Texto Coligido 3

28 de janeiro de 2017

Lembrei de quando fui à Capela Sistina, há dez anos atrás, me lembrei muito do momento em que entrei lá, depois de ter passado o dia ouvindo uma guia contando uma história toda que eu particularmente nunca consegui me concentrar muito para essas guias e o que elas contavam, e inclusive me sentia muito mal por isso, por uma suposta "falta de interesse" que vinha carregada de uma conotação completamente negativa pra mim – me estava blindada a possibilidade de pensar que a minha orla de interesse poderia passar por outro lugar. Apesar disso, assim que entrei na Capela, lotada de turistas, fiquei tão impactada, que entrei em prantos, foi tomada por uma comoção que nunca antes havia me assaltado com tanta violência. Hoje me dou conta com mais distanciamento e discernimento, que não chorei pois achei a pintura de Michelângelo algo "bellissimo", mas que os códigos daquela pintura, o discurso daquela pintura ultrapassavam a pintura de modo que ela não se apresentou mais pra mim enquanto algo pictórico somente,

 

mas enquanto display para algo que nunca imaginei poder ser sustentado,  foi exatamente naquele momento que me dei conta de que arte não tem nada a ver com o que eu vinha pensando que era arte, e que eu mesma não sabia pensar, e que o Michelângelo deixou no mundo um resquício de algo que poderia ser pensado através de mim.
Lembrando disso tudo hoje, voltei a me comover, e me dar conta de que te acompanhar é retroceder quinhentos anos, me dei conta de que o que eu vivo e assisto diariamente, é ver outro homem construindo esse display , esse organismo vivo dele mesmo, transporto para fora. Rubens, obviamente podem me achar fanática, mas muito intimamente, e por enquanto isso pode não valer para o mundo, enquanto eu não for capaz de encontrar o meu modo de dizer , isso pode não valer, mas divido com você que eu sei que o que você está fazendo, é muito maior do que esse tempo e o que se entende hoje pelo que você está fazendo. Muito maior inclusive do que eu ainda assimilo da minha própria compreensão. Mas uma coisa é muito íntima e verdadeira para mim: o que você faz me dilata e me faz descobrir fontes de compreensão que faz com que uma "falta de interesse" de um dia, pode ter sido a minha salvação. Eu descubro a minha vida através do seu diálogo com Michelângelo.

Texto Coligido 4

23 de novembro de 2016

No caminho de volta pra casa fiquei pensando em uma coisa: não sei se o lugar que RES chegou é alcançável, mas RES também está em um lugar de acesso que, justamente, me pergunto se é alcançável. Me perguntei se o acesso diz respeito à genialidade ou se o acesso pode ser um lugar possível para o ordinário. Assim, me projetando em uma circunstância que eu gostaria de um dia estar, me dei conta de que esse acesso e que o modo como eu estava pensando estava completamente equivocado. Hoje, se eu simplesmente puder gozar dos momentos mais insignificantes e burocráticos da minha vida, isso será o meu "beco saída". Pensar que um dia vou estar em um lugar de acesso, e desejar isso como um fim, já é o caminho inverso para eu ter isso; isso que seria, pelo contrário, o trajeto, a jornada, o momento oportuno se dando exatamente agora diante de mim. Desejar um acesso algum dia como algo que estabeleça um fim é o problema. A questão é fazer desse exato momento que escrevo o momento mais precioso da minha vida, afinal de contas, é só isso que pode ser o momento mais precioso da minha vida: todo segundo dela. Quem sabe esteja aí uma grande distopia do nosso tempo: a de ficar esperando um grande momento da vida, e não entender que o grande momento da vida é esse momento mesmo. Assim como quando isso se revelou para mim ao assistir RES desenhar hoje, do mesmo modo como os poemas líricos, onde, a cada segundo, cada milésimo de segundo o texto é imergido nele mesmo, a cada palavra parece que abre-se uma fenda infinita dentro do tempo da palavra, e o poema não possui um começo, um meio ou um fim, ele possui o seu próprio tempo utópico onde não há começo, não há fim, há somente o instante eterno. E desse modo encontro uma preciosidade do seu método, uma preciosidade em você insistir para que façamos um planejamento ostensivo, exaustivo, estupidamente minucioso de estratégia. Se o plano não for em si um gozo, se o desejo não estiver no ato de fazer um planejamento, então o desejo está perdido. Rubens realmente veio para essa terra realmente para fazer parte da inauguração de um novo tempo - traz com ele um novo tempo, o de transformar cada instante da vida, no último e único tempo que temos, já que é isso mesmo.

