi assim que seus textos últimos me trataram e foi assim que o mestre se invocou, me atravessou um pouquinho à distância. Por isso que eu digo, seus textos não são textos, sua escrita não é uma série de símbolos e sintaxe que aprendemos na escola para nos comunicarmos, mas seus textos são mesmo uma garrafa com uma carta dentro que é lançada ao mar - é um código secreto, é um depoimento proibido disfarçado em palavras, um testemunho proibido disfarçado em uma escrita com “muitas vírgulas”, às vezes muitos “pontos finais”, “com uma pontuação estranha”, com uma “organização sintática peculiar”. São esses todos laranjas, laranjas que estão levando uma mensagem proibida para outro tempo - a mensagem precisa resistir ao tempo, se não for desse jeito ela pode ser pega, ela pode ser detida nas fronteiras do dizer. Por isso, RES tem que inventar uma estratégia para dizer, um plano para que a mensagem passe pela alfândega do tempo sem ser detida, sem ser presa, sem ser escoltada de volta para casa...

“Anna traduz por favor esses textos sem perfeccionismo”. Eu achava que RES dizia isso para me incentivar a ser veloz, para me incentivar a não pirar, para um bando de coisas. Traduzindo seus textos então percebo uma coisa genial: é impossível traduzir seu texto com perfeccionismo! O perfeccionismo é um conceito que é execrado da epistemologia de sua obra, o perfeccionismo não faz parte da sintaxe gramatical da sua obra! É como se seu texto fosse uma língua que não aceitasse um modo conhecido e neurótico de tradução, o texto em si te obriga a se metamorfosear para abordá-lo, para tocá-lo. É muito pedagógico (nesse sentido, é um dizer muito poderoso, pois é um texto que carrega dentro dele a própria voz do mestre, carrega dentro dele, em seu DNA, a natureza de RES, não é um texto alheio a RES, é um texto que está totalmente inoculado em sua ossatura textual da visão de mundo daquele que o escreveu, de RES), o texto tem uma vida própria. O texto me obriga a me relacionar comigo de outra forma, o texto me obriga a me abandonar para tocá-lo. O texto possui anticorpos que não permitem que você queira enrijecer sua forma, anticorpos que te impedem de transformá-lo só em um “texto”, já que ele não é bem isso. Seria impossível uma pessoa que não estivesse no méthodo traduzir seus textos pois ela acharia que RES é um louco e tentaria “normalizar” o espetáculo que está diante dela. Seria impossível também pois eu traduzo esses textos com uma causa, com uma intenção muito maior do que simplesmente traduzi-los - acho que isso está muito implícito na obra de RES. Seu pedido para que eu traduzisse esses textos também nunca é só esse, talvez RES estivesse mais uma vez, me preparando para o ano de 2020 - o ano do rato, o ano de existir para o mundo, o ano de existir para o mundo com minha verdade, o ano de ser uma missionária do méthodo de vez, de dizer a minha verdade, de mostrar quem eu sou.

 

“Resumo ou tratado (tanto faz) da filosofia do aleijado”  (do texto de RES) — como uma coisa pode ser um resumo e um tratado ao mesmo tempo? Escrever mais sobre isso.

 
 
 
 
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