Texto Coligido 5

18 de novembro de 2016

Rubens tira o fôlego do desenho para que o desenho possa respirar outro ar da realidade, para que o desenho encontre uma camada de oxigênio própria dele para respirar.


Quero escrever um texto da Anna de cinquenta anos, um texto de um lugar sobrevivente de mim, ainda que não seja o sobrevivente mesmo, o cálculo exato de um real sobrevivente, quero escrever uma carta de amor, mas uma carta que atravesse o meu tempo de hoje, pois esse sentimento é o que me conecta comigo, é o que faz com que não haja hiato entre o tempo de mim hoje, é o tempo de mim daqui a trinta anos, não o tempo, mas o próprio espaço de mim. O meu amor é o que faz com que eu saiba sobre o futuro de mim, não sobre, mas incorpore o espaço de mim do futuro, já que o amor vai para sempre existir, e a cada dia se torna mais forte – não sei mais como é possível que algo tão forte hoje possa amanhã ainda encontrar poder para me dilatar ainda mais, meu corpo está criando espaços que não existiam nele mesmo para suportar o amor, para fazer com que o amor possa caber dentro de mim, e assim, nos dilatamos juntos, eu e o amor, ele encontra modos de me fazer amadurecer, no sentido de resgatar um tempo vindouro de mim e rapidamente me transformar para sustentar a crueza de algo tão cru, algo tão absolutamente em estado pleno, puro, tão puro que me encontra com o desvelamento de uma camada, de uma película de realidade, onde não há mais tempo passado nem futuro, onde há somente o tempo presente – isto é a droga mais poderosa possível, a droga de sentir-se presente no instante, de submergir dentro do instante do instante, de mergulhar para dentro do agora, agora de agora e agora de depois de agora que também será agora, e, assim, estar dentro de cada batida do meu coração, estar dentro de minha própria veia e não o contrário, estar dentro do meu próprio aparelho de visão, e então perceber que eu mesma, isso que sou no instante do instante sou eu simplesmente sendo operada pelo meu ver, pelo meu olhar, eu não vejo nada, eu sou mesmo algo que em mim está vendo, sou mais como uma espectadora da minha visão, uma espectadora de mim mesma que fala, que ouve, que come, caga, cheira, chora, soluça e se pergunta: quem é mesmo que está falando?, quem está ouvindo, cheirando, cagando, andando, quem é essa pessoa que está fazendo isso tudo por mim quando não estou tentando ser eu? Quando não estou tentando ser é o único momento onde realmente estou sendo, como compactuar com esse estado que antecipa todos os meus gestos voluntários? Como produzir ou falar ou fazer dentro do momento pré fala, pré produção, como ser no instante que não estou sendo, e sendo somente? Eu quero as pré coisas, os pré instantes de mim, eu quero poder dizer o meu próprio silêncio, meu estado de contemplação, de não ter nada para dizer, que lindo não ter nada para dizer, é aí somente que eu posso dizer algo, não há mais fala, não há mais assuntos que não valem nada para serem ditos, quando não há nada pra dizer há somente uma coisa para dizer, a própria vida, o silêncio de não ter nada para dizer mas estar existindo dentro de mim, poder dizer simplesmente o meu estado de silêncio, a sensação física de estar vivo, mas nem vivo em urgência, muito menos ansioso, triste ou melancólico, mas o que seria poder dizer simplesmente o meu respirar, minha sensação física de dar um respiro profundo e sentir todo oxigênio me salvando a vida nesse instante, consumindo o meu peito de prazer, do sabor do ar que somente os meus pulmões podem sentir e saboreiam e agradecem por isso com uma sensação maravilhosa que expelem pelo meu corpo todo, uma sensação de vida, ou, de instante, somente uma sensação do instante de agora, sem vida e sem morte, sem dor ou prazer, gostaria de ser capaz de somente descrever o que é a palavra sentir – dizer o que é o sentir-se existindo, sentir esse instante de vida passando nesse exato momento por mim, dizer a dor da vida que me consome a cada segundo, a dor por falta de um nome melhor, ainda que não seja a palavra perfeita, já que o antônimo de dor seja prazer, mas quero usar dor pois dói, é forte demais parar o tempo e focar na vida correndo dentro de cada um, cada um que, por fora, percebo gestos, trejeitos, gagueiras ou eloquências, o que seja o que estamos vendo, dentro de cada um desses outros há vida pesando por dentro, há aflições interrompendo o fluxo da vida, ou melhor, o fluxo da vida vai continuar, somos nós que inventamos supostas verdades e que, por sinal, acreditamos estar interrompendo algum fluxo – o fluxo vai continuar mesmo que nós nos impeçamos de perceber o fluxo em movimento, falsamente interrompemos um fluxo e por isso é que somos covardes! A vida está constantemente fornecendo toda a sua beleza, a vida não como algo externo, o externo é um cenário, paisagem, para um cego a vida é ele mesmo, e para nós assim também deveria ser: a vida é o que passa dentro de mim, é o que me sustenta em pé, eu sou toda vida contida em mim, e uma formiga também!

Texto Coligido 6

6 de junho de 2016

Eu não quero acertar mais, não quero mais esse tipo de desespero, de frustração, foi linda a resposta que o Felipe Goes deu para a Gabi sobre não ter vontade de "destruir seu Atelier", não querer destruir o Atelier significa querer muito algo, querer tanto algo, algo tão sofisticado, que a sabedoria para a obtenção ou para, como ele também falou, "simplesmente o espaço disponível para que algo possa vir a acontecer", já faz com que a paciência e entender os limites de hoje com serenidade, ou melhor, com respeito ao "fim desse desejo" não o leve a querer destruir o Atelier.

Não quero mais acertar, ironicamente, justamente porque eu entendi que eu quero demais, quero demais ser uma artista, quero demais ser a minha grande mulher, a grande mulher que sou em latência, que quer existir em mim (mas isso requer muita técnica, ser essa grande a mulher é uma mídia, e isso requer um ofício), quero demais resolver todas as questões da minha vida em um pedaço de papel, quero resolver a bomba atômica que vai explodir no papel, quero que toda a minha energia, minha paixão esteja canalizada no meu fazer, na minha atenção, quero que o refilamento de 1 mm em um papel seja como estar sentada em uma mesa com bandidos, com assassinos terríveis, assassinos terríveis que vão me matar, e eu, nesse refilamento minúsculo, esteja negociando a minha vida com eles, quero esse tipo de relação com o meu ofício, quero poder criar essa situação com o que eu estou fazendo no mundo, quero construir uma orla de relação, de comprometimento com o meu fazer, com o meu discurso, discurso de forma ampliada. É claro que isso não é literal, não é alegórico, e obviamente não é algo que vou sentar e entender que "de agora em diante vou agir assim". Sinto que hoje o que posso é fazer um trabalho exaustivo, maciço, para entrar nesse idioma de mim, nessa língua mesma da vida, como que tirar uma pele envelhecida dos meus antepassados de mim, meus antepassados sociais, do meu próprio país, do tempo em que eu vivo, das pessoas que frequentei, onde a vida é uma passagem, quero tirar de vez essa epistemologia ontológica do meu corpo, da minha mente, da memória do meu tempo de mim e voltar a ser o que eu sou mesmo, voltar a ser mesmo isso que escrevo aqui que quero poder ser, somente ser a minha deriva, estar mais próxima da lógica do meu próprio corpo à lógica desse tempo, à lógica do que se diz ser a lógica de como as coisas são ou deveriam ser.

Com isso, obviamente não estou falando de fazer um desenho, esse não é o fim, ainda que seja o fim de uma carência sustentável, mas eu quero que o meu fazer esteja pactuado com essa carência insustentável, só ela existe, as outras existem para me enganar, para me dizer que as coisas podem se resolver, mas no fundo eu sei que não podem, e é com esse "não podem" que eu quero pactuar, quero me aliar, me alicerçar, me alistar, quero me alistar na incompletude da minha vida, quero me alistar, estar no topo da lista da minha carência insustentável, somente eu, mais nenhum falso motivo, Eu sou a minha carência, a própria impronunciabilidade desse "eu" sou a minha carência. Eu – sou – a – minha – carência. Estou presa em uma língua autorreferencial, essa frase parece fazer bem mais sentido, e o não sentido dela é exatamente porque nos enganamos tanto em acharmos que no sentido as coisas se resolvem; que, ao depender do outro, as coisas "vão estar bem", que, ao não conseguir fazer um bom desenho hoje "as coisas estão mal". Isso é ilusão, quem sabe o único bom desenho que eu possa fazer hoje é poder me confortar ontológica e legitimamente na experiência, me entregar de verdade à experiência de testar, de destruir, de errar, de experimentar, de olhar, não preciso ver algo, não tenho como ver se mal tenho olho, tenho que aprender a me reconciliar com o meu próprio olho, me aliar a ele, conhecê-lo, ver que ele vê, saber de sua função, saber que eu tenho um olho, dois olhos - para que ele serve? Como eu o utilizo? De que forma eu vejo? Quem vê? Vê o que? Como vê? Por onde vê? Por onde esse ver percorre? Qual o destino dessa visão? Qual o trajeto da coisa vista? O que vê é o olho? Ou o olho é o dispositivo de minha visão? Se não é o olho quem vê então quem vê? Bingo. É esse "quem vê", ou "onde vê", ou o espaço que algo é visto que tem que ser trabalhado, treinado, como um músculo mesmo que está fora de função, atrofiado.

E para isso, obviamente, é quase uma piada pensar o contrário; agora compreendi que vai levar tempo. Esse discurso ainda está cindido da minha máquina como um todo, ainda está cindido dos meus funcionamentos sistêmicos, do meu emocional, será que um dia não mais estará? Desconheço o funcionamento da minha própria máquina, eu mesma sou teleológica com ela, o que posso fazer hoje é me dedicar e entender os meus limites, destruir um funcionamento, deixá-lo curando no vinho por muito tempo, como uma carne dura, que fica dias amolecendo no vinho. Não são os temperos que vão dar gosto e mascarar a carne dura, e trucar, ilusionar uma carne bem resolvida; um azeite de trufas em uma carne dura é um azeite de trufas em uma carne dura, não muda a genética da carne; vou trabalhar o tempo necessário e fazer o que posso para alterar, amolecer a tessitura dessa carne, da minha própria carne, do pedaço grosso de carne duro de mim, atrofiado de mim.

Texto Coligido 7

20 de setembro de 2016

Acabar com o discurso do choro, o discurso vaiado, comezinho, o discurso do espetáculo, de quem quer atenção; deixar o choro para quando eu realmente não tiver mais nenhum recurso de fala, aí sim ele vai poder valer, aí sim ele poderá dizer algo, dizer sobre uma insuficiência muito mais profunda. Não quero mais ter que dizer sobre mim através do meu choro, eu irei dizer mesmo que seja invisível para os olhares e ouvidos dos outros, eu só quero dizer que não quero mais aprovação e benção ou redenção de ninguém, eu quero mesmo é dizer, nem que para isso eu não seja vista, nem que para isso eu passe despercebida diante de tanto drama, eu não quero mais drama nenhum, eu quero poder me empoderar de meu próprio drama, de meu próprio discurso, eu quero o poder do drama em meu dizer, não quero mais ser um dizer dele, eu vou ser capaz de me parar, como fiz hoje, no desenho; percebo que eu me parei em um determinado momento, eu disse muito ferozmente para mim que eu ia conseguir, mesmo que eu fracassasse em chamar a atenção para toda a minha latência, eu vou dizer mesmo que seja um ínfimo de fala, mesmo que seja um minúsculo gesto, mas eu não vou glorificar o meu estado de latência, eu vou me fazer manifesta nem que seja absolutamente lentamente, mesmo que isso me leve anos, mas não farei mais uma apologia ao fato de não conseguir me colocar para fora. Eis aqui uma mudança radical de posicionamento. Chega de fazer apologia às nossas latências, às nossas carências, chega de apologia, está na hora da reivindicação pela fala, pela vontade de construir um discurso, pela vontade de estuprar, eu não quero mais ser estuprada – vou lutar ferozmente para não ser estuprada, para poder ser estuprada somente pelo inconsumável, só ele poderá me estuprar, mas antes disso, consumarei tudo o que for possível para que só sobre o que tem mesmo que sobrar, para que não sobre sujeira alguma, para que sobre para que sobre mesmo o que eu não dou conta, para que sobre a própria sobra de mim; a minha vitória vencida será quando só sobrar o que importa, e o que também não importa mais, nem exporta, onde a sobra será somente o incapturável, não vou mais chorar, agora é puro gozo, é tesão, é a angústia de não dar mais para ir. Chega de ter angústia por "ser mais do que algo". Não sou mais do que nada que eu não me dedicar com afinco. Esse desenho é exatamente o que eu sou hoje, realmente me entreguei a ele, realmente fiz questão dele ser uma folha inteira, que ele não se descolasse, eu não quero mais me descolar, não quero ser descolada, quero ser inteira, quero que o meu discurso já parta desse lugar, de uma filha inteira, sem emendas, não quero mais emendas em minha vida, quero suturas grossas, onde só existam cicatrizes, onde o desenho suporte ser a cicatriz de algo, estou me suturando, realmente agora me encontro em processo pesado de sutura. O lencinho no braço é um grande amuleto. Ter fé nisso, acreditar nisso, me ajoelhar para o Rubens prendê-lo em meu braço me faz acreditar que não estamos mais falando de plástica, estamos falando de uma batalha, uma batalha entre a Anna e a Maggie, é claro, eu a homenageio pois ela é toda a serenidade em mim, todo charme, todo gozo com a vida, ela não principia nem acaba, é o meu sobrevivente, é o sobrevivente que eu preciso resgatar e dar voz, pois ele já passou por muito mais que eu, sabe muito mais que eu, inclusive de mim mesma. Preciso dar voz a isso. A esse estado de comunhão comigo mesmo, esse acesso a mim, ao meu sobrevivente, a isso que ferve dentro de mim, que compreende por mim, que deseja por mim, que é o próprio desejo, é a própria coisa, é a vontade à minha revelia. Meu Deus, que estado maravilhoso esse de finalmente perceber a conexão com algo, comigo, com finamente perceber as mudanças, finalmente perceber algo se movimentado internamente. Que delícia é essa sensação de começar a ter um discurso, de entender o que é um discurso, começar a perceber o meu poder, que eu posso. Finalmente posso falar com um pouco mais de honestidade de mim, posso pensar em mim fora do lugar da vítima, fora do lugar da coitada da Anna que fica elucubrando sobre seus probleminhas, sobre suas questõezinhas, agora posso começar a falar, falar de outra coisa, aprender comigo mesma, aprender com o que eu faço, com o que eu posso mover, mover o outro e mover a mim. Como eu posso me comover sozinha é algo muito bonito. Me encontro agora em estado de comoção. Como se algo tivesse finalmente se aberto para mim. Que delícia me permitir dizer isso, escrever isso, acreditar e sentir isso. Como eu sou grata a RES. Como existe algo poderoso entre nós. Eu realmente tenho uma relação com ele, a minha relação com ele é possível. Nós realmente conversamos e conversamos tão bem, que algo acontece comigo quando estou com ele, como se eu fosse somente estado de comoção, tão forte que eu até esqueço, ou penso que esqueço, eu simplesmente sou isso tão fortemente que tenho pouco distanciamento para perceber. É algo quase místico o que eu me torno diante dele. Ele implica o meu sinthoma, é literalmente isso, quase como eu entrasse em uma hipnose, quase mesmo uma esquizofrenia à minha revelia, eu me transformasse em algo que eu conheço tão pouco e agora passo a conhecer melhor. Ele me retorna ao meu próprio abrigo, devolve-me minha morada, estimula a minha violência para que eu roube da vida a minha vida, e eu me seduzo tanto com isso que nem percebo. Agora começo a ver e não tem mais volta. O inferno maior é o de saber qual é a sua moeda de troca, e agora eu sei qual é. Esse texto vem exatamente do lugar da minha moeda de troca. A minha moeda de troca é eu dizer que eu sei que eu posso, é dizer que eu sou capaz de dizer mais forte que o meu choro, mesmo que seja insignificante para o outro. O bebê chora para chamar a atenção dos pais, já que não tem outro modo de dizer, de se dizer, de se fazer presente, de se manifestar. Hoje eu tenho 27 anos, e não quero chamar mais a atenção de ninguém a não ser a de mim mesma na manifestação de meu sobrevivente no mundo, para fora de mim. Deixo o choro para o que sobrar.

Texto Coligido 8

14 de agosto de 2016

Acabar com o discurso do choro, o discurso vaiado, comezinho, o discurso do espetáculo, de quem quer atenção; deixar o choro para quando eu realmente não tiver mais nenhum recurso de fala, aí sim ele vai poder valer, aí sim ele poderá dizer algo, dizer sobre uma insuficiência muito mais profunda. Não quero mais ter que dizer sobre mim através do meu choro, eu irei dizer mesmo que seja invisível para os olhares e ouvidos dos outros, eu só quero dizer que não quero mais aprovação e benção ou redenção de ninguém, eu quero mesmo é dizer, nem que para isso eu não seja vista, nem que para isso eu passe despercebida diante de tanto drama, eu não quero mais drama nenhum, eu quero poder me empoderar de meu próprio drama, de meu próprio discurso, eu quero o poder do drama em meu dizer, não quero mais ser um dizer dele, eu vou ser capaz de me parar, como fiz hoje, no desenho; percebo que eu me parei em um determinado momento, eu disse muito ferozmente para mim que eu ia conseguir, mesmo que eu fracassasse em chamar a atenção para toda a minha latência, eu vou dizer mesmo que seja um ínfimo de fala, mesmo que seja um minúsculo gesto, mas eu não vou glorificar o meu estado de latência, eu vou me fazer manifesta nem que seja absolutamente lentamente, mesmo que isso me leve anos, mas não farei mais uma apologia ao fato de não conseguir me colocar para fora. Eis aqui uma mudança radical de posicionamento. Chega de fazer apologia às nossas latências, às nossas carências, chega de apologia, está na hora da reivindicação pela fala, pela vontade de construir um discurso, pela vontade de estuprar, eu não quero mais ser estuprada – vou lutar ferozmente para não ser estuprada, para poder ser estuprada somente pelo inconsumável, só ele poderá me estuprar, mas antes disso, consumarei tudo o que for possível para que só sobre o que tem mesmo que sobrar, para que não sobre sujeira alguma, para que sobre para que sobre mesmo o que eu não dou conta, para que sobre a própria sobra de mim; a minha vitória vencida será quando só sobrar o que importa, e o que também não importa mais, nem exporta, onde a sobra será somente o incapturável, não vou mais chorar, agora é puro gozo, é tesão, é a angústia de não dar mais para ir. Chega de ter angústia por "ser mais do que algo". Não sou mais do que nada que eu não me dedicar com afinco. Esse desenho é exatamente o que eu sou hoje, realmente me entreguei a ele, realmente fiz questão dele ser uma folha inteira, que ele não se descolasse, eu não quero mais me descolar, não quero ser descolada, quero ser inteira, quero que o meu discurso já parta desse lugar, de uma filha inteira, sem emendas, não quero mais emendas em minha vida, quero suturas grossas, onde só existam cicatrizes, onde o desenho suporte ser a cicatriz de algo, estou me suturando, realmente agora me encontro em processo pesado de sutura. O lencinho no braço é um grande amuleto. Ter fé nisso, acreditar nisso, me ajoelhar para o Rubens prendê-lo em meu braço me faz acreditar que não estamos mais falando de plástica, estamos falando de uma batalha, uma batalha entre a Anna e a Maggie, é claro, eu a homenageio pois ela é toda a serenidade em mim, todo charme, todo gozo com a vida, ela não principia nem acaba, é o meu sobrevivente, é o sobrevivente que eu preciso resgatar e dar voz, pois ele já passou por muito mais que eu, sabe muito mais que eu, inclusive de mim mesma. Preciso dar voz a isso. A esse estado de comunhão comigo mesmo, esse acesso a mim, ao meu sobrevivente, a isso que ferve dentro de mim, que compreende por mim, que deseja por mim, que é o próprio desejo, é a própria coisa, é a vontade à minha revelia. Meu Deus, que estado maravilhoso esse de finalmente perceber a conexão com algo, comigo, com finamente perceber as mudanças, finalmente perceber algo se movimentado internamente. Que delícia é essa sensação de começar a ter um discurso, de entender o que é um discurso, começar a perceber o meu poder, que eu posso. Finalmente posso falar com um pouco mais de honestidade de mim, posso pensar em mim fora do lugar da vítima, fora do lugar da coitada da Anna que fica elucubrando sobre seus probleminhas, sobre suas questõezinhas, agora posso começar a falar, falar de outra coisa, aprender comigo mesma, aprender com o que eu faço, com o que eu posso mover, mover o outro e mover a mim. Como eu posso me comover sozinha é algo muito bonito. Me encontro agora em estado de comoção. Como se algo tivesse finalmente se aberto para mim. Que delícia me permitir dizer isso, escrever isso, acreditar e sentir isso. Como eu sou grata a RES. Como existe algo poderoso entre nós. Eu realmente tenho uma relação com ele, a minha relação com ele é possível. Nós realmente conversamos e conversamos tão bem, que algo acontece comigo quando estou com ele, como se eu fosse somente estado de comoção, tão forte que eu até esqueço, ou penso que esqueço, eu simplesmente sou isso tão fortemente que tenho pouco distanciamento para perceber. É algo quase místico o que eu me torno diante dele. Ele implica o meu sinthoma, é literalmente isso, quase como eu entrasse em uma hipnose, quase mesmo uma esquizofrenia à minha revelia, eu me transformasse em algo que eu conheço tão pouco e agora passo a conhecer melhor. Ele me retorna ao meu próprio abrigo, devolve-me minha morada, estimula a minha violência para que eu roube da vida a minha vida, e eu me seduzo tanto com isso que nem percebo. Agora começo a ver e não tem mais volta. O inferno maior é o de saber qual é a sua moeda de troca, e agora eu sei qual é. Esse texto vem exatamente do lugar da minha moeda de troca. A minha moeda de troca é eu dizer que eu sei que eu posso, é dizer que eu sou capaz de dizer mais forte que o meu choro, mesmo que seja insignificante para o outro. O bebê chora para chamar a atenção dos pais, já que não tem outro modo de dizer, de se dizer, de se fazer presente, de se manifestar. Hoje eu tenho 27 anos, e não quero chamar mais a atenção de ninguém a não ser a de mim mesma na manifestação de meu sobrevivente no mundo, para fora de mim. Deixo o choro para o que sobrar.

Texto Coligido 9

14 de junho de 2016

Pousa um novo momento em mim, pouso em um espaço de mim, pouso eu em mim, eu que estava comprimida por cargas antigas, agora descarrego-as de vez por todas em um porto para iniciar a embarcação que vim a navegar, um caminho inexplorado de uma embarcação que para sempre vai estar navegando pelo tempo; só agora posso navegar no oceano sem de mim, do tempo. Embarco-me hoje para o único porto possível de mim, Porto que não me pertence, que eu atravesso e instauro nele uma nova medida de tempo, o tempo que percorre-me por essa vida. Descarrego finalmente uma carga pesada que trazia, carga de todos os meus antepassados, carga de achar poder ser tantas coisas e hoje a única carga que consome o espaço de meu barquinho são todas as ferramentas em latência escondidas no vazio de não poder ser nada, não ter escolha dos caminhos pelos quais navegará o meu barco, e ser somente um braço dele, ser um braço de mim mesma, uma ferramenta para tornar a minha rota possível.

Hoje o meu barco navega com o peso grotesco de sua própria carga vazia - a carga que levo agora é um vazio que destroçou todas as ferramentas de unidades de medidas até agora utilizadas para o conter. Descarrego a mim de forma que eu possa carregar a única coisa que não é minha, me é - um assopro de vento que atravessa-me e que, vazia de cargas, percebo-o gelado, aquecendo as camadas de meu sangue, arrepiando cada pelo de meu corpo. A única carga que levo é a consubstanciação de meu barco e meu caminho. 

 
 
 
 
 
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